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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CONTINUANDO COM AS PUTAS


Cat2007

24.11.11

 


 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas  e também por isso “não”.

 

Tenho impressão que o interesse dos portugueses em putas e ginásios, designadamente no Holmes Place, subiu em flecha. Não. Na verdade, não é só uma impressão. Vi no Sitemeter aqui do blog. Tenho portanto a minha estatística pessoal. Os posts (de longe) mais lidos são: HOLMES PLACE - Quem não foi ao engano... (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/59602.html) e PORQUE É QUE AS PUTAS NÃO BEIJAM E OS CLIENTES NÃO SE IMPORTAM (http://ogatogaga.blogs.sapo.pt/67752.html), sendo certo que, de há umas semanas para cá,  as putas estão com o triplo dos visitantes do Holmes. Bom, é uma estatística que vale o que vale. Para mim vale mais um motivo para pensar escrevendo. Pronto. Já agora, alguém se lembra que um dos maiores ícones do cinema porno se chamava John Holmes? Não falo nisto por nada. Só para partilhar um pouco de cultura geral. E porque me veio assim à cabeça.

 

Creio que é da crise. O pessoal tem de acabar com despesas fixas injustificadas. Pagar um ginásio sem lá ir. Tem de ser um dos casos. Sai dinheiro e não se vê beleza física nem a calma das endorfinas. O problema é que o HP não facilita nisto das despedidas dos sócios. Por isso o pessoal procura e procura a forma, o meio de se livrar da “cena”. Não será fácil, digo eu que já expliquei no post acima indicado o que me aconteceu por lá.

 

Por outro lado, tenho muita pena, mas não sei muito sobre os preços das putas. Penso que no “Elefante Branco” anda à volta dos 200 € por sessão. Mas não sei ao certo porque não sou puta nem nunca fui às putas. Porém, fui ao “trombinhas” algumas vezes. E, é verdade, também visitei o “Gellary” ou “Gallery”, já não sei. No entanto, acho que este último encerrou, tendo as funcionárias mudado para o primeiro.

 

Fui com a curiosidade sociológica dos arrogantes e o espirito de visitante do zoo. Pus-me logo a falar com uma menina para saber “coisas da vida”. Mas não perguntei o preço. Ou se perguntei não me lembro. Não me interessava. De qualquer forma, houve ali uma insistência. “Você não quer transar?”. E eu: “Não. Não, muito obrigada”. Acho que ela queria mesmo “transar”, independentemente de estar a tratar de “business”. A ver se juntava as duas coisas. Eu é que não queria. Sou uma moralista, ora essa! Sou uma moralista e tenho nojo, com todo o respeito.

 

Entretanto, uma das minhas amigas foi-se embora irritada porque achava aquilo tudo indecente. “O que é indecente, está tonta?”, consegui perguntar antes dela arrancar desabrida. “Estão a faltar ao respeito a estas pessoas. Isto é vir aqui para rir dos outros e tal…”.

 

Talvez tivesse razão. Mas deixei-me ficar a ouvir a puta. Como poderia eu ter um blog deste género sem ter alguma coisa para contar? No mais, eu interesso-me pelas pessoas, caramba! Sem ironias. Afinal de contas, talvez a minha amiga estivesse apenas a ser histérica. Sim é isso. Não tinha muita razão não. Até porque o espirito parolo com que entrei desvaneceu-se imediatamente no confronto com a realidade. Vi a humanidade mascarada pela make up a passear-se de minissaia e “tacones”. Vi a humanidade nas gravatas sentadas em sofás de imbecilidade. Vi os copos transparentes a tilintar, brilhando demais sob a impressão das luzes psicadélicas. E tudo me impressionou. Uma parte da vida que não faz parte da minha vida mas que é a vida de tantas pessoas. Na verdade, ser puta e cliente é uma condição da vida de pessoas. Quando deixamos de poder ignorar isto porque, por exemplo, fomos ao “Elefante” compreendemos finalmente que a vida também é isto e que por isso também nos diz respeito. A vida transcende largamente o “mundinho” que, iludidos, pensamos que construímos só para nós. Mais nada.

 

O meu terapeuta esclareceu-me que, em pouco tempo, as putas têm a vida emocional destroçada de uma forma irreversível. Uma mulher que vende o corpo nestes termos nunca mais recupera das emoções. Talvez por isso, ou mesmo por isso, a menina quisesse à viva força “transar” comigo. Deve ter reparado no meu olhar uma forma de olhar para ela de que já não se lembrava. Olhou para o meu corpo com desejo porque não tinha os contornos masculinos próprios dos corpos que desde há algum tempo a vinham ferindo. Tive pena. Mas e também por isso “não”.

 

Talvez as putas de rua estejam a prestar serviço a um preço acessível. Mas aqui é que eu já não tenho estórias para contar. Nunca me aproximei. Talvez por medo. Como abordar uma puta de rua se não se está a fazer um trabalho académico ou jornalístico? Mentir a dizer que é isso? Não sou capaz. Não quero ser capaz. É detestável mentir. É ainda mais detestável mentir a uma pessoa que tem de viver de mentiras. Não sei nada sobre as putas de rua. Apenas que a maioria se droga.

 

Parece de facto ilógico querer acabar com uma despesa num serviço supérfluo para ir fazer outra, talvez maior, noutro serviço supérfluo. Sabe-se que quando um fumador pensa em deixar de fumar o desejo de acender um cigarro é imediato. Porque uma sensação de angústia se alivia com uma impressão de prazer. A nicotina liberta endorfinas. Substâncias químicas de bem-estar. O exercício físico também. Liberta. Mas é doloroso no processo. O sexo igualmente. Mas dá prazer no processo. Na angustia da crise, as pessoas estão a precisar urgentemente de químicos. É assim o organismo humano. Dependente.

 

Penso que o “Fado falado” fala de putas. É dito por João Villaret. A “Emilia Cigarreira” não pode ser outra coisa, senão uma puta de Alfama. As meninas católicas decentes  dos meados do século XX em Portugal não iam para a cama com marinheiros nem lhes espetavam a navalha. É uma puta que ama e tem ciúmes. Poucas coisas existem que me emocionem mais do que esta peça escrita como foi e dita como está. Deixo aqui.  

 

 

 

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