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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

ONLY FOR JENNIFER SAUNDERS LOVERS


Cat2007

22.01.11

Jennifer Saunders.

 

 

 

Acho que vou armar em parva. Dizer que quem não gosta desta mulher não a conhece ou vê todos os dias "Os Malucos do Riso". Péssimo em qualquer das frentes. Falta de cultura geral ou falta de sensibilidade. Pior, falta de inteligência. Mau gosto.

 

Pois exactamente. Estou para aqui a falar cheia de certezas. Admito que possa estar enganada. Com certeza. Mas também sei que a verdade é, em última análise, sempre individual. Portanto, só admito que estou errada se for julgada na arruada. Porque no cá entre nós nem pensar. É por tudo isto que comecei logo por dizer que acho que  vou armar em parva. E terminei o parágrafo com o mau gosto.

 

Creio firmemente que as pessoas de mau gosto são burras. Uma das características que melhor caracteriza uma pessoa burra é precisamente a falta de sentido de humor.

 

Então vamos ao que interessa. Jennifer Saunders. Only for lovers. Porque é capaz de ser das mulheres mais inteligentes que se conhece. Why? É preciso saber quem é e entender o que faz. Senão nada feito, darling (s). Fácil fácil não é. É só para pessoas inteligentes. Repito isto sem estar a armar em inteligente. Mas deixo a mensagem de um modo subliminar. Como é óbvio. Uma mulher inteligente, Saunders, não escreve e representa para gente de mau gosto. Para burros, portanto. Voltei atrás. Além de que voltei a repetir-me. It's not a big deal. Em qualquer caso, depois falo com o terapeuta.

 

Então regresso agora ao que interessa. Não vou dar a conhecer Jennifer Saunders. Isto é apenas uma manifestação de admiração sentida. E um agradecimento  por estar viva. E por ter nascido.

 

Jennifer Saunders evidencia um senso apuradíssimo na eleição das coisas que têm graça. Acrescenta muita graça às coisas que em princípio não têm graça nenhuma. E ainda sabe desdramatizar como ninguém as mais fundas manifestações da humanidade no seu lado pior. Faz tudo isto a escrever e a representar o que escreve.

  

Saunders diverte-se imenso a trabalhar demais. E não trabalha com incompetentes. Obviamente por isso fez as Abs com a Joanna Lumey. A JENNIFER SAUNDERS LOVER. Dúvidas? Ninguém representa assim aquilo que não compreende. Dúvidas desfeitas.

 

Jennifer Saunders parece um manifesto vivo contra a mediocridade e a tristeza.  É uma perfeita anormal neste mundo. So i'm a lover.

 

Veja quem estiver interessado. Não faço apelos nestes casos.

 

 

 

 

 

Outro. As Abs again.

 

 

 

 

ONLY FOR MAHLER LOVERS


Cat2007

22.01.11

Pois o título diz tudo. Não vale a pena abrir, se não é o caso de partilhar deste amor. Nunca abrir a porta a elementos potencialmente enervantes. Este é o meu lema. Mas não é o meu caso neste caso.

  

  

 

DITADURA


Cat2007

21.01.11

 

Sou contra a regra. Nunca contra-regra. Só vale a minha regra aqui. Na minha via. Portanto, sou contra a regra dos outros. Só acredito nas regras dos outros em que eu acredito. Essas são boas para mim. Sei muito bem que não se pode viver sem regras. Aceito. Mas tenho uma postura minimalista. E sempre que descubro um espaço desregrado, lá estou eu a colocar as minhas regras.

 

O meu desejo deve ser o poder. Só pode ser isso. O desejo de decidir. Deve ser o desejo do poder para evitar a subjugação. Como se o jogo fosse assim. Uns mandam e os outros obedecem. E isto não é verdade. Onde está o equilíbrio concedido pela filosofia democrática de vida? A democracia stinks.  Porque temos todos que andar na linha.

 

A ditadura é bem melhor. Mas só para quem dita. Se se dita alguma coisa, é muito bom. Discutir posicionamentos dá enormes dores de cabeça. Toda a gente quer afirmar aquilo que não lhe interessa verdadeiramente. Todos andam a ver se se integram em alguma coisa pequena e no contexto global. Como se apontassem armas ao chão e dessem sucessivos tiros nos pés. Admira-me como ainda se vendem sapatos.

