CAFÉ EXPRESSO

Outubro 18 2016

 

 

Queria postar aqui um trecho de um poema do Ary dos Santos. Um que toda a gente conhece. A Estrela da Tarde. Há dias que ando a pensar neste poema. Na força alimária dos seus versos.

 

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram/ Dos noturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram/Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram/ E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram. /Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram /Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam /Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram /E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.

 

E o verso que mais me impressiona é o seguinte: Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram. Significa que uma noite de amor pode ser tão intensa e abrangente que consegue ter o sentido de várias. Para isto ser verdade, exige-se uma paixão com uma força especial e uma certa qualidade na entrega. Há quem consiga.

 

publicado por Cat2007 às 14:16
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Outubro 16 2016

Uma semana depois Teresa ainda não tinha o carro. De qualquer modo, não lhe fizera ainda falta. Não tinha muita vontade de sair para longe da Alameda. Fazia tudo a pé no respeito de rotinas muito bem programadas. Todas as manhãs subia a Guerra Junqueiro e ia à Mexicana tomar o pequeno-almoço e ler os jornais. Depois visitava as montras da Avenida de Roma até à hora do almoço. Por vezes comprava uma peça de roupa ou um livro. Almoçava em casa. Saía em seguida para dar um passeio breve no jardim da Igreja da Praça de Londres. Voltava a casa meia hora depois. Pegava no computador e vagueava nas páginas a que sempre se habituara. Ler não conseguia. Jantava cedo em qualquer lado antes de ir para o ginásio. Quando regressava retomava o computador. Ia para a cama perto da meia-noite. Como é evidente Madalena fazia parte destes ramerrões que Teresa projetara. Havia sempre a esperança de esbarrar com ela em algum daqueles lugares. E à noite, na cama, mil vezes as lembranças do amor com ela lhe acendiam o corpo. Num fogo que era necessário apagar. Sentia como se durante toda a vida não tivesse passado um dia sem fazer amor com ela. Estava completamente tomada pelo vício.

Na manhã seguinte Madalena descia a Guerra Junqueiro. Teresa viu-a do outro lado da rua quando subia. Deixou-a avançar uns metros e foi atrás dela. Não sabia se havia de a abordar. Madalenas andava com pressa. Dobrou a esquina ao fundo da rua e subiu á direita. Teresa sentiu um sobressalto. Andou mais depressa e pôde surpreender-se com o que via. Madalena estava parada em frente à porta do seu prédio. Teresa pegou no telemóvel e marcou o número.

Teresa: Madalena, onde estás?

Madalena: Não muito longe, como sempre.

Teresa sentiu-lhe a tensão na voz.

Teresa: Eu não estou em casa.

Madalena: Não? Onde estás?

Teresa: Não muito longe, como sempre.

Teresa ia subindo a rua. Podia vê-la perfeitamente. Com o cabelo liso a cair-lhe sobre a cara pregada no chão.

Madalena: Mas quanto tempo levas a chegar a casa?

Teresa: Porquê?

Madalena: Porque eu estou aqui à tua porta.

Teresa desligou o telefone e falou-lhe a um metro.

Teresa: Então sobe.

Madalena: Jesus!

Teresa: Vens tomar chá?

Madalena: O quê?

Teresa: Chá. Vens tomar chá com a tua amiga muito amiga quase como uma irmã?

Madalena: Nós somos amigas, Teresa.

Teresa: Pois somos.

Entraram em casa.

Madalena: Isto está diferente. Fizeste obras. Mas os móveis são os mesmos. Não estão é nos mesmos sítios. Nem as fotografias. Aqui está a tua mãe.

Teresa: A minha mãe está por todos os lados desta casa. Tomas chá ou não?

Madalena: É muito cedo. Não costumo beber chá de manhã. Prefiro um café. Outro. Já tomei o pequeno-almoço.

Teresa: Pois eu não. Tomo sempre na Mexicana a esta hora. Mas hoje não foi possível porque te vi passar.

Madalena: E porque não me chamaste, imbecil?

Teresa: Por acaso tive essa intenção. Mas tu andaste muito depressa. Vinhas para aqui com muita pressa. Porquê?

Madalena: Eu ando depressa.

Teresa: Não andas nada. Tu vinhas depressa porque tiveste medo de perder a coragem.

Madalena: Coragem para quê?

Teresa: Diz-me tu.

Madalena: Tem sido difícil passar os dias.

Teresa: E as noites.

Madalena: Sim. As noites.

Teresa: Como passas as noites? Fazes-te todas as noites?

Madalena baixou a cabeça.

Teresa: Diz-me.

Madalena: Por vezes de dia também.

Teresa: No entanto, és apenas minha amiga.

Madalena: Não sejas cínica, Teresa.

