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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

A COISA EM SI


Cat2007

15.08.07

 

Os inadaptados é de longe a pior coisa que escrevi. Apenas não o apago porque  é necessário saber perder com classe, como dizia o Chaplin. E ganhar com ousadia. Como dizia, igualmente, o Chaplin.  Evidentemente, aqui não se trata de perder ou de ganhar mas apenas de uma coisa mal feita. Os Inadaptados. Bom, talvez tenha havido aqui algo a perder. Tempo. O meu. Se a cabeça não está leve, as mãos não devem descer sobre as teclas. Do teclado. Do piano. Do telefone. Veja-se a importância das teclas. É preciso cuidado quando se faz descer as mãos sobre elas. Até podem suceder coisas com a gravidade que o texto de Os Inadaptados não tem.

 

Estou sempre a falar em coisas. Quero dizer, estou sempre a chamar coisa ou coisas às coisas. Se falo de sentimentos, são coisas. Se falo de objectos, são coisas. Se falo de pessoas, falo das coisas delas. Coisas. Acho que o conceito da coisa em si me ficou das aulas de filosofia. Quase todos os filósofos falam assim das coisas. Chamando-lhes coisas. Embora seja verdade que igualmente adorem chamar às coisas objectos. Mesmo que estejam a falar de gente ou de ideias.

 

Bem, não era preciso escrever uma quantidade de coisas só para dizer uma coisa simples. Que os inadapatados são aqueles que não se safam. Que a consciência conta pouco para a aceitação social. Que, em suma, ser uma coisa bem adaptada significa não ser uma coisa que justifique muitas queixas ou reparos por parte dos outros. E que, por fim, um dos grande segredos para a boa adaptação é não ter uma consciência muito exigente. Exemplo: Mr Ripley. Resolvi dar este novo exemplo e esquecer o Jimmy. Por ter mais "pinta". O Malckovitch, principalmente.

 

Ontem o Oscar Wilde dizia que "fechar os olhos a todas as coisas que não são perfeitas pode fazer-nos cair num abismo". Porque estamos de olhos fechados, claro. Não que o abismo não seja em si uma coisa perfeita. Trata-se, mais uma vez, de um discurso sobre consciência. Ou melhor, de que o melhor é não ter muita. E tudo isto por causa do direito de propriedade sobre um leque. Leque este que não devia ter sido vendido porque era um objecto de grande valor estimativo. A verdade é que o seu vendedor o vendeu por um preço exorbitante. No confronto entre o dinheiro e a estima venceu o dinheiro, e sejamos práticos e. Estejamos pois in side.

 

Quando escrevi Os Inadaptados não estava boa da cabeça. As ideias simplesmente não me saíam com simplicidade. E eu devia ter parado. Não o fiz porque tenho um certo prazer em me autoflagelar sem chicote. Não apago o post porque tenho um sentido de justiça muito apurado. No mais, sou uma pessoa muito arrogante, infantil e pouco esperta. Três coisas que fazem todas parte do mesmo. De um conceito maior ao qual eu não sei dar o nome. Não sei dar o nome ao conceito englobante. Só às suas componentes integrantes. Repetindo, arrogância, infantilidade e falta de esperteza. Ou mesmo estupidez.

 

Lembor-me agora que quem se preocupava um bocado com a forma como aparecia a si próprio era o Virgílio Ferreira. Estava sempre a pensar nesta coisa. Ora, isso conduzia-o a outras. Com efeito, aproveitava imenso para ver a forma como os outros se viam a si próprios e apareciam aos demais. Foi então que ele disse que ter muito apetite e, pior, demonstrar o facto é uma vergonha. É uma vergonha porque está ligado à pobreza ou à animalidade, segundo os conceitos da aldeia. Fartei-me de rir.  

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