CAFÉ EXPRESSO

Outubro 23 2016

 

Clara: por acaso preciso que me explique. Porque suspeito que há-de ser algo diferente do que eu sinto pela Joana. A nossa paixão não nos engole. A nossa paixão dá-nos vida. A sua paixão devasta-a?

Madalena: Sabe que as palavras têm significados múltiplos. Uma paixão devoradora, é uma paixão que me consome. Que nos consome, aliás. A Teresa sabe o que eu quero dizer. Não sabes, Teresa?

Teresa: Sei. Absorve-nos.

Teresa respondeu com os olhos azuis postos nos dela. Fitaram-se a fulgir durante alguns momentos.

Clara: Parece que estão a falar de uma coisa que vos desgasta.

Madalena: Sim. É algo que nos deixa exaustadas física e mentalmente.

Joana: Clara, nós também sentimos essas coisas.

Quando disse isto, olhou para Teresa e enrubesceu.

Mas elas têm a experiência que nós não temos.

Teresa: Onde queres chegar, Clara? A que propósito vens falar da minha experiência na intimidade? Mas perdeste completamente a cabeça? De facto, esta conversa descambou. Eu não devia ter permitido que a Madalena te respondesse à pergunta da paixão. E de como é a nossa paixão. Estás a entrar despudoradamente na parte da minha vida que não te diz respeito. Ora, isso eu não te vou admitir.

Madalena: Já te disse para não seres paternalista comigo, Teresa. Eu não ia adiantar mais nada. Nem iria permitir mais avanços.

Clara: Desculpe, mãe. Eu não queria invadir a sua intimidade. A única coisa que eu quero perceber é a razão pela qual a Madalena a faz sofrer tanto.

Virou-se para Madalena.

Clara: É por isso que não gosto de si. Graças a si eu e a minha mãe passámos um inferno dentro desta casa. Quase nos perdemos uma à outra. E depois, quando a minha mãe se recuperou, a Madalena disse-lhe que já não a queria. E ela voltou a sofrer enormemente.

Teresa: Clara, estás a ser injusta com a Madalena.

Joana: Sim, Clara. A culpa do inferno por que passaram aqui as duas não é da responsabilidade da Madalena.

Teresa: Eu expliquei-te tudo quando conversámos. A culpa foi minha. Eu deixei a Madalena há vinte anos por ser homofóbica. Nunca a procurei durante esse tempo por ser homofóbica. Repudiei a tua relação com a Joana por ser homofóbica. Quando resolvi contar-te tudo, falei antes com a Madalena, que me aconselhou a não dizer nada naquele momento para não estragar a tua relação com a Joana. Mesmo assim, eu resolvi abrir o jogo todo. E foi isso que nos fraturou. Demorámos um mês a recuperar. E depois disso, foi possível falarmos. Lembra-te que, nessa altura, me mandaste ir falar com a Madalena. Numa altura em que eu temia que ela já não me quisesse mais por causa do tempo que estive sem a atender. Sem lhe dar uma palavra de satisfação. Foste tu. Para que vem agora dizer que não gostas dela?

Clara: Não gosto dela porque a mãe sofre por causa dela. Ela não a quis de volta. E eu vi a mãe chorar. E a mãe não chora sem um motivo grande. Agora, chego aqui a casa e a Madalena está cá consigo. E eu pergunto o que aconteceu? Já a quer de novo ou está só a alimentar-se de si?

Madalena: Talvez os pais da Joana também não gostassem muito de si se soubessem que abandonou a Joana num momento de exaltação e que a deixou um mês à espera de explicações sem a promessa de as vir a dar.

Joana: Os meus pais sabem. Eu contei-lhes quando fui doente para o Porto. De facto, estão preocupados comigo. Têm medo que eu sofra mais. É normal. Há-de passar-lhes. Sobretudo quando se aperceberem que eu sou feliz com ela.

Teresa: Perdão, Joana.

