CAFÉ EXPRESSO

Agosto 19 2010

  

    

 

 

 

Há pessoas que querem manter-se sempre jovens. Portanto, vão descuidando quaisquer responsabilidades de um adulto, deixando deliberadamente, ou não, de as assumir. E, por consequência, de as enfrentar. Tudo isto acontece basicamente por falta de desenvolvimento do senso moral. O sentido moral é o instrumento humano que propicia a superação de obstáculos íntimos ou externos (um código sólido de valores estruturais?). O Peter  Pan não assume qualquer tipo de responsabilidade. É como se estivesse parado no tempo. O que no caso dele é mesmo verdade. Exacto. Estou a falar do "Complexo de Peter Pan". E cheia de tecnicidades que não estou academicamente autorizada a utilizar, diga-se. Adiante.

 

Porque na minha óptica importa aqui ao caso, informo que também existe o "Complexo de Cinderela". Praga que atinge  mulheres e homens. Embora, ao que parece, não de igual modo. Há menos homens Cinderelas do que mulheres. O que faz todo o sentido. De facto, entre outras coisas, os homens não têm os pés suficientemente delicados para aguentarem uns elegantes sapatinhos de cristal, salto 12 cm. E os que aguentam  não têm os pés delicados igualmente.

 

Genericamente, o "Complexo de Cinderela" consiste na mania que algumas (muitas?) pessoas têm de procurar um grande amor. E tal amor tem de ter como objecto uma pessoa perfeita. Tal e qual. Uma pessoa perfeita! Claro que esta perfeição é um conceito subjectivo. É a perfeição concebida pelas cabeças das Cinderelas aquando das construções teóricas que desenvolvem durante a dedicada lavagem do chão da cozinha. Toda a gente sabe que as tarefas domésticas são extremamente relaxantes e dão muito tempo para pensar. O que é bom. 

 

Eventualmente, todos temos um pouco a mania que somos Peter Pan. Enquanto que, ao mesmo tempo, todos procuramos o ser ideal para uma vida a dois, como a Cinderela. As diferenças (entre todos) é que uns somos mais assim que outros.  Com exclusão dos verdadeiramente manientos, dos patológicos... Enfim, daqueles que deixam mesmo transpirar por todos os poros da pele estas desreguladas obsessões  e só se aguentam na base dos comprimidos hard, injecções, internamentos, choques eléctricos e lobotomias (as duas últimas técnicas já não se usam). Estes, são muito mais assim do que o resto da população. Não é deles que quero falar, como é evidente. A conversa é com os outros. Nós, portanto. Nós os consumidores activos ou potenciais de Xanax e anti-depressivos. Todos nós que entramos nesta estatística. Nós queremos ser o Peter. E somos também uma parva de uma Gata Borralheira que há-de ser princesa, enquanto nós não.

 

Já estou desconfiada de nós. Para começar, o Peter Pan é uma criança. Depois, e a despeito do nome, não se percebe bem se é um rapaz ou uma rapariga. Verifico um obstáculos legal. Em Portugal só podem casar os cidadãos maiores de idade ou os menores, com mais de 16 anos, desde que devidamente emancipados pelos pais. Então como é que o Peter Pan se vai casar se nem pais tem? E que idade tem o Pan? É sub-16 certamente, pelo que o problema da autorização dos pais nem se coloca. Por outro lado, como qualificar a Cinderela que habita dentro de nós? Um transexual, se se trata de uma Cinderela Pan ? Mas pode, no entanto, pertencer ao terceiro sexo. Já o Peter, só por si (por ser como é), já pertence.

 

Cinderela e Peter Pan vivem dentro de nós como um só. São um híbrido. Como se já não chegasse a própria hibridez do rapaz/menina. Fundidos são ainda mais híbridos. Porque então temos rapaz/rapariga/menino. Como podemos nós andar bem?

 

Pessolamente, estou-me nas tintas para a Cinderela. Andei a tomar por enganos comprimidos para a esquizófrenia (contra a credulidade informo que estou a brincar, ok?) e deixei de a ver e de a ouvir (contra a incredulidade informo que esta parte é verdade, ok?). Não sei se ela morreu dentro de mim. Sei que não a vejo e não a ouço. Agora já posso reconhecer com toda a tranquilidade: eu não sou uma pessoa perfeita.  O mais fez o meu sentido de justiça. Fez-me pensar: então se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso aspirar a conquistar alguém assim para mim? E também pude raciocinar nos seguintes termos: se eu não sou uma pessoa perfeita, como posso saber o que é a perfeição? Se eu não sei o que é a perfeição como vou reconhecê-la nos outros? E por fim pensei: a perfeição deve ser uma grande chatice. Logo não pode ser perfeita. Donde, não existe. Mesmo Deus, Nosso Senhor, tão perfeito, tão perfeito e vai logo conceber umas criaturas como nós, capazes abrir buracos na Camada de Ozono. 

 

Já agora, porque é que Deus é um homem? Imensa gente faz esta pergunta a si mesma nos mais diversos locais. No duche de manhã. No supermercado. No trânsito. No... Igualmente, pergunta aos outros. Depois de fazer amor. Durante um jogo de futebol. Na praia. Em... Já me perguntaram. E nem me lembro em que situação foi. 

