CAFÉ EXPRESSO

Janeiro 05 2012

 

 

A Teresa Guilherme está anafada e estranha. Não sei se sempre foi estranha. Anafada é que não era. Embora nunca deixasse de ser incompreensivelmente baixa desde que deixou de crescer depois de ultrapassar a idade até à qual isso pode suceder às pessoas. Está anafada e estranha pois. Também está notoriamente mais velha.

 

Em síntese: Teresa Guilherme está anafada, mais velha e estranha, sendo certo que sempre foi muito baixa.

 

Nunca vi a Casa dos Segredos. Nada. Na troca dos canais passei por lá um ou dois minutos. Talvez tenha parado um pouco mais de uma vez em que achei que devia perceber de que falavam aquelas pessoas que ali estavam. Afinal não falavam de nada. Adeus.

 

Entretanto a TVI repetiu o seu programa de Fim de Ano e eu vi a Teresa Guilherme anafada em traje de gala. Deixei-a dizer duas frases. Eram estranhas. No conteúdo e na forma de expressão. Fiquei convencida a estar ali um bocado com ela.

 

Há a energia própria de uma “velha tia gaiteira”. É uma energia que pode não ter a mínima correspondência com a realidade. Mas solta-se pelo ar, entra pelas câmaras dentro e assenta no nosso tele colo como se houvesse ali um certo cansaço nas pernas. Assim como se a alma fosse infinitamente mais leve do que o corpo.

 

Por outro lado, existe uma alegria jovial cheia de sede no fim. Um espírito de alta competição para os cem metro nos campeonatos do mundo de atletismo. Uma necessidade de tomar um Isostar a seguir a cada prova intensa. Teresa Guilherme adora a paixão e as paixões jovens dos jovens que lhe chamam “Teresinha”.

 

Para além de se entregar de corpo e alma na apresentação e condução do seu programa e da credibilidade que exibe quando lê os texto que lhe estão destinados, a verdade é que Teresa Guilherme parece adorar realmente tudo aquilo. E tudo aquilo é o programa. Em primeiro lugar, um ponto para encontro com pós adolescentes que, de plena consciência, se prestam, antes de mais nada, a ser objecto de voyerismo na versão mais cretina que se conhece. Em segundo lugar, um produto integrado por textos profundamente tinhosos e de cariz altamente bisbilhoteiro, escritos à base de trocadilhos usados com se fossem parábolas biblicas e ditos no ritmo das quadras populares.

 

publicado por Cat2007 às 23:43
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Janeiro 22 2011

Jennifer Saunders.

 

 

 

Acho que vou armar em parva. Dizer que quem não gosta desta mulher não a conhece ou vê todos os dias "Os Malucos do Riso". Péssimo em qualquer das frentes. Falta de cultura geral ou falta de sensibilidade. Pior, falta de inteligência. Mau gosto.

 

Pois exactamente. Estou para aqui a falar cheia de certezas. Admito que possa estar enganada. Com certeza. Mas também sei que a verdade é, em última análise, sempre individual. Portanto, só admito que estou errada se for julgada na arruada. Porque no cá entre nós nem pensar. É por tudo isto que comecei logo por dizer que acho que  vou armar em parva. E terminei o parágrafo com o mau gosto.

 

Creio firmemente que as pessoas de mau gosto são burras. Uma das características que melhor caracteriza uma pessoa burra é precisamente a falta de sentido de humor.

 

Então vamos ao que interessa. Jennifer Saunders. Only for lovers. Porque é capaz de ser das mulheres mais inteligentes que se conhece. Why? É preciso saber quem é e entender o que faz. Senão nada feito, darling (s). Fácil fácil não é. É só para pessoas inteligentes. Repito isto sem estar a armar em inteligente. Mas deixo a mensagem de um modo subliminar. Como é óbvio. Uma mulher inteligente, Saunders, não escreve e representa para gente de mau gosto. Para burros, portanto. Voltei atrás. Além de que voltei a repetir-me. It's not a big deal. Em qualquer caso, depois falo com o terapeuta.

 

Então regresso agora ao que interessa. Não vou dar a conhecer Jennifer Saunders. Isto é apenas uma manifestação de admiração sentida. E um agradecimento  por estar viva. E por ter nascido.

