CAFÉ EXPRESSO

Outubro 31 2016

Despiram-se com rapidez apenas aparentemente apartadas. Em seguida mergulharam nuas na cama. No ato, os corpos foram um de encontro ao outro. Abraçaram-se com força. Madalena falou-lhe ao ouvido.

Madalena: Meu amor. Quero-te para sempre, meu amor.

Teresa não disse nada. Apenas a apertou mais. Madalena alisou-lhe os cabelos com a mão de fora, destapando-lhe o rosto. Beijou-lhe as faces muito devagar.

Madalena: És tão bonita. Meu Deus!

Teresa segurou-lhe a cabeça com as duas mãos e prendeu o olhar no dela. Madalena ficou entontecida com o fulgir daqueles olhos, no momento, cor de prata como o mar quando é coberto pelo sol. Aproximaram as bocas indolentemente. O beijo assim paliado queimava os lábios antes do encontro. E depois foi uma labareda que se acendeu. Em desespero, as línguas molhadas tentaram sem esperança mas com vicejo apagar aquele fogo que se reacendia a cada suspiro. As bocas colaram-se porque derreteram sob aquele calor insuportável. Pararam por desazo. Não conseguiram aguentar tamanho fervor. A temperatura desceu um pouco. Com cuidados, separaram os lábios vagarosamente. Teresa pôde então falar.

Teresa: Não acredito que estás aqui assim. Minha. Toda e só minha. Finalmente.

Madalena: Há muito tempo que só sou tua. Desde sempre. Mas também não acredito que estás aqui. Habituei-me a amar-te na tua ausência. Nem sei se sei fazer melhor contigo do que o amor que faço contigo.

Teresa: Não há mais nem melhor a fazer. Faz amor comigo todos os dias. Cola-te a mim assim para sempre. Vamos buscar esses vinte anos de amor ausente e vivê-los hoje com raiva e ternura.

Madalena: Com paixão e loucura.

Teresa: Com fome e com sede.

Madalena: Nem há vinte anos isto foi assim, minha querida.

Teresa: Há vinte anos ainda tínhamos vergonhas.

Madalena: Hoje o mundo é nosso. E o mundo está dentro desta cama aqui e agora. E amanhã estará no meio da rua para onde formos passear de mãos dadas. Vens passear amanhã comigo de mãos dadas?

Teresa: Com certeza. Eu sou uma exibicionista. Gosto de te exibir, boa. Porque tu és boa. Toda a gente vai ter inveja de mim. Olha, já sei. Vamos para o Chiado. Almoçamos lá. Dás-me comida à boca com o teu garfo e beijas-me na boca de cada vez que eu engolir.

Madalena: E tu seguras a minha mão e agarras-me com força para eu não cair por causa das tonturas.

Teresa: Depois vamos andar a pé a comer gelados. Tu comes da minha boca e eu como da tua.

Madalena: É perfeito porque gostamos as duas de chocolate. Vamos comprar dois gelados de chocolate. Quero ser assim. Pouco imaginativa. Livre para ser pobre de espírito e poder elevar o meu espírito bem alto com o teu.

Teresa: Podemos ver montras e experimentar fatos-de-banho. Escolhemos logo uma meia dúzia para provar. No fim, não provamos nada. Só uma à outra dentro do provador.

Madalena: E não compramos nada?

Teresa: Compramos todos, se quiseres, meu amor.

Madalena: Toma um chocolate.

Teresa: Toma um beijo.

Madalena: Dá-me vinho.

Teresa: Bebe vinho.

Madalena: Amanhã estaremos no Chiado a refluir.

Teresa: Pois sim. Estaremos zonzas mas é de amor. E agoniadas de paixão.

Madalena: Bebe vinho, Teresa.

Teresa: Posso deitando umas gotas de vinho nas tuas mamas e chupar? Gostava de ir bebendo assim.

Falou-lhe ao ouvido em voz baixa.

Madalena: Teresa, tu és a mulher mais ordinária que eu alguma vez conheci.

Teresa: Tu nunca conheceste outra mulher.

Madalena: Que me amasse assim, não.

Teresa: Que te amasse. Ponto.

Teresa ia bebendo. A pele de Madalena ir arrepiando por partes. Abriu as pernas e enlaçou Teresa pela cintura.

Teresa: Tens umas belas pernas. E umas mamas deliciosas. Sabem a vinho de boa qualidade.