 

Ditar é que é bom. Os professores da primária ditam imensos ditados. Lembro-me de desejar ditar os ditados que me ditavam. Sempre compreendi que era mais fácil. Até porque eu sou canhota. É mais difícil escrever depressa e bem quando se faz com a mão esquerda. É sufocante ser ditado. Principalmente na escola primária. Escrever depressa, bem e sem erros. Conseguia. Eu conseguia. Mas não gostava. O que eu queria era corrigir os ditados. Depois de os ditar. Está claro.

NATÁLIA DE ANDRADE DOC


Cat2007

17.01.11

  

natalia

 No jornal Público de 29 de Junho de 2010 foi feita uma espécie de biografia de Natália de Andrade(http://www.publico.pt/Sociedade/natalia-de-andrade-a-cantora-iludida-que-pensava-ser-diva_1444383?all=1).

 

Mas na verdade fiquei mesmo presa numa declaração da própria feita numa entrevista cujo excerto está publicado em http://nataliadeandrade.com.sapo.pt/entrevista/entrevista.html “Depois da minha mãe, eu sou a maior cantora lírica do mundo. Callas? Quais Callas, quais carapuça!”. Eis o segredo que fundamenta o fenómeno. A fórmula: paixão, crer e não querer saber. Creio.

  

Observe-se a "Quais Callas, quais carapuça!" a cantar a Habanera da Carmen de Bizet. É outro mundo dentro do mundo. Não o mundo de Natália, que é de um mundo claramente fora do mundo concebível.

 

 

 

 

Na verdade, a primeira vez que ouvi Natália foi numa discoteca. Uma discoteca com onda, segundo os conceitos gerais. A música estava tum-tum-tum/gbum-gbum-gbum/tum-tum-tum.

  

 

 

De repente o DJ muda tudo. Desliga as luzes. E mete alternativa a abrir: Natália de Andrade. Nem mais nem menos.

 

 

 

 

Tudo parado. Tudo a olhar em volta. E finalmente para cima. Quando as coisas nos ultrapassam tendemos a olhar para o ar à procura de uma explicação.

 

Fiquei a ver os ferros e os cabos e as lâmpadas do tecto. Enquanto a voz me penetrava o cérebro receptivo graças à vodka. As primeiras apresentações resultam sempre melhor sobre pessoas relaxadas. O álcool é um excelente relaxante.

 

Como sabemos, as perguntas que dirigimos para o céu raramente têm resposta. Porque a maior parte das soluções possíveis estão no ponto da sua origem. Na terra e em nós.

 

No termo do efeito surpresa, fiz então o que me mandava o bom senso. Baixei a cabeça e olhei para dentro. Senti-me a gostar muito do que se estava a passar.

 

Natália de Andrade escandalizava-me. Cantava Verdi. Na magnífica voz que tinha para cantar como cantava. No som do disco adivinhava-se a expressão, os gestos, a entrega. Ela. Absolutamente única. Portanto inimitável.

 

Creio que não é difícil ficar preso ao fascínio de uma raridade. A raridade da "voz de cristal portuguesa", como a própria informava.

 

 

 

 

Bravo! Bravo! Bravo!

(NÃO) VOU FALAR DA MORTE DO CARLOS CASTRO


Cat2007

15.01.11

 

 

Há uma certa snobeira em mim. Não queria dizer nada sobre o caso Carlos Castro porque toda a gente anda a falar no assunto. Não sou jornalista. Não tenho obrigação. Não sou bisbilhoteira. Não tenho vocação. Queria passar ao lado do acontecimento da morte do Carlos Castro como passo ao lado de um acidente na estrada sem olhar.

 

Detesto as pessoas que ficam a olhar. As filas gigantescas que se criam por causa da curiosidade pequenina. Assistir aos pequenos dramas ou às grandes tragédias da vida dos outros. Só para sentir a satisfação. “Isto não é nada comigo”. Reduzir a dimensão dos problemas próprios. “Tenho de pagar o cartão de crédito, mas pelo menos o meu carro que ainda estou a pagar está inteiro”. Formam-se filas gigantescas quando acontece uma batida que só parte faróis e pára-choques.

