CAFÉ EXPRESSO

Setembro 09 2016

Amélia era baixa e seca. Usava o cabelo penteado para trás da testa alta e larga, solto em ondas muito suaves por detrás das pequenas orelhas perfeitas onde os lóbulos estavam escondidos por duas  pérolas. Entreabria regularmente a boca arredondada, pequena, mas bem medida. Tinha por hábito automatizado elevar o nariz médio, afilado, ligeiramente arrebitado na ponta. Aos sessenta anos possuía uma pele que permanecia sem dar mostras de grandes cansaços. Os olhos castanhos eram muito sérios, pois franziam, profundos por não se ver o fundo. Expressivos quer de certezas, quer de interrogações, sorriam nem sempre mas de vez em quando. Estes olhos carregavam três rugas profundas como feitas com golpes de navalha junto ao seus cantos. Precisamente três em cada. Talvez tal coerência de ser, tamanha harmonia para ver, tivesse sido previamente pensada por quem decide destas coisas. Talvez se tratasse do resultado de um jogo de compensações, onde a Amélia não foi sequer dada a oportunidade de perder. Tinha as mãos descarnadas de grossas veias azuis salientes, que possuíam a beleza da elegância gestual. Incompreensivelmente, os grossos anéis, moldados em materiais preciosos, não lhe quebravam os dedos. Antes lhe acompanhavam, suportando, a graça dos diversos manejares. 

Foi mãe apenas aos quarenta anos. Até aí viveu absolutamente certa da sua esterilidade. De resto, havia dados médicos que apontavam nesse sentido. Uma sensação de inutilidade fundamental de que, segundo acreditava, são atingidas “todas as mulheres improdutivas” afetara-a muitíssimo. Porém, nunca deixou de sentir nítido aquilo que silenciosamente designava por “apelo natural”. Uma espécie de alarme que, á medida que os anos passavam, lhe soava cada vez mais alto. De cada vez que soava. Não compreendia se lhe vinha do coração ou dos genes, ou das células. Sabia apenas que lhe soava cada vez mais alto. E que lhe ordenava para reproduzir detalhes fundamentais da sua biologia ou pelo menos propagar os traços do seu espírito ou as cores da sua alma. Nesta discussão acesa consigo, era como se estivesse em permanente diálogo concertado com Deus. A certa altura, quando a esperança esmoreceu com a idade, passou a aceitar “em sinal de fé” tal apelo como “um castigo”. Até que engravidou. E deu à luz. Agradeceu a Deus. E chorou baixinho sobre a cabeça da criança “iluminada”. Chamou-lhe Teresa.

publicado por Cat2007 às 18:12
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