CAFÉ EXPRESSO

Junho 28 2012

 

 

É inegável que nos dias de hoje existe um movimento não organizado de pessoas que sabem tudo sobre a alma e o espírito… dos outros. Em geral, são pessoas pouco cultas – porque incapazes de ler um livro que não seja de autoajuda -, pouco introspetivas, um tanto frívolas e - se não são mentalmente perturbadas – pouco inteligentes. Também costumam ser ridiculamente egocêntricas. São as beatas e os beatos “pró new age” (BPNW).

 

Os BPNW estão em todo o lado e são facilmente reconhecidos pelo discurso. Não há criatura que ainda não tenha “levado” com eles. Um BPNB afirma-se normalmente budista sem, por exemplo, nunca ter ouvido falar do Príncipe Siddhartha, tem a Deusa da fertilidade colocada em cima do móvel de esquina da sala e em princípio não tem filhos, acredita profundamente na astrologia e no tarot, fala com a profundidade dos excertos retirados dos ditos do Dalai Lama que circulam abundantemente pela internet, tem a mania de usar termos que sugerem pro atividade e “pensamento positivo”, adora frases feitas sobre o amor, a amizade, a saúde e a fé e, por fim, adora atirar com a sua auto propalada capacidade psicanalítica de ignorante e irresponsável licenciado sobre as pessoas.

 

Exemplos práticos do discurso BPNW:

- No dia da morte de Michael Jackson alguém nos diz que afinal quem partiu foi o seu irmão espiritual. Apesar do choque e da náusea do riso sufocado, nós perguntamos: “mas porque dizes isso?” Resposta: “Nascemos no mesmo dia e temos características físicas e um percurso pessoal parecidos. Fiquei muito mal com a notícia”. Reação: “mas tu não és negro (ou negra)” - nem um ícone pop, já agora. Contra reação: olhos franzidos pregados no firmamento. Respiração profunda. Sem fala;

 

- Uma pessoa que tecnicamente nos quer “saltar para cima” informa: “fui a um astrólogo. Deitou-me as cartas, os búzios e leu a chávena com as borras do café. O resultado foi que ficarei contigo”. Contudo, não nos pergunta se há alguma possibilidade de nós estarmos de acordo com as predições, já que somos parte interessada.

 

Claro que os BPNW sempre me enervaram solenemente. No entanto, desde que a minha mãe morreu, abomino-os. É que logo na altura recebi a seguinte mensagem de que deixo um pequenino excerto: “Lamento que não estejas em paz. A tua reação… mostra que estás a precisar de canalizar a tua dor pela agressividade, por isso não o tomarei por pessoal (…) Estás como uma criança revoltada a pontapear td e todos, a precisar de ser abraçada com força”.

 

Para que tudo fique bem claro é muito importante referir que a pessoa que me enviou esta mensagem não me vê há mais de um ano, não fala comigo ao telefone há mais de um ano e desconhece por completo o processo, o que fiz, como estive e como me sinto. Não podia assim saber se eu pontapeava e quem, que odeio abraços apertados que não sejam para efeitos sexuais e que a dor de perder a mãe nunca é canalizada para lado nenhum. Fica dentro de nós, que teremos de aprender a viver com ela.

 

De facto, não aguento este miserabilismo moral por baixo de tanta fadiga intelectual. São os BPNW. É fugir deles.

 

 

publicado por Cat2007 às 17:24
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Agosto 06 2010
 
 
Todos nós temos as nossas inseguranças. Esta frase é mais batida do que um capacho. Não sei se não lhe devíamos bater menos. É que manifesta tanta verdade, que talvez não mereça ser assim tratada. Isto se estamos de acordo sobre a bondade da verdade. Podemos não estar. Pode haver quem considere a verdade uma coisa má. Ás vezes, eu acho que sim. E não falo na perspectiva do mentiroso, mas do outro. Seja como for, eventualmente, é de se guardar algum respeito, alguma deferência, às coisas certeiras. Porque tudo aquilo que é capaz de se afinar perfeitamente com um alvo tem qualidade superior. Superior à média de grande parte do que somos e fazemos.
 
