CAFÉ EXPRESSO

Maio 30 2017
 
 
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O instinto de sobrevivência nas crianças está sempre a postos. Porque são demasiado frágeis. Precisam de quem as proteja. Há uma consciência do significado do “estar por baixo” em cada criança. Nestas condições, aproximam-se dos que lhes parecem fortes e desprezam os que lhes soam a fracos.

 

Henry é um miúdo imigrante para os EUA (naturalmente) pobre de um bairro (obviamente) pobre. Frequenta pois uma escola de miúdos como ele. Pobres. Muitos também produtos do vómito de países europeus caídos em desgraça na altura (da Primeira e Segunda Gerras Mundiais). As outras crianças são americanos da gema igualmente pobres. Na verdade, estes por seu lado são como crostas caídas das feridas saradas da Europa colonialista. Pobres americanos não emigrantes da época. Tão pobres como milhões de americanos são hoje em dia. E serão. Na maior potência económica, tecnológica e militar do mundo. Um mundo onde os pobres existem por todo lado. E são em número assombroso.

 

Pois. A Terra é um planeta de pobres. Não obstante, parece que todos os pobres se recusam a aceitar este facto. E nenhum rico o reconhece.

 

 Henry e o resto das crianças referidas eram espancados quase diariamente nas suas próprias casas pelos seus próprios pais. Adultos frustrados que, por designadamente lhes terem roubado algures na vida os sonhos de criança, esmagavam sem razão e sem desígnio aparentes o corpo e a alma dos seus próprios filhos pequenos. 

 

Henry não levava guarda-chuva para a escola. “Havia quase sempre porrada. Os professores pareciam não saber de nada. E havia sempre problemas quando chovia. Qualquer rapaz que trouxesse um guarda-chuva para a escola ou usasse uma gabardine era logo posto de parte. A maior parte dos pais era demasiado pobre para comprar essas coisas. E quando o faziam, nós escondíamo-las nos arbustos. Se alguém era visto com um guarda-chuva ou com uma gabardine era logo considerado um mariquinhas pé-de-salsa. Levavam porrada depois das aulas”.

 

Pois. A pobreza é difícil de engolir e não é bonita de se ver. A consciência do ser pobre é pessoal e envergonhada. O esforço vai todo no sentido da inconsciência. Se fosse possível não comparar, se não existissem ricos, esta espécie de inveja sem esperança talvez nem chegasse a doer. Os pobres têm nojo dos pobres. E, quando ainda não chegaram ao ponto em que já estão passados da cabeça e desatam a fazer (inevitáveis?) disparates, têm muita consideração pelos ricos. Subserviente e invejosa, como é natural.

 

Charles Bukowsky. O escritor americano filho de imigrantes alemães nascido no tempo de uma Alemanha desfeita que vomitava sem opção gente para o “Novo Mundo”. É a vida. “Ham on Rye”, o livro de onde venho de citar. É de ler. Apanha-se pelo menos uma náusea no mínimo enriquecedora. Um outro modo de ficar menos pobre.

 

publicado por Cat2007 às 16:36
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