 

Jennifer Saunders evidencia um senso apuradíssimo na eleição das coisas que têm graça. Acrescenta muita graça às coisas que em princípio não têm graça nenhuma. E ainda sabe desdramatizar como ninguém as mais fundas manifestações da humanidade no seu lado pior. Faz tudo isto a escrever e a representar o que escreve.

  

Saunders diverte-se imenso a trabalhar demais. E não trabalha com incompetentes. Obviamente por isso fez as Abs com a Joanna Lumey. A JENNIFER SAUNDERS LOVER. Dúvidas? Ninguém representa assim aquilo que não compreende. Dúvidas desfeitas.

 

Jennifer Saunders parece um manifesto vivo contra a mediocridade e a tristeza.  É uma perfeita anormal neste mundo. So i'm a lover.

 

Veja quem estiver interessado. Não faço apelos nestes casos.

 

 

 

 

 

Outro. As Abs again.

 

 

 

 

publicado por Cat2007 às 15:33
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Janeiro 10 2011

 

Quando eu era uma pessoa pequena, tão pequena que só tinha inicialmente 4 anos, o meu pai tinha muita confiança nos programas televisivos. Houve uma mudança nos conteúdos editoriais pouco depois da Revolução, claro. Mas o meu pai não acreditou nela. Antes de se focar nessas coisas, ele tinha de se capacitar das outras mudanças que se operaram. E simplesmente não queria. Creio que, até há bem pouco tempo atrás, o pai guardava numa delicadissima caixinha energética a secreta esperança de ver chegar a todo o momento uma Contra-Revolução. E com ela a reposição do anterior status quo.

 

Sim. O pai deve ser fascista. Assim para simplificar, sim. Eu não. Eu não sou assim para simplificar fascista. Creio mesmo que sou assim para simplificar antifascista. Não é para contrariar o pai. É só porque as grandes imposições contaminam, magoam e matam. Está provado.

 

Enfim, mas eu podia ver televisão à vontade. Quer dizer, sem fiscalização. E via tudo. Mesmo a última meia hora do "Ciclo Preparatório TV". Estava à espera que começassem os desenhos animados, e ficava para ali impaciente ao trauma com aquela manobra televisiva incompreensível para mim.

 

O problema é que me falta memória. Mais do que isso, faltam-me noções para enquadramento. Eu sei lá porque passavam uma coisa daquelas.  Como é óbvio, havia um objectivo qualquer por trás. Talvez se andasse a tentar combater o analfabetismo no ensino pós-básico. Não sei. Sei que as metas que inspiraram tal projecto não foram jamais alcançadas. A prova disso é que aquilo acabou como começou. Ou seja, sem ninguém perceber porquê.

 

E uma lição há a tirar de tudo isto. Não tentemos fazer às pessoas o bem que elas não entendem como tal. Não ajudemos os outros por meios  solidários obscuros porque a solidariedade tem de ser transparente. De facto, temos de dar outro tipo de atenção às pessoas, procurando pelos seus problemas, ouvindo-as e comunicando na procura das melhores soluções. Tudo o mais é arrogância e caridade católica. Uma falta de respeito!

 

Só com a "Gabriela Cravo e Canela" é que o meu pai ficou alertado para a impropriedade  dos novos conteúdos televisivos para crianças. Lembro-me de subitamente toda a família se ver confrontada com  uma cena pró-erótica qualquer. O pai manifestou a sua indignação, utilizando vários modelos comunicacionais concebidos pela língua portuguesa para o efeito. Eu pessoalmente também não gostei. Preferia ter visto a cena sozinha. Ou, pelo menos, sem a presença do pai e da mãe.  

publicado por Cat2007 às 20:04
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Dezembro 17 2008

http://www.askmen.com/specials/2007_top_99/4/adriana-lima/picture-1.html

 

 

Tenho visto coisas tão ridículas ultimamente na televisão, que até me sinto esquisita. No outro dia, passou num canal americano qualquer o Top 25 dos corpos mais sensuais, mais bonitos, mais atraentes ou mais sei lá o quê deste género, na praia. Fiquei a ver para saber e não voltar a ver jamais. A lista era constituída por actores, cantores ou músicos e modelos.

