CAFÉ EXPRESSO

Outubro 29 2016

Teresa preparava-se para explicar a Madalena algo que ela própria ainda não tinha dilucidado. Era tão experimentada em submergir sentimentos que, agora que era necessário falar deles, sentia dificuldades em ordenar as ideias.

Teresa: Nem sei por onde começar.

Madalena: Pois. Não te é fácil falar de emoções.

Teresa: Não é. Mas, por outro lado, tenho muita facilidade em perturbar, como sabes querida.

Sentia-se ligeiramente irritada com ela. Porque lhe seria tão difícil perceber o que se passou naquele mês? Tinha impressão que Madalena já só estava a teimar.

Teresa: Pois bem, vivi os últimos vinte anos com aquela miúda que é minha filha. Não vou agora estar a dizer a importância que ela tem na minha vida porque isso são coisas do senso comum. No entanto, quero relembrar que a nossa relação é próxima demais. E chegou ao ponto em que eu me revia nela e ela queria ser como eu. Por ser uma mulher sozinha, não achei isso mau. Eramos companheiras uma da outra. Foi assim que ela cresceu. Quando me declarou ser lésbica, eu descambei porque se tratava de um dado totalmente inesperado, desenquadrado, contraditório e negativo face à imagem que eu tinha dela.

Madalena: Face à pessoa que tu querias que ela fosse.

Teresa: Sim. Tem algum mal querer que os nossos filhos sejam melhores do que nós? Para mim ser melhor do que eu passava por muitas coisas e baseava-se também no facto de ela ser heterossexual. O que eu queria era que ela fosse forte, honesta, leal. Que tivesse bom caráter. Que tivesse tudo para ser feliz. Na altura em que ela me contou, eu, apesar de já estar contigo outra vez, ainda não acreditava em gays felizes. Depois, tudo aquilo me pareceu culpa minha por ser lésbica. Lembro que eu lhe ia contar de mim no exato dia em que ela resolveu contar primeiro. Mas ia contar como quem faz uma fuga para a frente. Não tinha certezas nenhumas do que queria. Apesar de bem saber que te amava.

Teresa ia bebendo vinho e fumando enquanto falava de pé no meio da saleta. Madalena estava agora sentada no cadeirão bege.

Teresa: Como sabes, quando finalmente expliquei à minha filha que era uma gay (infeliz), foi a vez dela de tombar. Porque para ela eu passei a ser uma pessoa muito diferente daquela que ela idealizara. Não por eu ser lésbica mas por ser mentirosa e homofóbica. Depois, com o choque, também foi pensar que era homossexual por causas hereditárias, o que alterou a sua imagem de si mesma e a noção que ela tinha do amor com a joana. Destemperou e foi acabar com a Joana. Tudo isto junto, levou-a à depressão.

Madalena: Obrigada por me enquadrares. Porém, eu já sabia disso tudo. E continuo a não ver motivo para me deixares de falar durante um mês.

Teresa: Tu prometeste boa vontade e paciência. Espero que cumpras.

Madalena: Desculpa.

Teresa: Quando cheguei um dia a casa para falar com ela, estava no quarto. Sempre que eu estava em casa, ela ia para o quarto num sinal manifesto de que não desejava falar comigo. O meu coração ia-se despedaçando a cada dia.

Madalena: E porque não foste ter com ela ao quarto?

Teresa: Porque não é assim que funciona entre nós. Se ela desejasse conversar, viria até aos espaços comuns. Fechada no quarto, ela passava-me uma mensagem muito clara que pedia para não ser incomodada porque estava perdida e que eu seria a última pessoa capaz de a ajudar a encontrar-se, uma vez que perdera a confiança total em mim. Encontrava-me então impossibilitada perante o facto de a minha filha estar a desmoralizar estruturalmente e a sofrer em consequência. E era tudo culpa minha. Não te quis atender o telefone porque não te queria ouvir. A tua voz, o prazer, o amor, as lembranças boas. Não podia. Por uma questão de solidariedade para com ela. Não queria que viesses aqui ou a outro lado qualquer consolar-me. Eu não merecia tal refrigério. Eu tinha atirado a miúda para o tormento com as minhas atitudes egoístas e irrefletidas. Só me restava esperar e rezar para que ela recobrasse por si. Ou, se não recuperasse, para a levar a qualquer lado onde pudesse ser ajudada. Eu era a pária. Não podia fazer nada porque, sublinho, ela não queria e por isso não deixava. Portanto, Madalena, eu estive um mês sem te dizer nada porque foi esse o tempo que a Clara demorou a perdoar-me e, consequentemente, a recuperar-se. Se fossem seis meses, seis meses seriam. Ela é a minha filha. E se o que tu sentes por mim é amor, e não só tesão, esperarias por mim o tempo que fosse necessário. Se é amor, então devias ter-me dado o benefício da dúvida e não pensar logo que eu te tinha abandonado. Tu és uma excelente pessoa, Madalena, mas ficas triste quando te centras só no teu umbigo.

publicado por Cat2007 às 21:45
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