CAFÉ EXPRESSO

Setembro 10 2016

Naquela casa não se trancavam as portas. Durante tanto tempo, as chaves mantiveram-se operacionais dentro das respetivas fechaduras. Porém, inoperantes. Eram de bronze aparente. De aspeto brilhante, pareciam quase escorregadias. Como se lhes tivessem passado um óleo, que não aplicaram realmente. Estavam escrupulosamente limpas. Como tudo na casa da Alameda. As chaves postas nas ranhuras de cerca de vinte portas já não eram nada em si mesmas. Por há muito terem perdido a sua utilidade própria, foram transformadas em partes integrantes das correspondentes fechaduras todas iguais. Deixou de ser importante individualizar cada um daqueles pequenos instrumentos, separá-los do conjunto de que faziam parte, onde apenas uma parte, a outra, funcionava. Apesar de permanecerem nas fechaduras, as chaves desapareceram porque lhes foi retirada a sua função primordial. Trancar portas. Destrancar portas. Trancar portas. Destrancar portas… Assim, neste movimento de entrar. De sair. De proteger. De desamparar. De isolar. De libertar. De encobrir. De expor… 

Fora a mãe Amélia quem instituíra a regra. “Não quero portas trancadas nesta casa. Nunca precisei disso na vida”, pensava.  Referia que uma porta, qualquer porta, uma vez fechada, encerrava uma mensagem muito clara. Não. De momento não. Não entrar. Não interromper. Não incomodar. Não importunar. Não pedir. Não dar. Não ouvir. Não falar. Não perguntar. Não saber. Não. Assim se devia ler o que está escrito numa porta fechada por trancar. Uma porta fechada com alguém do lado de dentro é, neste sentido, uma entrelinha. Não é preciso estar trancada. “Não deve estar trancada!”, sempre acentuou.

Nunca se prestava a discutir o verdadeiro e conhecido porquê. O motivo maior das suas razões. O medo de ter que arrombar uma tragédia trancada. Se as chaves não rodassem os trincos para dentro das fechaduras, nada de verdadeiramente mau poderia acontecer por detrás das portas apenas fechadas. Era vítima da terrível sensação de pânico sintomático da fobia dos estalidos dos trincos a fechar. Recordava-se dele morto. O marido. A perda e o vazio eterno que a perda lhe causou.

publicado por Cat2007 às 17:48
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Agosto 04 2016

 

Relativamente às pessoas desconfiadas, parece que nos estão sempre a pôr em causa. Esta é a primeira sensação que me fica. Depois há a impressão que estamos a ser vigiados numa base de regularidade. O que é extremamente desagradável, como se compreende. Por outro lado, os desconfiados tendem a fazer juízos precipitados sobre as situações e especialmente sobre as pessoas. Normalmente pensam pelo lado pior, criando, assim, em si uma má imagem dos outros. Depois atuam em conformidade, sendo capazes de criar verdadeiros infernos à sua volta. Ruidosos ou surdos-mudos. Deste modo, uma pessoa nunca pode estar muito descansada ao pé de um desconfiado.

 

Gosto sempre de saber a causa das coisas. Por isso ponho-me agora a questionar sobre as razões pelas quais os desconfiados são desconfiados. E inclino-me para o trauma. O trauma é um tipo de dano emocional que ocorre como resultado de um algum acontecimento. Pressupõe uma experiência de dor e sofrimento emocional ou físico. Como experiência dolorosa que é, o trauma acarreta uma exacerbação do medo, o que pode conduzir ao stress, envolvendo mudanças físicas no cérebro e afetando o comportamento e o pensamento da pessoa, que fará de tudo para evitar reviver o evento que a traumatizou (para mais esclarecimentos vide Wikipédia).

 

publicado por Cat2007 às 16:27
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