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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL IV - O ULTIMO EXCERTO


Cat2007

09.07.10

 

   

 

Levou a mão à boca. Tapou-a, apoiando a base do nariz entre o indicador e o polegar.Voltou a respirar fundo. Expeliu o dióxido de carbono sobre as costas da mão. Desta vez, era para dar sinal a Clara de que podia falar. Esperou, pois, por uma reacção. Talvez para se orientar. Mas Clara não disse nada.

 

Joana: Apenas, não sei se o farei. O que está a acontecer entre nós é muito forte. Forte demais. É uma coisa muito violenta. Eu, simplesmente, fico sem capacidade de raciocinar. A impressão que tenho é que me deram uma droga meio alucinogénica para tomar. Parece que estou com uma “pedrada” monumental. Como posso eu tomar decisões num estado destes? Tenho medo. Não sei onde isto nos vai levar. Pode parecer muito e não ser nada. Apenas uma alucinação. Uma viajem que levará tanto tempo a passar como o efeito de uma droga. Não sei.

 

Agora tremia um pouco das mãos. Ouviu-se e calou-se. Temeu imediatamente pelo que estava a dizer. Pelas consequências. Por isso desejou uma reacção imediata. Não queria tempo para pensar. Mas Clara emudecera. Apenas a fitava. Assim, Joana acabou por concluir que, afinal, não houve reacção porque não haveriam quaisquer consequências. O que dizia tinha razão de ser. Era verdadeiro. E muito sentido. Estava a ser totalmente honesta. E queria partilhar com ela os seus receios. Estava a fazer tudo muito bem. Já não tremia.

 

Joana: Por outro lado, isto colide frontal e globalmente com a educação que me deram. Acho que com a educação de qualquer pessoa. Desejar uma mulher. Santo Deus!  Ninguém me avisou disto. Sobretudo, não fui preparada para uma coisa destas. Não sei como agir. E isto faz de mim o quê? Que género de pessoa nova sou eu?. Sou gay? Lésbica? Não sei se quero ter esse tipo de vida.

 

Clara levantou-se e virou-lhe as costas. Ficou imóvel por alguns intantes. Não fez mais do que o suficiente para deixar Joana em silêncio. Depois voltou a ela calmamente. E começou.

 

Clara: De todo o teu discurso há uma coisa que sobressai. Falas como se isto só te estivesse a acontecer a ti. Parece que estás aqui, dentro desta sala, sozinha. O que me choca.

 

Declarou-se, então, num sorriso cheio de condescendências.

 

Clara: É verdade. Tu és uma mulher e eu desejo-te tanto! Devias saber que, em nenhum caso, um desejo do tamanho deste surge a pedido da razão. Não devias desconhecer que tratamos aqui de coisas que nos ultrapassam a vontade. E, no entanto, agora que já matei um pouco da minha sede em ti, percebo que é uma imposição feliz. Curiosamente, aquilo de que tens medo é, precisamente, o que mais segurança me dá. A quase-loucura. A tua “pedrada”. Tu não vês que nada há a decidir? Nada há para pensar, Joana. Já foi tudo tratado antes de nós sermos chamadas. O que sentimos, percebes? Agora, só te resta decidir o que fazer. E as opções são apenas duas. Ou vives o que sentes. Ou foges. E morres devagar. Se virares as costas, a Joana que tu és desparecerá ao mesmo tempo que eu for desaparecendo da tua vida.

 

Perdera a calma. Falava com ardor. Apaixonadamente. Abria os gestos para oferecer o peito. Cerrava os punhos para se fazer ouvir melhor. Os olhos estavam humidos de fervor.

 

Clara: Mas tu tens dúvidas! Duvidas porque o que sentes “é forte demais”. Não é assim que dizes? Olha, já pensaste se não é fruto de algum desiquilibrio teu? Era bom que fosse. Assim poderias tentar tratar. É por isso que não sabes se vais acabar com o André. Aliás o André é um grande amigo. Não se importará, certamente, de ser usado. Tu és uma mulher profundamente desonesta!

 

Estava na hora da saída da aula a que não foram. 

 

Joana: Eu não te admito que me fales assim!

Clara: Admites, sim senhora. Os teus actos admitem por ti. Não há nada pior do que a falta de coragem e a mentira. Não há nada pior! Eu fui educada assim. Com estes valores. Pela minha mãe. Só por ela. A pessoa mais honesta e corajosa que eu conheço. Foi ela quem me ensinou. Eu teria vergonha de dizer o que tu dizes. Portanto, faz assim, não tenhas dúvidas. Telefona ao André. Dá beijinhos meus lá na Foz. E deixa-me em paz!

 

Cada palavra fora perfeitamente pronunciada. Num discurso impregnado de uma certa amargura altiva. Rodou rápidamente nos calcanhares e afastou-se com passos largos. Joana foi atrás. Conseguiu ultrapassá-la e estacar à frente dela.

 

Joana: Desculpa. Desculpa, mas eu não sou nenhuma desonesta. Nenhuma mentirosa. Talvez não seja tão corajosa como tu. Isso não sou de certeza. De resto eu não fui educada por nenhuma super mulher. Cresci com o meu pai e a minha mãe e as minhas irmãs. Foram os meus pais que me educaram. São duas pessoas normais. Apesar disso, dois seres humanos de excelente qualidade, posso garantir.

 

Clara: Ouve, eu não te posso desculpar um facto de que não és culpada. A baixa qualidade dos teus sentimentos.

 

Era hora da entrada.

 

Joana: Por favor! Estás a ser injusta. Eu também odeio a mentira. Odeio. Nunca viveria na mentira. Tu estás a desvalorizar os meus sentimentos apenas porque eu não tive capacidade de perceber a importância deles numa hora. Nós só sabemos disto há uma hora! Estás a pedir demais, Clara!

Clara: Não vale a pena. Deixa-me passar!

Joana: Não te vás embora. Por favor!

 

Clara não se sentia. Nem, sequer, as lágrimas que lhe principiaram a inundar o rosto rigido rolavam na dependência da sua vontade. Olhou para ela. O coração já explodira há alguns minutos. As lágrimas brotavam-lhe ainda copiosamente. Agora eram vermelhas. Manchavam-lhe a cara de sangue. Olhou-a de novo. Viu que também chorava. Sentiu pena dela e desprezo por si própria.

 

Clara: Joana, deixa-me passar!

Joana: Não!

Clara: Não faças isso.

Joana: Eu...

 

Clara baixou a cabeça. Não desejava continuar a compartilhar lágrimas com ela.

 

Joana: Eu amo-te.

Clara: O quê?

Joana: Eu até posso estar doida. Mas só se eu estiver doida é que isto não é verdade. Eu amo-te. Tenho a certeza.

 

Clara levantou os olhos molhados para os dela. Joana aproximou muito devagar a cabeça do seu peito. Encostou-a para ouvir-lhe as batidas cardíacas. Assim, Joana precebeu que o coração de Clara falava. Ajeitou-se para ouvir melhor. Decifrou milhares de mensagens sobre coisas de que nunca ouvira falar. Os olhos pesavam-lhe. Por isso os fechou.

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