CAFÉ EXPRESSO

Junho 12 2017

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A responsabilização faz-se sobre as pessoas em relação às coisas que elas não fizeram bem mas deviam. Está delimitado o âmbito. Mais do que isto é abuso. Menos do que isto é laxismo. O sentido de justiça é o princípio que rege a matéria.

 

Como diz, e bem, a Joss Tone, todos tem os o direito de errar. "The right to be wrong". Errar é, aliás um exercício de grande utilidade. O erro liberta o espírito de embaraços supréfulos e é um dos mais eficazes instrumentos de aprendizagem. Sobretudo porque não há quem não erre. Não errar é desumano. Por isso seria um absurdo proclamar "no right to be wrong".  

 

O que importa é medir os danos. É preciso responder pelos danos. Na medida certa. Ou seja, a medida do pagamento tem de ser igual ao montante dos prejuízos. Assim mesmo. Se mais. Sem menos. Com certeza que os danos morais e as expectativas legítimas estão aqui incluídos. São contabilizáveis. Embora de conta difícil. Porém, não impossível.

 

Pedir desculpa é bom. Faz bem à contraparte, mas se for só isso é um facto de baixa produtividade e de nenhum interesse. Pedir desculpa é só a primeira parte. O primeiro acto. O acto que fica sem sentido se não for seguido pelos demais correspondentes.

 

E voltando atrás, os erros pagam-se em função dos danos. É natural que este processo implique dor. Temos pena.

 

Mas temos mais pena de quem pede cabeças. Eu sou contra a pena de morte. Porque o princípio aqui em causa é o da justiça. Justiça sem humanidade não faz sentido. Humano é o erro. Não pode ser tão irreversível como a morte.

 

publicado por Cat2007 às 13:26
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Setembro 24 2016

Clara: É verdade. Tu és uma mulher. E eu quero-te tanto.

Joana reanimou.

Clara: Um sentimento como este não surge pela razão e ultrapassa a vontade.

Os olhos de Clara estavam húmidos. Mantinha-se a olhar para o mar.

Clara: E agora que já matei um pouco da minha sede em ti, a boca seca-me. Preciso de mais. Já compreendi que nada há a decidir. Não há nada para pensar. Mas há opções, se quiseres. Ou vives o que sentes ou foges. Hoje eu já sei que, se foges, morres devagar. Se virares as costas, a Joana que tu és desaparecerá ao mesmo tempo que eu for desaparecendo da tua vida, afastando-me dos teus sentidos.

Joana estremeceu.

Joana: Desculpa. Que estupidez.

Clara: É claro que desculpo. O que posso fazer se tens medo? Sei que há muitas coisas que não percebes. E há tantas coisas que não percebo também… Claro que te desculpo. Também tive tanto medo.

Joana: Mas este medo que surge agora leva à falta de coragem. E a falta de coragem obriga à mentira como aquela que eu lancei: “Pode parecer muito e não ser nada”. Foi isto que te disse. Menti-te.

Clara já se virara na direção dela. Porém, mantinha-se de pé com os braços cruzados, fixando-a com gravidade.

Clara: O medo de sofrer é um dado. Mas é preciso dar atenção ao medo. Porque pode induzir-nos ao erro. Uma forma de errar é mentir. E mente-se por cobardia, na maior parte dos casos. Nós não podemos garantir que jamais voltaremos a errar. Ainda que o erro seja exatamente o mesmo. Se eu errar, espero que também me saibas ver e não duvides que te amo.

Joana baixou a cabeça. Não podia conceber que um dia podia ver Clara errar.

Clara: Leva-me para casa.

Joana: Já? Ainda estás magoada comigo. Não me perdoaste, afinal.

Clara falava-lhe com calma. Perdoei-te com certeza. Compreendo-te, como te disse. Acontece que estou estoirada. Não queres saber o que aconteceu hoje de manhã?

Encaminhavam-se para o carro devagar. Iam conversando.

Joana não respondeu.

Clara: Ontem à noite… ontem à noite fui uma fraca. A minha mãe está quase certa de que existe alguma coisa entre nós. E eu neguei tudo. Menti-lhe, como nunca lhe menti na vida. Chorei e tudo para a convencer.

Joana sabia quem era Teresa. Sabia que Teresa andava com Madalena. Teresa sabia por Madalena que Joana era lésbica. Que tinha havido um caso. O facto de Joana e Clara serem as melhores amigas, era aos olhos de Teresa um sinónimo de preocupação. “Já aconteceu, Dr.ª Teresa”. Joana não era defensora da ideia da verdade sobre todas as coisas. Não concordava com Clara nessa visão que lhe tinha sido imposta pela mãe com a educação. Há verdades que não devem ser ditas. Joana escondia muito conscientemente de Clara o que sabia. “A mãe dela é lésbica e anda com a Madalena”. Não lhe podia dizer isto. Porque não tinha competência para tal. Talvez mais tarde Clara não lhe perdoasse. “Talvez não perdoe logo. Mas depois há-de passar-lhe”.

Joana: Clara acorda, por favor. A tua mãe não sabe nada de nós. Tu é que estás com ideias de lhe contar. Porque mentir à mamã é uma grande traição. Como sabes tu que ela não te mente?

Clara: Ela não mente. A ninguém e sobretudo a mim. Sei tudo da vida dela. Sei que de vez em quando tem uns namorados e não vai dormir a casa. Ela nem precisa de me dizer quem são. Normalmente são estória fugazes. Não vale a pena. Nem costumamos falar disso. Olha, ainda agora, nesta altura, deve andar com alguém. Porque tem chegado muito tarde. Apesar de não ter passado ainda nenhuma noite fora. Mas casos com namorados não é o mesmo que o nosso caso. A partir de ti eu estou outra. Tenho que lhe dizer quem sou.

Joana que estivera de olhos baixos a ouvi-la falar, ergueu finalmente a cabeça.

Joana: Querida, ouve-me com atenção. Tu estás outra mas é porque estás a viver um amor. O amor muda as pessoas. Não é por ser uma relação lésbica. Tu não deixaste de ser quem eras por ser lésbica. Querida, tu és tão inteligente. Como é possível estares a fazer uma confusão dessas?

Clara: Não estou a fazer confusões. O amor é um dado novo. Se fosses com um homem eu também sentiria necessidade de lhe ir contar. Por ser amor.

Já estavam dentro do carro.

Joana: Confia em mim minha querida. Não lhe contes.

Clara: Eu confio em ti. Mas o que sabes tu do que pensa a minha mãe? Tens algum dado que eu desconheço?

Clara pensou um bocadinho.

Clara: Não, claro que não.

Joana: Tenho apenas um mau pressentimento.

publicado por Cat2007 às 12:39
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