CAFÉ EXPRESSO

Outubro 01 2016

Clara aproveitou a ausência da mãe naquela noite para ficar com Joana.

Clara: Amanhã tenho que sair cedo daqui. Quero chegar a casa entes dela. Já decidi. É amanhã que lhe vou contar de nós.

Joana: Tem mesmo que ser?

Clara: Tem, amor. Já falámos sobre isso.

Joana: Sim.

Joana sentiu medo. “E se eu lhe contasse que é a mãe dela que anda com a Madalena, não seria melhor? Tirava-lhe este peso todo de cima. E ela já poderia ir ter com a mãe mais tranquila”.

Clara: Onde estás?

Joana: O quê?

Clara: Parece que está ausente. O que se passa? Já não gostas de mim?

Joana: Que parvinha.

Clara: É só para te ouvir dizer que gostas.

Joana: Gosto, não. Amo-te. Amo-te tanto que estou muito preocupada contigo. Não sei o que vai suceder-te amanhã.

Clara: O que vai suceder? A minha mãe vai entrar em choque. Eu sei que ela é homofóbica. Fui reparando nisso ao longo da vida. Mas depois há-de passar-lhe. O que eu não posso é deixar de lhe contar a verdade, já te disse.

Joana: Olha que não sei, amor.

Clara: Querida, chamaste-me aqui para falar muito?

Joana: Não, anjo.

Clara: Então, vem.

Clara acabara de acordar do sonho daquele corpo nu. Que se estendia ali mesmo atrás de si. Não precisava de olhar para o ver. Tinha-o totalmente colado à pele. Entre as pernas tinha pedaços enrolados de lençol branco. Exibia as costas nuas. Estava sentada assim naquela cama cheia de humidades e odores. Ao ritmo acelerado com que o tempo lhes escorregava das mãos, em breve estariam cercadas pela madrugada escura. Clara projetou o pensamento na madrugada para se entristecer. É fácil fazer subir a angústia no meio da madrugada. Por ser nela que correm as horas mais silenciosas e mais obscuras. O espírito como que se afunda entre elas. Mas, na verdade, Clara criava um frágil artifício. Tinha a alma demasiado iluminada para se afligir com a escuridão profunda daquelas horas da noite. O que realmente não queria era pensar que depois da madrugada seria manhã. Sempre que se via junto ao corpo exausto de Joana sobre a cama, perturbava-se muitíssimo com a chegada da manhã. Com o sol de inverno. Não desejava que a manhã chegasse. Não queria sair do corpo dela.

Clara: Eu não quero a manhã.

Joana: Eu procuro não pensar nisso. Quando faço amor contigo, finjo que a seguir à madrugada é noite clara.

Clara: Eu sinto que tu também não queres ver o sol amanhã.

Joana: Não. Mas também não quero falar nisso. As coisas dolorosas ferem mais quando se fala delas. Parece que se materializam com as palavras.

Logo de manhã, o sol já cegava. O céu do dia apresentava-se luminoso em tons de amarelo. Assim cheio de energia fundamental. Clara não se lembrava já que ontem quisera que o sol não acordasse. Agora pensava que, antes pelo contrário, em como aquela luz era vital. E inspirava profundamente a luz solar. E expirava todo o brilho da manhã pelos olhos. Estes impulsos de vida reanimavam-lhe os músculos e suavizavam-lhe a face. A boca entreabria-se num leve sorriso que parecia inalterável. Olhou para ela. Joana. Loura. “Linda!”. O sol. Sentiu-se encandear quando ela lhe raiou de surpresa com aquele olhar azul do céu. Teve que fechar os olhos. Milhões de pontos luminosos romperam aqui e ali na sua momentânea escuridão. Estavam à porta de casa de Clara.

Joana: Adoro-te.

Clara: E eu a ti.

Joana: Boa sorte, anjo.

Clara saiu do carro. Joana esperou que ela entrasse no prédio. Depois arrancou.

publicado por Cat2007 às 00:03
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