CAFÉ EXPRESSO

Setembro 09 2016

Resultado de imagem para gaveta com papeis

 

O livro só tem a ver com o blog por razões que se podem intuir. Para já, a autoria é a mesma. Todos os dias vou publicar um capítulo, como hoje fiz. Até ao fim. Não sei se quem vá ler possa gostar. Eu só publico porque um dia decidi escrever para a gaveta. E mudei a decisão. Agora já acho que é melhor publicar. E tenho o meio. Este.

 

Não obstante, continuarei a escrever os meus posts como sempre. Este é um post como sempre. Costumo publicar os meus posts como sempre no Facebook. Mas os capítulos do livro não. Porque o Facebook é o que é. Um contexto complexo. No meu caso, cheio de pessoas que não conheço. Portanto, um ambiente que eu não apreendo com muita facilidade. Sem conhecer de todo a maioria, conheço muito melhor quem vem aqui. Nem que seja porque não costumam dizer nada. As pessoas que aqui vêm. Gosto delas intuitivamente.

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Para ler clique aqui AZUL III - O PRINCÍPIO

 

 

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Setembro 02 2010

 

 

Finalmente decidi retomar o "Azul". Esta coisa que eu tenho aqui em casa. Como se sabe, já publiquei alguns excertos neste blog. Comecei a escrevê-lo há muito tempo. Entretanto parei. Também já disse isto. Creio que me perdi no meio das personalidades dos personagens que inventei. Nada de novo. É um enredo sobre mães e filhas, essencialmente. Já o tinha dito. Mas agora quero dizer mais coisas e outras que não estão aparentemente relacionadas. Aparentemente.

 

Claro que tenho desejos e algumas pretensões. No que respeita ao livro. Mas, em princípio, vai para a gaveta. Não é assim tão mau escrever para a gaveta. Pelo menos ela não nos critica. E nisto as gavetas são como os cães e os gatos. Apenas não nos lambem as mãos. Embora os nossos animais domésticos, por seu lado, não nos entalem os dedos. Em comum entre cães, gatos e gavetas ainda há o seguinte: estão todos na nossa casa e precisam de alimento. É claro que as gavetas não morrem se não comerem. Mas convém dar-lhes alguma utilidade. Senão, mais cedo ou mais tarde, alguém as deita fora. O que não deixa de ser também um modo de morrer.

 

O Fernando Pessoa dizia que "o sentido útil das coisas é elas não terem sentido útil nenhum". A um nível mais profundo de pensar, não há como discordar disto. Se a vida corre para a morte, pouco ou nada faz sentido útil. No entanto, se olharmos para a vida enquanto valor em si mesmo, então quase tudo tem um sentido útil. Qualquer coisa serve para algo e o que não serve é destruído ou esquecido, o que é quase a mesma coisa. O desaparecimento ou o esquecimento.

 

O meu livro é, como disse, sobre os relacionamentos entre mães e filhas. Sobre o que as une e separa. Sobre as respectivas dependências emocionais. Sobre as causas determinantes dos destinos. Sobre os modos de ser de mulheres. Importa-me este assunto. É difícil para uma mulher compreender bem uma mulher. Talvez por isso as mães se entendam melhor com os filhos do sexo masculino. Por outro lado, talvez os pais se relacionem melhor com as filhas. Não que as compreendam bem. Porém, ao contrário das mulheres, parece que os homens não precisam de compreender tudo para conseguirem amar sem dramas.