Madalena: Toma outro chocolate. Vem tirar-mo da boca.

Teresa pousou o vinho e atirou-se a ela, mordendo-lhe levemente a boca para lhe arrancar o chocolate pela metade. As mãos delas andavam perdidas pelos vários ângulos, dobras e linhas dos corpos confundidos. Até que se reorientaram. Madalena entrou nela. Teresa encaixou o golpe e respondeu com superioridade, arqueando o tronco para cima. Depois Madalena saiu rapidamente e voltou a entrar. Teresa deixou cair o corpo e voltou a subir. Estiveram neste movimento sincopado pelo tempo de uma eternidade. Dos cantos dos olhos de Teresa escorriam lágrimas que pingavam salgadas sobre o rosto de Madalena. Sobretudo, sentiam aquele sal nos beijos bravios que trocavam.

Teresa: És tão puta!

Madalena: Tu é que és. Tu é que estás a ser fodida.

Teresa: Machona. Machista.

Madalena: Sim. Só para te agradar. Mas não podemos contar a ninguém.

Teresa: Tu não és uma mulher respeitável.

Madalena: E tu és uma mulher que não se dá ao respeito.

Teresa: Deixa-me comer-te.

Madalena: Só se eu puder fazer ao mesmo tempo.

Teresa: Vem

O quarto ficou em silêncio. Apenas se ouviam os rumorejos típicos.

publicado por Cat2007 às 23:41
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Outubro 18 2016

A música envolvia o silêncio em que por momentos se recolheram. You know that I love you/ And what loving does/All my thoughts are real/For I'm so completely yours. Estavam de mãos dadas com os olhos pregados na parede em frente. Teresa tinha fechado a janela mas não toda. Havia raios de sol do fim da manhã a invadir o quarto. Foi por efeito deles que a energia se recobrou. Então Teresa rodou para cima dela. Pegou-lhe na mão que levou até à zona do ventre e pousou-a lá. Madalena desceu suavemente e abriu. Teresa empurrou-a para dentro com urgência. Ficaram paradas assim por uns instantes. Depois Teresa começou a impelir a mão dela com o corpo. Mais. Sempre mais. Até não lhe sobrarem forças para mais. We coupled, so sane and insane. O corpo de Teresa tombou inerte sobre o de Madalena. Estavam ambas ofegantes e suadas. Beijaram-se no momento próprio em que o desejo cedeu um pouco para deixar passar o amor. Estreitaram-se. A respiração foi normalizando. Madalena afastou-se um pouco dela, procurando-lhe os olhos azuis. Contemplou-os com seriedade.

Teresa: O que foi, querida?

Madalena: Esses olhos são belíssimos.

Teresa: Os teus é que são. Lindos olhos árabes. Escuros e brilhantes como as noite de festa. Mas porque me olhavas tão séria?

Madalena: Estava embasbacada a olhar-te

Teresa: Como eu a olhar para ti.

Madalena: Que horas são? Teresa olhou para o lado.

Teresa: Duas. Tens que ir a algum lado?

Inquietou-se.

Madalena: Não. Foi só para me situar. Hoje estou livre para ti. Para fazeres comigo o que quiseres. Pelo resto deste dia e pela noite que há-de chegar.

Sorriu.

Teresa: Tenho medo que, depois disso, saias por aquela porta e não voltes mais. Ia morrendo quando me disseste que o nosso destino era sermos amigas. Estás sempre a surpreender-me. Com atitudes absurdas. E depois és tu que não confias em mim. Estive um mês a recompor a minha cabeça para reconstruir a minha vida. Estive separada de ti pelo tempo estritamente necessário. E nunca me esqueci de nós. Antes pelo contrário. Mas tu resolveste que passavas a ser minha amiga.

Madalena: Eu temo-te, mulher. Eu tenho medo de acreditar em nós e depois perder-te.

A música parecia vir para ilustrar as palavras ditas. Lo mejor que conocimos,/ separó nuestros destinos/que hoy nos vuelven a reunir;/ tal vez si tú y yo queremos/ volveremos a sentir aquella vieja entrega.

Teresa: E porque haverás de me perder agora? Agora que sou uma mulher feita e, sobretudo, quando já sei o que quero?

Madalena: Há não muito tempo atrás tu ainda não sabias o que querias. Sei lá se nesse mês te reconstruiste como dizes. Ou se a tu reconstrução vai de encontro ao que eu preciso de ti. Eu não sei nada do que se passou nesse mês. A não ser que mandaste a tua filha telefonar à Joana.

