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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

"É A MODA"


Cat2007

19.07.11

 

 

 

Com as devidas adaptações e aplicando-se também aos senhores.

 

"Cruel razão! a moda começa por ter isto de absurda: é que não é ela que é feita para o corpo - é o corpo que tem de ser modificado para se ajeitar nela. Ela vem de fora, pintada no figurino, feita à fantasia burguesa de um desenhador de armazém: e aqui, depois - é necessário reformar o corpo, obra do bom Deus - para o acomodar ao figurino, obra do jornal das damas: de modo que para sustentar o chapéu deforma-se a cabeça, para obedecer ao puff torce-se a espinha; para dar razão às botinas Luis XV desconjunta-se o pé; para seguir a altura das cintas, destrói-se o busto. Nunca como hoje, sob o domínio da burguesia, se desprezou, se deteriorou o corpo humano (...)

 

(...) hoje mais do que nunca se glorifica a beleza: o corpo é o fim, a lei, a conciência. Somente não se aceita o corpo que a natureza dá - e procura-se aquele que se vende nos armazéns.

 

A moda destrói a beleza e destrói o espírito. Um figurino decretado e seguido - mata as originalidades do gosto. Santo Deus! um caixeiro desenha a lápis, em Paris, um certo corpete, umas certas mangas - e todas, magras e gordas, as loiras, as trigueiras, as ágeis, as débeis, as altas e as pequeninas, se introduzem, se alojam, se metem naquele molde, sem se preocuparem se o seu corpo, a sua cor de cabelos, o seu perfil, a sua altura, o seu peito, condizem, harmonizam, vão bem com o molde decretado e com o modelo vindo pelo correio. Abandonam-se servilmente ao figurino, abdicam a sua originalidade, o seu gosto, o seu engenho, o seu talento. Tornam-se imitadoras e copistas. Aceitam uma banalidade em seda e um lugar comum com folhos. Agacham-se humildemente no gosto das ruas.

 

Uma senhora que não inventa, não cria os seus vestidos - é como um escritor que não acha, não inventa as suas ideias. ter a toilette do figurino é fazer como os merceiros que têm a opinião da sua gazeta. Desabitua o espirito da invenção, da expontaneidade, da altiva liberdade. Torna a alma passiva, aceitando como um terreno estéril e neutro as ideias e as opiniões alheias. É uma confissão tácita de que se não tem espírito nem fantasia. O figurino é a redução da originalidade a uma obediência ... é aprender a elegência de cor, para a ir recitar na rua; é a maneira barata de ter gosto de encomenda (...)"

 

Ortigão, Ramalho e Eça de Queiróz: "As Farpas", págs 416-417, AIND, 2004. 

 

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