CAFÉ EXPRESSO

Fevereiro 01 2016

 

Há pessoas que parecem inseguras. Mas não são. São, antes, ansiosas. Tudo está na infância e a culpa é dos pais. Por ação ou omissão. Há pais que costumam castigar os seus filhos a sério sem nunca explicarem bem a razão do castigo e, pior, castigando sempre da mesma maneira, independentemente da gravidade da falta da criança. Deste modo, o problema das crianças que são vítimas assim está na falta de senso de graduação das coisas. Por causa disto tornam-se crianças ansiosas e, mais tarde, adultos ansiosos.

 

Como disse, para além das ações, os pais podem ser culpados por omissão. Embora, neste caso, muitas vezes sem culpa. Eu, por exemplo, fui vítima daquelas senhoras donas de casa impolutas filhas da mãe. Sempre que me apanhavam sozinha, chamavam-me a atenção para certas coisas que eu fazia e que, na ótica delas, eram desadequadas para uma menina. Assim, não devia subir árvores, jogar à bola com os rapazes e andar à pancada, por exemplo. Nunca fizeram isto à frente dos meus pais, pelo que eles nunca tiveram possibilidades de me defender. E portanto, não defenderam. Eis aqui uma omissão que me lixou. Com efeito, acabei por acreditar nelas, nas donas de casa, por serem pessoas adultas, e acabei por contrariar a minha natureza alegre, espontânea e expansiva. Deixei de ser uma “maria-rapaz” para me tornar numa menina bem comportada.

 

A adoção de comportamentos contranatura, que são comportamentos que contrariam a natureza das pessoas, de cada pessoa, provoca obrigatoriamente danos na autoestima e não só. Produz efeitos de natureza ansiosa. Quem não está na sua pele não sabe bem como agir.

 

Entretanto, uma pessoa cresce neste processo em que se habituou a sufocar os seus instintos mais primários e começa a apreender outras formas de reagir. Isto sucede com toda a gente. Mas as pessoas ansiosas, que, como disse, o são porque em pequenas assim as fizeram, têm uma dificuldade maior em andar à pancada por palavras calmas e certeiras. No entanto, aprendem como os demais. Embora com mais alguma dor.

 

publicado por Cat2007 às 17:54
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Janeiro 29 2016

 

Quando nos agridem devemos “dar a outra face”? O que quer isto dizer? Assim numa primeira abordagem parece significar que devemos aceitar uma agressão. E, além do mais, incentivar o agressor a agredir-nos novamente. Virar as costas não está aqui contemplado.

 

Por outro lado, talvez não seja assim. “Dar a outra face” é, eventualmente, antes pelo contrário, dizer “olha, não tens cacife para me abalar. Deste-me nesta face e nada de grave me aconteceu. Posso dar-te a outra para comprovarmos que não és capaz de me ferir severamente”. Assim, “damos a outra face”.

 

É preciso responder a uma agressão. E, sobretudo, é necessário saber responder. Temos que estar conscientes do tamanho da nossa dignidade. Uma formiga pode picar o dedo a uma pessoa. E dói um bocadinho. Se for daquelas com cabeça encarnada, acho eu. Mas, pelo amor de Deus, é uma formiga. Não vamos reagir contra ela para a esmagar. Basta um chega para lá no raio do inseto.

 

As pessoas precisam de agredir. Certas pessoas. Nos filmes sobre “serial killers” sempre me interessaram as motivações. Até que percebi que, na verdade, isso não interessa. Um “serial killer” é um sociopata. Um doente mental, portanto. As suas motivações são as de um louco. Não interessa saber porque é que ele ficou louco. Provavelmente já nasceu assim.

 

Os agressores do nosso dia-a-dia têm as suas motivações. Que não se fundamentam em atos diretos nossos. Podemos ser agredidos por inveja ou por frustração de coisas da vida. Ou pelas duas razões. O que interessa é saber responder à agressão, dando a outra face, afastando a formiga com uma sapatada. Para tanto, é necessário enfrentar. Se eu quero dar uma sapatada numa formiga, tenho de olhar para ela. Senão não sei onde estará. E depois ir lá com o outro dedo para lhe dar o piparote. Isto tudo sem sentir raiva. Porque não se sente raiva de uma formiga. A raiva provoca o sistema nervoso, fazendo as mãos tremer. Ninguém treme por causa de uma formiga.

