CAFÉ EXPRESSO

Maio 10 2017
 
 
 
 
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É um facto que existem várias pessoas na nossa vida com quem nos damos porque temos mesmo que nos dar, sendo certo que nos damos mais com umas do que com outras. E esta reiteração da convivência gera “amizades circunstanciais”. Como é evidente, no âmbito destas “amizades”, é necessário fazer um esforço diário para se ser sempre educado e gentil. Porque a ideia é viver sempre no melhor ambiente possível. É preciso não esquecer que o que nos une não é o afeto mas a obrigação de estar ali.

 

publicado por Cat2007 às 14:14
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Abril 30 2017
 

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Não concordo com a ideia de que os (verdadeiros) amigos se escolhem. Antes, acredito que certas (poucas) pessoas nos aparecem na vida e que o afeto acontece e tem condições de se aprofundar. Nestas circunstâncias, a pessoa passa para dentro de nós e, em princípio, salvo grave rotura, é para a vida. E é por isso que os nossos grandes amigos não têm que ser as pessoas com as melhores qualidades. Têm que ter certas qualidades. As certas para nos conquistarem ab initio. Aquelas que se encaixam perfeitamente em determinados aspetos importantes da nossa forma de sentir e pensar. Depois podem ser vaidosos, egocêntricos e até muitas vezes frívolos. Com efeito, é certo que os nossos melhores amigos por tantas ocasiões nos contrariam, irritam, cansam ou desiludem. E é por isso que às vezes não nos apetece estar com eles. Mas isso passa. Passa sempre. Pelo menos comigo, é assim. Enfim, “para os amigos tudo, para os outros a lei”.

 

publicado por Cat2007 às 18:09
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Fevereiro 10 2017

Resultado de imagem para chicken tikka masala

 

Vim agora de um almoço de comida indiana. Estou um bocadinho cheia, na verdade. Comi o mesmo do costume: chicken tikka masala. Adoro. Não obstante, privei-me da sobremesa de chocolate. Que também adoro. Sim porque isto aqui não é nenhuma máquina de empacotar.

 

Pois bem, vejo-me a dizer que “adoro” (o que, no seu significado mais coloquial, quer dizer gostar muito de alguém ou de alguma coisa) e lembro-me logo daquelas pessoas que “adoram”. Já me dei conta que as pessoas do “adoro” “adoram” sobretudo mais objetos ou eventos e menos pessoas. Mas quando engraçam com alguém, nomeadamente por causa das camisas lindas ou pelo charme ou, simplesmente, porque é bem-nascido, “adoram” também.

 

Claro que percebo a mecânica desta coisa. É muito mais fácil adorar do que gostar sinceramente de alguém. Até porque adorar se pode referir a coisas ou a pessoas, como disse. O que cheira a equivalência. Assim sendo, não gosto nada que me adorem, como gostam de umas cortinas “ma-ra-vi-lho-sas!”. Sempre com ponto de exclamação.

 

A certa altura, aconteceu-me uma pessoa que me “a-do-ra-va”. Numa semana propôs-me que fossemos “irmãs”. E eu: “?????”. A proposta não deixava de ser tentadora, no entanto. Porque não tenho irmãs e gostava sinceramente de ter pelo menos uma. Assim, tocava-me num ponto fraco. Mas não cedi. Antes, bati-me pela liberdade de o tempo passar sobre os afetos das pessoas, alterando-os no sentido da respetiva profundidade. Caso pudesse suceder.

 

Creio que esta minha atitude poderia ter causado desconfiança. Se do outro lado houvesse uma consciência, teria acontecido uma imediata consciencialização de que não falávamos a mesma linguagem afetiva. Mas não. Antes pelo contrário, passei a viver acompanhada de uma irmã adotiva que me assoberbava a existência com a sua presença constante e tantas vezes inoportuna.

 

Seja como for, volvido algum tempo, ela começou a ter ciúmes cegos por causa do namorado. Pessoa bastante gostável como pessoa (mais do que ela) mas que não me interessava para tais fins.

 

Pois as pessoas do “adoro” são assim bastante desconfiadas. Esperam que toda a gente saiba “adorar” tanto como elas. E como conhecem exatamente a que nível ”adoram”, arranjam sempre argumentos para justificarem mais uma desilusão. Ainda que imaginada.