Teresa: Descarada és tu. Vens aqui para ter sexo comigo. Só para isso. Podias ter ligado há mais tempo. Não percebo o que te fez vir à Alameda. Tens tão más recordações daqui. Não percebo porque queres fazer amor aqui.

Madalena: Também não percebo nada. Ontem chorei muito à noite. Hoje de manhã acordei com esta decisão tomada. Queria ver-te aqui.

Teresa: Descansa. Eu também só penso em fazer amor contigo. Não te vou pedir mais nada. Vem cá.

Madalena aproximou-se. Teresa abraçou-a pela cintura e puxou-a contra si. Ficaram presas pelo ventre. Olharam-se intensamente. E beijaram-se violentamente na boca.

publicado por Cat2007 às 23:03
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Outubro 16 2016

Clara: Emagreceste.

Joana: Tu também.

Clara: Não fui capaz de comer grande coisa.

Joana: Eu vomitava.

Clara: Disseste-me. Já estás bem, não é?

Joana: Sim.

Clara: Não foste à faculdade, claro.

Joana: Claro que não. E tu?

Clara: Não.

Calaram-se. Ficaram frente a frente muito tempo. Sem palavras. De olhos cerrados. Estiveram assim até as almas se reanimarem.

Joana: Vamos ver o mar?

Foram comer junto à praia. Comeram imenso. Embora lhes doesse um pouco o estômago. De uma forma tácita, encetaram um processo comum de recuperação. O corpo doía-lhes. Cansado nos músculos e nos ossos. Cada uma tinha uma nódoa negra bem visível no peito. Clara olhou dentro dos olhos azuis de Joana e em seguida virou o seu olhar extenuado para o mar. Fez uma ligação perfeita de cores. Joana segui-lhe o olhar.

Clara: Duvidaste de mim? Achaste que eu não voltava?

Joana: Nunca. Só senti muito a tua falta.

Clara: Eu amo-te tanto!

Um brilho iluminou-lhe o olhar rasgado. Parecia que tinha tomado uma droga qualquer. Olhou Joana por dentro de um sorriso que despontara.

Clara: É perfeito o nosso amor. Como é perfeito! A ti eu não preciso de pedir nada. Tudo vem no ritmo dos meus desejos e necessidades.

Joana: E eu não preciso de te fazer muitas perguntas. Quase tudo o que quero saber descubro no silêncio da tua boca molhada ou através do contacto com a tua pele.

Clara: Eu precisava muito de te beijar agora. Quero todas as respostas. E responder-te a tudo.

Joana: Eu preciso de te beijar agora para saber como foi sem mim.

Levantaram-se da mesa. Descalçaram os sapatos. E atravessaram a areia, até ao mar. Molharam as mãos e a cara. Beijaram-se profundamente com sabor a sal pelo tempo de uma eternidade.

Joana: E se adoecermos de amor? Achas que podemos ficar doentes de amor?

Clara sorriu.

Clara: Não, acho que não. Juntas, não. Separadas, sim. Eu fiquei doente de amor.

Joana: Eu também.

Clara: Perdoa-me, Joana.

Joana: Gostar de ti não é uma decisão. Desejei simplesmente voltar. Aliás, tinha mesmo que voltar.

Clara: Mas perdoas-me ou não, querida?

Joana: Não sei se compreendes porque nos deixaste.

Clara: Porque dizes isso?

Joana: Porque podes voltar a deixar-me, talvez.

Clara: Tu sabes que eu te deixei por causa da minha mãe.

Joana: Tu disseste-me que tinhas de me deixar porque, pelo que vieste a saber da vida da tua mãe, o nosso amor já não te parecia tão belo.

Clara: Não parecia porque eu estava completamente louca. Doente da cabeça por causa daquelas emoções todas. Na altura, o nosso amor não me pareceu belo, de facto. Mas só naquele momento. Compreendes?

Joana: Acho que compreendo mais do que isso. E solidarizo-me contigo. Coloco-me no teu lugar e vejo perfeitamente que o teu mundo desabou.

Clara: É verdade. Perdi o pé. Coloquei tudo em causa. Mas como viver como sou se rejeitasse a minha mãe como é? Se eu não queria que a revelação dela fosse mais do que um pesadelo, como viveria feliz contigo? Foi por isso que terminei.

Joana: Eu sei.

Clara: E perdoas-me.

Joana: Não posso perdoar algo que tu fizeste sem consciência. Só posso compreender. E já compreendi, anjo.

Clara: E já não tens medo que eu te deixe?

Joana: Tu, na verdade, não me deixaste. Mas eu fiquei perdida.

Clara: Pois não. Só enlouqueci momentaneamente. Mas demorei a ir buscar-te porque estava partida por causa da minha mãe. Não lhe falei durante este mês. Nem ela a mim.

Joana: E agora já se falam. Resolveram tudo, como é evidente. O que acha ela de mim? Detestava-me.