 

Obviamente, o objectivo era promover filmes ou séries, marcas ou griffes e discos ou espectáculos que, neste dado momento, as respectivas industrias consideram importante promover. Como é evidente, nada disto foi esclarecido. O que passaram foi os corpos em fato de banho. Fotografias e imagens tratadas dos diversos  aspectos do físico daquelas pessoas muito envaidecidas

 

Lembrei-me logo que a baby siter da filha da Maria Rueff só não estava ali porque é isso mesmo. Baby sitter. No mais, tem um corpo inacreditável. Eu sei porque a vi na piscina do ginásio com a menina. Absolutamente fantástica. Além do mais, ela, a baby sitter, nem tem noção disso. Porque, enfim, tudo lhe chegou naturalmente. Bastou-lhe nascer. Sem máquinas, sem produtos, sem cirurgias, sem make up, sem bajuladores, sem uma indústria multimilionária a promovê-la. 

 

Voltando ao Top 25 da praia mais sexy do mundo, é preciso dizer que o mundo não transcende os imites das fronteiras dos Estados Unidos da América. Na verdade, o resto do planeta Terra é um puro abismo. E esta é também uma das razões que fundamentam a exclusão da baby sitter da filha da Maria Rueff das areias sexy da praia. De qualquer modo, como ela é africana, não pode, por definição, estar lindamente  bronzeada. Porque, ao que parece, o bronzeado era muito importante para a decisão sobre quem eram afinal as 25 criaturas mais atraentes do mundo em fato de banho. Só não se entende o que estava ali a fazer a Byonce, que também é negra, como a babysitter da filha da Maria Rueff, e ficou muito bem classificada. Talvez, por uma questão de coerência, a Byonce não devesse fazer parte do Top 25 dos programas mais desonestos do mundo. Por outro lado, como ninguém é capaz de dizer que um dado homem é mais bonito do que uma certa mulher, e vice-versa, o facto de constarem deste top mulheres e homens insdistintamente, só vem reforçar esta ideia de desonestidade. Só a babysitter da filha da Maria Rueff é que é honesta. Porque eu vi o corpo dela a um metro de distância, sem filtros. E ninguém do Top 25 de não sei quê mais lindo da América do Norte, com exclusão do Canadá, tinha um corpo melhor do que o dela. Mesmo com filtros.

 

Tudo isto é muito importante porque eu ando na rua e só vejo dois tipos de adolescentes: ou muitíssimo magras ou obesas. E não há meio termo. E estas meninas sem meio termo são o público destes programas. Programas feitos para criar o deslumbramento e a frustração a posteriori. Coisas que mexem com a insegurança destas meninas. No meu ginásio há uma menina com cerca de 1,70 m que pesa 42 kg. E há uma outra que é tão gorda que nem consegue fechar os braços. A magra faz 1 hora de cardio todos os dias e consome 600 calorias diárias. A gorda não vai lá há uns tempos. Portanto, há quem se deixe enlouquecer e há quem baixe os braços (mesmo que não os consiga fechar) e se deixe derrotar. A questão é que é quase impossível caber num tamanho 36.

 

As mulheres que fazem parte do Top 25 dos quase mais  infelizes do mundo, se não fossem milionários, o que dá um certo equilíbrio, têm que vestir 36 modelo francês. Logo, não têm um corpo sexy. Apenas parece que têm. São  montagens. A indústria da moda reina sobre todas as outras industrias do espectáculo. A maior parte dos costureiros são bichas. As bichas não fazem roupa para mulheres porque não gostam de mulheres. As mulheres mais parecidas com homens são as mulheres sem curvas. As que vestem 36 e medem 1,80m. A esmagadora maioria das mulheres não é assim. O problema é que as adolescentes acreditam nestas coisas. No mais, a babysitter da filha da Maria Rueff tem cerca de 1,75m e veste certamente um 38.

publicado por Cat2007 às 20:59
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Setembro 23 2008

 

 

Há um homem,  semelhante áquilo que cada um entender que ele é semelhante em face da face que ele tem, que faz comentários sobre futebol num programa da SIC Notícias. Sem existir naturalmente qualquer possibilidade de aproximação de peles, creio que desenvolvi um absurdo problema epidérmico com este homem.

 

Não é só porque tem os ombros demasiado estreitos. Embora um homem com ombros demasiado estreitos possa ser, só por isso, incomodativo para quem está a olhar para ele. Os fatos assentam-lhe sempre mal! Grandes demais, é o que parecem. Pareçe que não são dele. É o que pareçe. Mas claro que são dele. Os fatos, as medidas e as proporções. É tudo dele.

