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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

PORQUE É QUE AS PUTAS NÃO BEIJAM E OS CLIENTES NÃO SE IMPORTAM


Cat2007

07.03.11

 

 

A resposta parece óbvia. As putas não beijam porque vendem o corpo mas não transaccionam afectos. Toda a gente sabe o significado de um beijo. Mesmo não sabendo explicar, toda a gente sente o significado de um beijo. Mesmo não sentindo, toda a gente sabe o que se pode sentir com um beijo. Num beijo há uma dádiva. Mais, num beijo, há uma troca de dádivas. Isto é pacífico para toda a gente. Ora, uma puta não faz dádivas. Em princípio, antes pelo contrário, vende matéria, líquidos e sons. Um cliente, por sua vez, também não faz dádivas. Paga o preço de um bem que deseja consumir no chamado “mercado do prazer”.

 

Porém, não é bem assim. Pois que a clientela não vai lá basicamente para se vir. Se fosse só para isso era mais simples e mais barato fazer como sugeria Bukowski. Partir um ovo cru na mão e meter a mão à obra (Bukowski, Charles, 1982, “Ham on Rye”). Ainda que se admita que a ejaculação seja melhor dentro de uma mulher ou logo depois se estar lá estar um bocado. Mesmo assim não podia dizer-se que um homem compra o sexo de uma puta para meter o seu próprio lá dentro com a finalidade de sentir o prazer prévio e o tal enorme alívio final. Ejacular. Porque isto só seria verdade se os clientes das putas não tivessem muitas possibilidades de foder com mulheres sem directamente pagar nada por isso. Claro que antigamente era mais ou menos assim. Hoje em dia, parece que não para a generalidade dos casos. Portanto, o desejo de partilhar uma ejaculação não pode logicamente ter por única finalidade a própria ejaculação. Parece que o que importa aqui realmente é, antes pelo contrário, a partilha.

 

Pois, de facto, uma puta também vende ilusões. Sobretudo ilusões. Afinal, o corpo que usa para ser usado é apenas o meio de lá chegar e de fazer chegar. Cada cliente leva a sua ilusão consigo. Cada ilusão vem disfarçada de fantasia sexual. Algumas fantasias são muito simples. Quase nem merecem a designação. São as fantasias do “agora vou despejar na gaja”. Outras são complexas. E podem até ser perigosas. E, quando não o são, pelo menos dolorosas e/ou humilhantes podem ser. Para a puta ou para o cliente. Depende do serviço encomendado. Também depende do que cada puta está disposta a fazer. Com efeito, nem todas as putas estão disponíveis para deferir todos os requerimentos que lhe são dirigidos. Nem que lhes paguem muito. Mas as situações limite não são a regra. Por isso, em princípio, uma puta está no seu posto pronta a satisfazer qualquer fantasia do seu cliente. E, também em princípio, é bem sucedida nisso. No entanto, o trabalho de transformar as fantasias concretizadas em ilusões satisfeitas é quase todo do cliente pagante. Essencialmente, porque raramente ele as confessa nos devidos termos. Percebe-se. Não é fácil dizer algo que não se reconhece.

 

Pois. As putas dizem que vendem o corpo por dinheiro. Pois. Toda a gente diz o mesmo. Mas não é assim. Podem não querer, mas as putas vendem é emoções. Afecto. Amor. Afecto é amor. No mercado da putaria a oferta e a procura incidem sobre o amor. Mas qual amor? O afecto. Dar afecto é dar amor. Não valem aqui os conceitos do amor romântico dos livros infantis dos príncipes e das princesas que nos deturparam o cérebro com ilusões. Mesmo que estas ilusões também possam entrar no rol daquelas que animam a clientela do putedo. Não se trata disso. Uma ilusão é concretizável apenas por momentos. Por definição não é perene ou perdurável. Por momentos, uma pessoa pode ser, fazer e sentir-se como quiser. A vida é dominada por impulsos ou pulsões sexuais. Os homens são mais sensíveis a isto que as mulheres. Parece que é por causa dos níveis de testosterona. Os homens que vão às putas querem uma mulher a olhar para eles e a fazer o que eles querem sem pedir nada em troca. A não ser dinheiro. O dinheiro custa muito a ganhar. Mesmo a quem tem muito. Mas vale bem a pena gastá-lo se o que está em causa é resolver uma angústia. O dinheiro dá algum poder. Exercitar o poder pagando é o que todos nós fazemos diariamente. Um homem que paga a uma mulher para se despir e partilhar toda a intimidade possível a ambos está a pedir afecto de uma forma simulada. O dinheiro é a aparência de poder que dissimula uma fragilidade, uma debilidade do espírito. Há uma não-concretização de qualquer coisa na vida de um homem assim. Que lhe é inaceitável. Por isso paga e não se importa que a puta não o beije. Prefere pensar que paga por prazer. É humilhante para qualquer ser humano ter que pagar para ser amado. Sobretudo porque sabe que também ali não será. Um homem que paga a uma puta não quer ser beijado. Uma puta não beija pelas mesmas razões. Não se pede dinheiro a quem precisa de afecto. Mas mais do que isto a verdade é que uma puta não pode beijar porque, beijando também recebe afecto. Como disse, um beijo é uma troca de dádivas emocionais entre duas pessoas. Uma puta não pode perder o controle. Um cliente não pode perder o controle. E ambos não podem igualmente perder a pose. De vez em quando isto não resulta. E lá se dão os casamentos improváveis.

 

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