CAFÉ EXPRESSO

Fevereiro 08 2016

 

Na sexta-feira passada fui ao cinema à sessão que começou às 00.20h ali no Monumental. Não mais de seis pessoas para ver Carol, uma história de amor entre duas mulheres. Um dos homens que foi para ali sozinho saiu a meio do filme. Para além deste, havia outro que ficou até ao fim.

 

Carol ou o Preço do Sal. Se bem me lembro do livro, o filme é muito o mesmo que o livro. Carol não foge aos princípios da narrativa do Preço do Sal. A impressão com que fiquei quando li o livro há muito tempo atrás foi a de que tudo era muito contido. Falava-se da paixão mas ela não aparecia descrita. Tinha de ser subentendida.

 

No filme, igualmente, mostra-se que existe paixão mas ela não se vê. Repare-se que, por exemplo, ninguém entende que duas pessoas loucamente apaixonadas uma pela outra decidam fazer uma longa viagem juntas sem que antes tenham feito amor. Na verdade, não sei se fizeram amor ou não. O filme não deixa ver nem, sequer, adivinhar.

 

Creio que este é o defeito de Carol. E não é um grande defeito porque no resto é perfeito.

 

publicado por Cat2007 às 17:51
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Novembro 21 2011

 

 

 

 

Um homem que mudou de sexo obrigado na base da violência. Um rapaz todo excitadinho com as meninas que parecia ter grande apreço pelo membro mobilizador dos seus instintos mais primários - logo e depois da fome e da sede extremas, claro. Bom, ficou uma miúda giríssima tem de se dizer.

 

Entre outras coisas que aprecio nele, Pedro Almodovar é o rei do insólito. Um conjunto de freiras “agarradas” à heroína, o que seria? Um enfermeiro que engravida no hospital uma doente em coma, o que seria? Um homem marcadamente heterossexual assume a identidade do irmão transexual e farta-se de apanhar no “traseiro” para “subir na vida artística", o que seria? São os inabituais e inesperados passados de Almodovar de que me estou a lembrar agora. Mas creio que em qualquer um aqui não mencionado se verifica a existência do insólito.

 

Por outro lado, o toque de brilhantismo de Pedro vem também do facto de não ser um fazedor de filmes de ficção científica, de terror ou de outro qualquer género do fantástico ou da fantasia balofa que me convence em definitivo a não ir ao cinema.

 

E, para não fugir à regra, em “A pele que habito”, o realizador espanhol trouxe mais do mesmo do que a gente gosta, admitindo-se que haja quem não goste. Um homem que mudou de sexo obrigado na base da violência. Um rapaz todo excitadinho com as meninas que parecia ter grande apreço pelo membro mobilizador dos seus instintos mais primários - logo e depois da fome e da sede extremas, claro.

 

Bom, ficou uma miúda giríssima tem de se dizer.

 

Antes de sair para o rapto que havia de originar a mudança radicalíssima da sua vida, insistiu, creio que pela milésima vez, na possibilidade de “saltar para cima” da lésbica que trabalhava com ele na loja da mãe - dele. Não deu. Apanhou a “tampa” número “n” e lá foi convencido que um dia ainda havia de conseguir.

 

E com efeito… Regressado seis anos depois – porque não pôde fugir antes - provocou finalmente aquele “flash” na “gaja”. Os olhos dela brilhavam intensamente sobre os de… Norma. Que porém tratou logo de explicar quem era. Deu detalhes que só ele, a Norma, podia saber. A mãe e a outra não puderam contornar a verdade. Norma era ele. Pensavam que estava morto. A mãe ficou atordoada. A lésbica, talvez estúpida,  pareceu-me com cara de boas expectativas.

 

Bom, mas o sumário do insólito. Um homem perfeitamente confortável no âmbito da sua biologia e satisfeito com a sua orientação heterossexual é transformado em mulher – numa mulher muito bonita ainda por cima -, o que seria?

 

Seria aparentemente uma tipa a quem a maior parte dos homens gostaria de “saltar para cima” – assim como, por exemplo, ele outrora com a lésbica. Assim, a vida amorosa deste homem deverá concretizar-se em avanços com lésbicas ou les-curiosas e fugas e recuos relativamente aos homens atraídos.

