CAFÉ EXPRESSO

Setembro 20 2016

Teresa não acalmava. Tinha que saber o que se passava entre a filha e Joana. Foi para casa mais cedo para esperar por ela. Encontrou-a de pijama na sala a mudar os canais da televisão.

Teresa: Então filha, tiveste uma recaída?

Clara: Sim. Não me senti muito bem hoje de manhã.

Beijaram-se.

Teresa: Mas não estás quente.

Clara: Não. Já não estou. Foi de manhã. E a mãe porque está em casa tão cedo?

Teresa: Porque também não me senti muito bem. Comi qualquer coisa que me caiu mal.

Teresa pensou que aquilo era só o início de uma nova etapa. Começava a mentir à filha. Naquela casa não se trancavam as portas há muitos e muitos anos. Ali também não se mentia. As vidas corriam desassombradas. Desde que Clara nascera. Teresa escondeu o passado anterior a esse evento. E agora que o passado regressara tinha de o voltar a esconder, mentindo. Como uma vez mentiu à sua mãe.

Clara: Vai-se deitar um bocadinho?

Teresa: Não. Já me está a passar. Foi a Joana que te trouxe a casa hoje? Não acredito que vieste de metro doente.

Clara: Vim de metro, mãe.

Teresa insistiu.

Teresa: E porque não te trouxe a Joana?

Agora Clara ia começar a mentir. Mas não se incomodou. Não era como a mãe no que respeita às questões da verdade. Mentiras de circunstância não entravam no trato delas, ao contrário do que Teresa gostava de imaginar. Por isso disse:

Clara: A Joana tinha um compromisso.

Teresa: Tinha um compromisso? Mas que raio de amiga é essa?

Teresa pensou imediatamente que Joana talvez tivesse ido ver Madalena à hora de almoço, como era costume. Por isso se irritou ainda mais.

Clara: Uma amiga que eu só conheço há um mês. Não ia incomodá-la por causa de uma febre sem importância. Porque se irrita?

Teresa prosseguia a mentir. Agora Clara tinha apontado a Madalena sem querer.

Teresa: Por nada. Só me preocupa que tenhas boas amigas. Ela é uma boa amiga?

Clara: É como lhe digo mãe, só a conheço há um mês. Não houve tempo. Aliás, a partir de agora nem vamos fazer mais programas juntas. Ela tem uma vida diferente da minha. Gostos diferentes. Outras amizades.

Teresa compreendeu que Clara sabia que Joana era lésbica. Certamente sabia também de Madalena. Agarrou-se à ideia do afastamento delas com todas as forças.

Teresa: Bem, quando não existem muitas afinidades entre as pessoas, o melhor é fazer assim.

Clara nem por sombras achava que estava a mentir. Afinal Joana é que era lésbica. Ela não. E, de resto, não tinha nada que ir contar à mãe sobre a intimidade da vida dos outros. Aliás, a mãe nem gostava de saber da vida particular das pessoas.

No dia seguinte Joana esperou que Clara aparecesse no bar da faculdade. Clara não a evitou quando ela se aproximou.

Joana: Estás boa?

Clara: Estou bem. E tu? Senta-te.

Joana sentou-se. Depois dirigiu-se a ela com decisão.

Joana: Olha, eu bem não estou. Já sei que não tens nada para me dizer e que não sentes necessidade de me ouvir. Acontece que eu tenho que te falar sobre aquilo que aconteceu no cinema.

Clara: Já te disse que percebo perfeitamente o que aconteceu. É para esquecer.

Joana: Está bem. É para esquecer. De qualquer maneira eu não estou bem desde esse dia. Não és capaz de me deixar dizer duas coisas e esquecer depois?

Clara: Muito bem. Fala, então.

Joana não falou logo. Disfarçava as mãos, cruzando os braços sobre o peito. E nada dizia que cortasse aquele silêncio que principiava a ficar ensurdecedor. Clara adiantou-se.

Clara: Olha Joana, eu tenho que te dizer que pensei um bocado em ti.

