CAFÉ EXPRESSO

Novembro 09 2010

 

 

Não, não vou continuar a reflectir sobre as coisas que o Cazuza andou a dizer na vida. Nem sequer sou uma admiradora incondicional. Seja como for, preciso ainda de mais dois parágrafos para o terminar. Não estou a dizer matar. Coisa tecnicamente impossível, como sabemos. Seja em que sentido for.

 

Uma das composições mais bonitas do Cazuza chama-se Codinome Beija-flor. A certa altura das palavras ele diz "segredos de liquidificador". Uma amiga carioca desabafou comigo. Ainda naquela altura não sabia o que queria o homem dizer. Eu informei como se fosse da família. São coisas que se dizem ao ouvido para derreter. Como sabia? Estava atenta. Estava atenta e tenho este feitio. Gosto de adivinhar. Mas adivinhei neste caso. Vejamos, um pouco antes na canção ele fala em destilar. A lógica do destilar com a de liquidificar implica a obrigação de não usar o termo derreter. Em resumo, "segredos de liquidificador" são coisas que se dizem ao ouvido para derreter. Não necessáriamente o gelo. Aqui o processo não é como o da maioria dos alimentos. Primeiro derretam-se e depois são cozinhados. Aqui cozinha-se a coisa enquanto vai derretendo.

 

Creio que voltei a chamar o Cazuza à colação para não deixar a impressão que o homem só criava melodias insuportáveis, apesar do sentido das letras. Resta acrescentar que os White Snake, só inventaram duas músicas com música audível. Lyrics de jeito, que me esteja a lembrar, uma. O Here i go again. Gosto muito. Bom, mas um poema é que isto não é. Há letras de canções. Não poemas. É a maior parte. E está muito bem. Mas existem poemas que podem ser musicados. Sabemos isto. Não pedimos aos músicos/compositores que sejam poetas. Sobretudo pop/rock. No entanto, por vezes sucede que é assim. E neste campo, os brasileiros dão uma goleada a quaisquer outros. Porquê não sei. O suíços também são óptimos a fazer relógios. Pronto os rockers estão comparados e os relógios suíços são muito bonitos e têm muita qualidade. Tenho pena que existam relógios ou outros mecanismos para controlar o tempo. Mas já que existem, que sejam suíços.

 

O tempo devia ser marcado pela hora de cada um de nós. Falo por mim, como é evidente. Queria uma regra universal para me servir. O mundo à minha medida é que era bom. Mas parece que não é possível. Eu gosto de fazer tudo e de olhar para tudo. Não há o risco de me ausentar da vida e não cumprir as minhas obrigações. Profissionais e pessoais. É por isso que não preciso de horas. Tenho sempre a minha hora. Que, por azar, não bate com as horas oficiais. Deve ser por isso que nunca me sinto totalmente integrada em nada.

 

Estava aqui a tentar não falar de mim. Não fui bem sucedida, conforme se comprova pelo parágrafo anterior. Mas não só. Os outros dois também me dizem respeito. Apenas disfarço melhor a coisa. A questão é. Quando falamos dos outros e das coisas não humanas exteriores a nós é possível não nos envolvermos? Evitar meter o bedelho?

 

Só se fala daquilo que se conhece. Bem ou mal. Conhecer, não falar. Não me importa agora aprofundar o tema da bisbilhotice. Por definição é assim. Eu não posso dizer um nome de uma refeição dos índios do Xingu se nunca o ouvi. Posso mentir e inventá-lo. Mas também não é disso que estou aqui a tratar. De mentiras. O que digo é que só podemos falar de coisas e pessoas que se cruzaram com os nossos sentidos. Nem que tenha sido de passagem. Mesmo os esquizofrénicos falam do que estão a ver e a ouvir. Embora nós não. Nós não vemos e ouvimos certas coisas que eles vivem.

 

Assim, é impossível evitar a síntese. Um tanto filosoficamente afirmo que as coisas que são diferem das abordagens pessoais e são por isso diferentes conforme as mesmas abordagens. Claro que não estou a dizer aqui uma novidade. Vários filósofos mortos estudados no 12.º ano disseram o mesmo. Talvez por isso esteja tão à vontade a fazer afirmações desta índole. Porque estou a generalizar. Se estivesse a ser muito euzista diria o mesmo. Mas só porque sinto assim.

 

Disse sinto e não penso. Pensar é um fenómeno impulsionado pelas emoções. Mesmo que se acabe a pensar o contrário do que o coração manda. Igualmente não revelo nada de novo. Estou só a lembrar algo que certas pessoas estudaram. Ajuda a apurar a nossa lucidez. Sobretudo nos momentos menos lúcidos.