 

De facto, não é mesmo a forma que demarca o conteúdo. Mas a essência. Como se tivesse nascido com o sexo errado, este tipo tem de operar. A ideia da necessidade de reverter o processo não chocará ninguém e parece ser o caminho mais certo. Presumo que não haverá muito quem discorde de mim. E quero crer que todos percebem onde quer Almodovar chegar com isto.  
 

Por outro lado, a Norma de Bellini, com libretto de Romani, também é uma obra sobre o insólito. Trata basicamente da dor de cotovelo e das coisas que as pessoas são capazes de fazer por causa disso. A trágica heroína começa por ameaçar matar os seus próprios filhos. Depois desiste mas lá acaba por conseguir um estratagema para morrer queimada com o seu amor. E em síntese, a outra ficou, embora não literalmente, “a arder”.

 

Acredito que Almodovar se ande a inspirar nestas coisas. Basta atender ao mais que o filme nos diz. Uma neura aqui, um homicídio ali, um processo de loucura acolá… É a Norma de Bellini num puzzle muito difícil de montar. Sobretudo porque também lá está a genuína Norma de Almodovar. Bravo! Bravo! (de pé).

 

publicado por Cat2007 às 16:20
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Maio 03 2011

Fui ver o “Rio”. Gostei. Mais para mais do que para mais ou menos. Faz-se cinema de animação assombrosamente bom nos Estados Unidos da América. Porém, fui para o “Rio” convencida a adorar. E não adorei. Era suposto adorar. O pano de fundo era o Rio de Janeiro. Porque não adorei? A coisa começa logo no inicio. Do filme. Fantástico inicio. Não podia ser melhor. Veja-se:

 

 

 

 

Mas o pior é que podia ser melhor. Mas que raio de música é esta? Parece brasileira. Tanto que as aves dançam perfeitamente num gingado de samba inconfundível. Está lá a bateria… a energia. Mas falta… Ah, a melodia não é autêntica! É americanóide. Empobrecida, portanto. A melodia falsa estraga a energia autêntica. Desde quando é permitido alterar o excelente para agradar a quem não tem o desejo de alcançar uma determinada dimensão cultural para além da sua própria? Falo do público americano.

 

Depois o filme prossegue e é mais do mesmo. Bom. Mas pouco brasileiro. Os brasileiros não são brasileiros. Está bem. Uma produção americana. Os americanos americanizam. Tudo o que podem. E o que não podem. Compram os monumentos dos outros para os plantarem nos jardins das suas gigantescas mansões. Como se fosse a mesma coisa. Nada a fazer. Não conseguem fazer melhor. Os americanos.

 

Muito ao meu estilo de quem está quase sempre a arriscar cair da ignorância abaixo, só a posteriori fui ver quem era o director do filme. “Carlos Saldanha!!! Quem é este tipo?. Fez a Idade do Gelo? Mas eu adorei a Idade do Gelo!” Carlos Saldanha é brasileiro. Nem mais nem menos. É brasileiro. E fez o “Rio”. Mas como? Não sei. Preciso de tempo para pensar. Entretanto, eis a prova:

 

 

 

Pronto. Vi e ouvi atentamente. E já pensei. Tenho a minha resposta. Carlos Saldanha é um brasileiro que parece esquecido do melhor do seu Brasil. Não sente o Rio. Olha para a cidade como um americano gosta de a imaginar num cartão postal. Fez um filme que, como ele diz "tem o Brasil como fundo de pano". A cidade "ficou muito legal". Teve "Pão de Açucar, teve Corcovado". O que não teve foi verdadeira "brasilidade", como o próprio prometia. Paciência!

 

publicado por Cat2007 às 20:33
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Agosto 20 2008

 

 

"Volver" é um filme do Almodovar. Toda a gente sabe, pelo que não é esta a novidade que quero dar. Falo nele por causa do título do presente post: "Viver". Não sei exactamente porque estabeleci a relação. É claro que existe uma certa identidade no som que fazem ambas as palavras. Porém, não é só isso. Comigo nunca é só isso. Comigo estabelecem-se relações mais profundas e complexas entre as coisas, muito para além do óbvio. Viver e voltar parecem-me duas coisas cheias de afinidades entre si.