Teresa: Olha, não vou estar agora a explicar-te todo o processo que vivi durante esse mês. Até porque foi um processo muito doloroso que não me apetece reviver agora. Agora estás nua na minha cama. Eu quero aproveitar-te. No mais, tu precisas de tempo para perceber todas as coisas novas que agora existem. Vou-te alimentar.

Madalena: Outra vez, querida.

Sorriu.

Teresa: Não é isso, amor. Vou buscar comida para nós à cozinha.

Teresa voltou com dois tabuleiros. E deu-lhe de comer à boca.

publicado por Cat2007 às 22:50
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Outubro 17 2016

 

Teresa falou-lhe sobre a boca.

Teresa: Céus, que saudades!

E esmagou a boca de novo na boca dela. Agora apertava-a pelo tronco, escoriando-lhe as costas com as unhas. Madalena meteu uma mão entre as pernas dela. Sentiu o calor. Apertou para a incender de vez. Teresa soltou um pequeno gemido.

Madalena: Eu não te sirvo para mais nada senão para isto.

Teresa: E achas pouco, querida?

A saliva molhava os cabelos misturados nas faces e dentro das bocas. Teresa puxava-lhe a roupa. Até que a tomou pelos seios já desnudos com as duas mãos trémulas. Apertou-a. Madalena fez pender a cabeça para trás. E colocou as mãos sobre os ombros dela. Pressionou para baixo. Teresa parou a boca nas extremidades mais sensíveis. Beijou-as demoradamente, uma de cada vez. Madalena enfileirou os dedos pelas ondas leves dos cabelos de seda de Teresa. Puxou-os para trás. Para ver a boca dela. Que ainda não descansara. Teresa fez subir os olhos. E prendeu-a no seu olhar azul cintilante como o de um bêbado. Sem lhe largar os olhos, soltou a boca devagar e subiu-a a compasso até à boca dela. Beijaram-se com os olhos abertos. Presos entre si. As mãos acariciavam as faces em gestos mútuos.

Madalena: Que desejo horrível!

Baixou as duas mãos e desapertou-lhe os jeans com pressa. Deu uma sacadela para baixo. Meteu lá a mão toda. Ficou alagada. Fez escorregar os dedos por ali. Depois entrou facilmente. Teresa soltou um suspiro fundo. E prendeu-lhe mais a boca.

Teresa: Vem, querida. Vamos para o quarto.

Deu-lhe a mão para a conduzir. Iam ambas cegas. Mas Teresa tinha melhor poder de orientação porque conhecia a casa.

Madalena: O teu quarto não era este.

Teresa: Pois não. Este era o da minha mãe.

Madalena: Que pecado.

Teresa: Não sejas cínica. Vem cá.

Teresa despiu-a cheia de vagares e cuidados. Abriu a cama e mandou-a deitar-se lá. Ficou a olhar para ela. Lembrou-se das noites de solidão naquela cama. Ainda ontem. Nem bem acreditava que ela estava ali agora assim naqueles propósitos. Afastou-se dela pelo tempo necessário para ligar o som. Estava lá colocada a sua pen favorita. Voltou e despiu-se toda. A música começou no momento em que Teresa encostou o seu corpo ao dela e se abraçaram muito. Voltaram ao beijo. Que era o mesmo desde que se tinham começado a beijar. Os corpos colaram a pele na totalidade por uma imposição. Por vezes, tomavam atenção ao som. Feels just so fine/When we touch the sky me and you/This is my idea of heaven/Why can't it always be so good? Teresa subiu para cima dela e deixou-se ficar muito quieta. Depois, prendeu-lhe os braços por cima da cabeça. Mordeu-lhe os lábios. Com a mão livre acariciou-lhe a ilharga. Até que chegou lá. Fez deslizar dois dedos para dentro dela. E sacudiu-a com força. De olhos cerrados, Madalena ia-se desfazendo a cada investida. Libertava sonoridades. E nos cantos dos olhos espalhavam-se pequenas lágrimas desfeitas. Teresa libertou-a momentaneamente. Beijou-lhe de novo a boca com fúria. Madalena deu-lhe o abraço mais apertado que tinha. Teresa puxou-lhe a língua. Madalena agarrou-se aos cabelos dela para não cair. Teresa desceu a cara até ao ventre. Beijou-a ali. Depois desceu vagarosamente. E foi lá. Madalena partia-se em arroubos. Até que se deu a explosão violenta.