Pensava no antónimo de inseguro. É seguro. Então, e um sinónimo de inseguro? É solto? Cambaleante? Trémulo? Desconfiado? Duvidoso? Frágil? Medroso? Novo rico? Agressivo? Malcriado? Nervoso? Escondido? Descapotável? Encarnado? Doente? Velho? Apático? Criança? Paixão? Vivo? Então um sinónimo de seguro? Preso? Firme? Certo? Consciente? Forte? Corajoso? Velho rico? Compassivo? Benevolente? Compreensivo? Declarado? Com capota? Preto? Saudável? Adulto? Amor? Morto? Não. Estes sinónimos e antónimos não ajudam na definição. O que eu queria era saber o que é ser inseguro. Concretamente, o que é uma pessoa insegura.
 
Todos nós temos as nossas inseguranças. Foi o que comecei por dizer. Portanto, não existem pessoas sem inseguranças. Pelo menos uma. Só uma. Não há ninguém que não tenha. Depois de muito reflectir, cheguei à conclusão que a insegurança não está directamente ligada ao medo. Pelo menos, não nasce daí. Na verdade, o medo  é, num primeiro nível, uma reacção normal ligada ao instinto de sobrevivência. A insegurança, por seu lado, tem mais a ver com uma certa necessidade de afirmação. Quanto mais a pessoa deseja ser aceite e/ou amada, mais insegura ela é ou se torna.  E, agora, já é fácil perceber que todos temos as nossas inseguranças, mas uns mais do que outros.
 
A ideia aqui não é dar uma explicação técnica para a qual não estou habilitada. A ideia aqui é mesmo ir dizendo umas coisas sem assumir responsabilidades. Sou demasiado insegura para me pôr a estudar o assunto e fazer uma exposição condigna. Tenho medo de não fazer a coisa bem feita. Eu disse tenho medo? Mas, então... Parece que sempre há uma relação entre o medo e a insegurança. Bom, também não disse que não havia. Trata-se de uma relação de sentido ao contrário. Ou seja, não é o medo que provoca a insegurança, mas a insegurança que provoca o medo. Quer dizer, se eu tenho medo de gays ou aranhas, sou fóbica (com todas as respectivas consequências), não insegura. Se eu não arrisco uma determinada atitude desconhecida aos meus padrões habituais mentais ou comportamentais,  sou insegura porque temo os juízos alheios.
 
Eventualmente, pior do que temer as valorações alheias é mesmo não aguentar com a crítica interna. É que dos outros podemos sempre fugir, já de nós próprios...  Então, de onde virá a crítica interna ou auto-critica sem comiserações? Qual a raíz do mal que impede o amor-próprio e só deixa ficar alguma simpatia própria? Eu creio que pode ser o relacionamento, de alguma forma estranho, com os pais na infância. É que, se analisarmos bem, os pais são culpados de tudo. Basta serem os responsáveis pelo inicio desta nossa tortuosa existência na terra.
 
Ao que acresce o aditivo poderoso que é a nossa educação judaico-cristã (parte dela também da responsabilidade dos pais, está claro). Velho e Novo Testamentos. As contradições fundamentais entre ambos, só por si, podem enlouquecer qualquer seguidor mais convicto. Porém, o pior é a materialização dos Evangelhos pelos padres na missa dominical (ou de sábado, para quem não pode). Desde muito pequena que eu sei que sou culpada. Culpada! De quê? Basicamente de tudo. Sobretudo da morte de Jesus Cristo. Desde muito cedo que me sinto uma assassina de um santo. Do Salvador, digo. Tenho tentado, em vão, lembrar-me do que aconteceu. Como se passaram as coisas. Ajudei a prendê-lO, denunciei-O, chicoteei-O? Preguei-Lhe as mãos? Não me lembro. E devia lembrar-me, já que sou culpada da sua morte. Mas não é fácil. Foi há mais de dois mil anos. O que terei feito eu a Cristo há dois mil anos?
 