 

Mas o pior são os discursos. Ele, um "opinion maker",  discursa. Opina, que é para isso que lhe pagam. Mas, sobretudo, e sempre que pode, discursa, o que acontece vezes demais, na minha opinião. Perde-se literalmente em raciocínios cheios de uma apenas teórica grande capacidade de raciocinar, que cansa infinitamente. Gosta de falar de si próprio, direccionando os pensamentos de quem o tenta ouvir para a sua própria pessoa. Aparentemente, acha-se mais inteligente, culto e imparcial do que alguma vez na vida será capaz de ser, como resulta evidente do que diz. E tudo isto é muito desconfortável para quem está a ver.  

 

Até pode ser que este senhor seja a pessoa mais honesta do mundo (desportivo) e o comentador mais bem informado e isento do universo (da bola), concedo. A verdade é que não pareçe, embora também não pareça exactamente  o oposto. Apenas parece menos do que eventualmente quer parecer. No fundo, no fundo,  o que pareçe mesmo é que os fatos que usa não são dele. Mas obviamente são dele. Seria ridículo andar a vestir roupa emprestada.

 

publicado por Cat2007 às 19:55
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Maio 10 2008

 

Escritor britânico George Orwell

 

"A LUA" foi um post que eu escrevi em Outubro de 2007. Agora, em Maio de 2008, apareceu lá um comentário da... TVI! Da TELEVISÃO???????????? Pois. Creio que desejavam que eu fosse, já na próxima segunda feira, à televisão dizer porque não gosto do trabalho que faço. QUEM EU?!

 

Reacção pessoal:  QUEREM QUE EU VÁ À TELEVISÃO! OH! E a isto se seguiu uma manifestação de jubilo impossível de reproduzir por palavras. E depois veio a expressão de toda a minha gratidão sob a forma de oração: "Obrigada Senhor por me dares esta oportunidade de conquistar os 15 minutos de fama prometidos por teu filho e servo, o santo George Orwell. Ámen". Não sei por quanto tempo me quedei de joelhos ainda. 

 

Enfim, reli o post. É uma construção feita na linha do desabafo semipúblico (porque isto é um blog pessoal público). Coisa muitíssimo desinteressante, portanto (o desabafo, não o blog, bem entendido). Com efeito, este tipo de desabafos respondem a momentos de crise pouco profunda. A estados temperamentais momentâneos ou, pelo menos, passageiros. Não têm qualquer tipo de valor.. hum... cientifico? ou...enfim, outro que valha a pena considerar. No mais, os desabafos são coisas para fazer em casa. Actos de trazer por casa, como aquelas peças de roupa que já não temos coragem de usar em lado nenhum, mas que nos fazem sentir confortáveis. Já os abafos, não. Os abafos são coisas muito úteis para levar à rua nos dias de inverno. Portanto, já se vê: os abafos são socialmente muito mais aceitáveis do que os desabafos.  

 

Todos nós gostaríamos muito de ir falar à televisão. Há, até, gente que, de resto, se submete aos piores embaraços só para aparecer na televisão. E porquê? Porque falar na televisão é garantia de que muitos milhares de pessoas nos ouvem. Isto para quem todos os dias é sujeito a desconsiderações, desvalorizações, agressões e manifestações de desinteresse de toda a espécie é muito importante. Mesmo fundamental, eu diria. Falar na televisão representa o ganho de atenção e de importância, ainda que não perdurável, que as pessoas sentem que não têm. Pela minha parte, penso que "chutar" drogas duras ou começar a beber a sério, também pode ajudar.  

 

E, já agora, porque razão a generalidade das pessoas não gosta do seu trabalho? Pois, haveria tanto para dizer sobre o assunto... Mas, infelizmente não temos tempo! Ou, por outro lado...está bem. Só um minutinho. Então lá vai: basicamente, as pessoas que trabalham estão, em princípio,  integradas em estruturas organizacionais. Estas estruturas parecem máquinas. Embora não o sejam verdadeiramente. E porquê? Porque os seus elementos fundamentais são seres humanos. Esquecido este "porque", voltamos à preposição inicial. As organizações parecem máquinas. Logo, as pessoas que nelas trabalham são confundidas com peças da engrenagem. Ora, nenhuma peça mecânica tem importância por si só e todas as peças são substituíveis. E quando digo todas, são mesmo TODAS!