Madalena: Amas-me?

Teresa: Ainda não. Quero-te para já.

Madalena: Ai! não te amo, não; e só te quero/De um querer bruto e fero/Que o sangue me devora,/Não chega ao coração.

Riu-se.

Madalena: Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela./Quem ama a aziaga estrela/Que lhe luz na má hora/Da sua perdição?

Continuou a rir-se

Madalena: E infame sou, porque te quero; e tanto/Que de mim tenho espanto, /De ti medo e terror... /Mas amar!... não te amo, não.

Teresa: Como sabemos Garrett era um Romântico.

Madalena: Sim. Só estava em negação. Quer dizer que me amas?

Teresa: Eu quero dizer que te amo. E tu?

Madalena: Desde que sei de mim.

publicado por Cat2007 às 22:01
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Outubro 03 2016

Teresa saiu de casa. Tinha urgência em falar com Madalena.

Madalena: Querida, então? Contaste-lhe?

Teresa: Não. Tive antes uma surpresa. Ela anda com a Joana, como eu temia. Confessou-me tudo.

Madalena: Ela contou-te isso? A que propósito?

Teresa: A que propósito? Com o mesmo propósito que eu lhe ia contar. Para se assumir. Só que eu não lhe contei nada. Não pude.

Madalena: Não pudeste? Mas que melhor oportunidade tu podias ter?

Teresa ignorou o que Madalena disse.

Teresa: Diz-me, Madalena, o que sabes tu desta história? A Joana não te contou nada?

Madalena: Teresa, o que importa isso?

Teresa: Importa tudo. Importa que tu não me tenhas mentido.

Madalena: Lésbica, Teresa. A tua filha é lésbica como tu és. É o que sei, Teresa.

Teresa não se conteve. Levantou a mão e deu-lhe uma estrondosa bofetada na cara. Depois gritou-lhe.

Teresa: Estás proibida de me provocar mais. Quero que te cales já com essas merdas. Traidora!

Madalena: Quero lá saber o que tu queres. Mulher estúpida.

Madalena tinha uma mão na face que ardia.

Madalena: Tu não te assumiste perante a tua filha porque não quiseste. E agora que ela te contou estás cada vez mais transtornada. Sua homofóbica ridícula! Tu não amas ninguém. De mim o que tu queres é sexo. É tudo o que tu queres.

Teresa agarrou-a pelos dois braços e encostou-a à parede, metendo-lhe as pernas entre as pernas. Ficaram com as bocas muito próximas. Madalena virou a cara para o lado.

Madalena: Deixa-me, idiota.

Teresa empurrou-a mais contra a parede pela zona do ventre.

Teresa: Não deixo. Porque é disto que tu gostas. É só disto que tu gostas. Tu também não amas ninguém. Basta ver a tua história de vida. Até a desgraçada daquela miúda Joana tu andaste a comer.

Madalena: Larga-me!

Teresa encostou o corpo todo. E forçou o beijo. Madalena não cedeu. Teresa mordeu-lhe o pescoço. Madalena gemeu. Teresa voltou a morder. E a pressionar-lhe o ventre. Madalena virou a cara desfeita para ela e ofereceu-lhe a boca trémula. Teresa largou-lhe os braços e agarrou-lhe a cara com as duas mãos. As línguas misturaram-se. Ali de pé, foram-se livrando das roupas inoportunas. Teresa entrou dentro dela com pressa. Tomou-a com fúria. E insistiu vezes infindas. Até ela se partir. Teresa sentiu-a desfalecer. A cair. Segurou-a e foi caindo com ela muito devagar. Ficaram no chão deitadas juntas. Em silêncio.

publicado por Cat2007 às 23:19
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Setembro 15 2016

