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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

EMOÇÕES REESCRITAS


Cat2007

31.10.10

 

 

Vou tentar escrever uma coisa difícil. Vou tentar contar uma estória verdadeira, que pode não ser. Começo já assim para lançar a confusão. Tenho este feitio. Bem, mas dizia que é difícil porque eu não sei se é uma história minha ou de outra pessoa. Lá está o meu mau feitio. E mais, nem sequer sei se é mesmo uma estória real. Pode ser tudo inventado. Pois claro, a imaginação. Sim... Está bem.

 

Então, a estória que se segue pode ser verdadeira ou não. E pode ser minha ou de outrem. Acabei de fazer uma síntese que nem sequer da estória é. Nem sei o que dizer sobre isto. Talvez seja melhor continuar... a ser complicativa.

 

Para complicar, acresce que não sei como contar o que quero contar nos moldes em que o desejo fazer. Não quero dar nomes, datas e locais. É que se isto for tudo verdade, não me posso comprometer. Se for tudo ficção, não quero mentir e mentir. Dá muito trabalho mentir. Porém, a ser verdade, quero dizer sem cronologias expressas, sem rostos concretos, sem exactidões fisico-materiais. O caminho será contar pela indicação e respectiva descrição de emoções. Das minhas emoções face à estória. 

 

Era uma vez...

 

Alguém que me disse eu amo-te. Pela segunda vez na minha vida estavam a dizer-me uma coisa destas com intenções de definitividade. E a primeira declaração análoga ainda me ecoava nos ouvidos até à surdez.

 

 

Antes de prosseguir, devo confessar que, de todas as vezes que interagi, e com todas as pessoas da interacção, eu disse amo-te. E, como é evidente, não fiz  trocas sistemáticas apenas duas vezes na vida. Mas disse. Porque não dizer, se era mesmo isso que sentia? Amor. Sentia, sim. Mas com que espírito? Falta de presença de espírito? Espírito romântico? Libertinagem cabotina? Complexo de Bela Adormecida? Vasco da Gama? A curiosidade matou o gato? Estou tão tonta que nem consigo pensar?O casamento de Carlos e Diana? A princesa Estefânia do Mónaco na sua época áurea? Os trapezistas do Circo Chen? Não sei. Sei que sentia. Vontade de dizer para aproveitar os feitos e os efeitos da coisa. 

 

E, no entanto, em verdade confesso, a consciência do efémero nunca se me perdeu. É que, antes de mais nada,  eu já tinha  lido o Livro do Desassossego de Bernardo Soares do Fernando Pessoa. Como esquecer que "não é possível comer-se um bolo sem ao mesmo tempo o perder"? Isto é uma simplicidade tão impressionante que se torna inesquecível. Igualzinho ao Cats do LLoyd Weber. Na simplicidade recta, quero dizer.

 

Sob o outro aspecto, o não imanente, o que mais em comum têm o Livro do Desassossego e o Cats é mesmo a perenidade destas obras criadas a propósito do efémero. Já para não falar do emprego do Bernardo Soares ao balcão da retrosaria, claro. Tão inconcebível e perdurável como aquela gata velha a cantar o Memories.

 

Pausa.

 

Ah, o Cats! Não posso continuar sem deixar um pequenino apontamento sobre o Cats. Não. Não vou falar do que toda a gente sabe. Vou dizer o que alguns ouviram da boca de uns tantos que foram a Londres e a Nova York, mas não viram o Cats. E de outros que não foram, mas que, se fossem, não veriam o Cats. Os mesmos que estiveram posteriormente no Coliseu a ver o Cats.  O A lógica deste ciclo é encontrada quando ouvimos esta gente a exprimir-se assim:" Fui ver o Cats. Estava à espera de um espectáculo extraordinário, e afinal aquilo não era nada de especial". Agora pergunto eu: é possível dizer uma saloiada maior do que esta? Não, não é possível.

 

Fim da pausa.

 

Apesar do Desassossego, das duas vezes em que me falaram de amor devotado para sempre, eu acreditei. E também achei que sim. Creio que uma pessoa gosta de ir na onda. Não compreendo porque não fazemos todos surf. Para sempre. O Amor, pois.

