CAFÉ EXPRESSO

Fevereiro 26 2016

 

Segundo Sartre, o inferno são os outros.

 

Ser feliz é estar saudável, tranquilo e conciliado consigo mesmo. A maior parte das pessoas tem saúde - o elemento estruturante mais importante da felicidade sempre estupidamente subvalorizado. A tranquilidade tem a ver com não estar à procura de nada. Neste aspeto pode concorrer para a felicidade ter um amor. Mas não se é infeliz só porque se não tem. A conciliação pessoal reporta-se ao facto de uma pessoa estar satisfeita com aquilo que é.

 

O inferno são os outros. Porque os outros não valorizam a sua saúde, não param de procurar coisas, pessoas, automóveis, etc. e não gostam de ser quem são porque confundem o ser com o ter. Assim, os outros são o inferno porque vivem o inferno. E aproximam-se das pessoas felizes, contaminando-as intencionalmente. É por isso que o inferno são os outros.

 

Uma vez comprei uma caixa de laranjas que tinha uma laranja podre. Não tirei a laranja podre, e em dois dias a caixa não tinha uma laranja boa. As pessoas que não dão valor aos valores, as pessoas que querem, as pessoas que invejam são como as laranjas podres. Eu devia ter afastado as laranjas boas da laranja podre. Como as pessoas felizes tentam afastar-se dos infernos.

 

Porém, há infernos inevitáveis. Há muitas formas de retirar um dos elementos essenciais da felicidade. A tranquilidade. Basta um inferno desejar e poder fazê-lo. A tranquilidade é onde a maldade pode causar mais estragos. E sem tranquilidade não há felicidade.

 

publicado por Cat2007 às 18:27
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Abril 23 2015
 

Autocolante - A Inveja é Uma Coisa Feia

 

A inveja é uma ideia. Que surge no espírito de alguém fruto de um determinado raciocínio sobre factos. Que reflete sentimentos sobre terceiros. E que se concretiza em ações ou omissões relativamente aos mesmos. Os quais podem ser nobres ou plebeus, homens ou mulheres, pretos, brancos ou amarelos, portugueses ou estrangeiros, católicos ou de outra religião qualquer, socialistas, sociais-democratas ou comunistas, professores ou analfabetos, pobres ou ricos, famosos ou anónimos, homossexuais ou heterossexuais. Qualquer pessoa pode ser vítima de inveja. Desde que possua alguma coisa, um bem ou um afeto, que um invejoso não tenha ou até tenha. Portanto, um invejoso, em princípio, não quer é que os outros tenham, independentemente do que possui.

 

publicado por Cat2007 às 17:16
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Julho 19 2012

Quando alguém que estava ótimo nas coisas da vida fica pobre ou doente. É sempre uma consolação.

 

Muito me admiram as porteiras. As profissionais e as outras. Os novos condomínios têm porteiros sentados numa secretária à entrada. Controlam quem entra e sai do edifício, bem como se está tudo em ordem nas partes comuns. Para o que aqui importa, não interessa distinguir o género. Por isso é que eu falo indistintamente de porteiros e porteiras. Que, como disse, me admiram imenso.

 

Eu vivo num prédio relativamente antigo das avenidas novas. Aqui, coerentemente, reside uma resistente da classe das porteiras antigas. Esta senhora faz perguntas a estranhos sobre as coisas que levam na mão. No outro dia perguntou a uma enfermeira que passava para o elevador: “fraldas?”.  O pior é que obteve a resposta que queria. Para que serviam as fraldas.

 

Este vício da bisbilhotice de baixo porte irrita-me. Mas sobretudo intriga-me. E é certo que não é coisa dos porteiros mas da essência humana. A vantagem daqueles é que estão mais próximos do acontecimento.

 

Mas para que raio querem as pessoas saber os que as outras levam para casa, por exemplo? Eu fico contente por não ter de usar fraldas. Será isso? É a ver se a vida alheia é pior do que a nossa? Pode ser. Mas se for, a nossa melhora por causa disso? Melhora. De facto, algum ânimo positivo aumenta a qualidade de vida. Ainda que todos os outros fatores se mantenham estáveis.

 

E também para que raio querem as pessoas saber da vida dos “famosos” (como é ridícula esta expressão) exposta nas revistas da especialidade? É a ver como corre a vida alheia quando se imagina que é melhor do que a nossa? Pode ser. Mas se for, a nossa vida melhora por causa disso? Melhora. De facto, saber que a vida de outros que não são vizinhos, amigos ou familiares fora do núcleo é aparentemente excelente, serve para alimentar uma sensação de evasão dos apertos no Metro em hora de ponta, por exemplo. E isto é muito bom designadamente para as dores nos pés.

 

Resta referir o fenómeno da “queda de um anjo”. Ou seja, quando alguém que estava ótimo nas coisas da vida fica pobre ou doente. É sempre uma consolação.

 

Tudo o que fica dito tem na génese a última palavra de “Os Lusíadas”, de Camões: inveja.

 

 

publicado por Cat2007 às 14:47
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