CAFÉ EXPRESSO

Outubro 07 2016

Teresa saiu de casa de Madalena com o coração preso nos alicerces das construções que começara a edificar no cérebro quando ainda falava com ela. No entanto, o temor enredava-se-lhe à volta dos pensamentos positivos. As decisões que tinha em mente eram apenas isso. Decisões. Talvez fossem até menos do que isso. O cérebro exprimia declarações de boa vontade. Mas o coração retraia-se. Eventualmente, o facto de ser mãe poderia pesar alguma coisa. “Os pais, pelo bem dos filhos, devem aprender a controlar as suas próprias emoções.”. Por outro lado, Teresa era uma mulher que acumulara grande experiência na arte de sufocar sentimentos. Poderia sair-se bem agora.

Na manhã seguinte levantou-se tarde. Na verdade, não tinha dormido mais do que umas poucas horas desde que o sol rompera. Passara a noite a convergir e a divergir consigo mesma. E o sono não chegou. Quando entrou na cozinha, encontrou a filha. Sobressaltou-se de forma invisível.

Teresa: Já chegaste?

Clara: Sim. Agora mesmo. A mãe acordou tão tarde. Não é nada normal. Como se sente, mãe?

Teresa: Ah! Eu estou ótima. Estava só muito cansada. Precisava de dormir. Mas ainda bem que estás em casa. Precisamos de ter uma conversa séria.

Clara: O que se passa mãe?

Clara compreendeu que a mãe lhe vinha falar outra vez de Joana. Sentiu-se contrariada. “Para quê falar agora? Passou tão pouco tempo.”. Acreditara que que a mãe não voltaria tão cedo ao assunto. Porque fora a mãe quem o dera a entender. Estava habituada desde sempre às vontades inalteráveis de Teresa. Por outro lado, não queria falar pois o levantamento de emoções que operara dentro de si não lhe abria caminho para poder projetar raciocínios bem organizados. Mas Teresa já tinha aberto a conversa. E quando finalmente fixou a filha, parecia mais pequena, mole de músculos e com a cara pisada. Os olhos estavam baços, como se tivessem sido virados do avesso.

Teresa: Afinal o que queres tu, filha?

Clara: Eu? Eu só quero deixar de sofrer por sua causa.

Teresa: Tu? Tu estás a sofrer por minha causa? Então não estás envolvida numa grande paixão? Além disso, eu rejeitei-te?

Clara ficou muda. Apenas lhe lançou um olhar ressentido. Teresa captou-o e reagiu com revolta.

Teresa: Há certos fenómenos que são muito curiosos. Tu só viveste dois anos com o teu pai. Sucede que não podiam ser mais parecidos. É tão fácil para ti falar de amor e de dor. Como se os sentimentos fossem coisas fáceis de gerir. Tal como para o teu pai, é fácil para ti sentir. É fácil sofrer. Para ti nenhuma destas coisas, destes momentos, merece qualquer género de solenidade ou um momento de recolhimento. É tudo tão claro para ti. Talvez o teu nome venha daí. Talvez te tenha sido dado como uma projeção daquilo que havias de ser. Uma pessoa clara. Límpida e transparente. Foi o teu pai que escolheu o nome.

Teresa não queria ter dito nada do que disse. Por isso agora estava irritada consigo mesma. Ao mesmo tempo, transtornava-se com o facto de sentir culpa sobre o que o destino reservara para a filha. Não fora capaz de contornar o destino. “Ela é filha de uma lésbica. Só podia ser lésbica.”. Tinha raiva de si própria. E da vida. Fosse como fosse, agora era o momento para dizer à filha que estava pronta para a aceitar como era.

Clara aproximou-se da janela. Olhou para a passadeira de vida corrente sem expressão concreta. As pessoas pareciam coisas. E as coisas obstáculos às pessoas. Tudo se mexia lá fora. O cérebro parara-lhe nesta monotonia de cores diversas que pareciam insistir sempre no mesmo movimento. Teresa abriu a boca para falar. Clara estava habituada ao modo como ela o fazia. Por isso não se alarmou. A última palavra de cada frase de Teresa era sempre cortada na derradeira letra por uma espécie de golpe desferido pelos lábios. Em princípio, ela não deixava os sons voar. Não os seus.

Teresa: Podes vir até aqui para falarmos em termos?

Sentaram-se na mesa da cozinha. Clara pousou distraidamente os olhos sobre o tampo. “Esta é mais uma das peças que pertencia à avó Amélia”.

Clara: Porque é que a mãe ainda não fala com os avós?

Teresa: Porque vens agora falar-me disso quando o assunto era outro?

Clara: Não sei. Lembrei-me da avó Amélia.

Teresa mostrou-se impaciente.

Teresa: Pois bem, não falas com os teus avós paternos porque eles jamais mostraram interesse em falar contigo. Lamento muito mas é assim. Desde o funeral do teu pai que não voltámos a falar. Eu nunca mais liguei ou apareci. E eles a mesma coisa. Nem para saber como tu estavas. A tua avó não me suportava. E depois, de alguma forma, achou-me responsável pela morte do seu querido filho. Entendeu que eu não o fiz feliz. Ela sempre soube que eu não o amava. O que era verdade. De qualquer forma não lhe aceito tanto rancor subsequente. Por conseguinte, é gente com quem não me interessa falar.

Só depois de dizer é que Teresa realizou sobre o sentido das suas palavras.

Clara: Desculpe. Não o amava? Então amou quem na sua vida?

Teresa: Não foi isso que eu quis dizer. Eu adorava o teu pai.

Clara: A mãe disse que não o amava.