Teresa teve a certeza de que ela ia para casa de Madalena. Deixou-se ficar imóvel ali com a porta do prédio fechada nas suas costas a olhar. Como que à espera dela. Não era mais velha do que a sua própria filha. Teresa notou o cabelo que, preso na nuca, era perfeita e acetinadamente louro. Muito liso. Embora espesso. A figura era esguia e bem moldada. Quase tão alta como Clara, embora ligeiramente mais magra. Não muito ao perto, distinguiam-se particularmente os gestos. E Teresa viu que ela soltava graça e delicadeza em cada movimento. Entretanto, agora que já estavam ali mesmo a um metro, podia ver perfeitamente a cara dela. Notou então que, conferindo profundidade ao rosto anguloso e coberto de sardas, tinha desenhados uns incomuns olhos azuis quase turquesa, oblíquos como amêndoas. Por fim, quando estava já a virar-se para fora dela e deu um passo para sair dali, ela sorriu-lhe. E os gestos de Teresa paralisaram-se por efeito de tal sorriso. A expressão dela evoluíra subitamente em direção ao céu. A boca, de dimensões comuns, ficou enorme sobre os dentes brancos perfeitamente alinhados. Todas as sardas brilhavam em tom laranja. Os olhos iluminaram-se e mudaram de cor. Teresa nada fez. Não sorriu. Porque não pôde alcançar exatamente a primeira impressão que lhe causou a miúda. Porque ao espírito lhe sobrevieram coisas muito boas e outras muito más. E estas coisas conjugaram-se todas dentro de si de um modo desagradável e estranho. Depois Teresa conseguiu destruir a incómoda sensação e recompor a imagem dela, reduzindo a pessoa ao que via. Uma rapariga atraente. Saiu dali. Ela entrou no prédio.

Madalena: Joana, estou a trabalhar. Não era suposto estares aqui.

Joana: Se me tivesses atendido o telefone...

Madalena: Pois. Mas não pude. Esteve sempre desligado. Estou a fazer uma pesquisa. Não posso ser interrompida. De qualquer maneira, não tínhamos combinado nada para hoje.

Joana: Sim. Mas costumamos falar todas as manhãs. E hoje não falámos. Fiquei preocupada.

Madalena: Preocupada com o quê?

Joana: Pronto. Não foi bem preocupação. Tive saudades tuas. Além disso, é hábito almoçarmos juntas.

Madalena: Mas não pode ser. Não podes vir assim. Cada vez que interrompo o trabalho tenho que voltar atrás e reanalisar uma série de coisas.

Joana: Mas hoje não paras para almoçar?

Madalena: Já almocei. Hoje almocei mais cedo.

Joana: Podias ter ligado. Eu vinha mais cedo.

Madalena: Estavas nas aulas. E depois tenho mesmo que recomeçar o trabalho. Hoje não é um bom dia para nós. Já te disse.

Joana: Não sei porquê mas estás estranha hoje.

Madalena: Sim. Estou um bocado cansada e irritada por causa disso.

Joana: Quando vinha a entrar vi a mulher mais bonita que alguma vez vi na vida. Saiu daqui. Espero que não tenha sido cá de casa.

Riu-se.

Madalena: Joana, fala-me com franqueza. Isto diverte-te? Esta história comigo. O que anda uma miúda da tua idade a fazer comigo?

Joana: Eu estou apaixonada por ti. Divirto-me, como assim? Tu é que parece não queres nada comigo. Só estamos juntas há um mês e tu estás sempre cansada. As coisas já não são como no princípio.

Madalena: Joana, as coisas nem deviam ter começado. Sou tua professora.

Joana: Tu só me dás uma cadeira de opção uma vez por mês.

Madalena: Sou tua professora. Sou muito mais velha. Nada disto é ético nem decente. E...

Joana: Sempre esta conversa. Só não fizeste esta conversa na primeira semana. Nessa altura era tudo alucinante. Mas havia tempo para conversa. E não era nada deste tipo. Temos muitas coisas em comum. Coisas de que gostamos.

Madalena: Tens razão. Desculpa. Tu és linda e inteligente. Atrais-me muito. Mas é como te disse já. Não é para continuar. Não tem nada a ver contigo. Ou melhor, tem a ver com a tua idade. Como te disse logo, não posso agora envolver-me com ninguém. Se fosses mais velha, poderíamos viver isto. Fazer amor quando quiséssemos, e por aí. Mas tu és muito nova para estares agora metida numa relação cínica. Não quero que percas a inocência por minha causa.

Joana: Eu não sou nenhuma inocente. Não és aminha primeira mulher. Já me magoei antes.

