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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

O ESPELHO


Cat2007

21.05.10

 

 

 

 

 

 

Estou aqui com os dedos apontados e com um mau pressentimento. Pressinto que vou escrever uma montanha de disparates.  A ideia central é o distanciamento do individuo em relação a si próprio. Talvez a desfocagem. Não. Uma e outra coisa não são nada a mesma coisa. São, aliás, opostos. O distanciamento faz ver melhor. A aproximação que nos deixa muito próximos pode distorcer a nossa visão. Meter a cara em cima do livro. Afastar a cara do livro. Não conseguir ler. Ler muito bem, ainda que seja de óculos. Tenho impressão que li muitos livros com  a cara lá colada.

 

Portanto, o que quero é falar de desfocagem, e não de distanciamento. Isso é que era bom. O distanciamento. O puro. Se existisse. Via-se tudo tão bem. No caso, não era o livro que eu queria ver. Estava a pensar num espelho. Uma pessoa coloca-se em frente a um espelho. Se não for um daqueles espelhos da feira popular, cuja finalidade ninguém entende porque não faz sentido, dois passos para trás em frente ao espelho é o ideal. Estou a pensar naqueles espelhos que apanham o corpo inteiro.  Dois passos para a frente. E estamos colados ao vidro. Dois passos para trás e vemos tudo muito bem. A universalidade do nosso ser físico. E ainda podemos captar o interior em alguns sinais. Talvez no olhar. Se não estivermos a mentir. A fazer pose. Dois passos para a frente. Nem os olhos se vêm de jeito. Creio. Vou ali experimentar. Já venho. Voltei. Vi uma espécie de sombra a cores. E pouco mais.

 

É muito complicado tudo isto. Disse que ia falar da desfocagem. Afinal, são sombras coloridas. Além de que, mesmo dois passos atrás em frente ao espelho podem não reflectir uma imagem real. Ocorreu-me isto agora. Basta estarmos a mentir. Calados. Em pose. Tudo em nós que é físico pode ser posado. Um caso de distanciamento em sentido impróprio. Impuro. É um facto que nos dificulta muito mais a vida do que se pensa. Aliás, pensa-se o contrário. Penso eu.  Mas a questão aqui é a mentira mais funda. As mentiras que contamos ao outro. Ao que não está em pose. A nós, portanto. As mentiras para o mundo são meras incorrecções neste plano em que me encontro a falar. É inacreditável como somos capazes de nos fazer poses. E nem é preciso estar a olhar para espelho nenhum. Há espiritos que estão permanentemente em pose. Querem auto-impressionar-se. Querem fingir que isso é possivel. São espiritos pesados. Tão pesados que causam dores no corpo. Nas articulações, Nos musculos. Na cabeça. Morfina. È preciso morfina. Para as dores. E vem o vicio. De estar em pose. Viver a posar. A pose adquire-se pela picada da agulha da seringa com "Botox" que faz pose à cara. Mas aqui não é a cara. Nem "Botox". Nem morfina. Embora a morfina pudesse ter muita utilidade. Para aliviar. A substância desconhece-se. Mas vicia. E pode levar à morte. Como a morfina, mas num processo mais complexo. Quanto mais complexos são os processos de dor, piores são. A morfina está, pois, na infância da arte do alívio. O "Botox", o "Botox" realmente nem é para aqui chamado. Só se for para aligeirar esta ruga que me esta a surgir na testa por causa de tudo isto que digo. Porém, dispenso. Gosto de rugas na testa. Masoquismo? Ora, talvez não.

 

Compreendo que não seja agradável ver coisas desagradáveis. Posar o agradável para esconder o desagradável. Compreendo este vício. Sou decadentemente compreensiva. Mas, ainda assim, não entendo porque dói olhar para coisas bonitas e de qualidade. Posar o desagradável, para não ver o agradável. Isto é, antes de mais nada, triste. Confuso também. Aparentemente incompreensível. Menti. Não compreendo o quê, se eu só compreendo?

 

Dois passos atrás em frente ao espelho. Ver. Não há pose. Ver o que há. Bonito. Forte. Feio. Frágil. Genial. Obtuso. Cobarde. Preguiçoso. Atraente. Fraco. Necessitado... Ver, e pronto!

 

Necessitado é a palavra que eu escolho. Não é necessidade. É necessitado. Um atributo do espírito, e não do corpo, neste caso. Havia outros. Mas escolhi este. E vou tornar um espírito necessitado num corpo necessitado. Digo que nenhum corpo assim tem olhos. Só nariz e boca. O fluxo é de fora para dentro. Tem de ser. O corpo sem olhos que não é cego não vê ninguém. Pode-se não ser cego sem ter olhos. Há uns animais assim. Não me lembro quais. Talvez os morcegos. Não estou bem certa. Mas o que importa aqui não é quem não se vê, se não for o próprio. O corpo sem olhos não se reconhece. E também não reconhece o seu próprio espírito. A forma da energia da alma que o molda por dentro. O espírito não tem sinais do corpo, igualmente, e por seu lado. O corpo não vê o espírito. Dentro destas circunstâncias, o corpo bonito e algumas extraordinárias qualidades do espírito não valem nada.  

 

Resumir tudo o que disse na palavra egoísmo é de uma estupidez revoltante. Falei do caso de alguém que tem de ser pai e mãe de si próprio. Amar incondicionalmente o seu ser para fazer nascer o ser com vida que preste dentro de si. Para no fim aparecer alguém. A visão pessoal correcta. A paz. A felicidade. Numa palavra que devia vir antes, a aceitação. O espírito e corpo que forem capazes de fazer isto juntos pertencem a uma alma incomum. Daquelas que o mundo precisa. Por isso, melhor do que muitas e muitas outras. Todos somos bons e maus. Mas uns melhores do que outros.

 

Disse uns melhores do que os outros. Mas note-se que isso nem sequer é importante. A competição. Com o elemento exterior. A universal definição de bem é incontestavelmente pessoal.

 

 

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