CAFÉ EXPRESSO

Outubro 02 2016

Teresa fez ecoar um riso que deitou pela garganta fora como se fosse um grito.

Teresa: A tua relação com a Joana? Eu estou completamente incrédula!

Clara: Com o quê, mãe? Para que está a criar esta situação, mãe? A mãe já sabia.

Teresa já não ria. Mas raciocinava mal.

Teresa: Olha Clara, há uma enorme confusão aqui. Muito maior do que imaginas. Seja como for, garanto-te que temia mas não sabia de nada.

Clara sentiu a cabeça a rodopiar.

Teresa: Não te imaginava atreita a semelhantes caprichos.

Teresa sentia-se ultrapassada pela própria vida. Sentia a alma inerte e o espírito cego.

Clara: Caprichos?

“Sexo. Meu Deus! A mãe está a pensar em sexo. Em mim e na Joana a fazer amor.”. Foi tomada imediatamente por recordações do seu próprio corpo nu sobre a cama cheia de odores no quarto de Joana onde, por todos os cantos, tinham sido decalcados ainda há poucas horas os mais prodigiosos prazeres. Prazeres que se viam agora tatuados sobre a sua pele. Escondeu as mãos. Invadia-a um nervosismo profundo. A partir do ventre, começou a formar-se uma emoção crescente que subiu até à garganta na direção da sua boca. Deixou-se cair no sofá, quedando-se horrorizada com o que lhe estava a acontecer. Sentiu urgência em controlar-se, Mas as gargalhadas começaram a sair-lhe pelos olhos em forma de lágrimas. Tinha o rosto desfigurado pelo esforço. Ria e chorava ao mesmo tempo. “Não pode estar a acontecer-me isto”. Tinha cada vez mais vontade de rir. Pregou os olhos no chão e ficou ali. Naquele sofrimento absurdo.

Por seu lado, Teresa segurava no seu rosto empedernido um olhar aparentemente muito sério.

Porém, para Clara, a imobilidade da mãe era um estímulo acrescido para o riso. Que não afrouxava. Ria porque a mãe tinha deixado de ser mãe de uma criança. Clara era agora uma mulher cujo coração estava cheio de espantosas novidades e o corpo vivia no seio de um amor arrebatado onde todo o prazer é possível e concretizado. A sua imagem da filha de Teresa estava desfeita. Porque a mãe tinha os dados e já podia imaginar tudo.

Clara: Desculpe estar a rir-me, mãe. Desculpe.

Entretanto, Teresa ia recuperando. Apesar da tragédia que transportava, o destino apagara Madalena momentaneamente da sua vida. Assim, Teresa sentia que não tinha nada a revelar à filha. Sem confissões a fazer, Teresa mudara-se para um cenário de silêncio totalmente fechado. Deixou de ser possível ver-lhe o rosto. De fora ainda se ouviam os risos e os soluços da filha. Mas foi assim que Teresa pôde fazer com que Clara se sentisse muito só. Presa no fundo de uma gruta escura, vendo-se a rir de coisa nenhuma.

Teresa: Agora que estás mais calma gostava que me contasses o que realmente se passa.

Clara: Já lhe disse, mãe.

Teresa: Tu estás a dar-me factos. Coisas decididas. Não me perguntas o que eu penso?

Clara: Diga-me o que pensa, mãe.

publicado por Cat2007 às 11:01
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