 

Em "Volver" acontece um regresso ao passado essencial para ultrapassar determinadas obscuridades vivenciadas e sobretudo uma tragédia pessoal enorme. Um regresso a um determinado ponto. Em "Volver" o presente repete de certa forma o passado, como se os factos marcantes da vida das pessoas se repetissem sempre, malgrado as diferenças nas formas, na cores, nas palavras, nos contextos. Ao que parece, na nossa estória apenas se altera o acessório e a nossa evolução progride no sentido do retorno pontual mas regular às coisas que mais nos agitam o espírito. E a canção começa assim "Yo adivino el parpadeo/ de las luces que a lo lejos/van marcando mi retorno./Son las mismas que alumbraron con sus p�idos reflejos/hondas horas de dolor".
 

publicado por Cat2007 às 15:14
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Outubro 01 2007

 

 

Ontem, num livro de um amigo que ando a ler, Tubarão 2000, vi uma passagem sobre um diplomata imbecil que se queixava da lagosta servida em primeira classe na British Arways. Ele disse à hospedeira de bordo que se aquilo era lagosta, ele era o principe de Edimburgo, ao que ela respondeu: "Sim, Alteza". 

 

No mais, coloca-se-me a seguinte questão: mesmo em primeira classe, as companhias aéreas ainda servem lagosta? Enfim, ainda estou em choque com a falência da SWISSAIR. Seja como for, o que importa realmente é que a classe política portuguesas (e seus ramificados) já não pode viajar em primeira classe a expensas do Estado. E muito menos na TAP. 

 

Ainda sobre viagens, a não perder é mesmo o filme "20 Centímetros", do Salazar. Realizador espanhol quase desconhecido do grande público, porém, maravilhoso. Pois o assunto é a transexualidade, vidas de putas, anões marginais e machões que adoram ser sodomizados. E, porém, a sensibilidade e os bons sentimentos imperam ali. Além do bom humor. Atributo crucial de qualquer pessoa inteligente. E digo mais, Madrid é Lisboa, com as necessária adaptações.

 

Pois é. Marietta é uma mulher num corpo de homem. Á conta disso tem de se prostituir. Porque, com aspecto de mulher e identidade de homem, ninguém lhe dá um emprego decente em horário diurno (ou, mesmo, noturno). Tem de cortar os 20 cm (20 cm!!!!!!) que lhe sobram ali perto da zona do baixo ventre. Entretanto, enquanto vai juntando dinheiro para a operação, faz as delicías (ela não, o membro dela) de muitos insuspeitos. Um deles até se apaixona por ela. Mas é um amor impossível que o homem é um grande macho passivo e não quer, por nada do mundo que ela, a mulher dele, se vá castrar.

 

 

A verdade é que Marietta, que é realmente uma mulher, e não um homem, cumpre o objectivo de se livrar do seu próprio pénis, tendo, por incompatibilidade de feitios, mandado o seu machão embora. Depois da operação ela vem feliz e uma mulher bonita. Normal, sem excessos de make-up ou decotes ladeados de lantejoulas.

 

 

Segundo pude entender, depois da cirurgia de mudança de sexo foi-lhe possível alterar os documentos e assumir legalmente a identidade própria, ou seja, de mulher.

 

Bom, então se for assim, Madrid está a anos de luz de Lisboa e as aparências iludem. Realmente os espanhóis! Aqui tão perto. Nossos ascendentes históricos (gostemos, ou não)... Primeiro inventam a legalização do aborto na península Ibérica. Depois, constroem uma legislação sobre reprodução assistida das mais liberais que há. Têm a "lata" de legalizar o casamento entre homossexuais. E agora isto: deram um passo de gigante no sentido da dignidade das pessoas que precissam de mudar de sexo. Ou melhor, da dignidade das pessoas.

 

Eu amo Lisboa e tenho muita vergonha!