 

publicado por Cat2007 às 18:14
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Janeiro 27 2016

É claro que todos nós, se temos saúde, devíamos andar sempre contentes por ter saúde. Mas não. A saúde só está em primeiro lugar nas nossas prioridades quando há falta dela. No mais, existe a vida pessoal e a vida laboral. Acabei de dizer uma frase feita. E feita há muito tempo. É daquelas frases antigas. Do tempo das nossas avós quando já eram avós.

 

Toda a gente sabe que, se excluirmos as horas em que estamos a dormir, passamos mais tempo a trabalhar do que a viver o que, em princípio, mais nos importa. Coisa que nos devia chatear. E chateia. E só não chateia a quem viva um vazio e o trabalho lhe sirva também para o preencher.

 

O vazio está cheio de problemas para resolver, como as contas para pagar, os filhos para educar, a mulher ou o homem para aturar (ou a falta de todas estas coisas).

 

Há vazios de tal maneira grandes que as pessoas até se metem na administração do condomínio ou na astrologia.

 

Para além de uma certa tristeza, o vazio causa ao próprio principalmente irritação no local de trabalho. Porque o trabalho é coisa muito séria. Que isto não é só ir para ali à espera do ordenado no fim do mês.

 

As pessoas que se entregam ao trabalho da maneira irritada descrita sabem tudo sobre o respetivo ambiente. Sabem o que existe e sabem o que imaginam. Normalmente arranjam conflitos porque têm que dar forma emocional e emocionante às suas vivências ali. Baseiam-se quase sempre em mal entendidos que começam por conceber. E chateiam sempre os colegas. Também não gostam que os outros sejam bem-sucedidos. Porque consideram que dão tudo da sua vida por aquele trabalho. E se alguém merece ser recompensado, é o frustrado. Assim, revelam-se também invejosos e intriguistas.

 

Estas pessoas são essencialmente patéticas e basicamente umas chatas. Por isso cansa imenso ter que lidar com elas.

 

publicado por Cat2007 às 18:01
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Janeiro 26 2016

 

D. Amélia ligou-me há uns dias. Chovia. Vão trocar-lhe o local de trabalho. Eu respondi-lhe que não se podia fazer nada porque, nas condições em que a entidade patronal ia fazer as coisas, estava a agir dentro da lei. Chorou. Não sabia o que havia de fazer. A troca é para Alfragide. Da Amadora para Alfragide. Eu perguntei-lhe se não seria melhor ir para Alfragide. “O que fica mais perto? Alfragide ou a Amadora”? Se calhar é Alfragide. “Veja lá”. Mas ela estava desconsolada. Não sabia o que era mais perto nem se tinha informado dos transportes. “Não Senhora Doutora, eu assim meto a carta!”. E eu: “Não faça isso. A D. Amelinha precisa de trabalhar, pelo amor de Deus!”. E ela: “Olhe Senhora Doutora, eu não quis tomar nenhuma decisão sem falar com a Senhora Doutora mas agora, depois do que a Senhora Doutora me disse, eu vou conversar com o meu filho e meto a carta”. Pedi-lhe mais umas vezes para não “meter a carta”. Disse-lhe para falar com o filho. E lamentei não poder ajudar mais. Ela desligou muito desiludida comigo. E com razão. Tinha esperança em mim. Choveu durante mais uns dias.

 

Depois de semanas a fio de chuva praticamente sem descanso, os dias estão melhores. Vê-se bem o sol. A humidade já doía nos ossos muito para além do frio. Há uma certa alegria que se instala. Talvez não chegue bem a ser alegria. Eventualmente são melhoras na disposição das pessoas. Muitas vezes aplica-se a palavra “nostalgia” para falar de recordação e saudade. Como na “Rádio Nostalgia”. Mas eu acho que “nostalgia” é, além do mais, uma tristeza que se sente vinda de lado nenhum. Não voltei a falar com a D. Amélia. Mas tenho esperança que não tenha "posto a carta".

 

publicado por Cat2007 às 18:34
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Janeiro 25 2016

 

Finalmente no sábado não chovia. Fomos ao Guincho depositar as cinzas de uma mulher muito importante. Mesmo que chovesse, tínhamos ido igualmente. Mas ainda bem que não foi assim. Ela ficou no cimo ao pé de uma árvore a ver o mar. Marcou-se a árvore para não esquecer. Tinha três troncos. Mas era pequenina. Foi escolhida por ser nova. Mas também por ter algum vigor.

 

Nunca me imaginei a transportar cinzas. Aquilo vem num recipiente de metal um bocado pesado. Levei-as no carro junto aos pés. Ia ao lado. E como que afagava aquele corpo com as minhas pernas.

