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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

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PINGO DOCE: TAMBÉM POSSO DIZER UMA COISINHA?


Cat2007

06.05.12

 

 

Foi estranha a sensação de ir na sexta ao Pingo Doce. Acabei por trazer mais coisas do que queria. Esqueci-me em casa do carrinho com rodas que eles lá me venderam há uns meses e tive que atravessar a rua cheia de sacos na mão. Ia pesadíssima quando me dei conta que estava a sentir-me vexada. De facto, notei a sensação de que tinha ido comprar a mais por metade do preço, o que, forçava-me a recordar a todo instante, não era verdade. Nestas circunstâncias, parece-me que talvez o Pingo Doce se tenha metido numa má campanha de imagem. Agora está conotado como o supermercado dos pobres esfomeados e ordinários. Com aqueles que lá foram aproveitar a promoção do 1 de Maio. Agora talvez o Pingo Doce tenha menos caché do que o próprio Mini Preço. E agora? Não sei se isto é bom ou mau para a organização. Sei apenas que me parece que é assim.

 

Quem ler o que antecede há-de pensar que me sinto muito superior aos outros. Os que, como eu, querem comprar o que puderem com 50% de desconto, desde que tenham no mínimo 100€ para gastar. Quem no dia 1 de um mês tem 100€ para gastar num dia de supermercado, ainda que esteja a pensar comprar para o mês, pertence à classe média portuguesa. À parte dela estão alguns, uns poucos milhares, muito bem instalados na vida e outros, que correspondem a cerca de 26% da população, que estão no limiar da pobreza. Nem estes nem aqueles se incomodaram sequer a pensar na promoção do Dia do Trabalhador. Só a classe média. Aquele grupo de pessoas a quem dava muito jeito comprar tudo por metade. E dentro desta classe média nem todos lá foram. Não foram mas queriam.

 

Não foram porque não puderam. E muitos não puderam nem que seja pelo pudor de evidenciar a necessidade. Se tivessem ido também tinham perdido as estribeiras. Porque costumam ser assim as reações individuais quando integradas em certo tipo de eventos coletivos desordenados.  

 

Eu não fui porque não poderia enfrentar tantas pessoas, tanto barrulho, tanta energia (negativa) consumista. Tanta humanidade. Não fui porque talvez nem conseguisse  entrar. Não fui porque não fui. Porque dentro da classe média ainda vão subsistindo alguns degraus. Mas tenho muita pena de não ter podido comprar por metade o que na sexta me custou afinal o dobro da terça anterior. E é isto que me faz ver porque me impressionam tanto aquelas imagens. Porque de alguma forma me revejo nas pessoas que foram protagonistas do evento e serviram de carne para canhão nos noticiários em prime time. E revendo-me não gosto do que vejo. Quem na classe média onde me incluo mais despudoradamente demonstrou vergonha alheia pelas “cenas que os outros fizeram” é quem mais e melhor se identifica com eles. E tem horror do que é. Ora disto é que eu tenho muita vergonha.

 

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