 

Bem, mas, vou permitir-me falar do meu caso pessoal. Apenas para sublinhar uma evidência. Eu não gosto do meu trabalho porque o que eu queria era ser escritora, cronista, e coisa tal deste género e tal, coisa e tal. Claro. É muito mais giro do que ser jurista. Enfim, coisa e tal. Tenho este blog e tal. Assim posso ser mais ou  menos isso e tal. É que assim e tal eu não tinha que pensar muito e tal. E a minha vida era mais fácil e tal. Talvez eu possa escrever um livro de auto-ajuda e tal, que parece ser super fácil e tal, e pode ser um top de vendas e tal. E depois, e tal vou à televisão falar do livro e tal. E é mesmo giro e tal porque fico logo conhecida e tal, e assim toda a gente me conheçe e me vai adorar e tal. É uma forma mais fácil de ganhar a vida e tal. E portanto e tal fim de conversa e tal. 

 

publicado por Cat2007 às 11:43
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Dezembro 23 2007

 

Estava a pensar no interesse que podem ter as coisas que eu aqui escrevo. Compreendo que há quem venha aqui ler. Não quero que ninguém me responda a isto. Estou apenas a reflectir.

 

Por vezes, escrevo porque já não escrevia há algum tempo. Por vezes escrevo porque algo se passa comigo. Por vezes escrevo porque tenho as minhas opiniões. Olho para o que acabo de dizer, e vejo que o assunto sou sempre eu em diferentes ângulos . A coisa está centrada em mim. Dai a questão. Porque hão-de haver pessoas interessadas nisto? É pobre, quero dizer. Eu acho. Sinceramente.

 

Podia dar informações preciosas. Coisas que poucas pessoas soubessem. Mas não. Podia opinar com encanto e imaginação sobre aspectos muito bem compreendidos da vida. Mas não. Podia escrever sem conteúdo mas com um estilo vertiginoso que divertisse ou fizesse sonhar. Mas não. Mas não posso fazer nada disto porque não sei.

 

Ando sempre a reflectir. Cada vez que aprendo coisas novas, compreendo que tenho mais dúvidas. Quando mais fundo se vai mais complexa é a realidade. Não sei, até se reflicto como devo. Deve haver uma regra, um método, para proceder à reflexão. Não tenho. Tenho o meu. Pouco cientifico. Muito parcial.

 

Não gosto de olhar para dentro de mim e verificar emoções mal justificadas. Não gosto de reflectir sobre isso, e fazer o esforço de mudá-las. O pior é que tem de ser. Depois de saber.

 

Na sexta feira tive vontade de não pagar uma conta. Ou seja, tive oportunidade de não pagar uma conta. Uma conta de supermercado. Sai sem pagar decidida a não pagar. Mas voltei atrás. Fui levantar dinheiro, e voltei atrás para pagar. Eu não queria pagar. Este foi o impulso. Mas não consegui. Porque o peito me começou a doer e o cérebro ficou branco. Dei meia volta e voltei. Paguei. Podia não o ter feito. Nada me aconteceria, e a culpa ainda era deles. Não interessa porquê. Foi uma situação rara. Ainda bem que paguei. As pessoas ficaram muito aliviadas, e agradeceram-me muito. Foi bom assim. Não percebo porque me confronto com dilemas destes. Porque não sou mais simples? Ou pagava. Ou não pagava. Devia ser assim. Não percebo porque tenho tantas dúvidas. Percebo que queria pagar. Senão, não tinha pago. Ponto final. Não é? Não porque não gosto de ter tido e respondido  ao impulso de não pagar.