 

publicado por Cat2007 às 15:47
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Dezembro 12 2016

Resultado de imagem para amizade entre gays  e mulheres

 

A amizade é uma relação de solidariedade e lealdade, baseada na qualidade das afinidades encontradas e na profundidade das experiências partilhadas ao longo do tempo que fundamentam um sentimento de amor que exclui a atração física e não tem como objeto os nossos pais, irmãos ou outros familiares próximos.

 

Existe esta mulher loura de cabelos compridos, com uns quilitos a mais do que o average, cuja voz é como a de uma bonequinha de filme de terror (daquelas que ganham vida e assassinam as pessoas insidiosamente), a qual se torna irritantemente expressiva quando ela diz “olá”. Esta mulher alta costuma vestir umas camisolas sem ombros (por vezes com lantejoulas) e calças justas a definir as grossas coxas. Tanto quanto sei, ela sente-se designadamente atraída por um madeirense de olhos verdes com cara de cafajeste, que praticamente foge dela. Em sua companhia (da mulher) surge frequentemente um pequeno gay de pele muito branca, faces rosadas e de voz fina que, quando fala, parece que vai rimar a todo o momento (digo isto por causa do tom declamatório). Ela tem mais de quarenta e ele não tem trinta.

 

Ao que julgo saber, ela diverte-se com a maneira de ser dele. Um rapaz muito desempoeirado, de piada pronta, um tanto provocador e, não obstante, com a sensibilidade à flor da pele. Ele, por seu lado, nomeadamente, deslumbra-se com a experiência dela (profissional e de vida), vibra com as conversas que têm sobre os homens que agradarão certamente a ambos e também sobre aqueles em que os gostos divergem e adora trocar impressões com ela sobre roupa e make up. Creio que, neste momento, por tudo o que os une, já são confidentes um do outro no que essencialmente diz respeito aos intricados detalhes das respetivas vidas amorosas.

 

Posto tudo o que antecede, e contrariando um vasto número de casos que são evidências, quero firmemente acreditar que existem relações de amizade entre homens gays e mulheres heterossexuais.

 

publicado por Cat2007 às 17:54
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Outubro 08 2016

Não fez menção de ir atrás da filha. Porque não valia a pena. Sabia que ela ia andar pela Avenida de Roma até se cansar. Nisto eram iguais. Clara precisava agora de se enquadrar na nova realidade que Teresa lhe apresentara. Haveria de chegar mais calma. Logo falariam um bocadinho melhor sobre tudo. Teresa estava pronta para lhe dar todas as respostas. Não obstante estes pensamentos tranquilizadores, Teresa estava em dor. Porque a sua filha estava a sofrer muitíssimo.

Teresa marcou o número de Madalena.

Teresa: Contei tudo à Clara.

Madalenas: Tudo?

Teresa: Sim. Tudo sobre nós.

Madalena: Olha, eu estou em casa. É melhor vires cá.

Teresa foi.

Madalena: Entra.

Teresa entrou. Estava trémula.

Madalena: Conta-me o que se passou. Como lhe disseste?

Teresa: Primeiro falámos sobre ela a e Joana. Questionei-a sobre o valor da relação delas. A Clara confirmou que se amavam. E eu acabei por lhe dizer que aceitava a relação.

Madalena: Muito bem. Mas tinhas que atirar a homofobia para cima dela outra vez, questionando a relação delas?

Teresa: Não foi homofobia. Foi preocupação. Queria saber se a Joana era confiável. Coisas normais de mãe.

Madalena: Uma vez que tu, com a idade da Joana, me deixaste a morrer.

Teresa: Sim. Porque eu não fui confiável. Sim.

Madalena: E nós, como lhe contaste de nós? Achas que era o momento certo?

Teresa: Não sei se era o momento certo para ela. Mas era o momento certo para mim. Porque foi ali que, de repente ganhei coragem. E não penses que o fiz porque me queria assumir perante ela para depois assumir uma relação contigo. Não. Foi uma questão só entre mim e ela.

Madalena: Mas tu estás completamente louca, Teresa. Como pudeste fazer isso assim?

Teresa: Ela tinha o direito de saber, Madalena. De saber quem é a mãe. Mesmo que a mãe não tenha ninguém.

Era tão raro ver Teresa assim. Confusa. Inconsistente. Tão transparente. Madalena observou-a através dos seus gestos e sons. “Como está fraca.”.