Madalena: Perdão Joana, está muito bem. Mas e onde está o pedido de perdão para a Madalena? Para mim. Eu que voltei de Coimbra em paz. Que não procurei ninguém. Que aceitei conversar. Que cedi no amor. Que perdoei no tempo. Que apostei de novo. Que me desiludi outra vez. Que voltei a tentar. E que, por fim, porque a Teresa resolveu fazer tudo à maneira dela, fiquei um mês sem descortinar como haveria de sobreviver. Porque para mim, ela tinha partido de vez. Mais uma vez.

Joana: E tu, Clara? Faz-me impressão que, mesmo apesar de tudo o que estavas a passar, não tenhas tido saudades, desejos…

Madalena: Sim. Isso, Teresa. Não sentiste nada? Como foi possível conceberes o fim de tudo?

Joana: Pois. Como foste capaz de aceitar o nosso fim?

Clara: Não estejas a meter tudo no mesmo saco, Joana. São situações diferentes.

Madalena: São situações idênticas. Sendo que a minha e a da Teresa é muito pior porque nós temos um passado funesto. Tudo se torna muito mais difícil de recuperar.

Teresa: Filha, somos duas sociopatas.

Madalena: Acho muito bem que brinques, Teresa. Porque o ambiente está realmente para o pesado. Mas é verdade que ambas demonstraram desinteresse pelos sentimentos de cada uma de nós.

Clara: Elas têm razão, mãe.

Teresa: Sim, Clara. Mas em que condições iriamos ter com elas? Se nós fizemos o mesmo uma à outra. Madalena, nós desistimos de tudo. Inclusivamente deixámos a nossa própria relação de mãe e filha à deriva. Entrámos ambas num estado depresso. E só voltámos a falar porque num certo dia demos conta que o tempo já tinha operado sobre as coisas. Como só o tempo o sabe fazer.

publicado por Cat2007 às 17:08
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Outubro 12 2016

Os dias passaram. Formaram semanas. A luz em casa de Amélia tinha fugido. Ninguém passava pela pequena sala de leitura. Que fora o seu quartinho de costura. Os demais sinais dela, espalhados pelos restantes lugares da casa, estavam bem disfarçados. Pelo que não eram percebidos por quem quisesse ignorá-los. O peso das respirações de ambas lograram baixar a energia vital que ela deixara para as proteger. Faltaram também as palavras. A mudez ensurdeceu tudo de tal modo que se ouvia um silêncio estrondoso pelos corredores. Clara dormia mais do que vivia. Teresa trabalhava com a mesma falta de alegria de toda a vida e ainda com mais empenho. Com efeito, o bom ânimo não contava no seu trabalho. Só o ânimo. O segredo estava no cérebro e no corpo. Sempre cheios de energia. O segredo não estava nas coisas que dão vitalidade à alma ou agitam o espírito. Teresa fugiu para lá. Para o trabalho. Mais uma vez. Por sua vez, Clara não podia mexer o corpo. Não ia por isso à faculdade. Dormia muito. Madalena. Teresa não atendia Madalena porque não ouvia o telefone tocar no meio do pesado silêncio que habitava a sua casa. Clara não telefonara a Joana por estar muda. Madalena deixou por fim de ligar a Teresa. Optou por esperar. O que quer que fosse. Joana não tentara falar com Clara uma única vez. Até que a primavera, que já se instalara há algum tempo, decidiu realmente aparecer um dia através dos vidros da janela. Alguém se esqueceu de fechar os estores dos espaços comuns desabitados. Talvez não tenha sido esquecimento. Certamente, pelo contrário, não foi preciso cerrá-los. Porque o céu se mantivera baixo e cinzento muito para além do inverno. Talvez os estores tivessem estado sempre abertos. As portas tinham vidros. E Clara não resistiu aos humores cruéis do sol que a atiraram para fora do quarto. Era dia. Teresa estaria com certeza no escritório. A esquecer-se da vida de acordo com a sua fórmula pessoal. Cada uma tinha o seu modo particular de fazer as coisas. Clara andou pesadamente pelo longo corredor. Soube-lhe bem porque estava escuro ali. As portas das divisões que ela cruzava estavam perfeitamente fechadas. Ao fundo, depois da esquina, outro ponto de luz natural se insinuava, porém. Foi até lá com o objetivo de fechar as janelas da grande sala de estar. Sobre a imagem da mãe, que recorrentemente lhe agitava o cérebro, sentiu-se descansada. Estava certa de que Teresa não estava em casa. De facto, há quase um mês que não se encontravam. “Como? O que está ela aqui a fazer?”. Teresa afinal estava em casa. Era de dia. Cedo da tarde. Teresa estava em casa. Talvez por via da falta de preparação e do tempo que passara, Clara falou-lhe sem querer.