Madalena: Não é isso. Vês como és inocente? Tu não sabes o preço de viver uma relação sem compromisso. Aliás, começas a saber. Estás aqui agora porque eu não te atendi o telefone. Porque não me passou pela cabeça ver-te hoje. Numa relação assim dá-se pouco ao outro. Não te sentes rejeitada? Sentes, claro. E isso é péssimo. Eu não sou o tipo de mulher que se alimenta dessas coisas. Fazes-me muito bem ao ego. E isso é que é péssimo entendes? Contigo projeto-me na minha própria juventude.

Joana: Mas tu és tão jovem e tão bonita.

Madalena: Não sou tão jovem. Pareço bem. Mas durante mais quanto tempo? Como toda a gente, assusta-me um bocadinho a idade. Contigo posso viver na ilusão de que a velhice ainda vem muito longe. Que tenho vinte anos como tu. Mas a verdade é que tenho quarenta.

Joana: Mas não sentes nada por mim? É que se vais dizer isso, eu digo-te já que não acredito.

Madalena: Sinto, claro que sinto. Uma atração enorme por essa beleza e por essa juventude, como estou a tentar explicar-te. Fazer amor contigo é uma aventura. Uma novidade. No entanto, não posso. É como se te estivesse a usar.

Joana: Mas tu não me fazes mal. Não me fazes sofrer. Aliás, sinto-me sempre bastante feliz quando estou contigo. Tu não me usas, Madalena.

Madalena: Isso tem prazo. Uma pessoa quer mais duma relação. Não te vai chegar esta vida de vires aqui ter comigo para nos metermos na cama. E claro que te uso. Estava a tentar explicar-te isso. Mas tu não entendes.

Joana. Por hoje já me chegava fazer amor contigo.

Sorriu.

Madalena: Não posso, Joana. Hoje não. Hoje tenho muito trabalho. Já te disse. Lá estás tu. Parece que isto te diverte. Andares metida com uma mulher com idade para ser tua mãe.

Joana: Não penses nisso. Não procuro em ti uma mãezinha. Aconteceu. As minhas namoradas costumam ser da minha idade. Nunca tive fascínio por mulheres mais velhas. Acontece que gosto de ti. Muito.

Madalena: Eu também. Gosto muito de ti. E é por isso que...

Joana aproximou-se mais dela. Madalena ficou parada.

Joana: Não quero ouvir mais nada hoje.

Joana pousou sobre o braço de Madalena, apertando-o com firmeza. E cegou na escuridão dos olhos dela. As bocas molhadas misturaram-se e prenderam-se quando elas pressentiram que iam começar a voar. Colaram-se os corpos por força do impulso irresistível que as levantava no ar. Perderam-se das mãos trémulas que divagavam. Entraram no quarto sem luz. Madalena encostou-a à parede pela zona do ventre. Despiram-se com pressa. Madalena entrou dentro dela como se quisesse passar por ali toda inteira. As pernas de Joana fechavam-se em volta da sua mão. Madalena empurrava-se para dentro. E ouvia-lhe os murmúrios da voz dorida e plangente envolta em suspiros estendidos. Joana indicou a cama e caiu nua sobre o colchão firme. Madalena pressionou-a pelas costas e voltou a entrar. E a sair. Uma e outra e mais outra vez. Joana quebrou o corpo no prazer arrancado por aqueles atos ferinos. Rodou então para Madalena. Por baixo dela. Agarrou-a pelos ombros com os longos dedos de aço. Mordeu-a na boca desfeita. Madalena sangrou hemorragicamente. Puxou Joana a si pela nuca e espalhou-lhe o sangue pelo pescoço. Pelos seios. Joana respirava por entre os cabelos de Madalena. Ocorreu-lhe a violenta saudade do sabor dela. Foi lá. Com fome e sedenta. Comeu e bebeu pelo tempo do desejo particularizado. No fim, respirou profundamente e fechou os olhos que ardiam. Madalena pousou-lhe as mãos na cabeça. Olhou-lhe os cabelos espalhados sobre as virilhas. Molhados nas pontas. Ficou parada algum tempo. Assim a olhar. Num enlevo extático.