Clara: Foi ela quem me ordenou que te telefonasse. Foi ela que me explicou que tu ficarias feliz. Que não me rejeitarias.

Joana: A sério? Olha, eu nunca simpatizei com ela. Confesso-te. Mas acho-a linda de morrer. Por isso posso ultrapassar qualquer obstáculo.

Riu-se.

Joana: A Madalena é uma mulher de sorte.

Clara: A Madalena disse-lhe que não queria mais nada com ela.

Joana: Disse? Mas, olha, eu não acredito. A Madalena é louca por ela.

Clara: Eu sei. Mas tem medo.

Joana: Pois.

Clara: Mas a minha mãe mudou. Creio que o facto de eu ser lésbica a ajudou a mudar. O problema dela era aquela homofobia e a necessidade de parecer perfeita ao mundo. Ela adora a Madalena. Não creio que a fosse deixar outra vez. Não com o que já aprendeu com tudo o que sofreu durante vinte anos e agora. O problema é que a minha mãe decidiu não ir mais atrás da Madalena.

Joana: Ai agora a Madalena vai ter que ultrapassar-se e tomar a iniciativa de ir ter com a tua mãe? Não sei se ela fará isso.

Clara: Nem eu. Ela deve continuar a achar-se uma vítima das coisas que a minha mãe lhe fez no passado. E portanto acredita que tem uma fatura que ainda não está paga.

Joana: Sabes o que acho?

Clara: Diz.

Joana: Acho que elas são duas mulheres marcadas. A maturidade tem isto. Muitas experiências traumáticas. E muitas delas mal absorvidas. Enquanto nós temos o espírito limpo. Confiamos totalmente. Por isso foi tão fácil voltar.

Há já algum tempo que caminhavam à beira mar de mãos dadas. Pararam. E sentaram-se na areia. Ficaram caladas a observar as ondas vigorosas que se lançavam cegas contra a costa. E se desfaziam. Escutavam o barulho plural do mar. Talvez o único que não incomoda ou irrita mas acalma. O barulho que é necessário ouvir quando o silêncio é preciso. As ondas morrem pacificamente. E renascem uma e outra vez. Olhavam juntas para o mar e assistiam a um movimento constante e alternado de vida e de morte. Olhavam para o mar e metia-se-lhes no peito a ideia de renovação. Só de o ver atuar. O mar explicava-lhes como tudo deve ter um fim pacífico. Como é pacífica a fusão entre a água salgada e a massa compacta de grãos de areia. Assim como a força das águas, que consecutivamente renasce nas ondas extraordinárias, apela ao sentimento profundo de vida renovada. Princípio. Sal. Sabor. E a vida que afinal nunca acaba. Os olhos delas transformaram-se em água do mar de tanto olharem. Tinham-nos por isso da mesma cor. Azul. Aquele azul que um dia Clara sonhara ter para si, agora era definitivamente seu.

Clara: O mar. Esta energia. A minha boca ainda sabe a sal. Sinto-me como que renascida. E por isso com necessidades primárias. Tenho muita fome.

Joana: Eu também preciso de te comer toda inteira.

Clara: Sinto formigueiro nas mãos.

Joana: E na língua.

Puxou-a pelo colarinho e deu-lhe um beijo ávido na boca.

Caíram na areia. Os corpos debatiam-se. O beijo não parava de magoar.

Clara: Vamos para casa.

Joana: Vamos.

Foram com as mãos cheias de segredos e mistérios comuns sobre o mar e a vida.

“Hoje fico com a Joana. Gosto muito de si, mãe”.

Teresa sorriu. “Quero ver quando é que tenho o carro de volta”.

 

publicado por Cat2007 às 15:15
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Setembro 27 2016

Teresa: Como podes estar tão certa disso? Eu vou para a cama contigo praticamente todos os dias. Sei coisas de ti. Coisas que tu sentes. Que tu não fazes questão nenhuma em esconder quando fazemos amor. Tu não estás comigo só pelo prazer.

Madalena: Claro que não. Estou contigo porque te desejo imenso. Olha para ti. És a mulher mais bonita que eu alguma vez conheci na vida.

Teresa: Ora, Madalena. Há muitas mulheres bonitas.

Madalena: Mas nenhuma tão bonita como tu.

Teresa: A beleza de alguém não é tanto o que se vê mas o que se sente. Eu acredito em ti. Achas que eu sou a mulher mais bonita que conheces mas…

Madalena: És a mulher mais bonita que eu já alguma vez vi.

Teresa: Ou isso. Mas, como ia a dizer, a beleza que dizes que eu tenho é sentida por ti.

Madalena: Pois é. E então?

Teresa: Então, estás apaixonada por mim.

Madalena: Ah! Isso é diferente. Claro que estou apaixonada por ti. Mas já não te amo.