Clara: Que horas são?

Teresa: Três.

Clara: Ah!

Teresa: Meti umas férias. Durante um mês não porei os pés no escritório.

Clara: Sim?

Teresa: Sim.

Clara acordou de vez. Sobretudo por causa dos raios de sol que lhe feriam o cérebro através dos olhos.

Clara: Vai de férias para algum lado?

Uma ponta de vida despontava dentro de si. Um específico raio de sol trespassara-a. A mãe estava mais magra.

Teresa: Vou para junto da minha vida. Seja lá onde for que ela está. Mas primeiro gostava de falar um bocadinho contigo. Se tu o desejares também.

Clara notou a diferença. A ponta de ternura na voz da mãe. Outra ponta de vida a despontar. Mais um específico raio de sol a atingia.

Clara: Sim.

As maçãs do rosto de Teresa ganharam cor. Talvez um específico raio de sol também.

Teresa: Eu não sou muito boa em nada. Eu não sou muito forte. Aliás, eu nem sequer sou rigorosamente inteligente. Eu não sou melhor do que sou. Eu sou o que sou.

Clara sentou-se no sofá onde ela estava sentada. Mas longe. Para não lhe tocar. Porém, no mesmo sofá. Calou-se atentamente.

Teresa: Tenho pena por ti. Tu és tanto que merecias uma mãe melhor do que eu. Muito melhor.

Calou-se. Olhou em volta. Dispersou o olhar sob a brancura do teto.

Teresa: Eu sou um sucesso.

Riu-se.

Teresa: Tenho tudo.

Parou de falar e de rir. Depois riu-se de novo.

Teresa: Sabes que eu sou a advogada mais bonita da sociedade.

Riu-se.

Teresa: Sabes. Sabes também que eu sou a melhor advogada de lá. Sou das sócias mais importantes. E todos, sem exceção, admiram-me e respeitam-me pelo meu trabalho e pela minha conduta privada.

Respirou fundo antes de voltar a rir. E riu-se. Depois voltou à postura séria.

Teresa: Há quem se atreva a dizer ou a pensar que a tua mãe não é uma mulher perfeita? E de ti, a minha filha, alguém se atreve a dizer que tu não és linda, inteligente e bem formada? Ninguém se atreve. Dos outros, nenhum se atreve a dizer que o meu mundo não é perfeito. Dos de cá, todos sabem dos meus handicaps. Tu, a mãe Amélia, a Madalena e a Joana. Eu consegui construir o sucesso da pele para fora. Fiz um produto. No entanto, da pele para dentro, há duas décadas que deixei de ser alguma coisa consistente.

Respirou fundo.