 

E o tamanho da fila não é maior se sucede haver mortos e feridos. A fila aumenta na medida em que haja mais ou menos detalhes para observar. Só por isto. As coisas têm a mesma dimensão para as pessoas que ficam a olhar. Estão a olhar para si próprias. É por isso que nunca pensam se devem parar para ajudar. Normalmente não é preciso. Mas mesmo que fosse, não pensariam. Ficar a olhar é humilhar silenciosamente.

 

Sempre que tenho que ajudar, paro. E ajudo. Quando não precisam de mim, piro-me o mais depressa possível para desimpedir a estrada. E nunca olho porque não quero contribuir para a humilhação.

 

Este olhar geral para a morte de Carlos Castro a que se assiste tem este lado. A humilhação. Por mim, estava a ver se me livrava desta fila. Queria passar pelo local do acidente o mais depressa possível. Para me pirar. E ir à minha vida.

 

Só que isto não há meio. O trânsito está completamente parado. Há tanto tempo que já tive tempo de me lembrar que estive encarcerada dentro de um carro mais de três horas. Porque a estrada era apertada e havia muitos detalhes para anotar. Assim, os curiosos estenderam-se por mais de 30 km. As ambulâncias não conseguiam passar. Alguém morreu dentro do meu carro por falta de assistência pronta. Enquanto esperava fui visitada pela janela. Era um casal que queria que eu explicasse como foi o acidente. Fazia sentido porque quem conduzia era eu. O banco estava a tentar esmagar-me contra o volante. Só podia mexer a cabeça. Não respirava bem, pelo que não podia falar. Só pude dizer para desimpedirem a janela porque precisava do ar que entrava por ali. Saíram ressentidos. E fizeram questão de me manifestar isso. Não me lembro exactamente do que disseram. Mas disseram.

 

Já ouvi música. Já praguejei. Já olhei para as coisas lá fora. Já sai do carro para esticar as pernas. Já não sei o que fazer mais. Dou por mim a falar para o lado. Começo a pensar no que terá acontecido. Pergunto a opinião a quem sabe tanto como eu. Já quero saber o que se passa. Estou encarcerada de uma maneira diferente. Não há saída. Vou começar a desenvolver raciocínios sobre o acidente.

 

A ideia que tenho do Carlos Castro é vaga. E não me vou documentar agora. Não posso. Como disse, estou parada no trânsito sem hipótese de fuga. “Isso já não está na moda”. Se não foi isto que ele disse num programa de mulheres da Rádio Comercial onda média há mil anos atrás, foi mesmo isto que ele disse por outras palavras. E o tom era de vomitar.

 

Foi uma agressão directa dirigida a uma das vozes do programa. Assim. Do sítio mais alto possível do mais baixo nível que há. E ficou impune. Depois, houve até um movimento da agredida para lhe pedir desculpa. O jogo virou. Carlos Castro estava ofendido com uma camisola qualquer. A culpa era dela. Foi por isso que a agrediu. Legítima defesa.

 

Confundi-me toda por momentos. Mas acabei por não me deixar levar. O meu cérebro de pessoa pequena reteve o improvável. Estava ali a falar na rádio um homem sem educação e sem delicadeza.

 

Verifiquei ainda que Carlos Castro também tinha uma forma de falar estranha. Mesmo que não estivesse a agredir ninguém directamente. Era um modo de falar diferente. Pouco parecido com o dos homens. Talvez algumas mulheres falassem assim. Mas eu não conhecia nenhuma. Percebi mal na altura esta questão, tendo concluído que talvez lhe tivesse acontecido alguma coisa muito má na vida. Um acidente que o deixou com afectações na fala. Daí que talvez se pudesse desculpar aquele tempero venenoso no discurso que fazia. Saias, blusas, vestidos, costureiros e costureiras. Estas coisas tinham vida para Carlos Castro. Havia veneno por causa disso. Foi o que percebi.

 

Não gostei dele. Fico sempre curiosa com as coisas de que gosto muito ou de que não gosto nada. Causam-me o impulso da reflexão. Não andei à procura dele, mas sempre que aparecia ficava atenta. Só para ver. Júri de concursos televisivos sobre talentos deprimentes e inócuos. Autor da Daniela ou Daniella, sei lá. Promotor de eventos públicos de travestis. Foi o que o vi fazer na vida. Se há mais não sei. Ouvi dizer que tinha poderes para destruir e construir carreiras artísticas sem qualquer critério válido. Por capricho. Porque sim. Porque havia algumas coisas que o entusiasmavam. E outras que detestava.

