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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

PORTUGAL


Cat2007

22.03.07

 

 

Há pouco tempo atrás mandei um e-mail ao Eng.º José Sócrates. Andava ele em viagem pela China.  Foi a propósito da sua intervenção na campanha pelo sim à despenalização do aborto. Acho-o um senhor com tendências progressistas de índole sociocultural , e isso agrada-me. Pois foi. Mandei-lhe um e-mail com o objectivo de o cumprimentar. No entanto, apenas e só, por isso. Pela agradável intervenção. Nada mais. Não tenho interesse nele, no PS, nem na política. Maça-me!

 

Entretanto, passado algum tempo, recebi uma resposta. Era, também, um e-mail proveniente do Gabinete do Primeiro Ministro. Abri. Não consegui imediatamente. Foi necessário fazer um download. Finalmente, era um ofício todo formal, com nº de série e tal. O conteúdo era menor e qualitativamente inferior. Basicamente, dizia que receberam a minha mensagem.
 
Mas para que se foram dar ao trabalho? Não compreendo. Aliás, compreendo se me recordar que, em geral, os políticos e seus acólitos, gostam de gastar o seu tempo em actividades ociosas ou naquelas, igualmente inócuas, onde prevalece a forma sobre o conteúdo. É assim. Já por isso não existe nenhuma bandeira de Portugal à entrada do site oficial do Governo português. Obviamente, não vou mandar mais nenhum e-mail ao Primeiro Ministro. Senão, falava-lhe (desnecessariamente) do assunto.
  
Tenho uma grande amiga brasileira. Vive no Rio de Janeiro. Conhecemo-nos há 4 anos num fórum da Rede Globo. Desde aí, falamos no Messenger e, de vez em quando, ao telefone. É uma pessoa inteligente, culta, sensível, solidária, generosa e bem educada. Hoje, é uma das minhas melhores amigas. Sendo certo que só não será mesmo a melhor porque ela vive lá e eu cá.
 
Confesso que gosto do Brasil. Do reflexo do talento e do cheiro. Do nosso passado português e do presente, onde ouço falar num modo que eu compreendo. Na minha língua. Gosto do enorme sorriso miscigenado.
 
É uma pena não podermos afirmar que fomos nós quem construiu aquela indiscrição (de indiscreta, obviamente) de massa crítica (povo mais território). Mas fomos nós quem inventou aquela energia. Ainda que não a possamos aproveitar para nós. Para nada. Só retirar algum proveito tabelar das suas produções.
 
Parece que nós sentimos o Brasil como a nossa segunda casa. Acreditamos, é o que parece, que aquele país imenso, situado no Continente Americano, logo a seguir ao Atlântico, onde respira a Terra planeta por um pulmão já semi-carbonizado, é o nosso país irmão.
 
Nós gostamos de sentir esta coisa assim. É natural. Reconhecemos muitas coisas boas naquilo. Para além da saudade navegadora, da mulata-branca-india, dos batuques africanos sintetizados na força contágica do samba.
 
Dá-nos muito jeito pensar que temos muita responsabilidade com o que para ali há de maravilhoso e de potencial. Temos tanta neste aspecto. Como temos igual quantidade sobre os maus aspectos. Na minha óptica, temos quase nenhuma em tudo ou nada.
 
É o momento de sublinhar o óbvio: o que digo não tem base científica, como não o tem quase tudo o que digo. Falo por impulsos sensíveis. Os testemunhos são os meus próprios.
 
Eu já vi e ouvi o desdém e o ressentimento dos do Brasil sobre todos os portugueses. Eles acham que lhes roubámos o ouro. Claro, nem se recordam que o ouro era nosso. Que o Brasil era nosso. Eles acreditam que são católicos e supersticiosos por causa das nossas evangelizações. Mas quem lhes ofereceu os Pais de Santo e Iemanjá entre outras divinizações católico-pagãs foram, essencialmente, os Africanos (ou seja, na verdade, nós). Eles acham que não são caucasianos porque quem levou os negros para lá fomos nós.
 