Teresa: Sabes, eu não quis a Madalena. Eu deitei fora a Madalena. Na altura o que me impressionou definitivamente foi a ideia de ter sido apanhada pela minha mãe a fazer amor com ela aqui em casa. Onde hoje é o teu quarto. Era o meu, como sabes. Extraordinariamente, a tua avó nunca me falou desse acontecimento. Nunca. E eu também não abordei o assunto com ela. Fiquei à espera, compreendes. Necessitava que ela dissesse alguma coisa. Para me orientar. Como ela não disse nada, assumi que lhe tinha dado um desgosto muito grande. Na verdade, menti-lhe escandalosamente. Andei, durante dois anos, a esconder-lhe quem eu era. É por isso é desde ai eu odeio a mentira. A mentira pode alterar de vez a vida de uma pessoa. Se eu lhe tivesse contado logo no princípio, talvez ela pudesse compreender. Talvez falasse comigo e me ajudasse. Não sei. Sei que aquela mentira e o silêncio dela me obrigaram a tomar decisões na minha vida. A mudar para ser o que ela gostaria que eu fosse, pensava eu. Sabes, quando ela nos viu, a mim e à Madalena, senti muita vergonha. Os sentimentos que eu tinha pela Madalena, que eram tão especiais e únicos, passaram a ser outra coisa. Feia. Não os pude aceitar mais. Não fui capaz. Por isso, pouco mais tarde engravidei de ti e casei com o teu pai.

Baixou a cabeça. Depois prosseguiu.

Teresa: Fiz tudo isso para fugir da Madalena. Embora, mesmo grávida e casada, eu pudesse voltar atrás. Emendar a mão. Ainda pensei nisso, sabes? E procurei-a na casa dela. Mas ela já não estava cá. Tinha ido para Coimbra estudar. E a ideia de ir atrás dela até lá, com uma criança nos braços, encheu-me de terror. Tinha a certeza que seria rejeitada. Não podia ir. Por isso resolvi convencer-me que ela já me tinha esquecido. Eu era muito imbecil, Clara. Tão imbecil como continuo a ser. Nem considerava a dor da Madalena. Como agora não estou a considerar. Não falo com ela há um mês. Eu só me preocupo com os meus dramas, como vês. Agora com o nosso drama. O meu e o teu. É natural que a vá perder de vez.Mas não posso fazer nada enquanto não te tiver de volta. Nunca esperei é que demorasses tanto tempo a aparecer.

Voltou a respirar.

Teresa: Só muito mais tarde a minha cabeça se permitiu deixar passar a verdade. E a verdade é que a avó nada teve a ver com as opções de vida. Porque ela me disse um dia, ainda o teu pai era vivo, que uma pessoa para ser inteira e íntegra necessita absolutamente de viver em concordância com o que sente e o que sente tem que estar harmonizado com o que pensa e o que diz. Foram mais ou menos assim as palavras dela. Não chegou a ser uma conversa porque nada mais adiantou. Não queria. Porque eu estava casada. Eu é que tinha de decidir a minha vida. A minha mãe era assim. Respeitava-me intensamente. Mas eu não a ouvia corretamente. Ou melhor, entendi perfeitamente onde ela queria chegar. Ela disse-me o que eu tanto desejei ouvir. Mas antes. No entanto, ali, naquele momento, a fraqueza tomou-me por completo. Devia ter-me divorciado porque sou lésbica. Mas não. Eu, antes pelo contrário, resolvi manter-me casada e respeitável.

Teresa falava com os olhos pregados nas mãos, que ia apertando uma na outra. De vez em quando, levantava a cabeça pra ver a filha.

Teresa: Quando tu já tinhas para ai uns dez anos, pensei contar-te que gostava de mulheres. Mas já tinha perdido a Madalena há muito. E não queria mais ninguém. Estava decidida a não ter mais mulher nenhuma. De que serviria contar-te, então? Foi mais fácil prosseguir a vida assim como estava. Nunca imaginei que haveria de estar com ela vinte anos depois. Portanto, eu sou lésbica. E sempre fui. Nunca deixei de ser. Sucede que não te contei porque não imaginei o que o futuro me reservava. O regresso da Madalena. E a joana na tua vida.

 

publicado por Cat2007 às 21:30
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Outubro 08 2016

Clara não viu o alcance das palavras da mãe. Mas esforçava-se muito para compreender. Para entender tudo. Sentia-se cheia de uma urgência súbita de perceber o que ela lhe ia contar. Na verdade, aquilo que nunca quisera perguntar. Porque não desejava realmente saber. Teresa já tinha começado a falar. Clara espalhava nas diversas expressões e gestos toda a sua boa vontade face ao que estava para vir. O que quer que fosse. O medo aparecera-lhe ainda agora.

