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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

A FACA


Cat2007

06.01.11

 

- Querida, porque temos uma faca na varanda pendurada no estendal da roupa?

- É a minha faca de fazer tudo.

- Sim. Mas porque está pendurada por um arame ali?

- É por causa do cabo de madeira. Não seca tão depressa se for para o coiso dos talheres. E também não podia usar uma mola. Tive de improvisar, não é?

- Resolveste isso hoje. Tens a certeza que seca mais depressa no estendal?

- Sim.   

- Precisas dela. Cortas comida, rodas parafusos…

- Como bife sem garfo!

- Não. Usas o garfo para segurar o bife.

- Mas meto a carne à boca com a faca.

- Pois… Não achas que alguém pode achar bizarro… assim alguém que venha cá a casa e veja ali a faca pendurada?

- Estás à espera de alguém? Não estás. Nós nunca deixamos ninguém aparecer sem avisar.

- Pois não. Não é bom para a vida dos casais. Só quando os casais não têm vida nenhuma.

- Gosto dos nossos amigos. E da tua família. Gosto muito.

- E eu. Da tua. Dos nossos amigos. Gosto de ter vida própria. De não precisar de ninguém e ter gente de quem gosto convictamente. Faz-me bem estar com todos. E é fundamental estar só contigo.

- Se alguém vier cá a casa não vai estranhar ver a faca ali pendurada. Se nós não achamos, não é?

- Claro. A menos que seja algum canalizador de emergência.

- Como está o braço?

- Melhor. A infecção está a passar.

- Desculpa.

- Não faz mal. Nunca tinha acontecido antes.

- Devia ter lavado como deve ser.

- Não tem importância.

- Tem de ser sempre nos braços?

- Eu prefiro. Fica mais a jeito. Para os meus olhos. Gosto de ver as marcas que me deixas.

- Nunca mais conseguimos. Faço análises de 6 em 6 meses. Sempre negativo.

- Eu queria que ficasses viva. Creio que Deus também. A prova está nos resultados das análises. Tu cortas-me os braços e chupas-me o sangue todos os dias. Com a tua faca de fazer tudo. E não apanhas nada.

- Eu não tenho razões para estar viva depois de ti. Nunca pensei que fosse tão difícil.

- Talvez nunca venhas a ficar infectada. Há casos assim. Com o HIV.

- Eu sei. Mas gosto de beber o teu sangue. Depois, no momento certo, corto a jugular.

VAIDADE


Cat2007

06.01.11

 

 

 

 

É quase impossível ser maduro e criativo. A criatividade tem a ver com a irresponsabilidade. Com a fantasia. Com os pensamentos mágicos. Criar é não ver a forma como são as coisas. E fazer as coisas de uma forma diferente. Assim é fazer crescer o mundo da forma que interessa. A cada um de nós. E assim a todos.

 

Rir também é fundamental. Ridicularizar tudo o que é muito importante. Menos a vida, o amor, a compaixão, a fé e a solidariedade. De resto, troçar de tudo. É bom. Libertador. É fundamental. Afinal quem pensamos nós que somos?

 

Num certo sentido colectivo, precisamos de organização e das organizações. Como temos necessidade de oxigénio, num certo sentido individual. É por isso que é preciso desorganizar. Porque a  vida tem que valer a pena.

 

Tenho inveja daquelas pessoas que são capazes de se atirar do topo de um arranha-céus e voar, por exemplo. Bem sei que muito do que as move é o vício. A dependência da adrenalina. Mas, à parte disso, há a plenitude do significado do acto e o momento de vida intensamente vivido. Coisa que vale muito a pena.

 

Não tenho nada contra os organizados e previsíveis. Mas não me apaixonam sinceramente. Além de que me assusta o medo que eles têm da vertigem.

 

Todos os que querem parecer diferentes são absolutamente detestáveis. Só gente perfeitamente programada é que considera um acto de coragem  pintar o cabelo de azul e perfurar o abdómen com meia dúzia de piercings. As pessoas diferentes deixam-se trair nos detalhes, que deixam visíveis sem querer. Porque é tremendamente difícil ser diferente na era da uniformização.

 

A moda é um espartilho terrível. Estar na moda é, antes de mais, vestir uma farda. Não é diferente da obrigação que tem um porteiro de hotel ao cuidar dos seus comportamentos e da sua apresentação. Todas as pessoas estão na moda. Mesmo aquelas que só tentam. O desejo, a vontade é que é fundamental. Porque revela a atitude.

 

Todos os carros utilitários são apresentados em anúncios com uma grande pinta. Porque não têm pinta nenhuma. Todas as top model são sweet sixteen . Mas quando aparecem, parecem ter pelo menos dez anos a mais. O termo sweet sixteen não é uma invenção recente. Já nos anos cinquenta era muito usado. De qualquer modo, não há rapazes sweet sixteen . Esta expressão está para as raparigas, como a designação silly season está para os políticos  no Verão. São formas de dizer que estão na moda. Na verdade, as top model são tudo menos sweet sixteen, embora tenham esta idade. E isto é que importa. Pois é absolutamente deprimente.

 

A vaidade é uma característica ridícula que todos partilhamos. É diferente do orgulho positivo que advém de um feito que merece um sentimento de orgulho saudável. A vaidade nada tem a ver com superação. Só acontece com acontecimentos vãos. Em inglês vaidade diz-se vanity. Em português vanidade é o carácter do que é vão. Pois.

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