CAFÉ EXPRESSO

Setembro 24 2016

Clara: É verdade. Tu és uma mulher. E eu quero-te tanto.

Joana reanimou.

Clara: Um sentimento como este não surge pela razão e ultrapassa a vontade.

Os olhos de Clara estavam húmidos. Mantinha-se a olhar para o mar.

Clara: E agora que já matei um pouco da minha sede em ti, a boca seca-me. Preciso de mais. Já compreendi que nada há a decidir. Não há nada para pensar. Mas há opções, se quiseres. Ou vives o que sentes ou foges. Hoje eu já sei que, se foges, morres devagar. Se virares as costas, a Joana que tu és desaparecerá ao mesmo tempo que eu for desaparecendo da tua vida, afastando-me dos teus sentidos.

Joana estremeceu.

Joana: Desculpa. Que estupidez.

Clara: É claro que desculpo. O que posso fazer se tens medo? Sei que há muitas coisas que não percebes. E há tantas coisas que não percebo também… Claro que te desculpo. Também tive tanto medo.

Joana: Mas este medo que surge agora leva à falta de coragem. E a falta de coragem obriga à mentira como aquela que eu lancei: “Pode parecer muito e não ser nada”. Foi isto que te disse. Menti-te.

Clara já se virara na direção dela. Porém, mantinha-se de pé com os braços cruzados, fixando-a com gravidade.

Clara: O medo de sofrer é um dado. Mas é preciso dar atenção ao medo. Porque pode induzir-nos ao erro. Uma forma de errar é mentir. E mente-se por cobardia, na maior parte dos casos. Nós não podemos garantir que jamais voltaremos a errar. Ainda que o erro seja exatamente o mesmo. Se eu errar, espero que também me saibas ver e não duvides que te amo.

Joana baixou a cabeça. Não podia conceber que um dia podia ver Clara errar.

Clara: Leva-me para casa.

Joana: Já? Ainda estás magoada comigo. Não me perdoaste, afinal.

Clara falava-lhe com calma. Perdoei-te com certeza. Compreendo-te, como te disse. Acontece que estou estoirada. Não queres saber o que aconteceu hoje de manhã?

Encaminhavam-se para o carro devagar. Iam conversando.

Joana não respondeu.

Clara: Ontem à noite… ontem à noite fui uma fraca. A minha mãe está quase certa de que existe alguma coisa entre nós. E eu neguei tudo. Menti-lhe, como nunca lhe menti na vida. Chorei e tudo para a convencer.

Joana sabia quem era Teresa. Sabia que Teresa andava com Madalena. Teresa sabia por Madalena que Joana era lésbica. Que tinha havido um caso. O facto de Joana e Clara serem as melhores amigas, era aos olhos de Teresa um sinónimo de preocupação. “Já aconteceu, Dr.ª Teresa”. Joana não era defensora da ideia da verdade sobre todas as coisas. Não concordava com Clara nessa visão que lhe tinha sido imposta pela mãe com a educação. Há verdades que não devem ser ditas. Joana escondia muito conscientemente de Clara o que sabia. “A mãe dela é lésbica e anda com a Madalena”. Não lhe podia dizer isto. Porque não tinha competência para tal. Talvez mais tarde Clara não lhe perdoasse. “Talvez não perdoe logo. Mas depois há-de passar-lhe”.

Joana: Clara acorda, por favor. A tua mãe não sabe nada de nós. Tu é que estás com ideias de lhe contar. Porque mentir à mamã é uma grande traição. Como sabes tu que ela não te mente?

Clara: Ela não mente. A ninguém e sobretudo a mim. Sei tudo da vida dela. Sei que de vez em quando tem uns namorados e não vai dormir a casa. Ela nem precisa de me dizer quem são. Normalmente são estória fugazes. Não vale a pena. Nem costumamos falar disso. Olha, ainda agora, nesta altura, deve andar com alguém. Porque tem chegado muito tarde. Apesar de não ter passado ainda nenhuma noite fora. Mas casos com namorados não é o mesmo que o nosso caso. A partir de ti eu estou outra. Tenho que lhe dizer quem sou.

Joana que estivera de olhos baixos a ouvi-la falar, ergueu finalmente a cabeça.

Joana: Querida, ouve-me com atenção. Tu estás outra mas é porque estás a viver um amor. O amor muda as pessoas. Não é por ser uma relação lésbica. Tu não deixaste de ser quem eras por ser lésbica. Querida, tu és tão inteligente. Como é possível estares a fazer uma confusão dessas?

Clara: Não estou a fazer confusões. O amor é um dado novo. Se fosses com um homem eu também sentiria necessidade de lhe ir contar. Por ser amor.

Já estavam dentro do carro.

Joana: Confia em mim minha querida. Não lhe contes.

Clara: Eu confio em ti. Mas o que sabes tu do que pensa a minha mãe? Tens algum dado que eu desconheço?

Clara pensou um bocadinho.

Clara: Não, claro que não.

Joana: Tenho apenas um mau pressentimento.

publicado por Cat2007 às 12:39
 O que é? |  O que é? | favorito
Tags:

....difícil. a verdade a verdade yah
Catarina a 24 de Setembro de 2016 às 13:04

Dizer sempre a verdade implica lançar a batata quente para as mãos do outro. Só para nos libertarmos do peso dos segredos.
Cat2007 a 24 de Setembro de 2016 às 13:17

Sim. O que não quer dizer que a mentira funcione melhor. É difícil porque de facto são realidades que em segredo têm um prazo.
Catarina a 24 de Setembro de 2016 às 13:25

Há coisa que não devem ser ditas. Neste caso, Joana não tem nada que contar. A competência para isso pertence a Teresa.
Cat2007 a 24 de Setembro de 2016 às 13:27

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
pesquisar
 
stats
What I Am
comentários recentes
Viver é respirar, de acordo. E continuo a insistir...
É verdade, a coragem é uma das coisas mais importa...
Também não acredito nisso...se é que alguma vez ac...
Com muita calma e paciência tudo se começa! 
Mas a questão é que, antes de se preocuparem com o...
yah, a quantidade de construções emocionais que nã...
Posts mais comentados
140 comentários
122 comentários
122 comentários
106 comentários
82 comentários
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


Setembro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9





blogs SAPO