Madalena: Então tu não lhe contaste por nós. Foi por ti. Se foi por ti, eu pergunto que direito tinha ela de saber aqui e agora. Porque não esperar que a crise que se abriu entre ti e ela por causa da Joana fosse ultrapassada? Tu e a porcaria das tuas verdades. Que só são verdades quando tu resolves deitá-las cá para fora. Doa a quem doer. Que desastrada, Teresa.

Madalena sentia-se um pouco deprimida pela evidente pobreza da face do espírito que Teresa lhe mostrava com tão baixo pudor. Por consequência, uma ponta de aversão estava a azedar-lhe a boca. Era por causa deste azedume que Madalena não se sentia capaz de contemporizar com Teresa. Ao contrário, no momento, Teresa inspirava-lhe raiva.

Teresa: Eu sei dos segredos dela. Agora ela já sabe dos meus.

Teresa argumentava, evidenciando-se pela negativa.

Madalena: Que infantilidade. Tu és a mãe. Tu podias saber dos segredos dela e guardares os teus para lhe revelar no momento certo. Não compreendo porque razão contigo as coisas têm de ser assim sempre tão dramáticas. Porque tens sempre graves revelações a fazer às pessoas que amas? Tudo contigo é demasiado pesado. Porque tinhas que contar à miúda no momento em que ela está a resolver a vida dela contigo? Isto não se percebe. O melhor, percebe-se. As coisas passam-se dessa maneira porque a tua vida interior é uma confusão monumental. Queres sempre dizer a verdade. Mas vives da mentira. Descobres alguma coisa nova e já queres mudar tudo. Para de controlar a vida de uma vez, mulher.

Teresa: Contámos uma à outra realidades semelhantes.

Teresa mostrava-se ridiculamente impassível.

Madalena: Deves estar a brincar. Tu contaste-lhe uma história de vida. Ela contou-te um episódio da dela.

Teresa: Posso perceber onde queres chegar. Acontece que eu não poderia avançar mais sem lhe contar. Especialmente agora que te reencontrei. Se tu não tivesses reaparecido talvez me calasse. Porque muito provavelmente não haveria nada para contar.

Madalena: O que me faz confusão aqui é o timing que tu escolheste. Não podia ser pior. É por isso que eu digo que te és egoísta.

Teresa: Já te disse que foi honestidade.

Madalena: E eu já te disse que desse tipo de honestidade ninguém precisa. Estás tão pouco convicta da tua vida que precisaste da aprovação da tua filha. E porque não? Ela também é lésbica. Mas afinal quem tem aqui responsabilidades? Tu ou ela? É possível que tenhas reconhecido que a miúda é mais bem resolvida do que tu e que por isso sentiste tu necessidade da proteção dela?

Teresa: Tu estás a delirar, Madalena.

Madalena: Antes estivesse, Teresa. O pior é que, parece-me, há mais do que isso. Porque nada está resolvido em ti. Tu és a ambivalência viva. Então o que tu fizeste foi também uma jogada desesperada. Foi o teu último trunfo para a afastares da Joana. Atiraste-lhe com toda a culpa para cima. Afinal a Clara estragou a vida toda da mãe. Tu não foste feliz por causa dela. Durante toda a vida dela. Afinal, és lésbica. Ela também é. Agora as coisas devem estar muito alteradas na cabeça dela. O que antes terá visto como uma coisa extraordinária que lhe aconteceu na vida, a Joana, deve parecer-lhe agora uma maldição. Com a tua revelação fizeste com que a miúda se sentisse infeliz por amar. Como se os sentimentos dela fossem doentios. Acabaste com a estória delas, Teresa. Conseguiste. E para quê? Acabará com a Joana. Mas haverão outras.

Teresa: Não. Isso não. Nunca! Eu não fiz isso à minha filha. Tu estás a ser extraordinariamente rebuscada, Madalena. O que é isso? Maldade? A Clara está naturalmente chocada mas via superar. Eu tenho a noção de que fiz uma manobra muito arriscada. Mas não conheço um modo diferente de jogar senão no tudo ou nada. E é só nestas ocasiões que eu jogo. Quando o que está em causa é mesmo o tudo ou nada. O que fiz foi para salvar a minha filha e a mim. A nossa vida está agora nas mãos dela. A Clara é muito melhor do que tu imaginas. Muito melhor.

Madalena: Deus queira, Teresa. Deus queira. Porque é muito perigoso confundir a vida com um jogo.

Teresa: Não me tomes tão à letra Madalena.

