CAFÉ EXPRESSO

Dezembro 27 2010

 

 

Não me lembro de ti. Dizem que a memória dos bebés existe mas os factos ficam para sempre no inconsciente. Acredito que existes ali. No inconsciente. No meu. Espero que sim. Porque isso é sinal que te recebi. O problema é que me deram muito poucos brinquedos durante o tempo em que durou a minha vida de criança. Tão poucos. Parece que não recebi nenhum. Esforço-me na memória passada para ver. E, de facto, nada me vem à cabeça. Creio que nos tempos em que tinha memória não recebi brinquedos. Dos meus pais. São eles que me importam. As minhas dúvidas nascem disto. No Natal nunca houve. E nos aniversários sempre foi assim. Não recebia brinquedos. Os que queria e os que não me tinha ocorrido querer. Noutras alturas recebi um brinquedo ou outro. Mas não sei de quem. Se foi o pai ou a mãe a dar, estou quase certa que recebi a pedido ou por distracção. Assim não vale. É por isso que não me lembro de nada já do tempo em que comecei a ter memória.

 

Mas faz-me sentido ter-te recebido a ti. O meu primeiro brinquedo. Deves ser uma roca. Um objecto da praxe para distrair. Não eras bem um brinquedo. Porque eras uma roca. Porém, devo ter gostado de ti. Aposto que me distrai contigo e me esqueci de chorar algumas vezes. Penso que isso é ser um brinquedo. Pelo menos é ter funções de brinquedo. Hoje acho que somos muito aquilo que fazemos. Se tu fazias de brinquedo é porque eras um brinquedo. O meu primeiro brinquedo.

 

Agradeço-te muito teres passado o teu tempo comigo. Com se fosses um cão para bebés de colo. Foste minha amiga. Como um cão. Depois de ti. Depois de cessares as tuas importantes funções necessariamente transitórias, eu queria que me tivessem dado um cão para brincar. Assim tinha recebido mais um brinquedo e um amigo. Adequados à minha nova idade. Sei que não te importarias. Por isso mais uma vez obrigada.

 

publicado por Cat2007 às 16:29
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Dezembro 20 2010

 

 

Sobre brinquedos. É importante para as crianças receber brinquedos?

 

A memória infantil tem um ponto de inicio. Antes disso, qualquer coisa das coisas que se passam não afecta conscientemente a pessoa pequena. Claro que as implicações interiores de factos marcantes são registadas e guardadas no cérebro. Tudo fica guardado no plano do inconsciente, pelo que é impossível lembrar. Então quando foi o momento em que recebemos o nosso primeiro brinquedo?

 

Não, antes disso, o que é o primeiro brinquedo ou, melhor ainda, o que é um brinquedo. Dependendo da idade a resposta pode ser diferente. Lembro-me de ver bebés ainda na fase do berço a estranharem vigorosamente rocas e peluches muito lindos comprados nas boas lojas da especialidade. Mostrar indiferença também é um modo de estranhar vigorosamente, esclareço. Vi-os muito mais interessados, logo distraídos, com objectos de uso particular da vida dos adultos. Chinelos grandes. Tampas de tachos. Livros só com letras. E nem me lembro mais do quê. Creio que eram brinquedos para eles. Notei ainda que, passada tal fase, o interesse continuava a ser maior nas outras coisas em deferimento dos brinquedos. Concluo assim que os instrumentos de uso normal na vida são brinquedos infantis na concepção e nos gostos das crianças muito pequenas.

 

O conceito de brinquedo é imprimido no espírito das pequenas pessoas a partir do exterior. "Toma querido, isto é para ti. Para tu brincares. Não, não. A Ficha tripla não (fora da ficha). O telemóvel não. As meias do pai não". Insiste-se nisto. Até que as crianças percebem o que é um brinquedo.

 

Depois, no colégio, em interacção afectiva-afirmativa primária comparam os seus brinquedos com os das outras crianças. Acabam por querer mais brinquedos. Maior diversidade também. Ainda mais sofisticados. E em retrospectiva são capazes de se lembrar de qual foi o seu primeiro brinquedo. Que retroactivamente assume a importância do primeiro amor. Assim a professora ou algum adulto lhes pergunte qual foi. A pergunta tem em si esta carga. A criança percebe logo. Talvez nunca mais esqueça qual foi o seu primeiro brinquedo da idade pós-amnésica. Eventualmente, vai buscá-lo ao sítio onde a mãe o guardou, se foi o caso, e leva-o para os seus domínios infantis. Tenho amigas que hoje ainda são capazes de exibir a sua primeira boneca. Tudo depende da mãe a ter guardado no momento certo e até ao momento certo.