Teresa: Mas eu amo-te.

Madalena: Mas eu não te amo porque tu, há vinte anos atrás, me deixaste partida. Nunca mais amei ninguém tão profundamente. Porque eu, apesar de só estar contigo há dois anos, amava-te profundamente. Por causa da entrega que foi total e sem reservas.

Teresa: Amavas-me como eu te amava. Mas era um amor que não tinha sido testado.

Madalena: E quando foi, tu deixaste-me. Já falámos sobre isso.

Teresa: Por causa dessa entrega eu, que te sufoquei dentro de mim, durante todo este tempo, libertei-te, libertei-me e percebo que continuo a amar-te.

Madalena: Mas eu, por causa do que me fizeste, deixei de te amar. Porque deixei de acreditar em ti e passei a duvidar de mim.

Teresa: Então como permitiste que eu me aproximasse tanto outra vez?

Madalena. Eu não queria. Mas tinha que acontecer. Só tu me fazes sentir assim. Era impossível dizer que não à vida.

Teresa: Faço-te sentir assim como?

Madalena: Tu disseste que sabes como me fazes sentir.

Teresa: Eu explico-te o que te faço sentir, dizendo o que tu me fazes sentir.

Madalena: Sim, bem sei que é a mesma coisa. E o que é que eu te faço sentir?

Teresa: Madalena, tu fazes-me sentir viva e feliz.

Madalena: Teresa, tu fazes-me sentir arrepios na espinha e tremores nas mãos. Tu desorientas-me os sentidos porque os sons, as imagens, a textura da tua pele, o teu cheiro e o teu sabor se misturam todos ao mesmo tempo. Então eu já não sei se o que vejo é o mesmo que toco. Se o teu gosto é igual ao teu cheiro… Contigo eu viajo para fora deste mundo e regresso como se nunca tivesse voltado. Ando na vida a sentir-me muito mais viva. Porém, isto não me faz feliz. Quero que passe.

Teresa: Porém, estás com medo. Diz antes assim, querida

Madalena: Agora és tu que me chamas querida no fim da frase?

Teresa: Sim. Porque me deixaste com tesão. Compreendes, querida?

Madalena: Mais tesão, querida?

Teresa: Com certeza, meu amor. Percebo que seria mais fácil para ti se eu não te chamasse, meu amor. Era melhor estar só apaixonada como tu estás. Acontece que eu sinto as duas coisas ao mesmo tempo. Amor e uma paixão desenfreada como a tua.

Madalena: Seria mais fácil porque eu quero que isto acabe.

Teresa: Tens medo de que essa paixão te leve ao amor outra vez.

Madalena: Teresa, francamente, Tu falas de amor mas estou certa de que não te ocorre partilhar a tua vida comigo. A tua homofobia é que me garante que esta minha paixão não vai resultar em amor nenhum.

Teresa: Já não me apetece ir a Sintra. Estamos em Cascais. Porque não fazemos um lanche ajantarado ao pé do mar?

Madalena: Está bem. Gosto de ver o mar enquanto olho para os teus olhos. Parece a mesma coisa. Vamos.

Teresa: Não penses que tentei evitar o assunto da minha homofobia, que é real. Apenas não me apetece falar disso agora. Porque estou confusa nessa matéria. Por outro lado, quero encetar uma manobra de engate sobre ti, querida.

Madalena: Estás a aprender comigo, querida.

publicado por Cat2007 às 19:53
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Setembro 21 2016

Clara tinha que sair. Joana ia levá-la. Queria estar em casa antes de a mãe chegar. Tinha medo que ela adivinhasse. Entre as duas não havia segredos. E sobretudo não se diziam mentiras. No entanto, preparava-se para uma omissão. Gravíssima. Era preciso não a encontrar. Pior do que mentir era ser confrontada com a mentira. O telemóvel emitiu um sinal habitual. “Hoje não janto em casa”. Suspirou. Que coincidência feliz. A mãe muitas vezes não aparecia para jantar. Mas, naquele dia, acontecia, de facto, uma coincidência feliz. Acalmou. Já não tinha assim tanta pressa. Desceram à garagem. Saíram da garagem.

O regresso ao mundo ocorreu de forma semelhante a um parto. Eram como duas gémeas expelidas de um útero. Mal ouviam e custava-lhes falar. Um feixe de energia imanente transbordava para fora das fronteiras da pele, atuando como escudo protetor contra as influências do meio.

Rodavam devagar pelas ruas indistintas. Alheias a todas as externalidades supérfluas. Joana apenas se concentrava mal na estrada. Transportavam nas mãos, que se apertavam a espaços e fugazmente uma aguarela de cores felizes. As tintas, aplicadas com um certo sentido sobre os seus corpos, cobriam-nas da cabeça aos pés. E davam cores brilhantes e vivas aos olhos. Aos cabelos. E às peles. Eram dois fantásticos retratos vivos, cuja criação está apenas ao alcance de uma outra arte. De matriz eminentemente divina.