 

publicado por Cat2007 às 09:28
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Agosto 15 2007

 

Os inadaptados é de longe a pior coisa que escrevi. Apenas não o apago porque  é necessário saber perder com classe, como dizia o Chaplin. E ganhar com ousadia. Como dizia, igualmente, o Chaplin.  Evidentemente, aqui não se trata de perder ou de ganhar mas apenas de uma coisa mal feita. Os Inadaptados. Bom, talvez tenha havido aqui algo a perder. Tempo. O meu. Se a cabeça não está leve, as mãos não devem descer sobre as teclas. Do teclado. Do piano. Do telefone. Veja-se a importância das teclas. É preciso cuidado quando se faz descer as mãos sobre elas. Até podem suceder coisas com a gravidade que o texto de Os Inadaptados não tem.

 

Estou sempre a falar em coisas. Quero dizer, estou sempre a chamar coisa ou coisas às coisas. Se falo de sentimentos, são coisas. Se falo de objectos, são coisas. Se falo de pessoas, falo das coisas delas. Coisas. Acho que o conceito da coisa em si me ficou das aulas de filosofia. Quase todos os filósofos falam assim das coisas. Chamando-lhes coisas. Embora seja verdade que igualmente adorem chamar às coisas objectos. Mesmo que estejam a falar de gente ou de ideias.

 

Bem, não era preciso escrever uma quantidade de coisas só para dizer uma coisa simples. Que os inadapatados são aqueles que não se safam. Que a consciência conta pouco para a aceitação social. Que, em suma, ser uma coisa bem adaptada significa não ser uma coisa que justifique muitas queixas ou reparos por parte dos outros. E que, por fim, um dos grande segredos para a boa adaptação é não ter uma consciência muito exigente. Exemplo: Mr Ripley. Resolvi dar este novo exemplo e esquecer o Jimmy. Por ter mais "pinta". O Malckovitch, principalmente.

 

Ontem o Oscar Wilde dizia que "fechar os olhos a todas as coisas que não são perfeitas pode fazer-nos cair num abismo". Porque estamos de olhos fechados, claro. Não que o abismo não seja em si uma coisa perfeita. Trata-se, mais uma vez, de um discurso sobre consciência. Ou melhor, de que o melhor é não ter muita. E tudo isto por causa do direito de propriedade sobre um leque. Leque este que não devia ter sido vendido porque era um objecto de grande valor estimativo. A verdade é que o seu vendedor o vendeu por um preço exorbitante. No confronto entre o dinheiro e a estima venceu o dinheiro, e sejamos práticos e. Estejamos pois in side.

 

Quando escrevi Os Inadaptados não estava boa da cabeça. As ideias simplesmente não me saíam com simplicidade. E eu devia ter parado. Não o fiz porque tenho um certo prazer em me autoflagelar sem chicote. Não apago o post porque tenho um sentido de justiça muito apurado. No mais, sou uma pessoa muito arrogante, infantil e pouco esperta. Três coisas que fazem todas parte do mesmo. De um conceito maior ao qual eu não sei dar o nome. Não sei dar o nome ao conceito englobante. Só às suas componentes integrantes. Repetindo, arrogância, infantilidade e falta de esperteza. Ou mesmo estupidez.

 

Lembor-me agora que quem se preocupava um bocado com a forma como aparecia a si próprio era o Virgílio Ferreira. Estava sempre a pensar nesta coisa. Ora, isso conduzia-o a outras. Com efeito, aproveitava imenso para ver a forma como os outros se viam a si próprios e apareciam aos demais. Foi então que ele disse que ter muito apetite e, pior, demonstrar o facto é uma vergonha. É uma vergonha porque está ligado à pobreza ou à animalidade, segundo os conceitos da aldeia. Fartei-me de rir.  

publicado por Cat2007 às 14:02
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Agosto 14 2007

 

O inadaptado não se pode confundir com os inadaptáveis. Estes não cabem, pura e simplesmente, no sítio concretamente objectivado. Há incompatibilidade de formas. O bico de um fogão não se adapta ao rotor de uma bilha de gás. E é tudo. O inadaptado é potencialmente adaptável a tudo e qualquer uma coisa. Só que não consegue. O inadaptado já foi testado e não serviu. O inadaptado não serve na maior parte das configurações porque não sabe tomar-se do molde adequado para o efeito. Não é capaz de fazer o que todos sabem com naturalidade. Neste aspecto, é igualzinho ao inadaptável. Tal como este, o inadaptado , se tem de se integrar porque tem que ser, tem sempre o aspecto de improvisado. Improvisado. Inseguro. Anti-séptico . Incómodo nem que seja só ao ver.