 

Se há algo que me dá grande gozo neste blog é o descuidado com que posso escrever. Tudo sai ao ritmo dos pensamentos. Quase. Eu não consigo escrever tão depressa quanto penso. No entanto, esforço-me. Esta liberdade de escrever o que quero e como quero é inestimável. Os assuntos não têm de o ser propriamente. Os planos não existem. A estrutura vai-se montando. Não me preocupo nada com o aprofundamento dos casos. Não quero fazer esforço. Isto para mim é como jogar um King. Recuso-me a decorar cartas. Perco e ganho de acordo com a sorte, intuição e raciocínio. Mais nada. Não me importo de perder ao King. E por aqui (no blog) ninguém me paga nada. Realmente é uma pena que não se pague ou receba por actividades apenas relaxantes. É uma pena de um certo ponto de vista, evidentemente. É que, de outro modo de ver, se estas coisas dessem direito a recebimentos e compensações perdiam a essência ou o seu sentido útil. Ou seja, não provocar pressões. 

 

Nunca me interessei pelo Bridge por ser demasiado sério. Aquilo não é um jogo é uma função. É preciso compreender que existem espaços e momentos da vida em que podemos ser "meias tintas" e não há mal nenhum nisso.  Não é possível jogar/não jogar Bridge. Portanto, para mim o melhor é não jogar. Não é que eu não goste do jogo em si. Do Bridge. Claro que gosto. Dá é muito trabalho. Dá tanto trabalho, que a maior parte dos jogadores recebe dinheiro pela sua prestação. Quando ganha, claro. Mas eu gosto de pontes (bridges). Uma ponte é sempre uma ligação. Uma possibilidade de ir e voltar. De conhecer. De trazer. De levar. Em princípio, as pontes proporcionam vistas bonitas pelo caminho. Também é uma bela qualidade. Uma ponte é uma esperança de chegar. De visitar. De compreender. É uma oportunidade de dar.

 

Independentemente das discussões que envolveram Hobbes, Russeau, entre outros amigos, eu, sem querer entrar pelas teorias do contrato social (pois não interessam para a minha questão), eu, dizia, acredito que o homem, se não nasce débil emocional ou com outro defeito de origem, é bom. Basta olhar para uma criança. Um bebé. Ver como é frágil e aberto. Como espera. Como acredita. A extensão da sua dependência. Mais, basta olhar para o mundo. Os adultos governam o mundo. Nós, portanto. Nós tantas vezes mesquinhos, egoístas, maldizentes, conflituosos, imaturos, estúpidos, gananciosos, doentes. Nós hoje temos o mundo na mão. Se nós, esta amálgama de desconfianças emocionais, fossemos realmente maus, já tínhamos arrancado os olhos uns aos outros e, depois de cegos, púnhamos isto tudo a arder.

 

No "Ensaio sobre a cegueira", José Saramago dá-nos esta visão realista. O mal que somos capazes de fazer ao mundo e ao próximo. No entanto, veja-se porquê. Pela doença, pela fome (de comida e de sexo). Pelo medo essencialmente. A crueldade do ser humano não é maior do que a de uma bela leoa esfomeada. E a sua maldade não vai além da de uma hiena sorridente. Se os animais não estão interessados em se destruir sem um motivo, também os homens não o estão. Para os homens e para os animais esse motivo não existe.  Mas os homens não o querem  porque não querem. Porque podem. Aqui está uma das diferenças. O instinto e o instinto mais a vontade racional a que se junta o padrão emocional humano.

 

Com certeza que existem biltres. Uns são loucos, outros tarados, outros têm distúrbios da personalidade. Claro que existe gente muito má. Porquê?  Talvez a maldade dos maus resida sobretudo na frieza. Confesso que isto eu compreendo mal. Há uns tempos vi, na SIC notícias, um documentário sobre o maior "serial killer " americano. Perdida a conta às mortes que o homem provocou, interessava saber porquê. Por nada que realmente valha a pena salientar, afinal. Ou seja, por nada mesmo. Para ele, tirar uma vida tinha o mesmo impacto emocional do que comer um "hot dog". Talvez lhe provocasse um bocadinho de azia de vez em quando. Mais nada. Está bem.  Por outro lado, o senhor tinha família. Mulher e filhos, que amava. Amava, portanto. Pereceu-me sincero.  À conclusão só pode, eventualmente, chegar-se por uma via. Para ele todos os outros são os outros. Perfeitos estranhos. Não lhe era possível atravessar pontes. Como se todos os que moravam para lá do jardim da sua casa não fossem iguais aos do lado de dentro. E para isto não existe qualquer explicação. O senhor não é doido, como o Hitler, por exemplo (foi o que disseram, que o homem não era doido). Então é o quê? Indiferente ao que o transcende? Perfeito. Creio que não existem animais assim.