  

Ontem, no Canal 1, da RTP,  deu um programa incompreensível a seguir ao telejornal. Em prime time , portanto. Organizaram uma ceia de Natal do mais requintado que pode haver. O programa era apresentado por um cozinheiro que supostamente todos devíamos conhecer, mas eu não sei quem é. Havia quatro ou cinco pratos de Natal. Iguarias religiosas (porque, enfim, a quadra é religiosa, acho eu) provindas de regiões diferentes. Da Suécia , do Havai, de França, de Portugal, claro, de... não me lembro. Os convidados, meia dúzia, eram pessoas importantes, por esta ou aquela razão, e havia lá um comandante careca desconhecido, que devia ser importante também. O cozinheiro tinha aquele corte de cabelo que não engana ninguém. Assim queque. Falava como só um chato pode falar. Não conseguia ser um comunicador porque era cansativamente expressivo. Estava em esforço. O que se me pegou imediatamente. Fiquei cansada por contágio. Estava lá o Mário Soares. O menu foi de príncipes . Todos falaram das suas pequenas e curiosas experiências natalícias . Um de cada vez. Totalmente desinteressantes. Mesmo a do ex-exilado António Barreto que passou um Natal a trabalhar na Suíça ou no Luxemburgo , carregando o correio de Natal que era imenso por ser Natal e foi muito duro, até porque estava imenso frio. O Continente do Belmiro de Azevedo patrocinou. Achei que a Simonetta Luz Afonso estava parecida com a Ana Marques, a senhora do PS e de Timor. A Sílvia Alberto era a mais nova de todos. E a mais bonita.

 

Reflecti. E não percebi nada. Mas que programa era este? Senti-me, como me sinto ainda, e até agora, uma comunista. E não sou. Não posso admitir que a RTP me faça sentir uma comunista nas vésperas do Natal! Não tenho nada contra os comunistas. Nem a favor. Mas pensei nas pessoas pobres e remediadas pobres que só têm a televisão para se distrair. Essas pessoas a verem aquilo. Os velhos, os sós, os pobres, os doentes. Estas pessoas assim, que não têm dinheiro para comprar prendas, que não vão receber prendas, que não têm dinheiro para cumprir os mínimos exigidos por esta época festiva. Terá a RTP pensado em alimentar-lhes pelo menos as almas com um programa destes? Podiam mudar de canal. Mas talvez não pudessem ter mudado de canal. Talvez se instale o conflito do acesso. Não posso ter, pelo menos posso ver. A RTP é uma televisão pública. Não tem o direito de colocar as pessoas nestas situações.

 

Eu gosto da Judite de Sousa, mas aquele programa com o jovem  Salvador Mendes de Almeida... Aterra-me a sua tragédia. Sinto uma pena muito sentida por ele. Admiro-o pela sua coragem. É assim. Simplesmente. Não posso imaginar-me a viver o que ele vive. É um rapaz incomum, talvez. Porém, ainda bem que o Salvador pôde ir para um bom hospital espanhol logo a seguir ao seu acidente de moto. Ainda bem que pôde estar um tempo em Itália. Ainda bem que pode pagar a uma senhora para estar no quarto ao lado do dele durante a noite, e que vem quando ele a chama pelo walkie talkie . Ainda bem que ele tem aquela cadeira de rodas super especial que o sustenta de pé. Ainda bem que tem os médicos e os melhores fisioterapeutas. Ainda bem que teve acesso à tecnologia que lhe permitiu concluir uma licenciatura. Ainda bem que os amigos não o abandonaram. Ainda bem que tem namorada. Ainda bem que ele tem o espírito forte e positivo que demonstra. Ainda bem que pertence a uma família muitíssimo privilegiada . Espero que seja o único tetraplégico deste país, e que Deus o ajude sempre. E a mim também pelo que acabo de dizer.

 

E, para terminar: quem é o Justin Timberlake

 

 

 

publicado por Cat2007 às 22:49
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Março 04 2007

 
Eu acho que o Eça se sentia extremamente magoado com o Dâmaso "trés chic". Nem sei se não foi por causa dele que se foi embora para o estrangeiro escrever sobre Portugal. É facil pensar num plano de fuga e executá-lo se nos andam a oprimir demais. A culpa deve ter sido do Dâmaso. Não de Portugal. Portugal terá sido o amor ao longe de quem e a quem se escreve cartas de amor. Se eu fosse o Eça, tinha-me acontecido isto. Como não sou, vivo aqui com este amor angustiado pelo meu país, inventando pré-literatura sem categoria literária.
 