 

Poucas vezes vi Carlos Castro a dizer bem de alguma coisa. Aliás só uma vez. Estava emocionado com o nonolita. Uma música italiana referenciada em sítios que ninguém quer saber. Um candidato a cantor impossível interpretou a coisa num programa do João Baião à tarde. No júri, Carlos Castro falou e quase chora. Desde aí passei a evitar as manifestações deste homem. Na rádio. Na televisão. Nas revistas. Quadro completo. Mal-educado. Indelicado. Intriguista. Inculto. Sentimental. Chega.

 

Agora Carlos Castro morre em New York town. Não me apetecia dizer nada sobre isto, como disse. E não vou mesmo dizer. Na verdade, morreu. Mais, morreu assassinado. Mais, o assassinato foi praticado de uma forma incompreensível. A cada mais, tudo se torna pior. Mais doloroso.

 

Para os efeitos do significado da morte e do acto de matar, Carlos e Seabra são duas pessoas anónimas. Ou seja, são muito mais do que figuras conhecidas. Um morre e outro mata. A morte de um ser humano é uma tragédia. Só não dói a quem está a olhar e a pensar apenas em si próprio.

 

Para mim vale a pena guardar essencialmente um respeito sentido pelo valor da vida em si. E pela de Carlos Castro homem, em particular. Também pela dor de quem sinceramente sente a falta do homem morto.

 

No mais, não restarão muitas dúvidas que Seabra tem uma psicopatia. De certo modo, também é um ser humano morto. Sinto por ele. Por causa disso. No entanto, tenho de impor limites a este meu sentimento de piedade. Este homem é um assassino.

  

MILIONÁRIO EM DOIS DIAS


Cat2007

11.01.11

Ser milionário em dois dias. É algo com que qualquer não milionário deve andar a sonhar. Pode ser em dois. Num. No prazo de três meses. Ou até dentro de um ano ou dois. Desde que aconteça. Ficar milionário. E quanto mais depressa melhor. Ser milionário em dois dias ou enriquecer rapidamente. É a mesma coisa.

 

Ter dinheiro é muito importante. Vivemos no ocidente. No modelo capitalista. Ora. Eu defendo o capitalismo. Com certeza. Sou contra os árabes, como é natural. E nem me venham falar de contemplações do tipo oriental. Dos chineses. Não há tempo para isso. Tenho os olhos em bico, mas é para outras coisas. Preciso de um telemóvel sem teclas ligado à net e quero um LCD para o quarto imediatamente. Também já desejo os novos modelos de qualquer coisa que eu sei muito bem que preciso muito. Porque são novos modelos, ora essa. Falam para aí de alienação. São vozes ao longe. Não é nada comigo. Tomo anti-depressivos, claro. Todos tomam. Mas não tem nada a ver com isso de comprar. Preciso de adquirir porque compro o que me faz falta. É só isso. Tomo os comprimidos porque não consigo controlar o stress sem eles. Note-se que trabalho imenso e tenho dívidas acumuladas. Como é natural.

 

Sim. Precisava de ficar milionário em dois dias. Que é como quem diz, rapidamente. Jogo sempre no “euromilhões”. Há semanas em que gasto mais de cem euros. Quando há jackpot. Se me saísse, pagava as dívidas, comprava um bruto carro e, quase de certeza, deixava os anti-depressivos. Porque estou a ficar gordo. Era a minha felicidade. Pode ser que haja outra maneira de ser feliz. De ficar rico. Ando a pensar nisso.

 

 

 

LEMBREI-ME DO "CICLO PREPARATÓRIO TV"


Cat2007

10.01.11

 

Quando eu era uma pessoa pequena, tão pequena que só tinha inicialmente 4 anos, o meu pai tinha muita confiança nos programas televisivos. Houve uma mudança nos conteúdos editoriais pouco depois da Revolução, claro. Mas o meu pai não acreditou nela. Antes de se focar nessas coisas, ele tinha de se capacitar das outras mudanças que se operaram. E simplesmente não queria. Creio que, até há bem pouco tempo atrás, o pai guardava numa delicadissima caixinha energética a secreta esperança de ver chegar a todo o momento uma Contra-Revolução. E com ela a reposição do anterior status quo.

