CAFÉ EXPRESSO

Setembro 25 2016

Joana acabara mesmo agora de a deixar. “Hoje não fico em casa. Mãe”.

Clara: Joana, onde estás?

Joana: No Técnico. Porquê?

Clara: Volta para trás. Vou descer.

Joana voltou o mais depressa que pôde.

Joana: Mas não querias ir para casa?

Clara: Queria porque tinha pressa de encontrar a minha mãe. Queria mentalizar-me para a enfrentar. Para representar mais um bocado, portanto.

Joana: Não te castigues. Dadas as circunstâncias, não podes agir de outra maneira. Não para já.

Clara: Mas ela não vem. Tem um namorado. O que te dizia, eu?

Joana virou-se para a janela como se aquele gesto fosse casual. Depois perguntou:

Joana: Onde queres ir?

Clara: Para tua casa, idiota.

Joana: Claro que sou idiota. Pensei que ainda estivesses magoada comigo.

Clara: Mas eu não te disse que não?

Joana: Disseste, sim.

Clara: Acelera.

Chegaram.

Joana: Querida, tens fome?

Clara reteve um instante o olhar sobre ela. Joana brilhava num sorriso aberto. Clara compreendeu.

Clara: Muita.

Joana pôs a tocar no quarto uma melodia funda. Já deitadas na cama, Clara deslizou para cima dela. A música evoluiu. Clara abordou o corpo dela com a mesma entrega e fervor de uma executante que se absorvia no seu instrumento de eleição. A fusão era perfeita. Entre ela e o instrumento possuído. Clara tocava como e tivesse estudado aquela peça extraordinária durante anos a fio. A música espalhava-se de melancolia. As lágrimas rolavam. E lá fora não chovia. Existem momentos assim. Como aqueles em que o cenário se apaga e ficam apenas pequenas luzes que têm somente a função de enfatizar dois elementos fundamentais. Um que toca e outro eu se deixa tocar.

E o céu cinzento acordou enfim numa trovoada sinistra, largando um mar sobre a terra. Foi aqui que a música se alterou. As notas passaram a ser tocadas com o vigor das grossas gotas de chuva que se atiravam suicidas contra o chão. A música arrasava o corpo a cada nota tocada. Joana parecia querer sucumbir sob dedos de aço. Porém, respondia superiormente a cada golpe, soltando as notas que se faziam ouvir. E assim deu a forma pretendida àquela composição inédita. Até que a música morreu sobre o corpo que se imobilizava de cansaço. A alma da música saiu dali como um sopro. No quarto quedaram-se apenas os corpos trémulos, sobrepostos e húmidos.

Há algum tempo colada e quieta na pele de Joana, Clara tinha os olhos muito abertos. Ia adquirindo a consciência mais profunda da devassidão a que oferecera e onde perdera o seu corpo. E da felicidade que isso lhe trouxera. Via como crescera sem pecado. Mudara irremediavelmente para mais. Para cima. Para um plano inimaginável. Os demónios que habitam todas as almas foram expulsos da sua. Olhou para Joana. “E da dela também”.

Clara: Sinto-me feliz.

Joana: Eu também.

Sufocaram a nudez dos corpos num abraço do tamanho delas.

publicado por Cat2007 às 17:29
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Digamos que me elevou para um estado Divino, ler isto.
E aos meus demónios também.
O que não é tarefa fácil, diga-se.
The Gambler a 25 de Setembro de 2016 às 22:18

Tomo as tuas palavras como um elogio. Obrigada.
Cat2007 a 26 de Setembro de 2016 às 09:47

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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Mas a questão é que, antes de se preocuparem com o...
yah, a quantidade de construções emocionais que nã...
Sabia que fazia anos, tinham me dito, mas no meio ...
há "sinais" que não devemos negar :D
Se o tédio estiver instalado numa relação, então é...
o tédio pode estar na própria relação... ou não?
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