Há uns tempos ouvi uma senhora muito abalizada a falar sobre o Eça na televisão. Maria Filomena Mónica. Como uma grande baliza cheia de bolas que parece ser, ela disse e disse. Devolvendo bolas à vez. Claro que há aqui um contra-senso. Se bem que as balizas servem para receber bolas, é certo que o objectivo do jogo, no momento da equipa que defende, é evitar isso mesmo. Que as bolas entrem. Neste aspecto, ninguém quer ter uma baliza cheia de bolas. Nem ninguém, muito menos,  quer ser a própria  baliza. Já viram os jogadores furiosos a dar pontapés nos postes e mesmo nas redes? É porque não estão contentes com as bolas que lhes entram pela baliza dentro. Por outro lado, não interessa falar na equipa que ataca. Essa, é óbvio, quer a bola na baliza. Quando isso acontece é uma alegria orgástica que se dá. Só que a baliza é dos outros. 
 
A senhora fartou-se de explicar o autor e a autoridade dele que, até parecia, era ela quem lha dava. Assim como quem descobre a pólvora, que toda a gente já conhece e usa mas não sabe explicar. Que é como quem diz, ninguém quer explicar a pólvora. As pessoas sem serem umas grandes balizas são inteligentes. Assim, basta-lhes saber que é muito intensa, explode, faz feridos, e essas coisas assim. A pólvora. É por isso que fingem (fingimos) sempre que acreditam (acreditamos) na pólvora descoberta pelos outros. Não querem (não queremos) magoar os sentimentos de ninguém. Todos nos calamos (todos se calam) com vergonha de dizer: “Olha lá, tu não descobriste nada”. Ou:  "Desculpa mas estás a inventar”. Ora, isto é pelo menos uma demonstração de grande delicadeza e compreensão para com o próximo.
 
Nisto, eu estou quase como sempre com o O’Neill . "Há mar e mar/ Há ir e voltar". Não se deve nem vale a pena explicar a arte em particular. E uma série de outras coisas muito importantes em geral. É que perdemos o tempo precioso de aprender. Acresce que, como dizia um amigo meu, “o meu sucesso é sempre um mal entendido”. Porquê? “Porque os meus leitores constroem entendimentos que eu jamais idealizei”. E agora digo eu própria: não há dúvida que o texto finalizado só o está depois de ser escrito e a seguir a ser lido fora da autoria original. Um texto, um bom texto, o único que existe, vê o seu poder paternal partilhado por muita gente sentidamente disposta a assumir tamanha responsabilidade. 
 
Aquela senhora televisiva foi convidada mais uma vez para falar num programa de televisão. E explicava o Eça. Invocava factos simples, logo inexplicáveis: o Eça pertencia à classe social x. Mais tarde foi aceite na classe x+1, mas não lhe foi concedido o estrato respectivo. Daqui e a partir também de outras factualidades também sem interesse nenhum para o que importa do Eça partia para a explicação da obra. Nada a fazer. É deixá-la falar.
 
Não deixa este de ser um modo de agir natural. Porque já nos habituaram a isso. Fiquei a assistir àquilo cheia de um mau pressentimento. Estamos habituados a ser o repositório dos estudos, criticas, ensaios, palavras ditas, produções dos outros. Sobretudo dos outros que não têm nada de verdadeiramente criativo e terno para partilhar. Daqueles que não produzem vida na vida de ninguém, Dos que são vazios porque não dão nada. Não sabem fazer trocas de humanidade. Porque também não têm nada para a troca. O que sabem é falar de construções. Edificações urbanas que consomem os espaços verdes. São incapazes de fazer um elogio. Mesmo ao jardim do Eça. É demais!
 
Ali estava ela, exibindo o seu bilhete de identidade. Sim. Ela não falava do Eça. Falava de si própria, usando escandalosamente o Eça que para sorte dela está sob um determinado aspecto, no aspecto prático, morto e não a pode questionar. Houve palavras ouvidas e vistas naquele dia  que ainda hoje me estão à frente dos olhos. Como se na altura  tivesse tomado um ácido a trip não estivesse completamente ultrapassada.
 
Afirmou-se que a grande tragédia do Eça enquanto escritor era ser português. Pois se não fosse era universalmente conhecido. Como é que ela sabe que o homem queria ser universalmente conhecido? Um escritor tem de escrever. Não tem como fugir duma fatalidade destas. Um escritor não quer ser conhecido. Quer ser lido. Por alguém. Não tem que ser por toda a gente. Nem por alguém muito importante. Oupelo mercado americano. Um escritor só precisa de escrever e ser lido. O resto são projecções que lhe são alheias.
 