Teresa: Clara, desculpa mas eu estou um pouco transtornada pelas razões que conheces. Falei rápido demais. Fui um tanto inconsciente. Claro que amei o teu pai. Á minha maneira. Mas amei. Importas-te de mudar de assunto? Prometo que te vou explicar isto como deve ser. Mas agora não é o momento.

Clara: Está bem, mãe. Mas, então, já que estava também a falar de incapacidade de perdoar, gostava que me falasse sobre isso.

Teresa encheu o peito de ar e expirou de forma audível.

Teresa: Ora ainda bem. Falemos então do que importa. De ti e da Joana.

Clara: Sim. A Joana.

Teresa: Não é necessário sublinhares o nome. Mas enfim… Diz-me o que se passa contigo.

Clara: Mão, já lhe disse. Estou apaixonada pela Joana.

Teresa: Enfim, compreendo que alguma coisa muito forte tu sentirás por ela. Algo que te está a alterar…

Clara: Algo que me está a melhorar.

publicado por Cat2007 às 20:43
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Outubro 06 2016

Madalena: Percebo que, digas o que disseres, tu és mãe da Clara e não amante dela. Tenho a certeza de que mil vezes tiveste que fingir que não tinhas medo. Que não choravas. Que tudo estava bem. Não poderia ser de outra forma. Como ensiná-la se não estivesses acima dela? Das suas fraquezas. Das suas ansiedades. A miúda perdia-se. Os pais são pais. Atores, tantas vezes. Talvez tenha sido a falta de alternativas que te obrigou a crer que a tua filha te resolveria todos os problemas do coração. Talvez tenhas resolvido os do corpo com uma ou outra cambalhota que deste com este ou aquele tipo simpático. Talvez, a certa altura, já depois da morte do Diogo tenhas pensado, como me disseste, em voltar para mim e tenhas concluído que eu não te aceitaria. Talvez a própria morte do Diogo não tenha deixado de ser um alívio para ti.

Teresa tinha posta uma máscara de indignação.

Madalena: Não faças essa cara, Teresa. Duvido que o sexo regular com o Diogo não estivesse já a agoniar-te sinceramente. Ao ponto de te confrontar com a mentira. A mentira que tu insistes em dizer que detestas. Se ele não tem morrido, tu não aguentarias o casamento. Tu que tens de viver sempre de acordo com a verdade, ficarias confrontada com a mentira que construíste. As tuas temerárias e sofridas opções.

Teresa: Para que estás a ser tão brutal? Ainda os bons velhos ressentimentos, não é?

Madalena: Não. O nosso caso está resolvido.

Teresa: Sim? E como?

Madalenas: Agora não vamos falar disso.

Teresa: Sabes, Madalena, hoje parece-me que os últimos vinte anos da minha vida foram despojados de sentido. É como se tudo estivesse deitado por terra. Está um vazio tão grande. Uma angústia tão profunda.

Madalena: Lamento muito.

Teresa: Não queria. Não queria que ela se tivesse cruzado com essa Joana.

Madalena: Escuta Teresa…

Teresa: Ela não tem uma filha para proteger. Nem a mãe Amélia que a surpreendeu. Não existe nada que a faça renunciar ao que deseja. E eu, o que faço da minha vida, Madalena?

Madalena: Teresa, tu ainda só tens quarenta anos. Tens tanto para viver. Podes tanto…

Teresa não a ouvia com atenção.

Teresa: Pareço muito dramática, não é?

Madalena: Há certas coisas que é necessário vivenciar para se compreender.

Madalena também não ouvia Teresa.

Teresa: O quê?

Madalena: Tu tens algum razão para recear. Não é nada fácil manter uma relação com uma pessoa do mesmo sexo.

Teresa: Essa é uma das razões pelas quais eu não queria uma vida assim para a minha filha. Nem tudo é homofobia.

Madalena: Olha Teresa, nem tudo é assim tão complicado. Não é fácil mas também não é assim tão complicado. Eu pessoalmente tento tornar a minha existência o mais simples possível. Aceito que o meu interesse por mulheres, a minha natural orientação, não é escolha minha. É assim, Teresa, se eu gosto de mulheres, gosto. Se não gosto de homens, não gosto. Não me vou obrigar a viver de uma forma incoerente porque existem uma série de preceitos, conceitos e preconceitos sociais. Sabes, aproveito esta era de liberdade hipócrita para viver como me parece melhor. E evito definir, logo à partida, a minha própria insatisfação, frustração e o consequente desequilíbrio emocional.

Madalena sorriu. E depois olhou para Teresa com seriedade.

Madalena: Em que pensas?

Teresa: Naquilo que dizes e na Clara. E é verdade. As coisas não são o bicho papão que eu faço delas.

Madalena: É claro que não são. No mais, creio que tu estás em melhores condições do que a maioria dos pais para compreender as motivações da tua filha.

Teresa: Eu que talvez seja lésbica. Não é isso. Madalena?

Madalena: Talvez sejas lésbica? Tu és infernal, Teresa.

Teresa: Não é de mim que importa falar agora. Mas da minha filha.

Madalena: O que pensas fazer?

Teresa: Vejo que não posso fazer outra coisa senão aceitá-la. Se a Clara escolhe aceitar-se, o que posso eu fazer?

Madalena: A Clara escolhe viver positivamente. Vê se metes isto na cabeça.

Teresa: Talvez. Mas eu ainda preferia que as coisas não tivessem que ser assim.

Madalena: Compreendo. Mas são.

Teresa: São.

Madalena: E vais portanto aceitar a namorada da tua filha?

Teresa: Vou esforçar-me muitíssimo.

Madalena: Imagino que sim. Que o esforço vai ser grande. E como te sentes?

Teresa: Em paz, talvez. Não sei. E triste por nossa causa.

Madalena: Nós temos que aguardar. Também estou triste.

publicado por Cat2007 às 18:27
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