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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

MÃE EU JÁ VENHO


Cat2007

19.06.12

 

 

 

Morreu o Miguel Portas, o Bernardo Sassetti, o Quim. E morreu a minha mãe. Por esta ordem cronológica. Se não fosse a cronologia diria apenas: morreu a minha mãe. Se não fosse o cancro diria apenas: morreu o Bernardo Sassetti - os demais estariam vivos. E eu não estava assim.

 

Mas falo de todos por causa da morte que têm em comum e a proximidade do acontecimento entre todos. Na verdade, falo de todos para não me focar na pessoa que me importa. A presença que me desapareceu. Porque só me faz sentido falar dela. Ou ficar em silêncio a falar dela. Mesmo assim, temo as palavras que uso. Além de que não tenho muitas palavras para usar.

 

Talvez isto não seja boa ideia. A minha mãe era a minha mãe. Figura não pública cuja morte só interessa a quem a sente e a quem pouco sente mas também foi ao velório e ao funeral. Não sei se é correto escrever este texto. Também não importa, fica entre o escrito e o por escrever. É melhor assim. O Quim também era um desconhecido. Era pai. Morreu sozinho em casa. Tinha bom coração e uns olhos azuis muito bonitos. Tenho muita pena.

 

Não vou dizer muitas coisas. Não posso. Apenas sublinhava as seguintes palavras: solidão e indiferença.

 

Neste último mês (foi quando se soube da doença) habituei-me a correr pelo dia para chegar ao hospital sempre e cada vez mais cedo para sair sempre e cada vez mais tarde. Todos os dias aquém e além da hora da visita - da uma às sete. Eu e o meu irmão das onze às nove. Depois o meu pai - que só soube quando não foi possivel a ninguém esconder mais. Sei que se eu não podia estar o dia todo, corria, acelerava, angustiava. Quando chegava sentia-me feliz. A solidão própria de quem está num processo de luta física contra a morte e está a perder passava-lhe um bocadinho. Creio que então era substituída pela dor de quem sente que está a abandonar os que ama e não pode. Num dia desses de corrida aconteceu que a Sara Tavares cantou "eu sei". E eu chorei muito e compreendi o que a minha mãe queria dizer.

 

No dia 2 de junho estava morta de manhã. Cheguei para a visita. O cancro chegou, instalou-se e varreu-a num ápice. Quando foi a hora de sair junto da sua cama no hospital disse-lhe o que lhe dizia todos os dias e era verdade: “mãe eu já venho”.

 

 

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