 

De facto, há muito de péssimo no mundo, sendo que a culpa é quase exclusivamente nossa. E eu nem sei mais o que dizer. Apetecia-me deixar aqui uma palavra positiva. Mas, quando ia a escrever, parei. Senti-me muito ridícula sentada aqui, em frente ao meu computador, de cigarro na mão e a pensar que não me apetece jantar lombos de borrego.

 

O que eu queria dizer sobre o livro que recomecei a escrever é que é muito difícil. Parar, sentir, compreender, pôr por palavras, seguir uma estrutura, alimentá-lo de consistência racional, moral e emocional. É muito difícil ser profissional, mesmo que o patrão seja a Gaveta.

publicado por Cat2007 às 18:12
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Julho 12 2010

  

 

Madalena voltara-lhe na forma de mulher crescida. Acabada de regressar à sua vida, já lhe retomava o pulso e as emoções. “Madalena”. Voltava a dar por si controlando as pernas e os braços e as palavras. Para não ir até ela.  “São horas de ir para casa.”. O seu verdadeiro desejo era telefonar a Madalena para  lhe dizer que não tinha vontade de ir. Para casa. Marcou. Esperou.

 

Teresa: Estou a sair do escritório.

 

Escutou um breve e fundo silêncio do lado de lá da linha.

 

Madalena: Vem cá ter.

 

Teresa desligou. Madalena dissera-lhe que sim. Sentiu os ombros vergarem. Algo indefinível, mas enorme desprendeu-se do ar e assentou sobre si. Levou consigo este peso tremendo até junto dela.

 

Teresa: Olá.

Madalena: Vamos para a cama?

 

Teresa pôde imediatamente aliviar-se da carga que trazia. Mas não de toda. Os espaços onde as palavras ficaram ausentes, eram demasiados densos.

 

Entraram no quarto e despiram-se. Materialmente distantes e caladas. A parede despida, onde a cama baixa se encostava, estava iluminada pela lua redonda, expondo-se. Elas olharam para lá. No preciso instante em que apontaram o olhar, o filme começou. Sob a luz da lua, a parede branca reflectia nitidamente aquelas cores mudas, mas tão vivas. As imagens não tinham som. Para além das cores, que quase encandeavam, compreendiam-se os gestos perfeitos, completos. Não existiam palavras. E este filme que rodava, dizia-lhes que o tempo, quando quer, pode parar. Que os seus vinte anos não chegaram a passar. Os que tinham e os que correram. Apertaram as mãos para juntas darem um passo em frente. Na direcção do tempo colorido parado na parede branca, sobre a cama do quarto de Madalena. Mergulharam lá, afundando deliberadamente os corpos, que iam juntos. Confundiram a imagem com os braços e as pernas. A pele. Os fluidos. Os sorrisos inaudíveis. E, finalmente, suspiraram profusamente. Mas em silêncio.

 

E depois o tempo rolou, escapando-lhes, afinal. Deitaram-se. A lua mudara de posição. A luz despediu-se da parede e inclinou-se sobre a cama desfeita. O ar encheu-se dos sons ofegantes. O tempo rolou sobre elas, e era novo e presente.

 

Madalena: Estás a sentir?

 

Teresa murmurou qualquer coisa com sentido afirmativo.

 

Madalena: E a gostar, querida, estás a gostar?