Aconteceu-lhes tocarem-se uma vez. A primeira. Com bocas magnetizadas. Aquela paixão foi inevitável talvez por isso. Pelo magnetismo. O que de resto sucedeu não foi igualmente ponderado. O que se passaria a partir daí era imprevisível.

Nunca ouviram. Nunca leram. Nunca tinham ouvido falar. De uma coisa assim. Como saber, então? Quem poderia imaginar que o sangue corre com mais força nas veias do que o mar revolto em noite de tempestade contra as rochas que sustentam os faróis? Quem saberia falar daquela solidão irresistível que as assaltava? Geralmente pensa-se que a solidão é só. Só para uma alma. Nunca para dois seres que se têm completamente. Porém, num certo tipo de sentimento, sucede que, em determinados momentos, o dois passa a um. E nasce um ser novo. Diferente de cada uma das unidades. Um ser só que, de seguida, volta a dois. E reaparece. E volta a dois. E reaparece. E volta… Quem saberia disto? Ambas compreendiam, em qualquer caso, que aquele sentimento dominava totalmente os atos e os factos subsequentes aos atos. Tomara vida própria, existindo para além da vontade delas.

Joana: até amanhã.

Clara: até amanhã.

Subiu. Não comeu nada. Nessa noite, pela primeira vez desde sempre, não vestiu o pijama.

publicado por Cat2007 às 21:46
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Setembro 20 2016

Ouvia-se o silêncio através do som de um rádio ligado num sítio qualquer. Somos dois gritos calados. A música soltava-se nítida. Elas, porém, não ouviam. Estavam surdas de silêncios. As mentes perdiam-se de encontro ao objetivo traçado. Iam para casa. Para a cama. Fazer amor. You took a mistery and make me want it. A música que não se ouvia estava ali apenas para acompanhar os ritmos das emoções. As melodias vinham de qualquer lugar não definido. De uma emissora irreal. Por isso a estranha seleção musical.

Até as almas mais corajosas e aventureiras sentem pelo menos um respeito reverencial em relação ao desconhecido. Como se sairia do confronto com ele? Era nisto que Clara pensava. A verdade é que lhe doía a alma de uma forma física. Como se tivesse dores musculares. As violentas emoções que lhe vinham sendo impostas enfraqueceram-na. Via-se como uma criança desprotegida. Muito pequenina. Estava anormalmente fragilizada. Dependia enormemente de Joana. Tinha medo. Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão/ Dava prá ver o tempo ruir/ Cadê você? Que solidão /Esquecerá de mim e enfim/ De tudo o que há na terra não há nada em lugar nenhum/ Que vá crescer sem você chegar/ Longe de ti tudo parou/ Ninguém sabe o que eu sofri. A dor da separação ainda lhe tocava. A separação que imaginara num desejo forçado que não teve forças para realizar. Pertencia agora a Joana.  Joana não a via de fora para dentro mas ao contrário. Tinha mergulhado dentro dela, buscando-a nas profundezas do ser. Navegava no seu espírito para a ver melhor. No teu poema existe um verso em branco e sem medida/Um corpo que respira, um céu aberto/Janela debruçada para a vida/No teu poema existe a dor calada lá no fundo/O passo da coragem em casa escura/E aberta uma varanda para o mundo/Existe a noite, o riso e a voz refeita à luz do dia/A festa da Senhora da Agonia e o cansaço do corpo que adormece em cama fria/Existe um rio, a sina de quem nasce fraco ou forte/O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste/Que vence ou adormece antes da morte/No teu poema existe o grito e o eco da metralha/A dor que sei de cor mas não recito/E os sonhos inquietos de quem falha/Existe um rio, o canto em vozes juntas, vozes certas/Canção de uma só letra/E um só destino a embarcar no cais da nova nau das descobertas/No teu poema existe a esperança acesa atrás do muro/Existe tudo o mais que ainda me escapa/E um verso em branco à espera do futuro. Emergiu no fim da canção. Agora que tinha a sua imagem mais completa podia vê-la com toda a nitidez. Fixaram-se. O mesmo amor expelia pelos olhos energias convergentes. Era exatamente o mesmo amor. Clara deixou-se conduzir ao quarto e à cama. Foi a música que as levou. Aquela música que continuava a tocar dentro delas. As melodias que substituíam todas as palavras. Joana despiu-a, deixando-a completamente nua estendida sobre o edredão. Parecia-lhe que Clara acabava de morrer. Mais uma vez. Recuou então. Foi capaz de se afastar dela só para a ver. Clara deixou-se estar imóvel, fechando os olhos para não incomodar.