 

Há um sítio para o inadaptado. Um lugar onde ele cabe na perfeição. Um espaço onde ele se transforma em parte integrante, em motor e em cérebro. E é este o drama do inadaptado. Não tem escolha . Ou é aquilo ou nada. Ou é aquilo ou a angústia.

 

Mistic River . Que raio de personagem é aquele Jimmy Sean Penn )? O homem é uma espécie de justiceiro selvagem desprovido da dose de consciência básica necessára para o poder ser. Perde a filha. Coisas que acontecem também e especialmente no cinema. Sofre imensamente com o facto. Mata um inocente por engano. E está vingado. Nada lhe acontece porque, de algum modo, se sente que foi feita a devida justiça. O homem aplacou a ira. Exerceu vingança (acto altamente contributivo para a necessária leveza do ser - de qualquer ser, ao que parece). Enganou-se por bem. Matou um débil emocional. Ao que parece alguém sem esperança de se tornar um adpatado . Um homem que, ainda por cima, matou um pedófilo. Morreu porque teria que ser julgado (e enforcado?) pelo caso ouporque , em qualquer caso era um pobre infeliz. O Jimmy não foi punido. Nem por isto, nem por um marginal que também matou. É que, para além de ser um escroque, este segundo morto impediu o Jimmy de acompanhar os últimos momentos da sua mulher doente, mãe da filha posteriormente morta.

 

A polícia, a família e a Miramax estiveram com Jimmy. Para além disso Jimmy é muito bem aceite por todos os demais. Sem dúvida, é um adaptado. Valha-nos Deus!

 

publicado por Cat2007 às 17:54
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Julho 06 2007

Era preciso ter muita lata para dar um título a este post no preciso momento em que o começo a escrever. E não sei exactamente do que vou falar. Assim, nas primeiras impressões próprias conscencializadas, não tenho assunto. Acho que é a primeira vez que isto me acontece assim, de uma forma tão definida.

 

 

É claro que outros momentos houve em que comecei a escrever e acabei a dizer coisas que, no inicio, não foram imaginadas. Porém, sempre tinha algo para começar. Alguma coisinha parvinha, pelo menos. Hoje não. Hoje nada. E ESCREVO. Estou a escrever. Enquanto o faço, concentro-me na busca do assunto. Um assunto qualquer. Mas, até agora, nada.

 

 Parei. 3 segundos. Lembrei-me . É o seguinte: Ontem fui ver o "13 Ocean ...". Era isso ou o Manoel de Oliveira naquele filme com um nome francês. Não quero explicar porque razão é que as opções se resumiam a isto. Para o que importa, as escolhas eram estas.

 

Olhei para o cartaz (?) promocional do (novo) filme francês do Manoel de Oliveira. Estava um casal de idosos (?) sentado à mesa de um jantar (presumo eu, que iam ou estavam a jantar). Achei, foi quase uma certeza, vi como que iluminada, que o filme era aquilo. Aquela cena, apenas. Filmada de vários ângulos. Possivelmente sem falas. Uma ou duas lágrimas. Dois ou três sorrisos. Três ou quatro movimentos de mãos. Quatro ou cinco...bocejos do público.Não me interessa falar do Manoel de Oliveira porque considero que ele também não se interessa pelas pessoas normais que vão ao cinema. E, no entanto, o que importa é que ele seja feliz.

 

Mas o  Manoel de Oliveira tem 100 anos. Se não são 100 são 99. Não. É quase certo que tem 100 anos. Feitos há pouco. Até recebeu não sei o quê, embora saiba que foi dinheiro, do Ministério da Cultura para fazer mais um filme por causa disso. Da idade, ao que me pareceu. Tenho vontade de chorar. Não quero ver esse filme. E quase me sinto obrigada.

