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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O QUE PERDEMOS.


Cat2007

29.05.07

 

Tenho tantas coisas! Os meninos (entendam-se incluídas as meninas, evidentemente) querem sempre ter muitas coisas. Quando eu era pequenina, queria ter muitas coisas.

 

Mas isso foi só a partir de uma certa idade. A partir do momento em que entrei na adolescência da infância. Enquanto fui muito pequenina, naquela fase da infância da infância, não me preocupava  nada com palavras que contêm sentidos específicos como: quantidade, moderno, apelativo, tecnologicamente perfeito, dinâmico, dinheiro; ou com frases consolidadamente intencionais de certa espécie, tais como: eu tenho e tu não tens, o meu é melhor que o teu, tenho um problema grave, preciso de dinheiro, vou ligar para a Cofidis.

 

São exemplos de coisas com as quais não me preocupava. Apenas alguns. De facto, tenho a certeza que não me preocupava com nada... ou, eventualmente, a fome e o sono me perturbassem. Mas isso não era uma preocupação minha. Era um problema dos meus pais porque eram (ainda são) pais.

 

Sobre o legitimo questionar acerca da questão da memória infantil, ou seja, sobre a vontade de saber porque processos pode uma adulta lembrar-se dos seus desejos por coisas, durante o período da infância da sua infância, é de esclarecer que tais coisas não são passíveis de ser lembradas. Não me lembro, portanto. Mas sei.

 

Desde o Manel e do Miguel que sei. Desde que soube da história deles. O Manel e o Miguel são dois meninos que não são reais, segundo o conceito comum de vida. Fazem parte deste conto. Aqui vivem.

 

Revelo a minha imodéstia verdadeira e afirmo que sei escrever ficções. Era uma vez...

 

Uma mulher chamada Tereza que desejava ter filhos. Não se pode dizer que dentro de si vivia um desejo maior do que o desejo de outrém. Porém, também não era menor. Era um  desejo são, sereno, equilibrado, que foi crescendo de acordo com o seu próprio processo de maturação pessoal. Numa palavra, era um desejo Natural. 

 

Por causa das razões da vida, o seu desejo, embora sempre latente, foi sendo contornado, abafado, secundarizado ou esquecido. Teresa tinha os seus motivos. Estes motivos interessam para esta estória. Mas não posso contá-los. Teresa está viva dentro deste conto. Poderia não gostar. É muito importante respeitarmos esta mulher que desejava ter filhos.

 

Seja como for, certo dia, uma energia extraordinária veio trazida pelo o vento morno de uma tarde e transformou o desejo em sonho e o sonho em realidade. Tereza recebeu o Manel e o Miguel. Sem dores de parto,  mas com muitas complicações, anteriores e posteriores.

 

Confusa ainda hoje, Tereza suspeita  que foi por magia que tudo isto aconteceu.

 

Quando eles ainda estavam dentro da barriga, e já depois de lhes ter escolhido os nomes, Tereza esteve a pontos de os deixar. O fluxo mágico que lhe os anunciava, também lhe dava o sinal contrário. Tereza ia ser mãe, mas talvez nunca o chegasse a ser. Esta linguagem das fadas, de conteúdo contraditório emocionalmente violento, agitava-a. Agitava-a tanto, que ela não se conseguia mexer. Inerte pela força da esperança, Tereza deixou-se ficar à espera do melhor que, sabia bem, não viria a absorver.

 

Quando nasceram, eram como dois pequenos pintos amarelos diferentes um do outro. Todos os pintainhos parecem iguais. Mas isso não é verdade. Cada um nasce do seu ovo. Logo por aí começam a ser diferentes. Porém, não importa o ovo em si. Mesmo que não houvesse outro e que  todos os pintainhos do mundo tivessem que nascer do mesmo, mesmo assim, cada um seria diferente dos demais. Porquê? Ora, por razões de integridade fisica e emocional que as fadas inventaram para se aplicarem na Natureza. É apenas por isto. Não há mistério.