Depois de Joana sair Madalena pôde finalmente assentar os pensamentos sobre Teresa. “A mulher mais bonita que Joana já vira”. Sorriu. “Também eu”. Teresa tinha razão num certo ponto. O tempo pode aniquilar a dor se os espíritos não se agoniam em vazios. Agora que a voltara a ver compreendia que era como ela dizia. Morta a dor, muitas coisas lhe sobrevivem. A dor que Teresa lhe causara há muito que não era dor. Era lembrança da dor. Só depois de revê-la é que pôde ver esta diferença. Estava assim para já e afinal grata a Teresa por ter voltado.

publicado por Cat2007 às 21:56
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Agosto 17 2012

 

 

 

Não sei muito bem qual é hoje a diferença entre os homens e as mulheres para além da biologia. No entanto ainda vejo cada um dos sexos a fazer coisas diferentes como se uma força determinista impusesse um papel próprio para cada um dos géneros desempenhar na vida, na sociedade e no mundo. Coisa que aconteceu no início, e durante muitos séculos, mas que se esbateu na realidade histórica e contextual com as grandes guerras mundiais, o aparecimento da pílula e a revolução tecnológica.

 

Hoje o que há é um contexto de ressaca da supremacia masculina. Uma memória que habita a Mentalidade ainda muito habituada à ideia daquilo que já foi como se fosse possível e lógico que continue a ser. É assim que ainda se vai encarando com normalidade que, por exemplo, uma mulher trabalhe como um homem e que tenha o dever exclusivo de cuidar dos filhos e da casa como dantes, sendo que quando muito o homem está ali para “ajudar”. Ou seja, mantém-se o mito já muito envergonhado, é certo, da superioridade masculina. E atua-se em conformidade com ele como se as coisas continuassem a ser como já não são.

 

E é esta Mentalidade atrasada na corrida do tempo e do progresso que continua a determinar a existência de papéis diferenciados. Que esbate as pessoas por baixo dos géneros. Que deixa claro que existe um “mundo masculino” e um “mundo feminino”. Quando o problema não é de capacidade ou de propensão para. E é também por isso que os homens dizem que não entendem as mulheres e vice-versa, recolhendo-se ambos os géneros nos seus mundinhos de géneros habitados pelos seus aparentes “pares” e preenchidos com cumplicidades satisfatórias mas cheios de buracos de solidão.

 

Os homens não têm de compreender as mulheres nem as mulheres devem perceber os homens. Antes pelo contrário, as pessoas têm que se entender umas às outras. E o género é o que é. O género biológico.

 

publicado por Cat2007 às 14:24
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Abril 12 2012

 

 

 

Dá-me ideia que, numa relação, o sexo higiénico não é muito diferente do papel higiénico no que toca às suas funções. Sobre o sexo não higiénico, creio que não há nada que se lhe compare.

 

 

publicado por Cat2007 às 17:29
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Março 20 2012

 

 

Não entendo aquela coisa de fazer uma coisa querendo outra. Porque nada de bom muito bom pode resultar do uso das coisas para funções diferentes daquelas para que principalmente nascem. Por exemplo, os ginásios são para ganhar boa forma física e saúde. Quando assim não é, as pessoas acabam por se ver a passear nas praias gordas ou flácidas. E depois sentem-se mal.

 

A solidão ou o desejo sexual sentido no abstrato são uma chatice.

 

publicado por Cat2007 às 19:42
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Março 03 2012

 

 

 

“Falas como um porco sujo. E, no entanto, na cama só murmuras coisas de beata”.

 

 

publicado por Cat2007 às 22:24
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Novembro 24 2011

 


 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas  e também por isso “não”.

 

Tenho impressão que o interesse dos portugueses em putas e ginásios, designadamente no Holmes Place, subiu em flecha. Não. Na verdade, não é só uma impressão. Vi no Sitemeter aqui do blog. Tenho portanto a minha estatística pessoal. Os posts (de longe) mais lidos são: HOLMES PLACE - Quem não foi ao engano... (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/59602.html) e PORQUE É QUE AS PUTAS NÃO BEIJAM E OS CLIENTES NÃO SE IMPORTAM (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/67752.html), sendo certo que, de há umas semanas para cá,  as putas estão com o triplo dos visitantes do Holmes. Bom, é uma estatística que vale o que vale. Para mim vale mais um motivo para pensar escrevendo. Pronto. Já agora, alguém se lembra que um dos maiores ícones do cinema porno se chamava John Holmes? Não falo nisto por nada. Só para partilhar um pouco de cultura geral. E porque me veio assim à cabeça.

 

Creio que é da crise. O pessoal tem de acabar com despesas fixas injustificadas. Pagar um ginásio sem lá ir. Tem de ser um dos casos. Sai dinheiro e não se vê beleza física nem a calma das endorfinas. O problema é que o HP não facilita nisto das despedidas dos sócios. Por isso o pessoal procura e procura a forma, o meio de se livrar da “cena”. Não será fácil, digo eu que já expliquei no post acima indicado o que me aconteceu por lá.