 

Concluo que os brinquedos, no sentido clássico do conceito, são uma ficção. As psp portáteis e os nintendos não são brinquedos. A prova está no delírio dos adultos quando se metem a jogar com aquilo. Não há-de ser porque são uns infantilóides. Um brinquedo é um objecto  cujas características permitem às crianças momentos de abstracção feliz em face do real. E também aos adultos. Portanto, toda a gente precisa de brinquedos.

 

Por fim, não, não me lembro do meu primeiro brinquedo. E creio que isto é muito natural em face das circunstâncias pessoais do meu momento de vida infantil.

 

publicado por Cat2007 às 15:10
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Maio 16 2010

 

 

 

Todos nós vivenciámos experiências traumáticas na infância. É assim por definição. Mesmo os que de nós foram melhor protegidos e mais bem tratados. Sofrer pelo susto e pelo medo são elementos integrantes do conceito de vida infantil.

 

É fácil de compreender. Quem não tiver filhos pode sempre observar os filhos dos outros. Verificar a inocência e a dependência pela extrema fragilidade, que é absoluta. A calma, tranquilidade e a segurança das crianças, a sua lucidez particular, a sua felicidade, mesmo quando não têm muitas razões para a ter, existem naturalmente. Neste caso, é como se pudessem encontrar  a sua alegria em pedaços espalhada por labirintos. E encontram sempre. Um bocadinho aqui. Um bocadinho ali.

 
Mas os pais. As suas acções e reacções. Grande parte dos problemas infantis nascem, crescem e agudizam-se por culpa exclusiva dos pais. A agressão, o abandono, a displicência, a ignorância e, em suma, a incapacidade de saber amar. A incapacida de saber amar é muito importante aqui para o caso. Resulta inclusivamente, ou também, do excesso de amor (melhor, do excesso de zelo).
  
Ser mãe ou pai será a maior responsabilidade de um ser humano. E, eventualmente, ninguém pensa nisto com a devida seriedade. Ponho-me a pensar nas normas sobre o contrato de casamento. A união entre duas pessoas com vista a uma série de coisas, sendo a principal destas constituir família. Ou seja, e ainda que assim não seja, ter filhos. Procriar.
 
É muito católico isto. E se é católico é para ser bom, de acordo com as convicções católicas sobre o bem. É, de resto, igualmente, algo muito selvagem porque essencialmente instintivo. Podemos afirmar, até, que o espírito católico anda ligado à selvajaria, uma vez que a maior parte das suas regras têm raiz na organização dos indivíduos segundo o império das normas dos instintos primários. Desejo sexual, ordem natural e domínio.
  
Portanto, um casal sem filhos não o é verdadeiramente, segundo a bondade das convicções católicas. Por outro lado, é muito pouco católico não ter meios para alimentar, vestir e mandar as crianças para a escola. Embora subsista, sempre e em qualquer caso, a obrigação de procriar. Deus se encarregará de tudo aquilo que a incompetência ou a indignidade cristã dos pais não possa, mas deva. Digo que é muito pouco católico porque os católicos só toleram a pobreza nos monges.
 
Como em quase tudo, lucidez, generosidade, equilíbrio, e sorte são as palavras-chave.
  
Lucidez porque não basta a grande ajuda dada pelo instintivo amor mãe-filho/pai-filho. Na maior parte dos casos, é um amor sem reservas. Mas, também, na maior parte das situações, é um sentimento desordenado. O instinto de preservação da espécie que nos leva a desejar procriar. Se, por um lado, impulsiona o afecto visceral pela cria, por outro, tende a confundir a imaginação, provocando delírios de identidade espiritual com a pequena criatura. E culmina em projecções do ego dos pais sobre a identidade dos filhos. Dentro deste circunstancialismo, em princípio, o amor paternal desconhece o sentido da palavra liberdade. A lucidez está em admitir que ali está uma pessoa. Mesmo que seja uma pessoa muito pequenina, que não ande, não fale e não se saiba alimentar. Que não merece, por isso, muito respeito.
 
Mas pior do que isto, e trato agora da generosidade, é, ainda, o efeito tapa-buracos dos afectos. Buracos nos espíritos paternos e o amor pelos filhos a funcionar como uma espécie de massa de cimento milagrosa do espírito emocionalmente coxo dos pais. E aqui entra a generosidade que muitas pessoas não têm. Sobretudo as emocionalmente torcidas. Enfim, mas emocionalmente torcidos somos todos nós, porém, sem dúvida uns mais do que outros. Outros que vêm nos filhos o reflexo do seu ego ou/e os que os  confudem com estradas ou caminhos por onde pensam que corre o sentido da sua própria vida, que há muito não tem sentido próprio nenhum.
 
Em termos práticos, e quanto a este assunto, o equilíbrio é quase o mesmo que a generosidade. Aceitar o outro. Mesmo que o outro seja um filho. É tremendamente difícil por causa da identidade genética, do poder e do ego. É uma prova tremenda e um passo crucial no processo de crescimento de cada ser humano. Daí que a decisão de procriar tenha de ser uma decisão. Não uma obrigação. Não uma decorrência natural. Quem não pode, não tem. Até poder. Se puder. Equilíbrio.
 
