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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CORREIO SENTIMENTAL


Cat2007

13.08.09

 

 

Quando era miúda, apareciam lá em casa alguns exemplares da revista "Maria". Sei muito bem que era a mãe quem levava aquilo. Apenas não sei porquê. Não bate com o perfil dela. Simplesmente. Acresce que me descansa muito a certeza de quea mãe não era uma leitora assídua. Nem leitora, sequer. Nunca a vi a ler aquilo. O que também não deixa de ser estranho. De qualquer forma, quase posso jurar que a mãe nunca comprou nenhuma "Maria". Já eu, no turbilhão dos meus 10 anos de idade, poderia comprar todas, assim me dessem dinheiro para isso. Realmente, a mãe não lia, enquanto eu... eu devorava.

 

E fiz muito bem. Aprendi logo uma série de coisas que não queria na vida. Ganhei uma noção mais apurada do ridículo. Percebi que as coisas que não têm importância nenhuma são absolutamente cruciais para a vida da maior parte das pessoas. A "Maria" dirigia-se ao público feminino, todavia era uma revista sobre homens. Não há qualquer tipo de contra-senso nesta afirmação, pelo que me escuso de estar para aqui a justificar-me.

 

A minha secção favorita era "O Diário de Maria". Portanto, o consultório sentimental. Já ouvi dizer que não existem leitoras consulentes, que é tudo inventado nas redacções. Mas não vou acreditar nisso. Não quero perder as minhas ilusões de infância. E porque é que eu lia esta secção tão atentamente? Em primeiro lugar, por curiosidade infantil, claro. Afinal, directa ou indirectamente, sempre se falava ali de sexo. Mas o que mais me agradava era bisbilhotar os dramas das pessoas. Os amores e as paixões, as conquistas, as rejeições, enfim o sexo ou a auto-estima (estão intimamente ligados, como se sabe),  são os maiores dramas da vida das pessoas, se não andam a passar fome ou têm de dormir ao relento.

 

Com a idade que tinha nada disso me perturbava e, portanto, sentia-me imensamente superior. Por não ficar perturbada. Por ser imune. Podia ter desconfiado logo aí que tinha problemas no amor próprio. Mas não dei realmente por isso. Só mais tarde. Quando as paixões dramatizaram completamente a minha existência. Quanto mais baixa é a auto-estima, maior é a importância da paixão.

 

De qualquer modo, o que me fascinava era mesmo a falta de vergonha na cara das pessoas. O que poderia levar alguém a escrever para uma revista a fim de saber o que fazer no âmbito da sua relação amorosa. Algo que, por definição, é totalmente pessoal e privado. Como é possível imaginar que alguém de fora pode dizer umas palavrinhas mágicas e resolver os problemas que os de dentro não conseguem?

 

Da revista "Maria" para a vida, eu acho o fim do mundo aquela coisa de "discutir a relação". O fim do mundo. Desabafar com os amigos. Desabafar? Se as pessoas vão desabafar é porque estão abafadas. Se estão abafadas que peçam a quem abafa o favor de não continuar a abafar. E se o abafador tiver bom senso, desabafa. É simples.

 

Quando uma relação deixa de ser afectada pelo bom senso, pela boa fé, pelo bem querer e pelo crer deixa de existir. Poder até ressuscitar. Mas no momento em que tal acontece está simplesmente catatónica. E ponto. Não há amigo, técnico, consultor sentimental que resolva o problema. Ir falar para a rua é meter tudo na praça pública. É de uma falta de nível inacreditável. Pior, é mesmo falta de respeito pelo outro, ou sendo o caso, mútuo. Quando as pessoas fazem estas coisas já não querem nada. O que querem é que os conselheiros lhes façam companhia na desgraça que já está feita. Quem fala assim não quer resolver nada. Quer é arranjar aliados. Gente para dar o perdão, a compreensão e a companhia. Mutas vezes, também se consegue que esta gente dê também sexo.

 

Pois os conselheiros do sexo. São pessoas que querem fazer sexo com os aconselhados. ou porque querem aquela pessoa especificamente ou queriam outra que não podem comer. Se não é isto, então é pura bisbilhotice ou o gozo supremo de "ajudar" numa matéria onde têm tudo para aprender. Os maiores intrometidos, os ouvintes da boa vontade são os piores frustrados emocionais do mundo. Uma pessoa como deve ser não opina sobre o que não sabe, nem pode saber. Uma pessoa de bem não se mete no quarto de dormir dos outros. Se é procurada para essas fainas, dispensa-se com toda a delicadeza, mostrando a humildade de quem não sabe o que não pode saber. Ninguém normal da moral se deixa usar ou usa para justificar o fim de uma relação que não é a sua.

 

Um amigo atura-nos no fim das coisas. Dá o ombro para chorarmos e procura soluções para o caso. No fim. Depois do fim. Um amigo está para as aflições. Não anda cheio de boa vontade a aprofundar problemas impulsionando rupturas.

 

Para finalizar, falemos das pessoas de boa fé que são procuradas para dar a sua opinião. O seu apoio. Porque não podem elas fazer isso? Porque há coisas na vida de duas pessoas que só elas é que sabem. Questões tão intimas, que são intransmissíveis. Sem estes dados, não é possível ajudar. E estes dados são como disse, por definição intransmissíveis. Quem quiser ajudar uma relação a melhorar, deve abster-se de dar consultas e deve ainda, por uma questão de imperativo moral, sentir-se deprimido por ser procurado para opinar.Eu vejo bem estas coisas. Sempre vi. Graças ao "Diário de Maria". Quando alguém me aborda para desabafar sobre os problemas da relação, eu percebo que a dita está no fim ou perto disso. Sobretudo, compreendo que a pessoa que está à minha frente já não está com a fé toda. Que me quer usar. E fico triste. E digo. Vai para casa. Não posso fazer nada por ti. Toma lá as tuas decisões, boas ou más e aguenta ou goza as consequências. Consequências. Estas não vão nunca sobre os ditos aconselhadores. Só sobre os casais. E as paixões, os amores, os sentimentos, são fodidos.

 

 

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