A verdade é que, se nós não tivéssemos uma certa tendência para andar a bater omeletas, misturando claras com gemas, talvez os nativos fossem puros índios e tivessem mais auto-estima. Porque, naturalmente, os outros, os brasileiros poderiam ter sido colonizados por ingleses. O que tinha sido uma sorte. Hoje eram os Estados Unidos da América do Sul. E o continente americano não se designava EUA, Canadá e América Latina, certamente. Ou podiam ter os espanhóis como colonizadores. A vantagem era uma e mais uma. Duas, portanto. Tinham todas as probabilidades de possuir um “ar tão europeu” como os Argentinos. Por outro lado, deixariam de odiar os mesmos argentinos. Relaxante em dias de futebol, pelo menos.
 
O Brasil está mais perto dos Estados Unidos e ainda mais do que nós gostaríamos de imaginar. Por outro lado, só para nos perturbar, imagino eu, têm muito mais simpatia por África do que por nós, fingindo, por isso, afinidades mais íntimas. Connosco, reconhecem a ligação imperial incontornável, mas tentam esquecê-la a todo o transe. Olham para Portugal e para os portugueses como aquele pai pobre e ignorante de quem o filho "modernaço" se envergonha. Por isto, tenho pena deles e de nós.
 
Porque não somos assim de tão boa vontade para com África ? A nossa África de onde nem há 40 anos saímos. Poderá ser porque não queremos estar ligados à miséria descoberta? À inferioridade? Económica. Social. À falta de escola. À falta de comida. À SIDA. À Guerra. À simpatia. Ao calor. À sinceridade. À identidade. O Fado à Morna. À responsabilidade. Ao sofrimento. Ao ser. Ao Benfica e ao Sporting. À Selecção Nacional. À RTP África . Aos portugueses. Aos africanos.
 
É uma vergonha, mas à nossa África , só estão, sentida e profundamente, ligados aqueles a quem, nós, os de cá, andámos a chamar muito tempo "retornados". Porque vieram de lá. Branquinhos. Porque nem pretos eram.
 
A quase-indiferença a África é o desprezo dos frágeis pelos que ainda o estão mais. Isto é passar por um irmão pobre na rua e fingir que não o conhecemos. Além do mais, revela que temos uma má consciência métrica. O Atlântico é muito mais imenso do que o Mediterrâneo. E mesmo que se vá de barco, como dantes, o Atlântico para o Brasil é muito maior. 
 
E, no Brasil, também não há brancos verdadeiros. Nós, portugueses, não somos brancos. Com muito orgulho. Orgulham-se Camões, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill , entre outros. E, muito modestamente, eu própria.
 
Na mesma semana de Novembro fui ver dois concertos ao Coliseu. Primeiro, a Mariza . Depois, o Chico Buarque. Ambos  encheram aquilo ao ponto de ruptura. Eu fiquei na segunda fila das cadeiras de orquestra. Sempre que quis respirar, não tive problemas. E via tudo muito bem visto. Via bem o que me interessava, evidentemente.  
 
Mariza foi tudo aquilo que é tipicamente português de altíssima qualidade. Sangue africano no fado onde nasceu Alfama árabe não é uma Morna da excelente Cesária Évora. Com todo o respeito, sendo-o também, é muito mais. É a Ásia do Portugal mulato de cabelos lindamente pintados de norueguês.
 
Eu tenho pouca palavras para descrever o que sinto quando vou ver a Mariza ao vivo. E vou sempre que posso. Ou sempre que ela cá está a cantar. Peço sempre baixinho ao meu Santo (acredito que tenho um Santo desconhecido, que é muito meu amigo e que me segue para todo o lado): “não me deixes ouvir ninguém a compará-la com a Amália”. É uma falta de consideração para com as duas. Nem sempre o meu Santo me atende.
 
Assiste-se a um espectáculo desta mulher e, além de se receber muita coisa, ainda se percebe que anda por aí muita gente escondida com belas mãos de longos dedos. Tem de ser assim.
 