 

O Manel e o Miguel nasceram no mesmo dia, o primeiro um minuto depois do segundo. Têm portanto, a mesma idade. Mas o Manel é mais alto e mais forte.

 

 Tereza pensa que sim. Que é assim, pois, a partir de dada altura, nuncas mais os viu. Despediu-se deles aos abraços  numa tarde de Inverno com sol no jardim. Até ao dia deste dia, o Manel era fisicamente mais forte e desenvolto, embora, talvez, já não fosse mais alto.

 

A mãe encontrou os filhos na rua por acaso. Estavam a passear com as senhoras que tomavam conta deles. Nem dois anos tinham. Como o encontro foi por acaso, abraçaram-se os três cheios de alegria hipermetrofica. Tereza acabou por se despedir deles com beijos esmagados nas bochechas e foi para casa. Os bebés ainda ficaram, com as senhoras que tomavam conta deles, a brincar mais um bocadinho no jardim.

 

O que aconteceu entre um momento e outro é muito importante. É quase tudo o que Tereza tem para lembrar. Foi meia hora de vida de que restam sons e imagens impressivos de um tipo de dor comovente. Este espaço de tempo na vida é mais importante do que todos os outros que ficaram para trás. Apenas pela estúpida razão de ter sido o último. Realmente, as coisas que definem e rematam situações, as situações finais das situações nas vidas, têm mais potencial de serem lembradas do que quaisquer outras. Tereza sente assim.

 

Depois dos sorrisos humidos, esmagados e cheios de odores, o Manel decidiu correr com toda a energia que tinha. O mais rápido que podia. Foi o que fez. Correu por onde quis com a carteza absoluta de que Tereza viria também. Não para o impedir. Nunca. Não para o ajudar. Não seria, de certeza, preciso.  A mãe confiava nas capacidades dele. Ela vinha para o apoiar ou ensinar. Era assim desde que nascera. Ela sempre lhe dissera a sorrir que ele era um bebé "todo fabuloso!". E o Manel acreditava muito no que a mãe lhe dizia. É que, alémde tudo, ela nunca lhe mentiu, provando, em cada acto, tudo o que lhe dizia. Por isso o Manel era um menino corajoso.

 

Certa vez, ele subiu para cima de um móvel com quase o dobro da sua altura. Fê-lo sózinho, num daqueles momentos imprevisíveis para qualquer amor atento. Quando Tereza o viu, em pé, triunfante, cheio de confiança, em perigo de vida, ficou sem coração prestável. Ele olhou-a a sorrir, esperando pela habitual aprovação. Era um acto de superação, afinal! Ela, apesar do medo dorido, sorriu, superando-se também. Deu-lhe os parabéns por ser tão capaz e beijou-o. O Manel não sabia descer do móvel. Só era capaz de subir, por isso ficou ali à espera que a mãe viesse para o ensinar a descer. Assim aconteceu. 

 

No último encontro, corria pelo jardim em direcção a um muro, que desejava descer, para depois subir uma escada próxima, com cerca de 10 degraus. Ainda não tinha dois anos, nem falava. Fizeram tudo isso juntos.

 

A partir da primeira tentativa, ele cresceu ainda mais e lancou-se nas seguintes. De cada vez mais seguro, de cada vez mais confiante. Com a força, os passos e o equilíbrio de cada vez mais sólidos.

 

Ouviu-se, então,  ao longe, o gemido do Miguel. Num relançe, Tereza compreendeu-o e foi buscá-lo. Tinham que fazer os dois (mãe e filho) aquele exercíco também. O Miguel não se estimulava muito com a actividade fisica em si mesma. Não via nela as mesmas potencialidades de superação pessoal que o irmão, com naturalidade, explorava.. Por isso não os acompanhara inicialmente naquela corrida desenfreada e naquele jogo diferente.

