CAFÉ EXPRESSO

Outubro 26 2016

Permaneceram na sala pequena por ser mais acolhedora. Há muito que tinham terminado o café. E pouco tinham dito uma à outra, para além de algumas frases próprias das conversas vagas. Teresa levantara-se ainda agora para pôr a tocar Maria João Pires. Decidiu colocar os Preludes de Chopin. A tristura e a obstinação da música refletiam o seu próprio estado de espírito. Por isso a escolheu. Era como se estivesse decidida a subir os degraus da incomensurável escadaria de um templo preexcelente. Ficou de pé virada para Madalena.

Teresa: Apetece-me fumar um cigarro.

Virou-lhe as costas e deu dois passos em direção a uma antiga consola de sala.

Madalena: Há quanto tempo não fumas? Fumávamos quando éramos mais novas.

Teresa: Fumo sempre que me apetece. Mas nunca me apetece. Exceto em determinadas situações. Apetece-me agora.

Madalena: Durante aquele mês em que não nos vimos fumaste?

Teresa: Sim. Em momentos pontuais.

Madalena: Eu também. Mas em quase todos os momentos.

Teresa: Mas tu não fumas, Madalena.

Madalena: Não desde que fui para Coimbra. Mas fumei naqueles dias. Muito.

Teresa abriu uma pequena gaveta da consola e retirou lá de dentro um maço de SG Gigante e um isqueiro de metal.

Teresa: E agora, apetece-te um cigarro?

Madalena: Sim, por favor.

Madalena ficou de pé também.

Teresa colocou dois cigarros ao mesmo tempo nos lábios e acendeu-os de uma vez só. Deu um a Madalena.

Teresa: Este jantar foi uma baralha. Mas resultou. Pelo menos para as miúdas.

Madalena: Para nós também resultou. Levou-nos até ao ponto certo, ao spot, da nossa discórdia.

Teresa: E onde é esse ponto?

Madalena: Fica onde não conseguimos sair desde sempre. Há uma altura em que tu me deixas e nada explicas e eu fico extinguida. Aconteceu há vinte anos. E sucedeu agora. Claro que agora não foi tão grave. Tenho outra maturidade e um poder de encaixe diferente. Também não demoraste vinte anos a voltar.

Teresa: Então porque não te esfoças para me entender? A minha vida tinha desabado. Tu sabes. Desta vez eu não te quis deixar. Não tinha essa intenção.

Madalena: Não tinhas quando saíste lá de casa depois de uma noite inteira a fazer amor comigo. Até te despediste de mim feliz. Mas depois, no meio da crise, largaste-me. Nem sequer me atendeste mais o telefone. Nem reparaste, sequer, quando eu deixei de ligar.

Teresa: Mas eu voltei, não voltei?

Madalena: Mas podes desaparecer de novo, não podes?

Teresa: Creio que não. Porque haveria de desaparecer?

Madalena: Não sei. Acontecem coisas graves na vida de uma pessoa. Sempre que te acontecer alguma coisa grave, tu vais desaparecer. E voltar. Pois se voltaste ao fim de vinte anos. Diz-me lá porque voltaste tu agora, se me tinhas deixado para trás?

Teresa: Madalena, nós passámos esta manhã e a tarde a fazer amor. Não sentiste porque voltei?

Madalena: Tesão?

Teresa: Também, muito, querida. Mas não só. Tu sabes.

Madalena: Mas que tipo de amor é aquele em que as pessoas não partilham os maus momentos?

Teresa: Há coisas que temos que resolver por nós.

Madalena: Há coisas que não se enquadram quando se fala de amor.

Teresa: A Joana perdoou à Clara.

Madalena: Mas a Clara deu uma boa explicação. E toda a gente percebeu. Agora, tu só sabes dizer que a tua vida desabou. É pouco para deixar de parte a mulher que se ama. Devias querer-me a teu lado nesses momentos. E não desistir de mim. É isto que eu não engulo.

Teresa: Talvez eu tenha estado demasiado tempo sozinha.

Madalena: Isso não é desculpa.

Teresa: Foi a Clara que me encorajou a telefonar-te.

Madalena: Olha, Teresa, tu não piores as coisas. Quer dizer que, se não fosse a miúda, nem sequer voltavas?

Teresa: Não. Quer dizer que, naquele momento, não estava de todo ciente do que se estava a passar.

Madalena: E em algum momento pensaste no que eu poderia estar a sentir?

Teresa: Pensei que sofrias muito e que não me voltarias a aceitar. Quando pude conceber isto, a minha vida, que entrara em derrocada por causa da minha filha, afundou completamente por tua causa. Fiquei débil. Muito débil. Tanto, que não aguentei mais e meti férias.

Madalena: Tu. Tu. E mais tu. O que pensaste. O que sentiste. Sempre acima do que eu pensei. Do que eu senti. Parece que não tens senso do que é justo e devido. Tu é que foste a causadora da crise tremenda que se abateu sobre ti e a tua filha. Era muito justo que pagasses por isso. Não eu. Eu devia estar ao teu lado a lamber-te as feridas.

Madalena suspirou de impaciência. Abriu os braços num movimento amplo dirigido a Teresa.

Madalena: Teresa, eu não percebo como foste capaz de me deixar outra vez. E enquanto tu não me explicares bem esse processo, não vamos sair do spot.

Teresa: Querida, eu tenho uma boa explicação, acredita. Apenas não estou a conseguir articulá-la. Ainda estou um bocadinho baralhada. Também, tu, com esses braços abertos assim para mim, não estás a permitir que eu me concentre muito.

Madalena: O que têm os braços abertos?

Teresa: Parece que me estás a chamar.

Acendeu outro cigarro.

Madalena: Deves estar a brincar comigo.

publicado por Cat2007 às 22:15
 O que é? |  O que é? | favorito
Tags:

Ela não sabe articular as explicações. Elas não tem a experiência de crescerem juntas. Merecem 1 hipótese?
Catarina a 26 de Outubro de 2016 às 23:38

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
pesquisar
 
stats
What I Am
comentários recentes
Mas a questão é que, antes de se preocuparem com o...
yah, a quantidade de construções emocionais que nã...
Sabia que fazia anos, tinham me dito, mas no meio ...
há "sinais" que não devemos negar :D
Se o tédio estiver instalado numa relação, então é...
o tédio pode estar na própria relação... ou não?
Posts mais comentados
140 comentários
122 comentários
122 comentários
106 comentários
82 comentários
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


Outubro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9

22




blogs SAPO