 

Da primeira vez era mais verdade do que a verdade do Vinicius de Moraes. Foi um amor mais eterno do que aquilo que durou. Até porque ainda existe, não ostentando qualquer aspecto de bolo de confeitaria francesa. A vida na memória da alma tem uma existência extremamente digna.

 

Pese embora, ao que consta, Jesus Cristo tenha afirmado que o passado e o futuro são meras irrealidades. O único momento temporal que é verdadeiro e existe materialmente é o presente. Duas conclusões. Nunca será inventada a máquina do tempo, por impossibilidade técnica permanente. Os AA e os NA estão certíssimos quando se auto impõem não beber ou não tomar drogas "só por hoje", respectivamente.

 

Da segunda vez era uma mentira das piores. Não há pior mentira do que aquela que é contada na convicção primária de que se está a dizer a mais pura das verdades. Há amores assim. Devotados para sempre. Atulhadinhos de problemas de identidade. Assim como quem se chama Pedro e afirma com todas as suas convicções que é Paulo. Amores que, em análises de primeiro nível, não sabem que não o são. Sentimentos pró-narcísicos. É o que são estes amores.

 

A pessoa que inventa o amor à força é principalmente um recipiente. Porque decide sobre o que precisa, projecta no outro e finalmente espera receber tudo. Todo o amor. Nem mais nem menos. É um recipiente, sublinho. Quem é o outro no meio deste processo? Quem era eu, se é de mim que estamos a falar? Não é importante. Tecnicamente, se era eu, podia ser qualquer uma.

 

Se houver alguma ponta de verdade nesta estória, tive um recipiente destes na minha vida. Um tupperware com sentimentos. Não faz sentido. Por isso, a impressão que dava é que estava sempre a transbordar de sopa feita anteontem. A tampa aguentava mal a pressão e caiam pelos lados pequenas porções de substâncias previamente levadas ao liquidificador. 

 

Portanto, fui confundida com um legume e passaram-me a varinha mágica. Fiquei pronta para sopa num instantinho. E num passo estava dentro de um bonito tupperware (admito, a beleza, quero dizer) e fomos viver para o interior do frigorífico.

 

Não sei se foi da tampa, mas não percebi logo onde estava metida. Enquanto isso, dizia o tupperware para a sopa: "eu amo-te muito e quero ficar contigo para o resto da vida". Isto é má fé! Qualquer caixa plástica de vão de escada sabe muito bem que as sopas, se não forem consumidas em tempo, azedam e têm de se deitar fora. What's the point em manter uma sopa para sempre enquanto dura dentro de um recipiente fechado no frigorífico? Ou, melhor, para quê fingir que se é uma caixa plástica, mesmo que seja de boa qualidade?

 

Bom, mas já não me é permitido continuar a recorrer às alegorias de Kitchnette (como raio se escreve isto? Será assim?). Não é possível continuar com a estória nestes termos. Não tenho talento para isso. Vou estragar tudo. Vou revelar o fim. O grupo final de emoções. O desfecho do novelão (de novela, não de novelo).

 

Foi-me dito que eu sou "um bluff muito bem montado, porém não incontornável". Não sei se esta construção é um original ou uma reprodução. O que sei é que fiquei a pensar no caso. Serei muito bem montada? Em que sentido? Acho que não percebo bem. Ser bem montada é, em princípio, uma coisa boa. Seja lá em que sentido for. Está lá dito: Bem. Bem é bom. Bom é bom. Bom é a forma masculina de boa. Logo, bom é boa. Então, obrigada pelo elogio. Smile!

 

Gosto de imaginar que sou uma boa égua de tourada. É fechar os olhos e pensar na beleza, no garbo, na elegância e, sobretudo, na nobreza e na coragem desta fêmea. Se os touros falassem, também diriam com irritação venenosa, depois de lhes ser aplicado um artístico par de banderillas: "esta égua, tão bem montada, é um bluff incontornável". OLÉ!

 

Espero que esta estória tenha sido contada de uma forma suficientemente confusa. A ver se não se percebeu por aqui muita coisa.

 

Muito obrigada!

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