Não que seja actualmente  o caso da Mariza , para o nosso bem de sabermos que ela existe e de podermos aproveitar os frutos que nos dá. Graças a uma pequena editora holandesa. Gostaram dos cabelos dela e decidiram gravá-la para o mundo que ela, seguidamente, com toda a naturalidade, conquistou.  
 
Tudo isto depois de todas as editoras discográficas sérias em Portugal a terem mandado embora por a considerarem com má apresentação.
 
A Mariza tem tanta importância para o Governo português, como a bandeira nacional: Ou seja,  merece muito respeito e admiração. No entanto, concedo, se a bandeira portuguesa apresentasse um encarnado e um verde mais escuros, teria outra classe. A Mariza não se veste só de preto.
 
Na mesma linha, mas sem ter a ver directamente com o caso. O meu amigo António Victorino D'Almeida disse-me, certa vez, que:  "o Villa Lobos é um produto mediano. A música clássica brasileira é a Bossa Nova". E acrescentos em tom enlevado: "eles têm um talento espantoso. Em quase tudo, e fundamentalmente, para a música". Os brasileiros. É claro que estou de acordo.

 

O Concerto do Chico também foi superior. Um outro género, uma outra presença, uma outra demonstração de...genialidade (sobretudo, na enorme poesia pessoal  que o Chico canta, cantada por ele muito bem, numa voz mais ou menos boa).
 
E estava tudo a correr muito bem. Eis quando, senão, o senhor, já no fim,  se lembra de introduzir esta musica aqui: "Foi bonita a festa, pá Fiquei contente Ainda guardo renitente um velho cravo para mim Já murcharam tua festa, pá Mas certamente Esqueceram ...". Isto, sem ninguém lhe pedir, foi ele que fez, há muito tempo sobre nós. Sobre Portugal. E fez muito bem.
 
Sucede que, precisamente, na introdução, antes de começar propriamente a cantar, ele disse que se tratava de algo que nunca cantava no Brasil (os brasileiros não apreciam), mas que achava muito propositado cantar aqui na "terrinha". E fiquei com o espectáculo estragado.  Para quem não sabe, a "terrinha" lá significa o mesmo que cá: a província, a sitio atrasado, a terra dos parolos. O Chico percebeu a gaffe cometida em pleno Coliseu dos recreios em Lisboa. Não em Valpaços, Trás os Montes, por exemplo, ou no Sergipe, algures no Brasil real, por outro exemplo.
 
Mas, na fracção de segundo seguinte, fez como os 5 mil portugueses que estavam no Coliseu. Ou seja, fingiu que não aconteceu nada. Os ritmos arrancaram de imediato, ele elevou a voz e o público rendeu-se num aplauso corrido à velocidade dos tempos musicais. E era só sorrisos. E uma grande alegria. Tudo muito contagiante.
 
Se afirmasse aqui que Portugal é um país com baixa auto-estima, estaria a precipitar-me escandalosamente? Certamente. Onde estão os dados? Os conteúdos dos estudos científicos que o comprovem? Onde foram deixadas as citações dos autores respeitados? Não sei se existe algum estudo sobre o assunto. Quanto aos autores, não me lembro assim de ninguém. Bom, mas eu sou preguiçosa e, por isso, desinformada, distraída, indolente, pequena e ridícula. Embora não seja baixa. De estatura baixa, quero dizer. Eu não sou baixa.
 
Se fossemos um povo com sentido da dignidade e se conhecêssemos o valor básico da união, teríamos deixado o Coliseu em silêncio. Nem um bater de palmas, durante a música. Nem um aplauso, no fim. O Chico haveria de ouvir um minuto de silêncio em sua própria homenagem, O voo da mosca que lhe iria pousar em cima, havia de se ouvir em todos os cantos do Coliseu. Para mim, o Chico nunca mais! Mas, como é só para mim, não há problema. Ele foi tão aplaudido, que eu temi a possibilidade de não conseguir chegar a casa antes de amanhecer. Os encores foram para aí uns 4, com meia hora de palmas a intervalar.
 
Fica a frase publicitária que, talvez, não por acaso, se nos colou aos tímpanos para sempre: se eu não gostar de mim, quem gostará ? Sabonete Ponds para lavar a cara.
 

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