 

No entanto, pode ser que a saúde de ferro, lucidez e óptimo aspecto do senhor, autênticos milagres, inexplicabilidades, tenham uma razão de ser e/ou sirvam algum propósito elevado (até agora, têm servido para absorver subsídios do Governo, prémios em conceituados Festivais de Cinema Europeu - onde se recebem animais de ouro, ou penas de cristal, ou, possivelmente, câmaras em rapé, o que não é fácil  - bem como  servem, sobretudo, para chatear). De acordo com os padrões normais, o Manoel de Oliveira é um idoso.E deixemos, finalmente, o Manoel de Oliveira em paz. O padrão normal que nos guia na identificação de idosos é a idade. E depois o aspecto físico.

 

Chapéus de padrão quadriculado sobre a cabeça pendida ao peito, bengalinha de madeira, joelhos arqueados pelas artroses, mãos secas e venosas. Depois do 70, um individuo torna-se idoso. Não importa o que ele produz e os dotes que revela. O aspecto que tem. É um idoso. O Manoel de Oliveira tem um brilho de vida no olhar. Afinal, cá está o Manoel de Oliveira de novo. Como é isto possível? Um sorriso de saúde as costas rectas por mais tempo do que as minhas.. E faz coisas de uma exigência intelectual que me transcende o comum dos mortais de 30 anos. Tem 100 anos. Podia apostar-se que não tem mais de 70. Porém, 70. Seria sempre um idoso.

 

Como disse, apesar de não deixar de o fazer, não estou interessada em falar do Manoel de Oliveira enquanto cineasta. Não gosto. Estou ressentida. A transposição do Simão Botelho para um écran ainda me causa pesadelos hoje. Sinistro, porém entediante. É preciso ter muito talento para fazer coisas sinistras capazes de matar as almas de tédio. O meu ressentimento vem do facto de, por uma vez, por aquela vez, ter dado crédito ao homem e ter ganho não sei quantas dezenas de minutos de vida em sofrimento. Esta o Manoel de Oliveira vai ficar a dever-me para sempre. Também não me interessa falar dele enquanto pessoa. Não o conheço de parte nenhuma. Não tenho por onde andar.

 

O que quero é falar de idosos. O meu pai tem 79 anos, a minha mãe 69. O meu pai é bastante idoso, portanto. À minha mãe falta um ano. Sinto-me ressentidíssima com isto. E já vou explicar porquê. A palavra idoso é absolutamente detestável, apesar das boas intenções supostas. Um dia, se tudo correr dentro da normalidade, todos vamos ter mais de 70 anos. Haveremos de ser idosos. E como vamos odiar saber isso! Um idoso é um individuo de muita idade. Muita idade! Não com muitos anos de vida, como se canta nos "parabéns a você", note-se. Idade demais, pois. Demais. Porquê? Para quê? Talvez para estar vivo. Artroses demais. Comprimidos demais. Despesa social demais. Demasiada tristeza. Porque ser idosos é ser doente. Então, todos os doentes são idosos. Todos os inúteis são idosos. Porque todos os idosos são inúteis.

 

Os meus pais resolvem problemas com uma energia, com uma lucidez, com uma capacidade resolver que eu não tenho. Os meus pais sentem-se e são mais capazes do que os filhos em quase todas as coisas que importam. Os meus pais fazem mais quilómetros a pé numa semana do que eu num mês inteiro. Ando, contudo, a tentar habituar-me à ideia de que eles são idosos. Que, na verdade, não são pessoas para fazer nada do que realmente fazem. Não compreendo como eles não se convencem de que são idosos. Quase todos os dias aparecem notícias na televisão a dizer isso. "Um idoso de 72 anos perdeu-se em pleno Rossio". Ou "a nova política para a terceira idade...".

 

As generalizações sociais são decisões mentais, na generalidade, estúpidas. De um género de estupidez que magoa, faz mal. Esquecem sempre os ângulos concretos da vida. Tenho a certeza de que a grande maioria das pessoas incluídas no escalão etário dos idosos, não o são. Doentes, inúteis ou pobres de espírito. E, ainda que sejam tudo isto, ainda que vivam estas situações, não  são idosos. São apenas doentes, inúteis ou pobres de espírito. Embora eu não acredite em pessoas assim. Só, talvez, em doentes. Nunca em pessoas a mais. Com que direito nós declaramos que certas pessoas têm idade demais?

  

 

publicado por Cat2007 às 20:14
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