 

O Miguel precisava muito de observar. De compreender. Demorava o seu tempo a tomar decisões. Chamou Tereza apenas no instante em que viu o significado correcto de tudo aquilo. Correu desajeitadamente, desceu trémulo o muro e subiu as escadas com fraqueza muscular. Fez o percurso algumas vezes. E cedo ficou cansado. A partilha e a superação estavam concluídas. Bastava-lhe isso porque era disso que necessitva.

 

Desde muito cedo, quase desde o dia em que vieram da maternidade, que costumavam dançar os três. A mãe colocava-os, um de cada vez, colados à barriga e ao peito, dentro de um daqueles coletes marsupiais, e punha música a tocar. Ouviram muitas vezes a Mariza, olhos nos olhos, e a sorrir devagarinho. Eles adormeciam

 

Segundo a opinião generalizada não expressa, o Miguel não era muito bonito. Era totalmente careca, tinha um narizinho grande para bebé e uma orelhas como pequenas couves. Pensava-se que não era tão bonito como o Manel. Generalizadamente, davam-lhe menos atenção. Também ajudava à sua generalizada quase-ostracização o facto de ele chorar menos e gostar mais de observar os objectos. Gostava de os ter nas mãzinhas seguras, que os revolviam concentradamente.

 

Por tudo, isto Tereza começou a pegar-lhe ao colo e a cantar-lhe baixinho ao ouvido, para os outros não ouvirem muito bem, aquela música: "it´s not easy being green" e começou a chamar-lhe ternamente "sapinho". 

 

O Miguel tem um cabelo liso muito brilhante cor de avelã, uns olhos belos e por motivos totalmente desconhecidos, presos a um sentido lógico ainda não descoberto,  sabe fazer pose de "galã". Dorme muito bem. Deita-se cedo e acorda cedo. Ele a mãe andavam a tentar conhecer-se através dos actos de amor de todos os dias. Ambos têm muito em comum a sinceridade nos afectos e um mau feitio intermitente. Para além da cor dos cabelos.

 

O Manel tem uns olhos quase asiáticos e o cabelo escurissimo ondulado. Gosta de adormecer tarde e de ficar na cama de manhã. Pensa-se que poderá vir a ser um notívago. Durante o sono agita-se tanto, que muda de posição inumeras vezes. É muito sensível às impressões que o colhem diariamente. Costuma acordar com a cabeça virada para os pés da cama. Em tudo isto é igual a Tereza. Entre ambos sempre existiu uma comunicação silenciosa muito eficaz e, portanto, um entendimento profundo.

 

Beber do copo de Tereza era das  coisas que os bebés mais gostavam de fazer. Ela ensinou-os a gostar de chocolate. A mãe recorda-os permanentemente em duas imagens:

 

O Miguel, à porta do quarto, com a sua pose de "galã" adulto de um ano e meio, em cueiros, pernitas magras, de belos olhos ligeiramente encobertos pelas enormes pestanas, sorriso tímido, cabelo de avelã comprido, caído sobre a testa, pronto a correr-lhe inesperadamente para os braços.

 

O Manel, naquele dia no jardim, de olhos postos ao longe, atravessado por um raio de sol que nasceu certamente apenas para o envolver naquele momento em que suspirou profundamente de felicidade e disse para Tereza: "mamã!"

 

Tamém costuma ouvir muitas vezes uns gritinhos contentes de ansiedade,que apontam com as pontas dos dedinhos indicadores: "Naná! Naná!".  Porque os seus meninos ainda não sabiam falar, Tereza disse-lhe que era assim que ele se chamava: ao Nodi

 

Tereza partiu.

 

Levou-os dentro do peito. Julga que para sempre. Não os verá jamais porque, desde o primeiro momento, viu que lhos queriam tirar num acto em tudo semelhante ao "assalto por esticão". Magou-se profundamente e, por isso, deixando-se despojar,  foi para um canto, de onde só saia de vez em quando. Não lutou. Perdeu.

 

Tereza chora. E continuará.    

  

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