CAFÉ EXPRESSO

Outubro 09 2016

Teresa deixou Madalena angustiada quando saiu. A leveza que lhes ficara do amor feito dissipara-se com os primeiros raios de sol pela manhã. E tudo se agravava um pouco mais porque não tinham dormido. Na ânsia de se consumirem. Como se aqueles atos pudessem ser eternos. A claridade, porém, instalara o afogo no peito. E tudo voltou ao que era antes. Despediram-se com pressa e sem se olharem. Teresa desceu a pé a Guerra Junqueiro. Para depois subir à direita. Na cabeça rodopiavam as palavras de Madalena sobre tudo o que podia acontecer. Teresa já não estava tão certa sobre o que Clara iria fazer. Talvez fossem aqueles raios de sol tão intensos que lhe estavam a confundir a mente porque não a deixavam ver bem. Com efeito, mal abria os olhos. No entanto, quando entrou no prédio e se fez sombra, o receio agudizou-se. Realmente, o que dissera Madalena corrigira-lhe o pensamento. Talvez agora estivesse mais alinhado com a realidade. E a realidade era que a filha sofria muitíssimo. Sem dúvida que devia ter deixado o tempo atuar. O tempo atua quase sempre bem. Não fora capaz. Não podia. Para tanto, teria que ser a mulher honesta e equilibrada que pensava ser mas não era. Reconhecia agora que, quando as questões rodeavam assuntos de mulheres, tudo se complicava muito. Teresa enganava-se. Mentia. Mudava de personalidade. Agora havia um preço alto a pagar por isso. Era já terrível a preocupação que a consumia. Como estaria Clara a bater-se na luta em que ela, Teresa, lhe inventara? Pelo bem dos filhos, os pais não podem estar assim desequilibrados. Teresa agia sempre segundo as suas convicções. Ora, havia um lado no lado de dentro de Teresa que não possuía bons alicerces. Quando se apresentou à filha por esse lado, aconteceu o que aconteceu. Fizera muito mal a Clara. Teresa olhava, portanto, para dentro de si. E sentia uma imperativa necessidade de mudar. Para fazer bem. Mudando, poderia talvez vir a perdoar-se. Até porque era verdade que não pudera saber exatamente o que fazia. Sentia-se como um bêbado que provocara um acidente de automóvel, atropelando uma pessoa. Um bêbado não consegue evitar o acidente. Mas a culpa da embriaguez é sua porque se colocou deliberadamente nesse estado. Assim sendo, depois de atropelar a filha, Teresa decidiu que não beberia mais. Procurou então Clara dentro de casa. Aflita com as dores dela. Queria trata-la. Não a encontrou em lado nenhum. “Não está. Ou está no quarto.”. Dirigiu-se lá. Ficou parada em frente à porta. Depois olhou para a fechadura. Não estava trancada. Sentiu alívio. Estavam na casa da Alameda. Ali não se trancavam as portas sob nenhum pretexto. Tinha a certeza que a filha estava lá dentro. Encostou o ouvido. Sentiu calor. Bateu à porta cheia de esperanças. Esperou. Naquela casa não se entrava desavisadamente nos espaços privados. Teresa lembrou-se rapidamente que aprendera isto à sua custa. Continuou então à espera. Voltou a bater um pouco depois. Esperou. Não queria sair dali. Não podia. Manteve-se em frente à porta. Finalmente, decidiu bater pela última vez. Pôde ouvir então um silêncio fundo e largo que lhe devastou as esperanças imediatas de poder encontrar a filha. Deixou-se ficar encostada à porta por um tempo em que não pensou em nada. Depois foi-se. Muito só. Madalena fornecera-lhe algumas pistas sobre a vida. Sobre aquele lado da vida. Insuficientes, porém. Para além de saber fazer amor, Teresa não sabia quase nada. Compreendeu que teria de estar ao lado dela. De Madalena. Certamente, até os pés lhe assentarem seguros no chão. E depois disso, talvez para toda a vida. No entanto, agora não era o momento delas. Madalena teria que esperar o tempo que fosse preciso. Até que o silêncio de Clara se dissolvesse. E talvez um pouco mais. Teresa também pensava que devia aplicar a si própria um castigo. E castigar-se-ia não vendo nem falando mais com Madalena. Não até Clara decidir.