 

Teresa não era capaz de responder. Não se concedia liberdade. Colou a boca à de Madalena e prendeu-lhe a língua. Para a calar. Madalena investiu, por isso, ainda mais sobre ela.

 

Madalena: Eu perguntei se estavas a gostar. Tens que me dizer!

Teresa: Querida, Meu Deus! Eu não vou aguentar ...cala essa boca...por favor!

Madalena: Sabes, já não me importa que...tu fujas, que morras...Não me importa porque...hoje... hoje posso morrer contigo...Diz-me, Teresa!

Teresa: Muito!

 

Madalena desceu com a boca até à zona molhada e quente do corpo dela. Aí, desfolhou em agitação as páginas do sonho, procurando por muito tempo um pequeno capítulo de um livro. Da libertação. Sem se cansar, sugava-lhe o corpo para lhe engolir a alma toda inteira. Não podia parar. Não, até ela se desfazer. Buscava a suprema felicidade de ficar com ela desfeita nos seus braços. A única forma de jamais a voltar a perder. E volatilizar-se nos braços dela. Para não pensar que tinha de fugir-lhe. Abriu as pernas para a boca de Teresa, que, de alguma maneira, manifestara o desejo de entrar. Ao abrir, sentiu o corpo que oferecia escorrer sobre o rosto dela. O tempo decidiu novamente parar por um pouco, ficando, desta vez, de fora do passado, presente ou futuro. Pelo momento em que as gargantas se abriram no centro da tremenda explosão que se deu.

 

Logo depois, o tempo prosseguiu no seu ritmo muito próprio.

  

 

publicado por Cat2007 às 20:01
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Julho 09 2010

 

   

 

Levou a mão à boca. Tapou-a, apoiando a base do nariz entre o indicador e o polegar.Voltou a respirar fundo. Expeliu o dióxido de carbono sobre as costas da mão. Desta vez, era para dar sinal a Clara de que podia falar. Esperou, pois, por uma reacção. Talvez para se orientar. Mas Clara não disse nada.

 

Joana: Apenas, não sei se o farei. O que está a acontecer entre nós é muito forte. Forte demais. É uma coisa muito violenta. Eu, simplesmente, fico sem capacidade de raciocinar. A impressão que tenho é que me deram uma droga meio alucinogénica para tomar. Parece que estou com uma “pedrada” monumental. Como posso eu tomar decisões num estado destes? Tenho medo. Não sei onde isto nos vai levar. Pode parecer muito e não ser nada. Apenas uma alucinação. Uma viajem que levará tanto tempo a passar como o efeito de uma droga. Não sei.

 

Agora tremia um pouco das mãos. Ouviu-se e calou-se. Temeu imediatamente pelo que estava a dizer. Pelas consequências. Por isso desejou uma reacção imediata. Não queria tempo para pensar. Mas Clara emudecera. Apenas a fitava. Assim, Joana acabou por concluir que, afinal, não houve reacção porque não haveriam quaisquer consequências. O que dizia tinha razão de ser. Era verdadeiro. E muito sentido. Estava a ser totalmente honesta. E queria partilhar com ela os seus receios. Estava a fazer tudo muito bem. Já não tremia.

 

Joana: Por outro lado, isto colide frontal e globalmente com a educação que me deram. Acho que com a educação de qualquer pessoa. Desejar uma mulher. Santo Deus!  Ninguém me avisou disto. Sobretudo, não fui preparada para uma coisa destas. Não sei como agir. E isto faz de mim o quê? Que género de pessoa nova sou eu?. Sou gay? Lésbica? Não sei se quero ter esse tipo de vida.

 

Clara levantou-se e virou-lhe as costas. Ficou imóvel por alguns intantes. Não fez mais do que o suficiente para deixar Joana em silêncio. Depois voltou a ela calmamente. E começou.

 

Clara: De todo o teu discurso há uma coisa que sobressai. Falas como se isto só te estivesse a acontecer a ti. Parece que estás aqui, dentro desta sala, sozinha. O que me choca.