Em resumo, estamos todos cá para pagar os nossos pecados. Desde que nascemos que é assim. O próprio acto de nascer já é um pecado. Não percebo como a Igreja Católica não é a favor, mas contra o aborto. Só não digo que isto é um contra-senso porque sou demasiado imperfeita aos olhos de Deus para conhecer das revelações. Só o Papa sabe a resposta. Porque ele é o Santo Padre.
 
Peço, portanto, desculpa. Sou culpada. Peço desculpa. Prometo sentir-me sempre insegura porque a culpa é minha. Não interessa de quê. Sou tecnicamente culpada de tudo. Serei sempre insegura e pedirei sempre desculpa. Porque, quando morrer, quero ir para o Céu.
publicado por Cat2007 às 16:04
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Outubro 22 2008

 

 

 

 

Santo Deus! Acabei de ler o post anterior e quase entro em pânico. Pois é isso. Uma testemunha de Jeová. Parece que o texto foi inventado por uma testemunha de Jeová. Uma pregadora cheia de boa vontade e chata até á exaustão. O que é que se passa comigo? Estou tão chocada! Não quero parecer tão boa pessoa. Por favor!

 

Desejo continuar a cometer erros e a pensar que sou muito melhor do que na realidade sou. Isto faz parte do meu encanto. Não quero perder o meu encanto. Prometo continuar a rir-me de tudo o que me parecer ridículo. E agora tenho que ir tomar um banho para ver se me sai esta estranha cor cinzenta de cima. 

publicado por Cat2007 às 21:17
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Abril 06 2008

 

Toda a gente conhece a expressão "Madalena arrependida". Claro que nem todos sabem da sua origem. Eu não estou bem certa, mas penso que está relacionada com Maria Madalena, a prostituta, contemporânea de Jesus Cristo. Ao que consta, Madalena chorou de arrependimento ao pés do Senhor por, durante algum tempo da sua vida, ter andado a vender o corpo a outros senhores. Daí a também a expressão relacionada: "Chorou que nem uma Madalena".

 

Por seu lado, o padre Borga, o padre Rossi português, que toda a gente conhece do inenarrável programa da manhã do Canal 1, " Praça da Alegria", canta: ~

 

"Vidas cruzadas
Palavras ditas assim
Abraços vindos de Ti
Mãos são tocadas
Porque é urgente
O que eu senti
O que eu tenho é pouco para amar
Mas é forte a vontade de ser
Imagem de Deus
Noutra forma de viver"

(www.padreborga.com )

 

E a coisa, não sendo, soa a uma gayzice incrível. Não sei se o padre Borga chora muito. Talvez não porque tem o aspecto de ser uma pessoa cheia de alegria cristã. Mas devia chorar que nem uma Madalena. Pelo ridículo, enfim. No entanto, não se chama Madalena. Por isso não se arrepende de nada. O padre, qual  Édith Piaf , parece mais ser do estilo  rien de rien "...  je ne regrette rien " (www.paroles.net). Até porque, além do mais, Maria Madalena, ao que se sabe, não cantava e a Piaf sim.

 

Agora, a verdade é que a francesa foi muito infeliz. E não foi salva. Enquanto Madalena a prostituta foi redimida por Jesus, e, além do mais, é muitíssimo mais famosa do que a Piaf. Com efeito, toda a gente sabe que os maiores best sellers de todos os tempos foram, por esta ordem: a Bíblia e... o Código Da  Vinci.  Vale, pois, a pena o arrependimento. E vale muito mais o arrependimento público. Ou, melhor, o arrependimento publicado.  

 

 

publicado por Cat2007 às 16:54
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