Clara: Acho que percebo onde a mãe quer chegar.

Teresa: E amores?

Teresa sentia-se mais perto do objetivo. E já não conseguia pensar nas consequências do que ia revelar.

Clara: Então, há pouco disse-me que amou o meu pai. Embora à sua maneira… Teve um amor, portanto.

Clara arremessava as palavras sobre a mãe. Tentava calá-la.

Teresa: Até hoje tive um amor. Um único amor.

Clara: O meu pai.

Era a segunda tentativa de Clara.

Teresa: Não.

Para Teresa a vida jogava-se assim. Antes de tomar a decisão de contar, a angústia perseguiu-a. Agora só pensava em chegar ao fim. A ansiedade sobre o resultado de tudo aquilo empurrava-a para a frente.

Clara: Não?

Malgrado o que a mãe lhe dissera antes, a surpresa que evidenciou no rosto era absolutamente verdadeira. Existe uma diferença no nível de convencimento humano em situações como esta. Há pelo menos dois estágios de certeza. O primeiro é quando os indivíduos têm todos os dados à disposição para formar a sua ideia. Nestas circunstâncias ele retira as conclusões corretas. Embora não lhes confira a devida credibilidade. Esta, na verdade, depende da confirmação. Com efeito, só quando os factos são confirmados por quem de direito é que se tornam credíveis. No fundo, pouco importa se conseguimos ver a existência daquilo que não nos interessa que exista. Nunca o saberemos valorizar enquanto dado real que é. É por esta razão que a verdade depende das pessoas e das circunstâncias em que elas se encontram. O individuo sozinho é incapaz de fugir a este esquema comportamental. Assim, Clara ficou efetivamente surpreendida quando a mãe lhe revelou que o pai não fora o amor da sua vida. “Outra pessoa.”. Alguém que Clara desconhecia por completo, imaginava. Temeu pelo nome.

Teresa: Casei com o teu pai. Gostava muito dele. Mas nem por sombras o amava. Mas como estava grávida de ti, casei com ele. Mas também casei com ele porque tinha que me afastar da pessoa que eu amava. Era necessário virar as costas a esse amor. Foi o que fiz. Pareceu-me uma tarefa possível. Daí que tomei as atitudes que tinha a tomar. No entanto, não ficou nada arrumado. Afinal, não era possível virar costas. Esse amor voltou para perto de mim. Procurei-o e voltei lá.

Clara: Voltou la?

Clara estava com um peso insuportável sobre o peito.

Teresa: Sim.

Clara: Mas quando?

Agora Clara já falava como se estivesse com dificuldades em respirar.

Teresa: Recentemente. Há uns meses. Em novembro passado.

Clara quase lhe gritou.

Clara: Quem é, mãe? Como se chama?

Teresa: Madalena.

Nada em Teresa mudara quando referiu o nome. Há já alguns minutos que uma espécie de autismo relativo a acompanhava. Conseguiu atravessar a conversa com a filha com a rapidez das poucas palavras utilizadas.

Clara: Madalena? É… também é uma mulher. A mãe fugiu de uma mulher!

Clara olhou em volta. Confirmou o movimento giratório das portas e janelas. Principiou a cambalear. Estava de pé quando sentiu a náusea. Estendeu uma mão sobre a madeira da mesa que tinha sido da avó Amélia. Tinha necessidade de se apoiar.

Clara: Madalena… É professora na minha faculdade não é? A mãe… a mãe é a namorada que voltou.

Teresa: Exatamente.

Aqui terminou o autismo de Teresa. Uma vez calada, sorriu a despropósito. Por causa do nervosismo que subitamente a invadiu. Depois da revelação, Teresa voltara de novo a olhar para a filha. Importavam-lhe muito os sentimentos dela. No entanto, só agora.

Clara estava já de costas voltadas.