O que disse, disse sem querer. Sem ver. Sem pensar. Não era o que queria mas o contrário. Tinha jogado as palavras. Apercebia-se agora de que o fizera com o ânimo de quem, a perder, atira de novo os dados numa mesa de casino. Sem querer pensar nas probabilidades. Levada apenas por uma emoção descontrolada. “O que faço agora?”. Restava-lhe apenas agarrar-se a uma esperança. “Pode ser que ela não queira. Ela não quer”. Cabia afinal a Joana decidir tudo. “Mas como?”. Não raciocinava corretamente. Não sabia. Só que a decisão não lhe cabia a si. Perdera o poder porque a tinha autorizado a falar. “Ela não quer”. Agarrava-se a isto. “Vem só pedir-me desculpa.”. Ou Joana podia dizer outra coisa qualquer. Talvez pudesse inventar uma palavra mágica que as libertasse daquilo. Logo que tal palavra fosse dita, acordariam momentos antes de tudo ter acontecido. Antes da sua mão ter apertado a dela. E tudo estaria resolvido. Lembrou-se com terror que os dados rolavam ainda. Haveriam de parar. Clara sujeitava-se à sorte. De Joana não querer ou dizer magia. Qualquer das possibilidades parecia boa. Joana podia parar os dados. Ela ou a sua magia inventada. Mas em todo o caso só ela podia. Clara sabia bem que havia ainda outra coisa que podia acontecer. Mas isso, bom isso era a resposta dos dados. E a que número de pintas cravadas no dado correspondia esta última possibilidade? Ao sete? Clara não podia responder. Sabia lá se era ao sete que a sorte da sua vida estava ligada? E se saísse sete? Que significado teria? Bom ou mau? Mau. Evidentemente. E o que era bom? E mau? Já não sabia. Por isso só Joana tinha o poder de parar os dados. Ou deixá-los rodar. Veio-lhe à ideia a lembrança de que no casino sete é bom. Ali era mau.

Joana: Sim?

Os “lindos olhos” de Joana abriram-se ansiosamente sobre o próprio rosto parado.

Joana: Eu senti saudades tuas. Fugiste…

Clara: Sim.

Clara não a olhava mas para os dados. Ainda não tinham parado de rodar.

Joana: Exato.

Clara: Desculpa.

Joana: Eu sei. Neste momento sei. Não peças desculpa.

Joana riu-se mas o seu corpo estava imóvel. Riu-se por razão nenhuma. Porque mais nada lhe ocorreu. Riu-se porque não sentia outro poder sobre os músculos.

Clara: Está bem. Não peço desculpa. Mas porque não o devo fazer?

Joana: Porque eu sei. Porque eu não te peço desculpa por não ter corrido atrás de ti.

Clara: E devias?

Joana: Ficar ali na rua a ver-te fugir tem o mesmo significado da tua fuga.

Clara: Tem? Como sabes?

Joana: Só sei que tem o mesmo significado e que são as mesmas razões.

Clara: Não podes saber. Como podes saber?

Joana: Eu sei mais de ti do que esperava.

Clara: E eu de ti?

Joana: Sem dúvida.

Clara: Sem dúvida.

Joana: Eu gosto muito de ti.

Clara: E eu gosto muito de ti. E tu como gostas de mim?

Joana: Como tu gostas de mim.

Clara esperou por alguma coisa em si. Os dados há muito que tinham parado. Não olhou. Sorriu nervosamente. Levantou-se e começou a andar em passos largos e rápidos. De cá para lá e de lá para cá. Sete? Saíra sete? E qual seria o seu significado? No casino costuma ser bom. Mas ali devia ser mau. Clara aproximou-se de Joana muito devagar. Primeiro Joana parou à espera. Quando se quis mexer já não podia. Ao ritmo de cada passo de Clara Joana paralisava por partes. Quando Clara chegou já não estava lá. Apenas o corpo que ficara parado e esquecido. Joana fechara os olhos e apagara ao espírito toda a luz e imagem. Deixou apenas o som. Clara rodou a cabeça para ver os dados. Sete? Sim. Saiu mesmo o sete. O que queria dizer? No casino costuma ser bom. Mas ali era mau. Este resultado desafiara a lei das probabilidades. Quando assim é no casino é bom. Mas na vida a não confirmação de tal lei significava quase sempre a verificação de qualquer coisa má. No caso delas em que uma impossibilidade fora transformada em algo alcançável pela mão, a vida de ambas foi pulverizada. Era mau. O corpo de Joana recebeu o de Clara já frio e imóvel. Clara pegou-lhe bem nas duas mãos e apertou-as no meio das suas. Fichas que acabara de ganhar ao jogo. Deslizou a sua pele sobre elas. A pele das suas próprias mãos geladas para, por um impulso imbecil as tentar aquecer. Às mãos de Joana.

Clara: Volta. Afinal eu quero.

Joana acordou também por vontade própria. Segurou-se às mãos dela.

Joana: Por favor, eu não quero estar aqui.

Clara: O quê?

Joana: Eu não penso em fugir. O que não quero é estar aqui no bar.

Clara: Eu penso. Como penso.

Joana: Tens razão. Eu penso em fugir.

Clara: De quê? Podes dizer-me de que fujo?

Joana: De alguém que acabou de nascer e tu não conheces.  Vamos para minha casa.

publicado por Cat2007 às 23:17
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