 

Penso na Paula Rego. Ainda no outro dia fui lá ao museu. Claro que já não estava aquela exposição impressionante que voltou para a Tate. De qualquer forma, aproveitei e fui à loja dos souvenirs para relembrar. Mesmo que pudesse, não teria nenhum daqueles quadros em casa. Quadros de que gostei intensamente. Que não me cansaria de rever. E, porém, nem um em minha casa. Ela pinta o que sente sobre tudo o que passou pelos seus sentidos e lhe vale a pena registar. O modo como ela vê as coisas, a lucidez particular da Paula Rego esmagam-me! Não vejo assim. Mas dou-lhe toda a razão. Porque, além do mais, o produto da sua recreação do mundo acrescenta-nos novas perspectivas de um modo arrebatadoramente talentoso.

 

Pois. Precisamos muito uns dos outros.

 

 

publicado por Cat2007 às 17:10
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Fevereiro 19 2007
Fui à Gulbenkian ver a exposição do Amadeo de Souza Cardoso. Gostei muito de muita coisa, mas não saberia escrever sobre isso. Tenho pena.
Fica, então, apenas a minha visão de um só quadro: "O luto, a cabeça e a boquilha"
 
Amadeo de Souza Cardoso não tem olhos. Pelo menos, não tem olhos que se lhe vejam. Ou, de outro modo, não se lhe vêem os olhos. Este é, talvez, o traço mais notório e o elo comum a todas as criações do artista sobre rostos de gente, em dada fase da sua obra.
 
As suas cabeças humanas nada mostram a partir de dentro das enormes órbitas escuras que ostentam. É mesmo assim o quadro a que chamou: “a cabeça, o luto e a boquilha”. Uma plasticidade sinistra que chega onde quer: ao arrepiante, ao revoltante e ao incomodativo. Uma obra emergente de um mesclado de tons escuros sobre o sinistro verde cipreste, onde o vermelho do sangue se impõe -  numa subtileza que o ostenta. E os olhos que, sem dúvida, existem estão quietos e invisíveis, envoltos naquela escuridão assustadoramente intrigante. Fica a impressão, que é quase uma certeza: aqueles olhos não vêem como deviam ver. Não vêem claramente. Como é, por outro lado, certo, também, que tais olhos não se querem deixar ver. 
 
A verdade é que o rosto do homem que tem os olhos escondidos não precisa de olhos para que o vejam. É fácil observar que o homem que está de luto veste um fato muito elegante e fuma por uma boquilha. Está de luto. O luto veio da morte e, no entanto, nota-se bem que é precisamente a morte que ele não quer ver. Veste-se com requinte e fuma com boquilha para parecer mesmo requintado, frívolo, superior, divorciado das menoridades, do que é realmente humano. Ele fuma de boquilha com desprezo pela vida e pela morte. Como se fosse outro e estivesse num patamar mais acima. Como se acreditasse na eternidade que é própria dos deuses. Uma classe material-espiritual de seres muito superiores à qual ele, por força de alguns dos seus marcadíssimos traços pessoais, acredita pertencer.
 
Note-se que ele não vê a eternidade como vida. A eternidade não é vida nem morte. É outra coisa. Outro estado. É algo que se move num plano de beleza e de prazer permanentes. É isto que os seus olhos envoltos de escuridão vêm. Por isto, quem vê o rosto, diz que tais olhos não vêm bem.
 
O sangue na boca é uma prova ou, pelo menos, um sinal do glaucoma. É verdade, aqueles olhos vêm, mas estão a cegar. Estão a ficar cegos, num processo gradual de degradação fisiológica provocada pelos equívocos, pais dos erros sucessivos. De ilusão em ilusão a doença agrava-se e os olhos estão quase cegos. Não vêm, portanto, o sangue que escorre da sua própria boca. Da boca dos olhos. Da boca da alma. A alma está a apagar-se na mesma proporção em que os olhos cegam. A morte está mesmo ali. Os nervos, esses, nunca souberam sentir. O sangue escorre, provando a parte de humanidade menor daquele ser. O descontentamento de todos os homens que queriam ser como deuses. O inconformismo desfocado da maior parte dos seres humanos.
 
O sangue é o inequívoco sinal da destruição das suas ilusões sobre a hipótese de ser divino. Ele é de carne e osso e vale bem menos do que o fato elegante e da boquilha (que lhe dá ainda mais requinte). Ele vendeu a alma ao fato e à boquilha. Agora a sua vida está gasta pelo uso, enquanto o fato e a boquilha brilham de luxo e lustro. É que a vida não se pode trocar por outra quando está gasta pelo uso. A vida não se compra com dinheiro, como os belos fatos e as irradiantes boquilhas.
 
Remira-se o quadro, a obra, uma vez mais. A dúvida assalta-nos: Poderá ser que o homem de luto está a fazer o luto pela sua própria morte? Será que foi ele quem morreu? Pode ser que a cabeça pertença ao morto. Que os seus olhos estejam mesmo definitivamente apagados. Que o fato brilhe em função da extrema qualidade do tecido e da preciosidade do corte. E que a requintada boquilha já esteja apagada – o que pouco importa pois a sua função não é essa.
 
A cabeça pertence a um ser ridículo. Neste ponto, dúvida não há.
 
publicado por Cat2007 às 00:10
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