Clara: A joana sabia que era a mãe?

Teresa: Sabia.

Teresa ainda lhe viu o esgar de dor e de espanto antes de a ver sair muito depressa.

publicado por Cat2007 às 09:56
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Outubro 01 2016

Quando ouviu a chave na porta, Teresa levantou-se muito depressa pela força de um impulso. Imaginou antes que Clara estava em casa. E surpreendeu-se por ela ter também passado a noite fora. Porquê? E onde teria ficado? “Agora não importa”. Clara apareceu. Viu a figura da filha completar-se diante dos seus olhos e teve a impressão que os fenómenos se verificavam com extrema lentidão. Não sabia bem por onde começar. Foi longo o tempo em que foi usada pelo seu próprio espírito torturado. Não se via pronta para contar à filha sobre uma parte da sua vida que ela não conhecia. A parte não resolvida da sua existência. O que ia comunicar a Clara era um dado inalterável. Porque fundamental. Um elemento da estrutura da sua personalidade que, na sua ainda torpe perspetiva, a pintava por completo, conferindo-lhe uma tonalidade doentia. Teresa, sem, porém, o aceitar plenamente, assumira finalmente que era “Lésbica”. No entanto, Teresa não aceitava que gostava de mulheres. Porque isso não era verdade. Teresa amava uma mulher. Nunca sentira nada por outra que não fosse aquela. Madalena. Com quem praticava todos os atos inerentes ao amor. O que lhe dava um prazer extasiado. Não poderia renunciar mais a tal prática. E por isso também não podia esconder-se mais. Sobretudo da filha. Tudo isto tinha a ver com a verdade. Dizer sempre a verdade, como a mãe Amélia lhe ensina. Lembrava-se que foi porque não disse a verdade à mãe que a sua vida mudara tanto. Nunca chegou a conversar com ela sobre a verdade de quem era. Embora a mãe lhe tivesse dito um dia mais tarde, quando Teresa já estava casada, que a verdade mais importante é aquela que devemos a nós próprios. Só aí Teresa compreendeu que Amélia a reconhecia e amava como era. Que tinha pena que a filha se tivesse casado. Com exceção da criança maravilhosa que nascera. Mas aí já era demasiado tarde para ela e para Madalena. E sendo verdadeira consigo própria, Teresa reconhecia finalmente que a sua homofobia era sua. Nada tinha a ver com a mãe Amélia. Tinha-a adquirido pela adaptação da sua personalidade ao mundo. Porque Teresa, que foi criada como se fosse um ser especial e mágico, andou a imaginar que era perfeita. Aqui Amélia tinha culpas. Muitas culpas. Ainda agora, no momento em que ali estava diante da filha para lhe contar tudo, Teresa sentia que ser lésbica era entrar no espírito de uma pessoa que se opunha à sua ainda atual imagem de si própria. Por isto também, se via pouco segura e por isso um tanto incerta sobre as suas decisões e atos subsequentes. Era, porém, certo que Teresa imaginava a verdade. Não a vendo, acreditava nela com um fulgor religioso, Tinha fé na verdade, deixando-se guiar por ela em submissão plena. A verdade conferia-lhe a força e a convicção com que enfrentava a vida. A verdade não era a verdade. Era a verdade de Teresa. Absolutamente subjetiva. E foi assim que, durante os vinte anos de vida de Clara, onde jamais se aproximou sequer de uma mulher, Teresa viveu na mais pura verdade. Agora os últimos dias de angústias misturadas com o mais profundo prazer e amor, empurravam-na para o plano intolerável da mentira. Daqui apenas poderia sair se contasse tudo à filha.

Começou, por falta de uma boa ideia, a caminhar num lento, firme e pesado vai e vem. Mesmo em frente dela. Como se estivesse a prepara-se para dizer algo muito bem elaborado, Enquanto as ideias necessárias lhe fugiam velozmente do espírito. Clara, em silêncio, olhava para o movimento grave da mãe com uma expetativa dolorosa. Perfeitamente convencida pela simulação.