 

Sim. O pai deve ser fascista. Assim para simplificar, sim. Eu não. Eu não sou assim para simplificar fascista. Creio mesmo que sou assim para simplificar antifascista. Não é para contrariar o pai. É só porque as grandes imposições contaminam, magoam e matam. Está provado.

 

Enfim, mas eu podia ver televisão à vontade. Quer dizer, sem fiscalização. E via tudo. Mesmo a última meia hora do "Ciclo Preparatório TV". Estava à espera que começassem os desenhos animados, e ficava para ali impaciente ao trauma com aquela manobra televisiva incompreensível para mim.

 

O problema é que me falta memória. Mais do que isso, faltam-me noções para enquadramento. Eu sei lá porque passavam uma coisa daquelas.  Como é óbvio, havia um objectivo qualquer por trás. Talvez se andasse a tentar combater o analfabetismo no ensino pós-básico. Não sei. Sei que as metas que inspiraram tal projecto não foram jamais alcançadas. A prova disso é que aquilo acabou como começou. Ou seja, sem ninguém perceber porquê.

 

E uma lição há a tirar de tudo isto. Não tentemos fazer às pessoas o bem que elas não entendem como tal. Não ajudemos os outros por meios  solidários obscuros porque a solidariedade tem de ser transparente. De facto, temos de dar outro tipo de atenção às pessoas, procurando pelos seus problemas, ouvindo-as e comunicando na procura das melhores soluções. Tudo o mais é arrogância e caridade católica. Uma falta de respeito!

 

Só com a "Gabriela Cravo e Canela" é que o meu pai ficou alertado para a impropriedade  dos novos conteúdos televisivos para crianças. Lembro-me de subitamente toda a família se ver confrontada com  uma cena pró-erótica qualquer. O pai manifestou a sua indignação, utilizando vários modelos comunicacionais concebidos pela língua portuguesa para o efeito. Eu pessoalmente também não gostei. Preferia ter visto a cena sozinha. Ou, pelo menos, sem a presença do pai e da mãe.  

INENARRÁVEL*


Cat2007

08.01.11

meu amor 
"Ai, vestidos detesto" disse numa voz grave, seca, invasiva e envolvente enquanto ajeitava o vestido vermelho no peito. Eu estava mesmo a ver que aquilo era verdade. Ela queria lá saber de estar parecida com a Lauren Bacall, era-lhe indiferente. Só não lhe caía a cinza do cigarro no vestido porque ali era proibido fumar. Pensava eu que a atitude Bukovsky era exclusiva de um homem. Não, aquilo era uma mulher viscontiana com bocas de norte-americano entediado e cínico da vida em versão tipa, convenientemente simpática. A imagem é pretensiosa e corresponde à mais pura verdade. "ai, vestidos detesto" e vesti-los seria um favor que nos fazia, ridículo para ela.
 
O fotógrafo iria ter de disparar umas 700 vezes para poder aproveitar uma só pose. A fotografia era necessária caso contrário estaria fora de questão que ela "não nasceu para aquilo" como dizia, já vencida pelo tédio. Ela não tinha nascido para aquilo e no entanto fazia aquilo como ninguém. Fingia que posava, era loira, tinha um cabelo forte com um penteado naturalmente romântico e o vestido, de corte difícil para tantas outras, favorecia-a em todas as direções e sentidos. Eu passei a tarde à volta dela com o telemóvel na opção câmera. Tentava gravar-lhe a imagem à falta de melhor. Estava mais gente e não me atrevi a chegar-lhe muito perto. Enquanto olhava para ela ía sentindo uma comoção física e pensava "meu deus é isto que deve acontecer aos homens quando olham para uma mulher particularmente bonita.". Se ela soubesse o que me passava pela cabeça dir-me-ía "epá isso é de fufa para baixo" e eu nas tintas, como se isso fosse relevante perante a sua beleza, não era. 
 
