CAFÉ EXPRESSO

Setembro 18 2016

Ao fim de uma semana de aulas, Joana já era amiga de Clara. Foi na mesma altura em que começou a andar com Madalena. E contou-lhe tudo. Clara apenas se impressionara com a diferença de idades. Por isso aconselhava Joana, tentando evitar-lhe dores que se adivinhavam.

Joana estava agora muito triste por causa de Madalena. Ainda não contara nada a Clara. Lembrou-se dela e os seus pensamentos viraram-se para a mãe. Que afinal era lésbica. E foi para a cama com Madalena. Que coincidência absurda.

No dia em que Teresa apareceu à porta da faculdade, lembrou-se imediatamente dela. A mulher mais bonita que já vira. Por isso ficou tão embaraçada ao descobrir que era mãe de Clara. Na altura, não compreendeu porque foi ela tão anormalmente antipática. Só porque lhe tinha sorrido à saída do prédio de Madalena? Não. Claro que não. Já naquela altura Teresa sabia que ela era namorada de Madalena. E Teresa já tinha ido para a cama com Madalena. Além de tudo, devia estar apreensiva por causa de Clara. Clara não sabia de nada. Joana tinha a certeza.

Clara costumava falar da mãe. Ainda há poucos dias lhe dissera que Teresa “é uma mulher de convicções e que está absolutamente certa da virtude delas. Fia-se com firmeza no que é justo e naquilo que é correto, agindo sempre nessa conformidade. Por isso fascina. Ela diz que, se tem força, esta surge-lhe da sua razão moral”. Joana ficou também a saber que a mãe de Clara “respeita ao milímetro as regras da sua moral. Sempre”. Clara adiantou ainda que tal moral era interpretada de acordo com a sua extraordinária capacidade lógica e consistia na obstinação de agir, em todos os casos, de acordo com os mais elementares princípios universais do bem e da justiça. Joana pensava agora que Clara sabia muito pouco da mãe.  

Ontem, quando as viu perto um da outra, a sua impressão imediata foi que Clara era igual à mãe. Nos gestos. No modo e na forma de falar. E nas expressões faciais também. Foi, de resto, isto que a induziu a pensar na possível identidade de caráter. Tudo graças ao poder dos genes. Porém, viu logo em seguida que os rostos de cada uma não tinham muitos traços comuns. Apenas um ou outro. Afinal, nem a voz era verdadeiramente parecida. A de Clara não chegava a ser tão forte e rouca como a da mãe.

De facto, Teresa era mesmo bastante diferente da filha, refletiu Joana. Notara que toda a sua atitude se sustentava num porte natural e tranquilamente altivo. Tinha ainda a particularidade de olhar sempre em frente. Com uma espécie de firmeza não ostensiva pegava nas pessoas pelos olhos. Como lhe fizera. No entanto, estranhamente, parecia que não ia ao fundo. Joana arriscou pensar que ela não estava interessada em ver os segredos dos espíritos. Os caminhos que cada um traça na sua vida. E as suas razões. Talvez não visse necessidade nisso porque apostava em preservar cuidadosamente a sua esfera privada. Era por isso que não tinha vontade de se meter nas particularidades da vida dos outros. Nem interesse.  Era natural que considerasse mais relevantes os fios nítidos do pensamento. Talvez confiasse neles independentemente da sua natureza boa ou má porque Teresa deveria estar à vontade nestes domínios. Joana apostava que ela chamava as pessoas para esse campo, recusando-se a entrar noutros. Definitivamente não gostava dela.

Encontraram-se no dia seguinte de manhã nas aulas. No primeiro intervalo conversaram um bocadinho. Joana contou a Clara o que tinha sucedido com Madalena.

Joana: Fui lá a casa ao almoço.

Clara: Eu sabia que afinal sempre tinhas mais e melhor a fazer do que vir almoçar comigo e com a minha mãe. Mas tu não tinhas dito que não ias ter com ela porque tinhas que começar a afastar-te?

Joana: Disse, mas não resisti. Sinto uma atração terrível por ela. A questão é que ela me despachou.

Clara: Ela está sempre a despachar-te.

Joana: Não. Desta vez foi de vez. Ela foi para a cama com um amor antigo. Disse-me que era alguém da idade dela. Que sentia equilíbrio. Comigo era essencialmente uma afirmação de juventude. Quero dizer, eu alimentava-lhe o desejo de juventude. Também disse que eu sou bonita. E que isso ajudava. Mas que não me amava. Nem sequer estava apaixonada por mim.

Clara: Mas isso não é novidade. O que é novo é o aparecimento dessa outra. Foi por causa da outra que ela te deixou. E ainda bem. Só faltava que ainda andasse com as duas ao mesmo tempo.

Joana: Ela disse-me que não andava com ela. E também que não sabia se a amava. É um caso mal resolvido, enfim.

Clara: E agora?

Joana: Agora estou triste e com a autoestima completamente em baixo.  E sobretudo tenho saudades do corpo dela. Da pele. Do cheiro.

Clara: Mas também tens dignidade. Por isso vais levantar a cabeça e seguir em frente. Eu estou aqui ao teu lado. E, pelo amor de Deus, isso durou um mês. Nem tu própria estavas verdadeiramente apaixonada por ela. Caso contrário, não te tinhas divertido tanto. Afinal ela estava sempre a rejeitar-te.

Joana: Sim. Mas eu pensei que era ela a fazer género. Porque me imaginava irresistível por ser jovem e bonita. E a verdade é que ela acabava sempre na cama comigo, como eu queria.

Clara: Pronto. Mas agora acabou-se o brinquedo. Trata de ter juízo. Já não há corpo, pele e cheiro. Agora vais ficar uns tempinhos de ressaca e depois tudo se vai normalizar.

Joana: Tens razão. Mas eu queria só mais um bocadinho.

Clara: Não querias nada. Além do mais ela é tua professora. Isso tinha que terminar o quanto antes. Já te tinha dito.

Joana: Pois tinhas. Mas isso também me atraia.

No fim das aulas almoçariam juntas, uma vez que era necessário preencher o vazio que Madalena deixara para aquela hora específica do dia.

Enquanto falaram de Madalena, Teresa esteve sempre na cabeça de Joana. Queria contar tudo a Clara. Sentia-se desonesta com ela. Mas obviamente não podia. No entanto, o pior, no que toca à sua capacidade para ser desonesta e egoísta, foi o jogo que se dispôs a jogar.

Joana: E como está a tua mãe?

Clara: Está ótima. Aliás, ela falou um bocado de ti ao almoço. Disse que eras giríssima, simpática e que parecias madura demais para a tua idade.

Joana: A sério?

Clara: A sério. Acho que ela, à sua maneira, simpatizou contigo.

Joana: À sua maneira? O que é isso?

Clara: A minha mãe não se dá com muita facilidade às pessoas.

Joana: Pois. Eu notei. Desculpa dizer-te mas ela pareceu-me bastante fria.

Clara: Não ligues. É o temperamento. Mas, já te disse, minha mãe é uma excelente pessoa.

Joana: Sim. Já sei. E também é uma espécie de escrava da verdade, não é?

Clara não notou o toque de ironia.

Clara: Sim. A verdade primeiro do que tudo.

Clara fez uma pausa. Ficou pensativa. Depois falou.

Clara: Sabes, eu acredito que tudo o que a minha mãe tem de extraordinário lhe sai pelos olhos. São uns maravilhosos olhos azuis, não achas?

Nesse instante passou-se qualquer coisa com Joana. O jogo terminou abruptamente porque Clara assim fez. Joana lembrou-se que também tinha olhos azuis. Ficou embaraçada. Não respondeu. Clara fizera aquela observação. Parecia que o azul a maravilhava. Não era dos seus olhos que falava. Mas parara um instante o seu olhar escuro sobre eles, cobrindo-os pelo tempo suficiente. Joana rogou-lhe mentalmente que continuasse a falar. Que saísse do assunto sobre o azul. Não obstante, num gesto voluntário de falta de solidariedade não consciente Clara continuou no mesmo tom.

Clara: É por isso que tentarei sempre alcançar aquele azul. Um dia talvez consiga. Se acontecer, será como que ficar com os olhos azuis da mãe para mim para sempre.

Joana: Não compreendo…

Clara: É evidente que isto é uma fantasia. Um sonho. Olha, talvez o único verdadeiro que alimento. Mas a verdade é que, sendo um sonho, é por definição irrealizável.

A confusão de Joana transparecia. Clara tentou esclarecê-la. Joana deixou de querer interrompê-la.

Clara: Para dizer a verdade, acho que não chegarei a ser como ela. Nem me parece que seja esse o meu desejo. Apenas quero aproximar-me o mais possível de certas qualidades que possui. Como o seu sentido de honestidade, de justiça e de coragem, quedando-me assim perto do sonho.

Joana respirou. Finalmente compreendera Clara. Ela só queria ser como a mãe, igualando-lhe aquilo que ela imaginava serem as suas melhores qualidades. Teve pena dela.

publicado por Cat2007 às 23:23
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