 

Não faço ideia porque Deus em imagem é um homem. Mas desconfio que é verdade. Se Deus tiver uma imagem, só pode ser a de um homem. Porquê? Não sei. Os extraterrestres também são sempre representados como humanóides. Pode ser pela mesma razão. E mais, se os extra-terrestres vêm do céu e se Nosso Senhor está no céu, então é porque são todos do sexo masculino. Não vou discutir isto. Nunca fui ao Céu. Quer dizer, já fui, mas não a este Céu de que estou a falar. Não tenho ideias nem argumentos. Não sei de nada. Apenas digo ainda bem que Deus e os Marcianos, em princípio,  não fazem sexo. Senão eram todos gays. E, como se sabe, há quem não goste de gays. Onde ficava a fé das pessoas? O que faria o Paulo Portas aos domingos de manhã. É que deixava de haver igreja. O Colégio São João de Brito encerrava? O que diriamos ao Papa? Será que Deus fala com os Marcianos e todos os extraterrestres, em geral? Porque nunca fala Deus connosco, os humanos? Será que não gosta de ser visto como  homem?

 

Será que Deus gostaria de pertencer ao terceiro sexo? Será que o Peter Pan é Deus? E a Cinderela também tem alguma coisa de divino? Ao que parece, só terá se for homem ou pertencer ao terceiro sexo. Aposto que sim. Que, bem lá no fundo, a Cinderela é um homem. Mas o Peter Pan não é homem. Já o disse. Em primeiro lugar, é um míudo. Depois é um míudo/miuda-porém- não-transsexual. Peter Pan pode ser uma criatura do terceiro sexo. Já o disse. Agora, que isto que tenho vindo a escrever não tem qualquer lógica ou interesse, também é verdade.

 

Vamos ao que interessa. Como disse, acredito que me libertei da Cinderela. De modo que posso esquecê-la. Tenho pena de quem ainda anda com a mulher colada à parte de dentro das costas. Tenho a certeza que a criatura provoca umas dores terríveis nas costelas. E até pode conseguir partir alguma. Por mim, basta-me o Pan aos saltos. Saltos enormes que eu não consigo dar, mas que acontecem dentro de mim. É um inferno! 

 

Num determinado aspecto, sou tão irresponsável como o Peter Pan. Porém, não tenho o mesmo jeito que ele para a ginástica desportiva e para a esgrima. Igualmente não tenho um batalhão de amigos que confiam em mim e me seguem para todo o lado, bem sabendo que eu sou naturalmente quem sou. Mais importante que tudo, não sou capaz de parar o tempo e ficar parada com outros dentro dele. Só sei ficar parada enquanto o tempo alheio a mim corre. Não tenho a velocidade do Peter para apanhar o tempo. É por isso que ele continua pequeno e ágil e eu estou para aqui uma adulta deprimente a lutar contra a adaptação com uma espada invisível. Eu queria lutar contra o Capitão Gancho. Não acredito na maioria das coisas a que tenho de me adaptar. Se acreditasse, não gostava delas.

 

Vou revelar um segredo. Acho melhor. Nunca fui irresponsável. Eu trabalho constantemente num processo de inadapatação muito consciente e responsável. Tenho muita pena de não ter  muito em comum com o Peter Pan. No entanto, sou capaz de parar o meu próprio tempo de acordo com o ritmo que imponho. Mas o meu mundo é só meu. Tenho alguma pena de não viver na "Terra do Nunca".

 

publicado por Cat2007 às 13:36
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Março 27 2008

 

 

Exitem várias versões da estória. Mas o elemento comum a todas é o fim. No fim, Narciso morreu no limite de um longissimo exercíco de auto-contemplação extasiada. Abdicou do resto para além de si. Da vida. Morreu de lindo que se via. De lindo que se julgava. Não comeu. Não dormiu. Não fez mais nada para além do dia em que viu o seu próprio reflexo, e se encantou.

 

Todos percebemos que beleza que justifique isto não existe. Por um lado, não existe porque não existe. Porque a beleza é nada para além de um conceito altamente subjectivo. Quem acha, acha. Quem não acha não acha. Para o mesmo. Narciso só achava que era a mais bela das criaturas. Qualquer um de nós poderia sempre discordar sentidamente dele. Por outro lado, ainda que existisse o que não existe, subsiste o sentido que não faz a obsessão do indivíduo por si próprio (recuso-me a chamar a isto amor) ao ponto de lhe consumir a alma e a vida.

 

Simplificadamente, o narcisismo consiste na incapacidade de ver e sentir as realidades que transcendem a individualidade. O seu fundamento reside numa profunda falta de afecto. A necessidade obriga à concentração do ser sobre si mesmo. Porque está concentrado em si, o sujeito observa demasiadas vezes o seu reflexo. Ora, o reflexo é apenas uma imagem superficial do ser. É a ela que o narcisista está preso. Por isso, só desce nas profundezas da água quando deixa de ser e de sentir. Quando morre. Submerge. E vai ao fundo. Só quando morre, e já nada faz sentido. Até lá, até ao fim, sofre. Muitíssimo!

 

publicado por Cat2007 às 20:48
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