Durante a hora da sessão fotográfica, foi-se desmultiplicando em absurdos. Do alto de 12 centímetros de salto e com a segurança de um metro e oitenta e dois, disse que se sentia num equilíbrio instável como se fosse o Sudão em vésperas de referendo. Mas a quem ela queria impressionar se ninguém sequer sabia ao certo o que era o Sudão? Não queria impressionar ninguém, apenas usufruir do direito ao absurdo para se poder ouvir a si própria. Fartou-se de me perguntar pequenas coisas mas começou a custar-me perceber o sentido do que dizia. Estava bonita e bloqueou-me parte do cérebro, a parte da reflexão.
 
Consegui ficar única e exclusivamente instintiva, básica. Pensava que só acontecia aos homens. Se ela soubesse disto dir-me ía "epá que ceninha lésbica, só lhe falta afagar uma gata". A sessão fotográfica era uma chatice obrigatória porque andava com a ideia, fantasiazinha mais que provável, de entrar para uma espécie de Mossad e começar a passear-se sob disfarce. Era um treino para uma outra vida que decidiu que ía ter, repentinamente. Era-lhe indiferente se mais depressa se comovia com tudo o que era contrário aos israelitas mesmo que o contrário tresandasse a israelita também. Era feita de apetites e assomada, com frequência, por crises de sensatez. Dava-se ao luxo de ser uma contradição quando quase ninguém olhava para ela. No resto do tempo continuava a ser uma mulher bonita, demasiado banal para ser verdade. Cumpria à risca o que havia para cumprir, social e profissionalmente. Era uma mulher obediente ao sistema por vontade própria. Era parecida com a Lauren Bacall.
 
Cheguei a confessar-lhe um began mas estava sem muito tempo para argumentar. Mandei-lhe um piropo mais sofisticado para não me confundir com um tipo das obras. Olhei para o relógio e vi que não ía com o cão à rua há um par de horas. Despedi-me e inventei-lhe uma treta de uma viagem qualquer, o Sudão se lhe apetecesse, ela que me imaginasse no Sudão a perder o equilíbrio. Inesquecível, era uma mulher para casar.
 
*Este texto foi escrito por Niamey

A FACA


Cat2007

06.01.11

 

- Querida, porque temos uma faca na varanda pendurada no estendal da roupa?

- É a minha faca de fazer tudo.

- Sim. Mas porque está pendurada por um arame ali?

- É por causa do cabo de madeira. Não seca tão depressa se for para o coiso dos talheres. E também não podia usar uma mola. Tive de improvisar, não é?

- Resolveste isso hoje. Tens a certeza que seca mais depressa no estendal?

- Sim.   

- Precisas dela. Cortas comida, rodas parafusos…

- Como bife sem garfo!

- Não. Usas o garfo para segurar o bife.

- Mas meto a carne à boca com a faca.

- Pois… Não achas que alguém pode achar bizarro… assim alguém que venha cá a casa e veja ali a faca pendurada?

- Estás à espera de alguém? Não estás. Nós nunca deixamos ninguém aparecer sem avisar.

- Pois não. Não é bom para a vida dos casais. Só quando os casais não têm vida nenhuma.

- Gosto dos nossos amigos. E da tua família. Gosto muito.

- E eu. Da tua. Dos nossos amigos. Gosto de ter vida própria. De não precisar de ninguém e ter gente de quem gosto convictamente. Faz-me bem estar com todos. E é fundamental estar só contigo.

- Se alguém vier cá a casa não vai estranhar ver a faca ali pendurada. Se nós não achamos, não é?

- Claro. A menos que seja algum canalizador de emergência.

- Como está o braço?

- Melhor. A infecção está a passar.

- Desculpa.

- Não faz mal. Nunca tinha acontecido antes.

- Devia ter lavado como deve ser.

- Não tem importância.

- Tem de ser sempre nos braços?

- Eu prefiro. Fica mais a jeito. Para os meus olhos. Gosto de ver as marcas que me deixas.

- Nunca mais conseguimos. Faço análises de 6 em 6 meses. Sempre negativo.

- Eu queria que ficasses viva. Creio que Deus também. A prova está nos resultados das análises. Tu cortas-me os braços e chupas-me o sangue todos os dias. Com a tua faca de fazer tudo. E não apanhas nada.

- Eu não tenho razões para estar viva depois de ti. Nunca pensei que fosse tão difícil.

- Talvez nunca venhas a ficar infectada. Há casos assim. Com o HIV.

- Eu sei. Mas gosto de beber o teu sangue. Depois, no momento certo, corto a jugular.

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