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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

QUAL CRISE


Cat2007

18.07.12

Troika põe cada português a ganhar menos 450 euros (http://economico.sapo.pt/noticias/troika-poe-cada-portugues-a-ganhar-menos-450-euros_148585.html). Não resisti a este título e fui ler o artigo. Basicamente informa que os salários têm de cair mais, tendo em conta os objetivos do programa de ajustamento. Assim, em 2014 cada português estará, em média, a ganhar menos 450 euros do que em 2011.  

 

Vou-me poupar às piadas brejeiras habituais em diversos espaços de variados tipos da população portuguesa, e que são de vómito. Do género: "então, quem  hoje ganha isso, passa a zero, não?". Porque não. Quem ganhar isso passa a zero se for despedido.  O que não é inviável. Mas para o que importa, sabendo-se que o salário mínimo francês anda à volta dos 1400 euros mensais e que foi agora aumentado por Hollande, pergunta-se qual é a lógica disto. Parece uma sugestão autofágica. Afinal qual é a cena da Troika? Vamos lá a ver, como pode o Estado português cumprir um objetivo deste tipo? Já para não perguntar como é possível o Governo aceitar uma coisa destas?

 

A cena da Troika é simples: reaver o seu dinheirinho nos prazos acordados e usar Portugal como exemplo. A onda do Governo parece que é fazer o que lhe mandam de modo a poder atirar as culpas para o contexto internacional, disfarçar a sua incompetência e eventualmente enriquecer uns quantos à custa das privatizações.

 

Mas quais serão as medidas necessárias para cumprir o referido desiderato? Não há mistérios. Se pensarmos que o Governo só tem controlo direto sobre os salários da função pública e que o Tribunal Constitucional lembrou sublinhando a impossibilidade de violar o principio estruturante da igualdade, é quase certo que será aplicada uma taxa extraordinária de IRS sobre os vencimentos de toda a gente a começar já em Janeiro de 2013. Taxa esta que sofrerá um aumento em 2014 para que as contas se acertem. Portanto, esta notícia serve para isto. Para nos ir avisando do que vai suceder pois o Executivo terá toda a coragem do mundo para acatar as "ordens" da Troika, com as quais concorda fervorosamente. Assim já tinha falado o Coelho quando estava à porta do teatro. É claro que  a vergonhosa passividade do povo português tem dado grande incentivo para uns proporem e outros fazerem o que bem entendem  com toda a comodidade.

 

Na Grécia "partiram a loiça toda", em Espanha Rajoy ainda nem aqueceu lugar e aquilo já parece que quer pegar fogo, em Itália nada acontece, em França as medidas são anti austeridade e em Portugal fazem-se de quando em vez pequenas passeatas semi indignadas, mandam-se uma bocas e uns apupos aos governantes quando aparecem para uma qualquer inauguração ou lançamento,  e de resto a vida vai correndo como se nada houvesse.

 

Efetivamente, por cá, apita-se no trânsito para passar à frente de toda a gente, fazem-se razias na autoestrada, tenta-se ultrapassar na fila do supermercado, diz-se mal do vizinho ou do colega, discute-se a bola e parte-se o nariz por causa da bola, cumprimentam-se as pessoas com um sentimento de indiferença. É assim que canalizamos a nossa agressividade relativamente ao que nos andam a fazer.

 

Dá ideia que na generalidade somos um bocado ordinários, não sei.

  

A PREGUIÇA NÃO É UM PECADO


Cat2007

18.07.12

 

 

Aposto que o Fernando Pessoa era um enorme  preguiçoso. E que, em maior ou menor medida, todas as pessoas são criativas – embora isto, em bom rigor, não valha a pena apostar, uma vez que está provado cientificamente.  Que alguns ou muitos não o aproveitem por falta de oportunidade, conhecimento ou interesse é outra questão.

 

Pois a preguiça amiga da criatividade. Em primeiro lugar, um preguiçoso é capaz de trabalhar com mais intensidade, por mais tempo seguido e com mais empenho do que outra pessoa qualquer. E isto acontece quando está a fazer exatamente aquilo que quer ou então, relativamente ao que não quer, se já não pode adiar mais. Assim, normalmente um preguiçoso apresenta resultados impressionantes designadamente do ponto de vista da criatividade.

 

Voltando ao Pessoa, ninguém poderia refletir daquela maneira tão esmagadoramente profunda  e evidente estando sempre em movimento físico e inerente ocupação mental. Levantar às 8h, tomar banho, lavar os dentes, vestir o adequado, pequeno almoço, sair, entrar no carro, andar no trânsito, estacionar, pagar o parque ou o parquímetro, subir ao local de trabalho, entrar na rotina, olhar para o relógio, sair para o almoço, restaurantes cheios, voltar do almoço, olhar para os papeis, ouvir o telefone, sair às 7h, voltar para o carro, para o trânsito e para casa, quem faz o jantar? - se houver empregada melhor -, telejornais e talvez uma novela brasileira  para relaxar e um livro para adormecer.  É claro que os carros podem ser autocarros, as crianças eventualmente existirão, o escritório pode ser uma fábrica ou a caixa de um supermercado. E tudo fica ainda pior. Mais difícil.

 

Por outro lado, tenho uma amiga que é pintora. Nunca fez nada na vida para além disso e por isso nunca tem dinheiro para nada. Também não é fácil. Se o corpo não está muito agitado, a cabeça pode não descansar com preocupações, sendo que a fundamental se prende com a necessidade de arranjar forma de pagar as contas.

 

Creio que, por sorte de ter nascido no sítio certo, Pessoa não passou por grandes dificuldades financeiras. E aí está o resultado. Um supercriativo. