CAFÉ EXPRESSO

Setembro 20 2016

Na manhã seguinte Clara acordou mais cedo do que o costume. Um pouco antes do sol. A febre desaparecera completamente. Mas não a angustia. Mal os olhos se abriram, a mente soltara-se de imediato. Agora andava enredada em determinados pensamentos. Para lhes acompanhar o ritmo, Clara foi impelida a vaguear pelo quarto. A certa altura, doeram-lhe as pernas e a cabeça. Sentou-se na cama, encostou as costas à cabeceira e estendeu os membros. Deixou-se estar uns minutos quieta nesta posição. Porém, tudo dentro de si continuava a mexer demasiado. Cruzou os braços sobre o peito e esqueceu-se deles ali. No momento em que voltou a dar conta deles já lhe pesavam demasiado sobre a respiração. Decidiu aguentar. Ter que se concentrar na falta de ar era um alívio. “Joana”. Sim era melhor aguentar o mais possível a falta de ar. Porém, um certo estado de confusão mental tomou conta da situação. Tudo se agravou ainda mais pelo débito de oxigénio. Ficou a um pequeno passo de entrar em pânico novamente. Desta vez não o permitiria. Deu um salto da cama e pôs-se de pé. Iniciou um movimento circular pelo quarto. Tinha de baixar os níveis de ansiedade. Mas não estava a conseguir. O quarto parecia-lhe francamente mais pequeno. Não sabia por onde andar. O sangue sentia-se dormente no meio dos músculos. A cabeça vazia de tudo só tinha um pensamento parado que a fazia sentir precisamente o que sentia. Acabou por explodir em incontáveis tremores. Olhou em prece as mãos que se desfaziam. Engoliu o coração que lhe batia já na boca. Por fim, num assomo de fé e de força, dobrou-se sobre os joelhos e apertou o corpo todo nas pernas, tombando a cabeça para a frente. Apertou muito, muito até que foi possível fazer transbordar as lágrimas. E a partir daqui os caminhos interiores abriram-se generosamente para deixar correr livre aquele imenso rio de dor molhada para a luz. Clara chorou muito de si para si com solidariedade pessoal e profunda compreensão. E tudo passou, por fim. Os elementos secaram com e como os olhos. A leveza trouxe-lhe finalmente a paz.

Por estar em paz e reconciliada consigo própria levantou-se e caminhou até ao espelho. Olhou para a imagem refletida. Tinha finalmente coragem para tomar consciência de si. Despiu o pijama. Viu-se nua em frente ao espelho. Sentiu a pele envolver-se numa película invisível que a protegia na nudez, deixando-a aconchegada e tranquila. Olhou muito bem. “Eu sou uma mulher”. Era o que imediatamente via. O sexo. Os seios. O cabelo comprido. “Uma mulher”. Passou à análise mais pormenorizada. A imagem que lhe aparecia pela frente era nova em cada passo. Estava a ver-se pela primeira vez. Com os olhos percorria como quem acentua a longa linha desenhada sobre a pele. Aquela que se consubstancia na fronteira com as outras materialidades. Que isola um corpo dos demais. Porque molda e delimita a matéria, dando-lhe a forma. A única linha que não se dilui na sombra do corpo. A da sua própria silhueta na forma exata do próprio corpo. Reconheceu-a desenhada perfeitamente. E observou também as outras mais pequenas. Uma por uma. Em pormenor. Coexistiam numa relação de harmoniosa dependência entre si e em estreita submissão face à linha maior. Era toda muito bonita. Esta descoberta deixou-a tomada por uma energia de cor amarela que como um raio de sol que se infiltrou no interior da sua alma que lhe pareceu azul como o céu. “A minha alma é azul”. Abriu os lábios descobrindo os dentes grandes. Fechou os lábios, escondendo os dentes grandes. “Azul”. Retrocedeu face ao espelho até à cama. Deixou-se cair como se fosse empurrada. “A Joana é uma mulher. Eu sou uma mulher. A Joana gosta de mulheres”. Agora questionava-se sobre a razão pela qual sempre desejara atingir aquele especial tom de azul dos olhos da mãe. “A Joana também o tem”. Com raiva repeliu o desejo. Aquele azul era uma cor cuja luz devia ser exclusivamente feminina. Um amor impossível para si, então. “Qual amor? Eu não gosto de mulheres. Eu não gosto da Joana”. Chorou mais uma vez. Fácil e corridamente. Chorou por tudo o que não queria saber e que infelizmente acabara de descobrir. Chorou pelo que agora já podia ver e não queria. Compreendeu que não voltaria a ter febre. O seu próprio espírito obrigara-a a mergulhar em dor numa verdade demasiado dura. Mas pensou, por outro lado, que a verdade agora era sua. E isso dava-lhe poder de escolha. No caso, talvez a escolha entre a impossibilidade e o vazio. Escolheu sem delongas. Como se tudo estivesse já planeado. Conformar-se-ia com o vazio. Optava por viver o vazio ou, o que é o mesmo, não viver. Embora se maravilhasse com os olhos de Joana devia rejeitar-lhes a luz. Joana não era um sonho feito para lhe orientar o espírito como a mãe. Joana não personificava o sonho de perseguir um extraordinário tom de azul. Joana era a impossibilidade. Clara desejava tal impossibilidade e por isso decidiu liminarmente rejeitá-la. Era uma provação que se impunha. Desejar uma impossibilidade, que o era, ao invés de ser um sonho. Ser como a mãe era o seu único sonho. Possuir Joana era a grande impossibilidade da sua vida. Escolheu pois conscientemente o vazio, sabendo que não deixaria de desejar a impossibilidade. Mas não iria atrás dela porque a rejeitava com fervor. Sentia-se capaz disso. De viver o vazio. Nesta decisão gozou a sensação de se imaginar muito alta. Enorme. Muito maior do que era. Uma mulher crescida cheia de força e coragem. Levantou-se para se gozar e sorriu-se orgulhosamente. Quando a mãe foi ao quarto estava a postos.

Teresa: Então, não percebo. Estavas péssima ontem.

Clara: Passou, mãe.

publicado por Cat2007 às 22:02
 O que é? |  O que é? | favorito
Tags:

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
pesquisar
 
stats
What I Am
comentários recentes
Também não acredito nisso...se é que alguma vez ac...
Com muita calma e paciência tudo se começa! 
Mas a questão é que, antes de se preocuparem com o...
yah, a quantidade de construções emocionais que nã...
Sabia que fazia anos, tinham me dito, mas no meio ...
há "sinais" que não devemos negar :D
Posts mais comentados
140 comentários
122 comentários
122 comentários
106 comentários
82 comentários
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


Setembro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9





blogs SAPO