 

Declarou-se, então, num sorriso cheio de condescendências.

 

Clara: É verdade. Tu és uma mulher e eu desejo-te tanto! Devias saber que, em nenhum caso, um desejo do tamanho deste surge a pedido da razão. Não devias desconhecer que tratamos aqui de coisas que nos ultrapassam a vontade. E, no entanto, agora que já matei um pouco da minha sede em ti, percebo que é uma imposição feliz. Curiosamente, aquilo de que tens medo é, precisamente, o que mais segurança me dá. A quase-loucura. A tua “pedrada”. Tu não vês que nada há a decidir? Nada há para pensar, Joana. Já foi tudo tratado antes de nós sermos chamadas. O que sentimos, percebes? Agora, só te resta decidir o que fazer. E as opções são apenas duas. Ou vives o que sentes. Ou foges. E morres devagar. Se virares as costas, a Joana que tu és desparecerá ao mesmo tempo que eu for desaparecendo da tua vida.

 

Perdera a calma. Falava com ardor. Apaixonadamente. Abria os gestos para oferecer o peito. Cerrava os punhos para se fazer ouvir melhor. Os olhos estavam humidos de fervor.

 

Clara: Mas tu tens dúvidas! Duvidas porque o que sentes “é forte demais”. Não é assim que dizes? Olha, já pensaste se não é fruto de algum desiquilibrio teu? Era bom que fosse. Assim poderias tentar tratar. É por isso que não sabes se vais acabar com o André. Aliás o André é um grande amigo. Não se importará, certamente, de ser usado. Tu és uma mulher profundamente desonesta!

 

Estava na hora da saída da aula a que não foram. 

 

Joana: Eu não te admito que me fales assim!

Clara: Admites, sim senhora. Os teus actos admitem por ti. Não há nada pior do que a falta de coragem e a mentira. Não há nada pior! Eu fui educada assim. Com estes valores. Pela minha mãe. Só por ela. A pessoa mais honesta e corajosa que eu conheço. Foi ela quem me ensinou. Eu teria vergonha de dizer o que tu dizes. Portanto, faz assim, não tenhas dúvidas. Telefona ao André. Dá beijinhos meus lá na Foz. E deixa-me em paz!

 

Cada palavra fora perfeitamente pronunciada. Num discurso impregnado de uma certa amargura altiva. Rodou rápidamente nos calcanhares e afastou-se com passos largos. Joana foi atrás. Conseguiu ultrapassá-la e estacar à frente dela.

 

Joana: Desculpa. Desculpa, mas eu não sou nenhuma desonesta. Nenhuma mentirosa. Talvez não seja tão corajosa como tu. Isso não sou de certeza. De resto eu não fui educada por nenhuma super mulher. Cresci com o meu pai e a minha mãe e as minhas irmãs. Foram os meus pais que me educaram. São duas pessoas normais. Apesar disso, dois seres humanos de excelente qualidade, posso garantir.

 

Clara: Ouve, eu não te posso desculpar um facto de que não és culpada. A baixa qualidade dos teus sentimentos.

 

Era hora da entrada.

 

Joana: Por favor! Estás a ser injusta. Eu também odeio a mentira. Odeio. Nunca viveria na mentira. Tu estás a desvalorizar os meus sentimentos apenas porque eu não tive capacidade de perceber a importância deles numa hora. Nós só sabemos disto há uma hora! Estás a pedir demais, Clara!

Clara: Não vale a pena. Deixa-me passar!

Joana: Não te vás embora. Por favor!

 

Clara não se sentia. Nem, sequer, as lágrimas que lhe principiaram a inundar o rosto rigido rolavam na dependência da sua vontade. Olhou para ela. O coração já explodira há alguns minutos. As lágrimas brotavam-lhe ainda copiosamente. Agora eram vermelhas. Manchavam-lhe a cara de sangue. Olhou-a de novo. Viu que também chorava. Sentiu pena dela e desprezo por si própria.