Joana estava de pé embriagada de espanto. Continuava vestida. Tudo em si parara. Tal como o mundo. You’re just too good to be true/Can’t take my eyes of you. Despiu-se. Manteve-se no entanto onde estava. De pé. Do mesmo modo. Clara abriu os olhos no momento em que virou a cabeça para ela. O sorriso foi-lhe transportado no movimento do olhar. Dos pés à cabeça de Joana. Viajara assim. You looked inside my fantasies and made each one como true/Something no one else had ever found a way to do. Estendeu-lhe a mão. Joana foi.

Tudo acontecia com a solenidade das grandes ocasiões. Dos eventos importantes. Olharam-se com a seriedade de quem preside a um ritual. Apenas as pontas dos dedos atuavam sobre a pele. Durante algum tempo foi assim. Talvez durante muito tempo. O sangue a ferver pulsava nas bocas, porém. Por isso o beijo interminável colou os corpos nus que se confundiram. E a música aproximou-se devagar. Au première temp de la valse toute seul te sorrit déja/ Une valse à trois temps. Une valse à quatre temps. Subia de tom. Une valse à vingt temps/Une valse à cent temps. Explodia. Une valse à mil temps/Une passion de vingt ans parsque tu as vingt ans et j’ai vingt ans. A paixão afrouxou um pouco para deixar respirar o amor através das bocas que buscavam ar uma na outra. If i coulda make a wish i think i’d pass/can’t think of anything I need/No cigarrettes, no sleep, no light, no sound/Nothing to eat/No books to read/Making love with you left me peaceful, warm and tight/What else could I ask there’s nothing to be desired/Sometimes all I need is the air that i breath and to love you. O que se tornava difícil de suportar era aquela alternância de emoções que mudava todos os ritmos intempestivamente, confundindo tudo. Sem possibilidade de contrariar nada, elas abandonavam-se. Deixavam os corpos vibrar de acordo com os sons. Entregavam as almas indefesas aos caprichos da música. Joana queria-lhe o corpo. Incendiava-a com o hálito. Molhava-a com saliva, acalmando-lhe a pele. Entrou pela virgindade dela e furou. Clara sentiu a devida dor. Depois Joana foi beber o sangue com devoção. Passou-lhe os dedos pela boca, pintando-lhe a boca de vermelho. Tu vieste em flor/Eu te desfolhei/Tu te deste em amor.

Joana: És minha?

Clara: Toda.

Joana: És boa.

Clara: Tu é que és.

Nenhuma delas sentia obscenidade no que acontecia. Nem uma ponta de vergonha.

Clara: Vem por favor. Faz tudo outra vez.

O mundo tinha o tamanho daquelas quatro paredes. Era essa a dimensão do universo. Aquele pequeno quarto. Os únicos seres viventes eram elas de modo que podiam dizer e fazer tudo o que queriam. Sem limites. Experimentaram.

Joana: Tens que pedir.

Clara: A sério?

Joana: Sim.

Clara falou-lhe muito baixinho.

Clara: Fode-me e chupa-me outra vez.

Joana: Tu não tens vergonha.

Clara: Tenho um bocadinho.

Joana rolou para cima do corpo dela mais uma vez. Clara fechou os olhos. Devora me outra vez, vem devora me outra vez. Por fim o prazer do amor recuperou completamente a vitalidade de Clara.

Clara: Agora vais ficar ai bem quietinha.

A bela amazona sentia-se novamente plena de vigor. Cheia do seu espírito guerreiro. Preparava-se para subir para a montada. Desejava cavalgar velozmente a sua égua. Queria-a sem freios. Deu-lhe de esporas. Ela empinou. Clara sentiu uma vertigem. Fê-la desenfrear numa correria. Sentiu-a a querer afrouxar. Não lho permitiu. Feriu-a nos flancos. A égua relinchava de dor. E sangrava. O animal acabou por disparar descontrolado como Clara desejava. Manteve-se habilmente na sela até a égua estacar completamente extenuada. Desmontou. Passou-lhe a mão pelo corpo derretido em líquidos de várias qualidades. Lambeu-lhe as zonas doridas. Engoliu-lhe as lágrimas uma por uma. O sal fez-lhe sede. Foi beber à fonte de água corrente. Ao lugar que no momento era o centro do seu universo. O seu mundo provisório. Joana enfiou os dedos nos cabelos dela e respirou fundo. Nobody does it better/Nobody does it half as good as you/Babe your the best. No fim Clara regressou à boca dela e sussurrou-lhe sobre os lábios.

Clara: Querida. Querida.

Joana: Diz, querida.

Clara: É só para te chamar querida.

Joana: Minha querida.

Pararam pelo tempo do leve cansaço. Voltaram depois no gesto amplo com que Clara alterou o cenário e deu novas falas ao texto. Parecia muito séria.

Clara: Tu tiraste-me a virgindade.