 

Eu quero sempre fugir das coisas que me aproximam de fenómenos que me assustam.

 

Agora morreu esta mulher importante. Foi preciso afastar a morte dela. A melhor forma que se encontrou foi transformá-la em cinzas. E depois foi deixá-la ao ar livre num sítio bonito. Assim parece que está viva outra vez. Só que recolhida em algum lugar que ela escolheu. É esta a impressão que dá.

 

publicado por Cat2007 às 16:19
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Novembro 20 2012

De quando uma fotografia dá um post. Isto é como se a fotgrafia por si só valesse como um post. Talvez valha. Sem dizer mais nada posso deixar que ela diga o que se vê nela.

 

De qualquer forma vou dizer eu por ela bem sabendo que vou deixar coisas óbvias por dizer. Parece um dia tranquilo de inverno numa praia no inverno num dia em que não chove e por isso o céu está com aquela cor de azul ténue sob uma película branca. É por isso que o mar fica prateado.

 

Sou eu nesta foto. Foi no domingo passado. Vê-se perfeitamente que há qualquer coisa cool em mim. Apesar de não sentir o facto. Naturalmente.

 

 

 

publicado por Cat2007 às 17:01
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Junho 24 2012

 

 

 

Agora vou ver música que quero passar para a “pen” para trocar a banda sonora das minhas viagens de carro. Estou farta da que lá tenho.

 

Reparei que a mesma musica é diferente se ouvida no carro. Dei por mim a passar para a frente várias que eu juraria que adorava. Penso que é dos sinais, do trânsito, dos prédios, dos outros carros. Estes elementos acabam sempre por me lembrar assuntos sérios ou deixar a refletir sobre qualquer coisa que me importa. Depois as músicas não se adequam ao momento. Ou porque me interrompem os pensamentos, colocando lá outros, ou porque me deprimem, ou porque me animam quando quero estar triste ou porque simplesmente não têm nada a ver.

 

Não há nada melhor do que conduzir sem destino muito certo com a musica adequada. Por isso tenho mesmo que ir ver agora.

publicado por Cat2007 às 23:32
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Junho 24 2012

 


 

 

Sobre o bem e o mal. A referência psicológica pode ser os conceitos clássicos religiosos de Inferno e de Céu.

Quando era miúda imaginava que o inferno se integrava globalmente por um circo de labaredas gigantesca e mais nada. E que o céu eram relvados, árvores de fruto e riachos. Talvez estas fantasias tivessem origem nos desenhos gravados nas “Sentinela” que a senhoras testemunhas de Geová em atividade de missão iam apresentar lá à porta de casa de vez em quando. Os bons iam para o Céu e o maus para o Inferno. Era bom quem praticasse o bem. E mau quem fizesse mal aos outros, às flores e aos animais.

 

Um dia veio-me à ideia que, podendo existir lugares muito melhores e muito piores do que este, o Céu e o Inferno também são na terra. E portanto, o Céu e o Inferno também são no Universo. Creio que entre a Terra e o resto do Universo existe uma ligação perfeita e inatingível que justifica a morte. Assim, ninguém irá para o Céu ou para o Inferno. Quanto muito, continuará em um ou outro destes contextos ou em ambos à vez. E depois disto lá se apagaram as minhas fantasias plásticas inspiradas na “Sentinela”.

 

Não é fácil dizer o que é o bem e o que é o mal. Sei que o personagem escandalosamente centrado em si mesmo é a raiz de todo o mal.

 

publicado por Cat2007 às 23:27
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Abril 14 2012

 

 

 

Sinto o impasse. Algo me espera e eu, cansada pela turbulência alegre de parque de diversões  que há-de vir, estou aqui parada num descanso antecipado do meu sucesso. É por isso que não tenho vontade de sair para a noite e beber uns copos.

 

Uma pessoa pode viver assim uma vida inteira. No dia do seu funeral estarão algumas pessoas próximas. E será um fim igual ao de toda a gente. Deixará os resltados de imensos sucessos que teve e não compreendeu.

 

  

publicado por Cat2007 às 17:21
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Abril 03 2012

 

 

Tenho impressão que faz mau tempo nos tempos mortos. Mesmo num dia com sol e ar refrescado. Os tempos mortos não são de ócio ou de liberdade mas de espera. De nada. Isto é como ficar de baixo de um alpendre sem chapéu à espera que a chuva passe.

 

publicado por Cat2007 às 18:49
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