 

Clara: Joana, deixa-me passar!

Joana: Não!

Clara: Não faças isso.

Joana: Eu...

 

Clara baixou a cabeça. Não desejava continuar a compartilhar lágrimas com ela.

 

Joana: Eu amo-te.

Clara: O quê?

Joana: Eu até posso estar doida. Mas só se eu estiver doida é que isto não é verdade. Eu amo-te. Tenho a certeza.

 

Clara levantou os olhos molhados para os dela. Joana aproximou muito devagar a cabeça do seu peito. Encostou-a para ouvir-lhe as batidas cardíacas. Assim, Joana precebeu que o coração de Clara falava. Ajeitou-se para ouvir melhor. Decifrou milhares de mensagens sobre coisas de que nunca ouvira falar. Os olhos pesavam-lhe. Por isso os fechou.

publicado por Cat2007 às 05:02
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Julho 08 2010

Afinal vou colocar mais dois excertos. Não um. Dois. Não têm tratamento. Ficam por tratar. Aqui.

 

 

 

Naquela casa não se trancavam as portas. Durante tanto tempo, as chaves mantiveram-se operacionais dentro das respectivas fechaduras, porém, inoperantes. Eram de bronze aparente. De aspecto brilhante, pareciam quase escorregadias, Como se lhes tivessem passado um óleo, que não aplicaram realmente. Estavam escrupulosamente limpas. Como tudo na casa da Alameda. As chaves postas nas ranhuras de cerca de vinte portas já não eram nada em si mesmas. Por há muito terem perdido a sua utilidade própria, foram transformadas em partes integrantes das correspondentes fechaduras todas iguais. Deixou de ser importante individualizar cada um daqueles pequenos instrumentos, separá-los do conjunto de que faziam parte, onde apenas uma parte, a outra, funcionava. Apesar de permanecerem nas fechaduras, as chaves desapareceram porque lhes foi retirada a sua função primordial. Trancar portas. Destrancar portas. Trancar portas. destrancar portas… Assim, neste movimento de entrar. De sair. De proteger. De desamparar. De isolar. De libertar. De encobrir. De expor… 

  

Fora a mãe, D. Amélia, quem instituíra a regra. “Não quero portas trancadas nesta casa. Nunca precisei disso na vida”.  Entendia que uma porta, qualquer porta, uma vez fechada, encerrava uma mensagem muito clara: Não. De momento não. Não entrar. Não interromper. Não incomodar. Não importunar. Não pedir. Não dar. Não ouvir. Não falar. Não perguntar. Não saber. Não. Assim se devia ler o que está escrito numa porta fechada. Uma porta fechada com alguém do lado de dentro é, neste sentido, uma entrelinha. Não é preciso estar trancada. “Não deve estar trancada!”, sempre acentuou.Nunca confessara um outro porquê. O motivo maior das suas razões. Ou seja, o medo em princípio absurdo de ter de arrombar uma tragédia trancada. Se as chaves não rodassem os trincos para dentro das fechaduras, nada de verdadeiramente mau poderia acontecer por detrás das portas apenas fechadas. Era vítima da terrível sensação de pânico sintomático da fobia dos estalidos dos trincos a fechar. Assim, naquela casa os encontros entre mãe e filha davam-se essencialmente nas divisões comuns. Cada uma conhecia os passos da outra sem necessidade de os ver para saber. Ambas as vidas circulavam em redor de rotinas reciprocamente desassegredadas.