 

Por outro lado, tenho muita pena, mas não sei muito sobre os preços das putas. Penso que no “Elefante Branco” anda à volta dos 200 € por sessão. Mas não sei ao certo porque não sou puta nem nunca fui às putas. Porém, fui ao “trombinhas” algumas vezes. E, é verdade, também visitei o “Gellary” ou “Gallery”, já não sei. No entanto, acho que este último encerrou, tendo as funcionárias mudado para o primeiro.

 

Fui com a curiosidade sociológica dos arrogantes e o espirito de visitante do zoo. Pus-me logo a falar com uma menina para saber “coisas da vida”. Mas não perguntei o preço. Ou se perguntei não me lembro. Não me interessava. De qualquer forma, houve ali uma insistência. “Você não quer transar?”. E eu: “Não. Não, muito obrigada”. Acho que ela queria mesmo “transar”, independentemente de estar a tratar de “business”. A ver se juntava as duas coisas. Eu é que não queria. Sou uma moralista, ora essa! Sou uma moralista e tenho nojo, com todo o respeito.

 

Entretanto, uma das minhas amigas foi-se embora irritada porque achava aquilo tudo indecente. “O que é indecente, está tonta?”, consegui perguntar antes dela arrancar desabrida. “Estão a faltar ao respeito a estas pessoas. Isto é vir aqui para rir dos outros e tal…”.

 

Talvez tivesse razão. Mas deixei-me ficar a ouvir a puta. Como poderia eu ter um blog deste género sem ter alguma coisa para contar? No mais, eu interesso-me pelas pessoas, caramba! Sem ironias. Afinal de contas, talvez a minha amiga estivesse apenas a ser histérica. Sim é isso. Não tinha muita razão não. Até porque o espirito parolo com que entrei desvaneceu-se imediatamente no confronto com a realidade. Vi a humanidade mascarada pela make up a passear-se de minissaia e “tacones”. Vi a humanidade nas gravatas sentadas em sofás de imbecilidade. Vi os copos transparentes a tilintar, brilhando demais sob a impressão das luzes psicadélicas. E tudo me impressionou. Uma parte da vida que não faz parte da minha vida mas que é a vida de tantas pessoas. Na verdade, ser puta e cliente é uma condição da vida de pessoas. Quando deixamos de poder ignorar isto porque, por exemplo, fomos ao “Elefante” compreendemos finalmente que a vida também é isto e que por isso também nos diz respeito. A vida transcende largamente o “mundinho” que, iludidos, pensamos que construímos só para nós. Mais nada.

 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas e também por isso “não”.

 

Talvez as putas de rua estejam a prestar serviço a um preço acessível. Mas aqui é que eu já não tenho estórias para contar. Nunca me aproximei. Talvez por medo. Como abordar uma puta de rua se não se está a fazer um trabalho académico ou jornalístico? Mentir a dizer que é isso? Não sou capaz. Não quero ser capaz. É detestável mentir. É ainda mais detestável mentir a uma pessoa que tem de viver de mentiras. Não sei nada sobre as putas de rua. Apenas que a maioria se droga.

 

Parece de facto ilógico querer acabar com uma despesa num serviço supérfluo para ir fazer outra, talvez maior, noutro serviço supérfluo. Sabe-se que quando um fumador pensa em deixar de fumar o desejo de acender um cigarro é imediato. Porque uma sensação de angústia se alivia com uma impressão de prazer. A nicotina liberta endorfinas. Substâncias químicas de bem-estar. O exercício físico também. Liberta. Mas é doloroso no processo. O sexo igualmente. Mas dá prazer no processo. Na angustia da crise, as pessoas estão a precisar urgentemente de químicos. É assim o organismo humano. Dependente.

 

Penso que o “Fado falado” fala de putas. É dito por João Villaret. A “Emilia Cigarreira” não pode ser outra coisa, senão uma puta de Alfama. As meninas católicas decentes  dos meados do século XX em Portugal não iam para a cama com marinheiros nem lhes espetavam a navalha. É uma puta que ama e tem ciúmes. Poucas coisas existem que me emocionem mais do que esta peça escrita como foi e dita como está. Deixo aqui.  

 

 

 

publicado por Cat2007 às 20:57
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