Foi sublinhado que Portugal é pequeno e periférico. Pois. E então? A Bélgica é pequena. O luxembrugo. O prato da sopa. A colher de café. As jóias da coroa. Os diamantes da Merylin. Um chapéu. Um relógio. Um homem. Uma mulher. O World Trade Center era mínimo. O planeta.
 
O tamanho das coisas é relativo. Como esquecer isto e dizer convictamente: isto é pequeno. E mais, as relatividades não têm importância nenhuma, sob pena de, sem querer, nos andarmos a nivelar por baixo. Portugal é periférico em relação a quê? A quem? A que como? A que quando? A que onde? A que porquê?  Nos Estados Unidos, por exemplo,  é bom sinal viver na periferia do centro. Mas quem precisa dos conceitos americanos? Só mesmo os americanos e os crédulos.
 
Maria Filomena Mónica disse que se fosse, por exemplo, americana seria muito mais conhecida do que é. Tenho a impressão que os padrões de exigência americanos são elevados em muitas matérias. Isso pode servir para muita coisa ou não servir para nada, dependendo de quem analisa, ganha ou perde com o facto. Se ela fosse americana, não era portuguesa. É o que se compreende. No mais, não sabemos o que mudaria na essência das coisas. Que estação televisiva lhe abriria as portas para dizer bem da América? Se ela fosse americana, seria capaz de, sentidamente, dizer bem da América?
 
Ela disse que não lhe apetecia traduzir os seus próprios textos para inglês. Não sei se não disse que não tinha “pachorra” para isso. Também não sei porque haveria de dar-se ao trabalho. Mas isso é porque eu desconheço o trabalho dela. Só li dois livritos e uns artigos de opinião. Talvez não me tenha dado ao trabalho. De certeza não me dei ao trabalho. Sou indolente, abstraída e desinteressada, pequena, periférica e ridícula. Falo do que não sei. Talvez deva ser punida por dizer o que  senti. A senhora, percebe-se, jamais será castigada por falar do que nunca poderá saber.
 
Filomena afirmou que a língua portuguesas “lixava” (não sei se disse assim) os escritores portugueses porque o resto do mundo não sabe, nem quer saber português. Os nossos autores não são traduzidos. Os tradutores não traduzem a partir de línguas que desconhecem.
 
Bom, mas os tradutores estrangeiros é que devem traduzir as obras portuguesas? A obrigação de nos divulgar é dos outros? Nós queremos ser divulgados? Eu não sei. E posso não saber. Sei que houve uns quantos japoneses que decidiram aprender português só para saber o que Amália dizia na voz. Também não sei que significado pode este facto ter.
 
 Era um programa interactivo. Havia pessoas a telefonar. Todas a cumprimentaram com respeito e vivacidade numa espécie de deferência feliz. Uma telefonou até com o único propósito de lhe dizer que tinham amigos ou parentes comuns. Mónica não ligou muito a isso. Às afinidade expostas por esta especial telespectadora. Mas gostou do resto. Do conteúdo dos outros telefonemas cujo conteúdo era mais ou menos isto: O Eça está Morto! Viva a MFM ! A entrevistadora sorria com cuidado e admiração. Só podia estar confusa. Também não sei.
 
Realmente este meu desejo que todos os dias se vivifica num esforço sofrido de inadaptação é muito forte. Não interessa a mais ninguém, senão a mim mesma. Por outro lado, vai interessando a algumas pessoas porque as aborrece severamente. O meu virar de costas é verdadeiro, sentido e consciente porque sou capaz de segurar entre as mão o que me cai mal e deixá-lo cair, ou não, conforme os riscos. Cinismo ? Talvez e não.
 
Apetecia-me desatar aqui a explicar uma série de coisas. Mas não me parece que o deva fazer. Sobretudo, por uma questão de coerência. No mais, por convicção. Os factos, sem grandes explicações, falam por si. Se todos nós temos Amália na voz, onde anda o Portugal que fez nascer o Eça de Queiroz? Más videiras não fazem um excelente vinho. Portugal é bom. Indiscutivelmente. E sem explicações. É bom. Produz bons frutos. É bom.
 
No momento, e de há longos momentos para cá, Portugal anda triste, deprimido e humilhado. Não sei como conseguimos fazer isto a um pai.
 
publicado por Cat2007 às 15:22
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