Madalena: Posto isto tudo o que dissemos aqui, sabes o que me parece? Parece-me que se eu tivesse um filho não gostava que fosse gay. Da mesma forma que tu não gostas que a tua filha o seja. São as tais dificuldades de que tanto gostas de falar que me fazem pensar assim. Ninguém quer entraves na vida dos filhos. Por outro lado, recordo quando tinha vinte anos. O que pensaria eu se o meu pai ou a minha mãe me viesse informar que era gay. O que faria? O que sentiria? Coisas más. Não sei bem explica-las. Sei que não gostaria. Talvez sentisse que as minhas referências se diluíam. É complicado refazer a imagem de uma mãe na nossa cabeça. Acredito que se perde o pé numa situação destas. Portanto, a tua filha está neste momento a atravessar uma crise tremenda.

Teresa: Pois.

Madalena: Queres um chá?

Teresa: Aceito. Obrigada.

Madalena: Tenho sentido muito a tua falta.

publicado por Cat2007 às 15:17
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Outubro 05 2016

“Hoje fico a dormir em casa da Joana. Um beijinho.”. Teresa indignou-se. “A Clara não tem vergonha nenhuma. Não sei como pode ela, a minha filha, estar a fazer-me uma coisa destas. Trair assim toda a educação que lhe dei. E eu esforcei-me tanto. E agora, o que faço?”. Teresa estava disposta a fazer tudo. Menos a aceitar a relação da filha. Não rejeitava Clara. Mas Ignorava Joana. Para Teresa, a filha era a filha, a que sempre tivera. Era assim que pretendia continuar a viver. “Portanto a Clara não pode vir para aqui mandar mensagens a dizer que vai dormir com ela. Aliás, não pode falar-me mais nela. Que faça a vida que entender. Até que a vida lhe ensine o quanto está errada. Postas as coisas como estão, a minha filha vai ter que aprender com os seus próprios erros.”. Raciocinava assim mas a angústia não parava de crescer-lhe dentro do peito. Como viver ignorando uma realidade que já lhe entrara pela vida dentro? Clara não iria fazer como ela fez há vinte anos atrás. Deixou Madalena por causa dos juízos de valor que imaginou que a mãe fizesse. Não queria perder aquela mãe. Por isso escolheu Amélia em detrimento de Madalena. Optou por viver uma vida digna. Que a mãe, a certa altura, lhe tivesse dito que não era nada disso que queria, era indiferente. Porque Teresa, imaginando-a uma mulher conservadora, deu o passo. Um passo que se coadunava perfeitamente com a sua própria maneira de encarar o mundo. Clara, ao contrário, não a imaginava conservadora. Até porque Teresa sempre lhe dera toda a liberdade possível e respeitava a sua maneira de pensar. Apenas não imaginou que ela não tivesse defesas contra pessoas da índole de Joana. Clara foi apanhada numa teia de sedução onde se deixou enredar. Agora achava-se apaixonada. Mas não estava. Era tudo uma ilusão. Tudo fruto da falta de experiência. “Clara era virgem, santo Deus!”. Continuou a ponderar e concluiu que Clara não era lésbica. Joana era um acidente. “Mas quando é que isto vai acabar?”. Não se via preparada para engolir tudo em silêncio. Impotente e ignorada. “O que vou eu fazer? Como poderei viver em paz enquanto as coisas se vão passando?”. Neste ponto, Teresa estava já muito confusa. Porque via bem que partia de pressupostos que podiam não estar corretos. “E se elas se amam realmente? Como eu e a Madalena nos amávamos? E aquele amor sobreviveu… Preciso de falar com alguém. Preciso de falar com a Madalena. Não há outra pessoa com quem eu possa discutir este problema. Ela é capaz de me dar uma luz. Apesar de neste momento me odiar, a Madalena vai ouvir-me.”.

Mais uma vez Teresa se via a rodar com o carro à volta daquele quarteirão, passando à porta daquele mesmo prédio. Afinal, não estava certa que Madalena a deixasse entrar. E muito menos que estivesse disponível para conversar sobre o assunto nos termos em que Teresa queria. Deu mais umas voltas. “Ela vai deixar-me entrar. Ela odeia-me mas ama-me. Como eu a amo.”.

Teresa entrou finalmente no prédio. Subiu e bateu à porta.

Madalena: Teresa?

Teresa: Olá Madalena.

Madalena abriu a porta. Mas colocou o corpo no meio do caminho.

Madalena: O que queres Teresa?