A certa altura, Teresa deixou de poder suportar aquela situação. O espirito turvo manietava-lhe o cérebro já exausto. Por isso começou a falar com as primeiras palavras que lhe saíram da boca.

Teresa: Passaste a noite fora e não me avisaste. Posso saber onde?

Clara: Bom dia, mãe. Não quis ficar aqui sem si. E a mãe anda tão embrenhada no seu novo romance, que achei que não valia a pena avisar.

Teresa: Tens sempre que avisar. Como eu faço contigo, aliás. Esta casa tem regras, menina. Além de que, nenhum romance que exista vai alterar a nossa relação e as regras que a regem. Onde dormiste?

Clara: Em casa da Joana.

Teresa sentiu o peito comprimir-se um pouco.

Teresa: Como assim em casa da Joana?

Clara: Porque não em casa da Joana?

Teresa tinha um propósito para aquela conversa. Não era oportuno estar a querer agora apurar junto da filha a razão pela qual dormira em casa da amiga lésbica. “Se bem que isto é muito estranho”. Mas deixaria essa conversa para outra ocasião. Agora importava o que importava. Assim, em vez de a inquirir, aproveitou a deixa.

Teresa: Sabes, eu não me esqueci de como ficaste incomodada das vezes que te questionei em relação à Joana. Chegaste a chorar. Creio que imagino porquê.

Baixou a cabeça, franzindo a testa.

Teresa: Penso que sei também as razões que te têm levado a evitar tocar mais nesse assunto.

Clara apertou as mãos com força.

Teresa: Não sei como chegaste lá. Mas parece-me que chegaste. Enfim, eu odeio a mentira, Clara, tu sabes.

Teresa sentia a tensão na garganta quando falava. Doía-lhe. Como lhe doía o peito todo até às costas.

Clara ficou aflita. "Eu bem dizia que ela sabia. Era tudo uma questão de tempo. E agora. Como vai ser?"

Clara: Eu sei mãe. Mas saiba que a verdade nem sempre pode ser pronta. A mãe sabe. Quem tem de a proferir quantas vezes não a domina. Quer dizer, se quem tem que dizer a verdade não a conhece toda, como a pode revelar? Percebe onde tento chegar, mãe?

Teresa sobressaltou-se. O que Clara acabava de dizer revelava um inesperado conhecimento dos factos. “A Joana contou à Clara que eu ando com a Madalena. Eu já devia estar à espera disto. E agora?”.

A réstia de autodomínio com que começara a falar dissipava-se agora. Estava trémula. Era necessário abrir rapidamente aquela conversa.

Teresa: É um pouco assim é. De qualquer modo, neste caso, não é só isso. Neste caso, a verdade não foi dita em função do cometimento de um erro grave. É sobre este erro que eu quero falar-te.

Clara: Que erro, mãe?

Teresa: O erro de uma má escolha. A opção por um determinado tipo de vida.

Clara: A Joana não é nenhum erro na minha vida, mãe.

Teresa: Desculpa… a Joana?

Teresa não a alcançara de imediato.

Teresa: Eu não estou a dizer que a Joana está enganada. Antes pelo contrário.

Clara: Enganada em quê, mãe? A Joana não é responsável por nada.

Teresa: Responsável?

Ficaram em silêncio. Porque Clara já tinha dito o bastante. Teresa vislumbrou, assim, um clarão de luz ao longe que se aproximava rapidamente dela. Em brave tudo se iria tornar tão claro que a iria cegar. Antes do impacto inevitável com semelhante luz, Teresa teve oportunidade de ver um pequeníssimo filme entre Clara e Joana onde se viam numa fração de segundo todos os sons e imagens das duas que já tinha visto.

Teresa: Não é um erro? Queres dizer…

Clara: Não é um erro porque existe um sentimento fortíssimo entre nós, mãe. Não imagina que eu me envolveria com uma mulher de um modo leviano. E…

publicado por Cat2007 às 11:07
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