 Há crianças que são agredidas. Há crianças que são violadas. Há crianças que são assassinadas. Há crianças que passam fome. Há crianças que estão sós. Há crianças que têm medo. Há crianças que choram. Há crianças felizes. Todas as crianças não percebem. Nada disto. Cada criança tem um mundo particular de alegrias, terrores, fome e sono onde o meio termo parece não existir. E as emoções alternam-se ciclicamente. Há crianças com sorte. Há crianças sem sorte nenhuma. Há crianças. Todas as crianças somos nós.
 
 
Nota: O texto acima foi escrito e publicado neste blogue há muito tempo. Republico-o agora porque hoje o conteúdo me faz todo o sentido.

  

publicado por Cat2007 às 02:16
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Outubro 08 2009

 

 

 

O meu nome é João. Sei apenas que nasci. Sei, também, que aconteceu na maternidade Alfredo da Costa. A mim e à maior parte dos nascituros de Lisboa. Sou, inclusivamente, amigo de alguém que passou pelo mesmo, no mesmo dia, mas não à mesma hora. Ali na Alfredo da Costa. É verdade, somos amigos desde a escola preparatória. Conhecemo-nos e soubemos da coincidência. Ele gosta de mim. E também gosta de mim de um modo diferente do que eu gosto dele. Apenas porque se importa com isso do dia de nascimento. De termos nascido no mesmo dia.  Por  mim, não sei bem o que pensar sobre esta exacta questão. Não penso assim.

 

Não me lembro da maternidade Alfredo da Costa em relação a mim. Apenas tenho vagas memórias sobre as duas ou três vezes em que tenho consciência que lá estive. Uma delas foi para acompanhar a mãe de visita à "senhora lá de cima", que foi ter um bebé. Eventualmente, nas outras ocasiões fui lá ver a minha própria mãe, que também foi ter um bebé. Infelizmente, depois de mim, a mãe teve mais filhos.

 

Estou certo de que não  gostei de ter mais irmãos. Como hoje não gostaria que um estranho me entrasse em casa sem autorização. Como um colega de trabalho me levasse o carro só para ver quanto dá em autoestrada. Como se, dos vinte cigarros que fumo por dia, que são meus, dez fossem para deitar fora sem qualquer motivo aparente. Não sei se esse desgosto foi imediato ou se surgiu quando o organismo como que me pediu mais nicotina. A que já lhe vinha faltando.

 

Dos hospitais da minha infância recordo o da Estefânia. A impressão que tenho é que foi neste que nasci. É o que a memória me indica, e está errado - basta olhar para o meu bilhete de identidade. Mas sei que fui atropelado por um carro. Levaram-me para lá porque era criança. Sei muito bem que estive lá deitado numa maca. Fui muito bem tratado. Com sorrisos e permissões. Com a excepção de não me poder levantar da maca. Mas também não queria.

 

O pai e a mãe estiveram sempre ao meu lado. É assim que me lembro. E pode não ter sido assim. Mas o que importa é o que eu lembro. Lembro, como se fosse agora,  nos nervos dos meus dez dedos das minhas duas mãos o momento em que não lhes larguei os tecidos porque os mandaram para casa. Eu ia lá ficar pelo menos uma noite em observação. Recordo o pânico na força tenaz dos meus pequenos braços a tremer. Não sei exactamente porque razão não podia absolutamente ficar ali. Lembro-me que sem eles Não! Gritei, por isso, todo o choro que tinha para expressar. O meu medo causou o talvez receio na medida certa para eu sair. Deram-me alta nestes termos.

 

Recordo a caixa dos bolos de pastelaria. Não vi a bola de Berlim, mas é provável que lá estivesse no meio dos outros. Eram vários. E todos para mim. Foi a mãe quem foi comprar de propósito. Deu-mos como a restituir os dez cigarros que há muito me faltavam, e nunca deixei de sentir falta. Perguntei se podia fumá-los realmente. Sim. Eram todos para mim. É bom ser atropelado.

 

Muito mais tarde, contaram-me que fora um bebé de colo muito doente em certos períodos . Que fui para o hospital da Estefânia muito mal, muitas vezes, nos braços apertados de aflição da mãe. Em perigo de vida. Senti-me muito gratificado retroactivamente. Senti saudades dos braços apertados da mãe que não me lembro de jamais ter sentido. Se a memória se alimenta e cresce das emoções, talvez eu me lembre disso tudo e perceba porque continuo a sentir que nasci ali, no hospital da Estefânia.

 

publicado por Cat2007 às 13:59
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Janeiro 02 2009

Eu sou demasiado euzista. É só.

 

publicado por Cat2007 às 14:59
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"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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