CAFÉ EXPRESSO

Outubro 28 2016

Em função da má reação de Madalena, Teresa infletiu nas suas intenções. Calou-se por isso. Ficou a olhar para ela, observando-a através do fumo do cigarro.

Madalena: Ainda bem que desististe de ir por esse caminho.

Teresa: Não me digas que não estás a sentir porque é mentira. Basta olhar para ti. Para o modo como te mexes. Para as tuas mãos trépidas. Para a tua boca trémula. Para os teus olhos cintilantes. Estou certa de que, por ti, resolvíamos tudo num instante e íamos lá para dentro.

Madalena: Não sejas vulgar, Teresa.

Teresa: Ora, Madalena, tu gostarias muito que eu disse aqui umas palavras mágicas que te soltassem dessas rageiras a que te amarraste.

Madalena: Eu não me prendi a calabre nenhum. Estou apenas situada no nosso ponto de discórdia. Por outro lado, a que propósito eu iria pensar em sexo neste momento?

Teresa: A propósito de me desejares como eu te desejo.

Madalena: Sim desejo-te. Mas não estou no mood, como é óbvio.

Teresa: Exato não estás no mood porque não queres sair do spot enquanto eu não te explicar porque te deixei outra vez.

Madalena: É isso.

Teresa: Então eu explico-te. Eu não te deixei. Desta vez, jamais me passou pela cabeça deixar-te.

Madalena: Não deixaste? Então o que significou aquele mês de ausência e o consequente facto de teres admitido a possibilidade de me perderes? Tu nem sequer me telefonarias se não fosse a tua filha a incitar-te.

Teresa: Se a minha filha não me tivesse convencido, eu própria tomaria a iniciativa não muito depois. Por outro lado, admiti a possibilidade de me deixares tu, e não o contrário. Agora, também é certo que, quando te liguei, tu convenceste-me que o nosso amor estava ultrapassado. E que, portanto, iriamos passar a ser amigas, quase como duas irmãs. Assim sendo, se houve aqui alguém que deixou alguém foste tu a mim e nunca eu a ti.

Madalena: Tu realmente adoras convencer as pessoas com palavras. Só palavras. Nada de atitudes. Na verdade, Há uma enorme diferença entre o que tu dizes e o que tu fazes.

Teresa: Estás com falta de argumentos agora, querida?

Madalena: Teresa, tu não te ponhas a espicaçar-me com esse teu cinismo habitual. É claro que eu não te deixei. Eu só reagi a um ato de abandono. Tu abandonaste-me e eu deixei-te em seguida.

Teresa: Ah! Então sempre me deixaste.

Madalena: Teresa não me faças perder a paciência!

Teresa: Desculpa, Madalena. Sinceramente, não tenho vontade nenhuma de te ver exaltada.

Madalena: Também não me quero irritar. Mas não tenho nada contra discutir. Assim possamos resolver alguma coisa. Agora, se te pões com ironias e insolências é muito provável que eu me vá enfurecer.

Teresa: Olha, tive uma ideia, queres um copo de vinho tinto?

Madalena: Quero, por favor. É bom para os nervos. Tu dás-me cabo dos nervos.

Teresa: Isso mesmo.

Sorriu-lhe com os olhos.

Teresa: Depois de me deixares, vieste ter comigo aqui à Alameda. Para mim, foi como se nunca me tivesses largado. O importante foi rever-te, ter-te de volta… Só ainda não percebi porque vieste a esta casa. Eu podia jurar que nunca mais voltarias aqui. Não depois do que se passou há vinte anos atrás. A causa das coisas foi aqui que se deu. Porque vieste à Alameda?

Madalena: Porque tinha de me pôr à prova. Confirmar se realmente o trauma do teu abandono de há vinte anos estava superado. Essa ferida estava gravada em imagem. E essa imagem era esta casa. Eu disse-te que te perdoei. Necessitava de vir aqui confirmar isso.

Teresa: Mas o que esperavas sentir aqui?

Madalena: Esperava sentir o que senti. Aninho por tu cá viveres. Mas tive medo de, em vez disso, experimentar alguma fina angústia. Seria sinal de que o meu perdão não era pleno e que subsistiam ressentimentos em mim, o que nos retiraria qualquer chance.

Teresa: Se tu não viesses procurar-me eu acabaria por ir atrás de ti. Mesmo arriscando a suprema humilhação de ser rejeitada.

Madalena: No fundo, eu sei que virias. Sentimos as mesmas coisas.

Sorriu-lhe com ternura.

Madalena: Agora já só me falta saber o que se passou para ficares um mês sem falar comigo. E isso tens que me explicar porque eu não vou correr o risco de tu me abandonares assim outra vez. Foi uma tortura o que passei durante esse mês.

Teresa: Está bem. Eu explico. Mas promete que vais ser atenta e paciente. E também que vais ter boa vontade.

Madalena: Prometo.

publicado por Cat2007 às 21:58
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