Teresa: Entrar.

Madalena: Eu disse-te para sair. Lembras-te?

Teresa: Madalena, eu preciso de conversar com uma amiga.

Madalena: Eu não sou tua amiga. Fui tua amante.

Teresa: Tu foste tudo para mim. Deixa-me entrar.

Madalena suspirou.

Madalena: Está bem, entra.´

Teresa: A minha filha está outra. E eu estou perdida.

Madalena: Esse assunto. Vem aqui falar-me disso. É preciso ter lata.

Teresa: Ouve-me Madalena. Eu sou mãe. Não quero perder a minha filha. Mas não sei o que fazer para que isso não aconteça. Ela deixou-me sem qualquer hipóteses de agir para a proteger. Impediu-me de assumir o controlo da situação. O que falhou? Afinal a minha filha não confiava em mim desde sempre? Podia ter-se evitado tanta coisa. Mas não. Hoje atira-me para cima o facto consumado. Isto não é honestidade. Não a que esperava dela. Nós éramos tão unidas. Bastou um passo de sedução da Joana e tudo mudou entre nós. Raios! Imaginava que Clara fosse mais forte. Dei-lhe uma preparação que eu não recebi sobre estas questões. Ensinei-a a pensar pela cabeça dela. Como pôde falhar assim?

Madalena observava Teresa com muita curiosidade.

Teresa: Isto está a dar cabo de mim.

Madalena manteve-se em silêncio. Se pensasse exclusivamente em Clara e em Teresa, podia concluir que a coincidência era em si devastadora. Tentou focar-se nelas e esquecer por momentos as suas próprias mágoas. Porque Teresa estava ali muito frágil. De qualquer modo, não se sentia muito confortável a analisar fenómenos que escapam à lógica. “Realmente. Porque há-de a filha dela ser lésbica?”. Teresa continuou.

Teresa: A Clara diz que a ama. Já me viste isto? Ama-a, Madalena. Isto é uma praga do destino ou o que é? Não queria que ela passasse pelo sofrimento que eu passei quando te deixei. Mas é talvez a única solução para tudo isto.

Madalena: Ora teresa! Tu não tens pudores em estar-me a dizer isso. Queres que a Joana passe pelo que eu passei? O teu egoísmo cega-te. E explica-me lá porque não hão-de elas continuar?

Teresa: Cega, eu, Madalena? Tu seguiste o caminho para onde apontaram os teus pés, como me disseste. E vê o que aconteceu.

Madalena: Realmente aconteceu vir dar contigo outra vez. Um erro tremendo. De resto, o que aconteceu na minha vida com outras pessoas, Teresa? Estás outra vez louca. Pensei que depois do que se passou entre nós, as tuas emoções se tinham reequilibrado. Mas não. Estás de novo tomada pela homofobia furiosa. A minha vida foi certamente mais gratificante do que a tua. Percebo que a vida da tua filha seria mais fácil se não fosse lésbica. Ainda assim, a culpa não é dela. Mas se as coisas não são mais fáceis é porque pessoas exatamente como tu não querem deixar.

Os olhos de Teresa brilharam demais. As lágrimas pequenas desfizeram-se no rosto.

Teresa: Estou extenuada.

Madalena: Desculpa.

Teresa: Não faz mal. Esclareceste-me em algumas coisas. Realmente a culpa não é da Clara… Mas admitamos que a minha filha gosta realmente muito dessa Joana. Que significado pode isso ter?

Madalena: Que significado pode ter? Ora, Teresa, em princípio ela vai querer estar com a Joana. Viver com ela.

Teresa: Vês, Madalena, era aí que eu queria chegar. Eu escolhi ter uma vida diferente da tua. Eu casei e tive uma filha.

Madalena: Tu pareces doida. Já te disse. Insistes no absurdo. E magoas-me. Nem sei para que estamos para aqui a falar. Bom, mas então diz lá como foi a tua vida?

Teresa: Não me posso queixar. O Diogo morreu, é certo. Mas tenho a Clara. Por ela tudo valeu a pena.

Madalena: Percebo que um filho dê algum sentido à vida de uma pessoa. Mas e o Diogo. Teres casado com ele valeu a pena? Teres-me deixado valeu a pena? A vida que tu levaste até me reencontrares valeu a pena?

Teresa: Neste momento ainda é complicado falar de nós. Neste momento da minha vida. Percebes?

publicado por Cat2007 às 22:37
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