CAFÉ EXPRESSO

Setembro 18 2016

No fim dessa tarde Teresa ligou a Madalena.

Teresa: Posso passar ai hoje à noite?

Madalena: Podes. Convido-te para jantar.

Teresa: Obrigada. Preciso de falar contigo sobre um assunto importante.

Madalena: Queres adiantar alguma coisa?

Teresa: Não.

Madalena: Está bem. Até logo.

Pelo tempo que passou até à hora de jantar Teresa não conseguiu concentrar-se em nada. Clara gostava dos seus olhos azuis. Desde sempre. Não era isso que a incomodava mas o que a filha queria dizer com a referência aos olhos de Joana. Disse que eram parecidos com os seus. Quase iguais. O que se passava entre elas? A que propósito Clara era amiga de Joana. E Madalena saberia?

Madalena: Entra.

Teresa: Estou uma pilha.

Madalena: O que se passa?

Teresa: Afinal quem é essa miúda, a Joana?

Madalena: Como assim?

Teresa: Vá lá!

Madalena: É a miúda que tu viste entrar no prédio no outro dia. Já te falei dela.

Teresa: Ela anda com a minha filha.

Madalena: Anda com a tua filha?

Teresa: Sim. Sei lá. São amigas. Colegas de turma, acho eu.

Madalena: Tens ai alguma fotografia da tua filha? Mostra.

Teresa mostrou.

Madalena: É bonita. Mas não. Não conheço.

Teresa: Como não conheces? Elas são da mesma turma. Tenho a certeza. Ora, tu és professora da tal Joana.

Madalena: Sim. Mas só lhe dou uma cadeira de opção. De resto, já nem ando com ela. Esteva cá hoje. Veio almoçar comigo. Expliquei-lhe pela milésima vez que não estou disponível. Disse-lhe que fui para a cama contigo. E que não queria ir mais para a cama com ela. Em resumo foi isto.

Teresa: Foi por minha causa?

Madalena: A nossa estória é complicada. Nada tem a ver com ela. Disse-lhe de ti porque isso me ajudou a soltar-me dela. Mas já estava decidida a acabar. Mesmo antes de tu me apareceres aqui. A miúda ficou um bocadinho em baixo. Mas não creio que estivesse apaixonada por mim. Apaixonada a sério, entendes? Tinha uma atração física e um encantamento por eu ser mais velha, professora dela, essas baboseiras. Claro que a rejeição lhe vai fazer mal. Mas a quem não faz? De qualquer modo, ela tem uma cabeça muito saudável. Por isso vai ultrapassar a tristeza rapidamente. Aliás, a nossa estória não teve história. Durou para aí um mês.

Teresa: Muito bem. Mas para o que importa é que essa miúda é lésbica. E agora anda de um lado para o outro com a minha filha.

Madalena: E achas que se pega?

Teresa: Madalena, por favor, esforça-te para não me irritares. E se ela se atira à Clara?

Madalena: talvez ela se atire à Clara ou talvez não. Sabes que as lésbicas também têm amigas. Além do mais, a Joana está triste por minha causa. Não creio que se vá atirar a ninguém para já. Acresce que é uma miúda bem formada. Não estou a vê-la a criar um esquema para seduzir uma heterossexual inexperiente. A tua filha é uma inexperiente, não é? É tua filha.

Teresa: Nem nunca lhe conheci um namorado. As estórias dela nem chegavam a começar. Ela contava-me. Dizia que as coisas perdiam o encanto. O que ela gostava era de estudar e de fazer desporto. Depois dizia que me tinha a mim e que o primeiro amor não podia ser uma coisa banal. Por isso não teve sexo até hoje.

Madalena: Logo vi. Fizeste um ser à imagem daquilo que pensaste que a tua mãe queria que tu fosses.

Teresa: A minha mãe amou-me como eu de facto era. Mas só percebi isso tarde demais. Mas deixando a minha mãe de parte, o que me interessa agora é proteger a minha filha. Ela não passa de uma ingénua. E com a falta de experiência que tem, até se pode deixar encantar.

Madalena: Já te disse que a Joana jamais se aproveitaria de uma situação dessas. Mas imaginemos que acontecia alguma coisa, qual seria o problema?

Teresa: Qual seria o problema? Eu não criei a minha filha para isso. Passei vinte anos da minha vida a esforçar-me para ser um exemplo para ela. Por ela não voltei atrás… por ela… Ora bolas! O que se passou entre nós é gravíssimo.

Madalena riu-se.

Madalena: Entre ti e mim, é gravíssimo? Explica lá isso melhor.

Teresa: É o que te disse. A minha vida não podia ser diferente por causa dela. E…

Madalena: A tua vida não podia ser diferente por causa de ti. Já te disse. O horror que tens à tua homossexualidade é que te impediu de viver. Por outro lado, agora temes que a tua filha possa ter a mesma orientação que tu. Seria uma grande ironia. É que, caso tenha, tu não a vais deixar viver igualmente. A homofobia torna-te burra.

Teresa: Mas tu não entendes… Eu só quero que a minha filha seja feliz.

Madalena: Claro. Anda, o jantar já está pronto. 

Teresa: Essa Joana nunca te falou na Clara?

Madalena: As aulas só começaram há um mês. Falar não falou. Mencionou que tinha conhecido uma rapariga da idade dela mais ao menos ao mesmo tempo que me conheceu. E que achava que aquilo era capaz de vir a dar numa boa amizade. Não me lembro que tenha feito mais algum comentário.

Teresa: Com certeza. Andava doida contigo. Mas agora está livre…

Madalena: Não me obrigues a repetir-me. Não acredito que a Joana esteja disponível. E também não a estou a imaginar a meter-se com uma amiga. Isso é ridículo. Bebe vinho.

Teresa: Não, obrigada. Hoje é só água. Quero estar em casa sóbria. Talvez converse um bocadinho com a Clara sobre a Joana. Depende da disposição com que ela chegar a casa.

Madalena: Muito bem. Por acaso pensei que ias ficar comigo até tarde.

Teresa: Por acaso eu não estava a pensar nisso hoje. Foi um dia mau.

publicado por Cat2007 às 19:29
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