Joana apenas a olhou ardentemente. Não sabia falar. Clara pegou na mão dela e exibiu-lhe os dedos com réstias de sangue mesmo em frente ao azul dos seus olhos. Joana tocou-lhe o canto da boca com eles e declarou com solenidade:

Joana: Eu sou tua.

Clara: Sim.

Pararam. Joana franziu ligeiramente a testa.

Joana: Doeu, amor?

Clara: Nada. Não notei nada.

Joana: Parece que durantes estas horas passaram muitos anos.

Calaram-se. Os olhos de Clara seguiam figuras transparentes que lhe fugiam em direção ao céu. Joana tentou alcança-la.

Joana: Em que estás a pensar?

Clara: Estou a pensar que ainda não há muito tempo eu era uma pessoa diferente e a minha vida era outra.

Joana: Também eu era.

Suspirou, expirando algumas toxicidades.

Clara: Sim.

Joana: E agora como vai ser?

Clara: Agora talvez eu precise de te amar todos os dias a todas as horas para poder continuar.

Joana: Continuar a respirar?

Clara: Sim.

publicado por Cat2007 às 23:37
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Setembro 07 2016

 

 

Sobre o que escrever? Claro que, na sequência do post abaixo, e porque o filme está aí, havia muito da dizer sobre a insuperável Florence Foster Jenkins. E, por analogia, sobre a grandíssima Natália de Andrade. E, noutro registo, mas no mesmíssimo registo da paixão, sobre a divina Maria Callas. Entre estas três há um ponto em comum, naquilo que obviamente me diz respeito. A capacidade de me emocionar ao extremo. Embora a Callas não me faça rir. Só sorrir. Mas, como ia dizendo, creio que quem as ouve me compreende. E me dá razão quando digo (quando disse no post anterior) que, no filme, é uma pena ter sido a Meryl Streep a cantar. Assim não se percebe bem. A comédia e o drama que o verdadeiro talento alimentava.

 

No entanto, ponto final sobre o assunto. É preciso mudar de assunto. Porque é preciso mudar. Eu preciso. Sobre o que escrever? Ora, vejamos: com exceção de no amor (foi de no amor que eu quis mesmo escrever. Não há erro), não gosto de ser provocada. Ninguém gosta, creio eu Mas no amor é muito bom. Suscita o desejo, abrindo espaços para o encantamento. Uma pessoa ri-se, por exemplo. Mas as provocações no amor têm de ser de amor. Creio que não é necessário explicar com exemplos o que são provocações de amor. Nem dizer que não é necessário amar amar para que elas ocorram, bastando outros sentimentos também atrativos de menor monta.

 

De alguma forma, as provocações amorosas têm qualquer coisa a ver com o canto das cantoras líricas. De outro modo, eu não teria feito esta associação de ideias. De qualquer modo, não sabendo ainda bem explicar o que se passa, ocorre-me a palavra paixão e raciocínio. É preciso sentir que existe e é necessário compreender os contornos. É preciso disponibilidade.

 

publicado por Cat2007 às 16:57
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Fevereiro 16 2011

 

 

 

 

Não há luz no edifício inteiro. Sexta-feira. Ninguém fica a trabalhar até esta hora numa sexta-feira. Só eu.  

- O que estás aqui a fazer?!

- Venho buscar-te.

- Mas como? Porquê? Não há luz.

- Apagou-se mal saí do elevador. Foi sorte... O segurança deixou-me subir. Apeteceu-me ver-te antes de chegares a casa. É Dia dos Namorados.

- Já te conhece… Mas não tínhamos combinado... O dia dos Namorados é uma parvoíce, já sabes. E não há luz. Como descemos?

- Não descemos. Não há luz. É bom. É dia dos Namorados.

- Cala-te… Vamos embora. Em casa… Os telefones não funcionam. Estão ligados aos computadores. Não posso falar para o segurança. Não sei o número de telemóvel do homem, como é óbvio. Mas podemos descer. Há luzes de presença…

- Eu sei. Mas ficamos aqui até ele aparecer. É dia dos Namorados.

- Não me beijes assim, caraças!

- Deixa. Enquanto esperamos. Deixa. É dia dos Namorados.

- Está bem. Beijo assim… está bem. Mas não podes meter a mão ai. Qual Dia dos Namorados? Esquece isso.

- Gosto que me mordas a boca.

- Eu sei…

- Adoro.

- Merda, pá! Que barulheira! Contra a parede com tanta força. O tipo deve estar a chegar.

- Para que estás sempre a falar? Estás sempre a falar. Fode comigo.

- Já estamos. Mas… tenho que dizer que não acho isto bem.

- Achas, sim… ai! Olha as marcas, caraças!

- Não quero saber. Gosto de deixar marcas.

- É posse!