publicado por Cat2007 às 16:24
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Setembro 11 2016

Naquela casa sempre se trancaram as portas. David tinha esse hábito. Nunca ia para o banho antes de fechar todo o compartimento. Era sempre assim aos sábados depois do pequeno-almoço e do jornal. Levantava-se, fechava a porta e ligava a música. Só aparecia na sala quando já eram horas de almoçar. Explicava-se com a solidão. Um bem essencial da vida de cada ser humano que não se confunde com a inexistência de afetos perdidos. Com esse “estado de indigência emocional” que tragicamente pode suceder aos indivíduos numa ou noutra altura da vida, e a que ele chamava abandono. A sua solidão era um encontro consigo próprio. Um espaço para pensar. Para se revisitar. A única possibilidade de se encontrar individualmente. E de crescer de uma forma útil para si próprio e para o mundo, construindo-se enquanto ser único. Porque a vida é antes de mais nada uma experiência individual. Um percurso que todos fazemos sós. Mesmo que, como desejamos, acompanhados. Na verdade, no convívio entre si, os seres humanos partilham não se fundem. Nestes termos, um dia o almoço arrefeceu. Amélia não se serviu. Ele perdeu os sentidos na banheira e morreu afogado. Ela precisou de ajuda para arrombar a porta do quarto. E finalmente ficou só. Com a criança.

Nesta altura Teresa tinha três anos. Por isso não recorda o que sucedeu. Tão pouco tem a consciência, mas apenas a memória suave das emoções, das incontáveis e repetidas vezes em que ela, a partir daí e durante tantos meses passou a sentá-la nos joelhos à procura. Primeiro os cabelos ondulados. A mãe costumava tocar nos cabelos ligeiramente ondulados da filha, observando-lhes a leveza de algodão e pesando o brilho de seda negra que se evidenciava naquele especial tom de castanho-escuro. Depois apontava as pontas dos dedos à pele do rosto suave de criança até à boca. Uma sombra fina escurecia a linha circundante dos lábios grossos, envolvendo-os como uma espécie de proteção, como uma segunda fronteira. Virava-se por fim para os olhos. Amélia inspirava cada linha, cada foco de luz, cada sombreado, cada detalhe ínfimo daqueles olhos que eram absolutamente únicos. Fotografava-os, pondo-se depois a mirar fervorosamente o retrato. A iris, sem ser escura ou clara, era mais escura do que clara. Era azul-escuro. Como que imune aos raios de sol. Mais poderosa que os raios de sol, segundo quis a imaginação da mãe. Não, afinal a iris não era azul-escuro. “Não, Não.”. O arco perfeito e profundo que a delimitava é que era. Assim como a meia dúzia de espessos raios que a atravessavam. Pontes cruzadas sobre lagos que se imaginavam imensamente profundos. Mas afinal o sol penetrava-os. Da ação do sol não podiam no fim de contas escapar. O sol, presente ou ausente, conferia-lhe a característica da suscetibilidade de se alterarem inadvertidamente. Estranhamente Amélia descansava sempre sobre esta conclusão. Na verdade, a contingência da cor era preferível. Porque conferia àqueles olhos o “poder” de imprimir um corte essencial “com a monotonia”. Afinal Amélia não conhecia nada que, estando marcado por um franco sinal monótono, fosse realmente belo. Como eram os olhos de Teresa. Como era Teresa.

“Muito mais bela do que o pai”. E parecida com ninguém. No entanto, Amélia chorava enquanto o buscava sem nunca o ver naquele rosto infantil. Até que um dia parou. De procurar a companhia de David. Ali e em outros equívocos sinais da vida. Ele estava morto e apenas vivo dentro de si. Restava-lhe a memória. Uma vida de vinte anos em conjunto. O que é muito. Vinte anos a partilhar.

publicado por Cat2007 às 11:27
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