 

D. Amélia, era baixa e seca. Dava gosto ver como se vestia de tão bem que a si própria sabia ajustar as roupas. As saias pelo joelho, mas justas. Os conjuntos de malha sobre o tronco a delinear os seios pequenos e redondos. Os sapatos de saltos médios davam vista para os tornozelos torneados. Usava o cabelo penteado para trás da testa alta e larga, solto em ondas muito suaves de prata azul por detrás das pequenas orelhas perfeitas de lóbulos escondidos por duas  pérolas cor de pérola. Entreabria regularmente a boca arredondada pequena, mas bem medida. Tinha por hábito automatizado elevar o nariz curto, estreito, afilado, ligeiramente arrebitado na ponta. Possuía uma pele que permanecia sem dar mostras de grandes cansaços. Os olhos castanhos eram muito sérios, pois franziam, profundos por não se ver o fundo, expressivos quer de certezas, quer de interrogações, sorriam nem sempre, mas de vez em quando. Estes olhos carregavam três rugas profundas como golpes de navalha junto ao seus contornos. Precisamente três em cada. Talvez tal coerência de ser, tamanha harmonia para ver, tivesse sido previamente pensada por quem decide destas coisas. Talvez se tratasse do resultado de um jogo de compensações, onde a D. Amélia não foi, sequer, dada a oportunidade de perder.Tinha as mãos descarnadas de grossas veias azuis salientes, que possuíam a beleza da elegância gestual. Incompreensivelmente, os grossos anéis, moldados em materiais preciosos verdadeiros, não lhe quebravam os dedos. Antes lhe acompanhavam, suportando, a graça dos diversos manejares. 

 

Teresa tinha 15 anos quando a mãe lhe entrou inopinadamente no quarto. Primeiro, D. Amélia elevara os nós dos dedos da mão direita fechada. Batera com eles levemente na madeira lacada de branco. Envolveu o puxador com a outra mão e rodou. Antes de empurrar, sentiu a pele envolvida pelo calor dos materiais. Um calor que nascera do surpreendente aspecto de vida, não singular mas plural, pulsante no interior do quarto. Um calor que se espalhara por todas as suas proximidades e que, agora, lhe aquecia os percursos sinuosos do interior das suas próprias veias azuis.

 

Sim, bateu à porta com os nós dedos afectados pelos aros de ouro e prata. Mas fez tal gesto na passada. Ainda se imaginavam os sons dos ecos daquelas ligeiras batidas, e já os seus pés se encontravam quase um metro para dentro do quarto da filha.Não imaginava sinceramente nada do que iria assistir. Confrontada com tudo o que de material se apresentava sob os seus olhos espalhados por espaços muito bem determinados daquele quarto, desejou não ver. Pregou os olhos vagarosamente no chão, deixando-os ficar por lá, incapacitada. Durante aquela lenta e pesada fracção do tempo, foi-lhe concedido apenas o espaço para pensar Teresa, enquanto sua. Unia-as um amor fundamental para ambas. Não podia perder a filha. Esta era a maior imposição da sua vida. Teresa igualmente não podia perder aquela mãe. Cada sentimento individual transcendia palpavelmente a matéria, fluindo, por todos as saídas dos corpos, em direcção ao outro e fundiam-se ambos num encontro memorável, ligando cada uma destas criaturas eternamente.

 

Subitamente, D. Amélia interrompeu-se no pensar sobre a filha. E ponderou gravemente nas razões pelas quais acabara de quebrar um hábito tão fundamental como aquele que tinha instituído. O de nunca se transpor portas apenas fechadas por não estarem trancadas. Porém, realmente, não sabia. Considerou, então, que não sabia porque talvez não fosse possível saber. Certos eventos poderão ocorrer sem razão e com desígnio, motivados pelos resultados que impõem. Certos eventos são factos que simplesmente têm de acontecer, assumindo a sua existência a partir dos actos mais ilógicos e, por isso, menos previsíveis. Desta vez, como não sucedeu há muitos anos no passado, a porta do quarto não se encontrava trancada e, no entanto, a tragédia de novo lhe acontecia. No entanto, o pânico não a tomou porque não ouviu o estalido do trinco que fecha.

   

 

publicado por Cat2007 às 16:56
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