- O tipo está a chegar. Sim faz isso. Isso é bom. Posse também …é bom.

- O tipo chega em 5 minutos. Tens que te vir em 2.

- Sabes lá tu o tempo que o gajo demora!

- Estamos no último andar. Vá! Tens 2 minutos.

- Vai-te lixar. Estou no meu trabalho. Estou quase…

- Não arriscas nada! Só o bom nome. Vem-te!

- Não te rias idiota! O bom nome é quase tudo.

- O orgasmo é que é quase tudo. Estás… eu sinto…

- Estou… olha, estou. Já está. Pronto! Vês?

- Vejo… Amo-te.

- E eu a ti. Muito. E tu agora? Não queres que… É dia dos Namorados.

- Como?

- Pronto. É. Não te rias.

- Foder-te é bom. Não quero mais nada. Descansa em mim. É Dia dos Namorados.

- Sim…? Sr. José?

- Faltou a luz no edifico. Passa das onze da noite.

- Faltou a luz quando? Não me diga que adormeci aqui... Que vergonha!

- Parece que sim. Deixe lá. Não é vergonha nenhuma. Então não vê que é cansaço? Esta semana saiu sempre depois das dez.

- Pois foi. Saí.

- Vamos descer?

- Sim.

 

publicado por Cat2007 às 18:15
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Fevereiro 07 2011

 

 

Susan Molly é o meu cão. Um macho não afectado. Só assim podia ter este nick name que eu lhe arranjei. A minha tia tinha um Serra da Estrela gigantesco. Daqueles que têm o pelo como os leões. Não é como os leões, mas faz lembrar. Era um péssimo cão. Mordia a toda a gente, quero dizer. Menos a ela. Com excepção de uma vez. Deixou-lhe um dedo a sangrar. Mas foi só uma vez. Não posso descrever o amor que ela lhe tinha. Só visto. O olhar que ela devotou à fotografia dele depois de morto. Chamava-lhe Lola. A minha tia gostava da Lola Flores. Foi por isso. O meu cão é de raça pequena. Mas é racé. Susan Molly era o nome de um personagem de um filme. Não adorei o filme mas esta criança impressionou-me. Não sei se a minha tia achava que o cão dela cantava. Em castelhano ainda por cima. O meu não representa. Mas tem coisas no temperamento que me lembram muito a Susan. Especialmente a obsessão. Sou obcecada pela obsessão. Fico sempre fascinada a ver. Onde aquilo vai parar. Molly passou-se por causa de um tipo. Passou ao lado do sucesso porque a paixão a fez desacreditar de si. A dor da rejeição sujeitou-a à escravidão da espera da reaceitação. Desapareceu dentro de si. Nunca mais voltou. Nem quando deixou de acreditar nele. Nem quando percebeu que não se deve acreditar em ninguém de uma forma em que não se acredita, mas apenas se sente a dependência. O equivoco de viver com um handicap emocional. Ele mostrou-lhe o buraco dentro do seu ser. Um buraco que existia antes, mas que esteve sempre tapado. Até ao dia em que ele lhe disse “não te quero mais”, O buraco repentinamente visível era muito maior que ele. Mas Susan confundiu-se. Viveu obcecada pelo homem para fugir do buraco. Todo o resto do seu ser, que era bom e especial, foi engolido pelo abismo. No fim do filme, há um grande plano da cara dela. Vê-se perfeitamente que está narcotizada. Morta. Porque os braços estão caídos. Assim a pender. O meu cão passa horas à boca de um buraco negro por onde não consegue entrar. É um cão de caça. Está lá dentro uma ratazana. Não pára de ladrar. O corpo treme todo. Tenho que lhe bater para o trazer para dentro de casa. Mas invariavelmente volta à boca do buraco. Volto a bater-lhe sempre que quer ficar lá mais de uma hora. Quando está longe do buraco nem se lembra. E é muito feliz. Creio que alguém devia ter dado uma enorme sova à Susan Molly.

publicado por Cat2007 às 20:43
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Dezembro 24 2010

Há um dia qualquer em que vou no carro. Pode ser por aí. Pode ser para o trabalho. Não sei para onde. O rádio está ligado numa música. Gosto de tango. Muito. Há esta consciência em mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

Gosto de vozes de mulheres que cantam assim. A cabeça pára-me de pensar ali. Olho para a melodia e para o som da voz. Sei que não tive tempo para realizar nada do que foi dito. Fiquei neste verso. "Abraca me esta noche". Chega. A música. A voz. E o verso. Pensei que não me sentia assim ali. Mas sentia. Quedei-me numa melancolia com saudade do futuro. "Acerca te a mi". Teria de esperar pelo momento em que esta musica me fizesse sentido. Estava descrente. "Abraca me esta noche"...

 

Muito obrigada.

 

 

 

 

publicado por Cat2007 às 22:27
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"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"
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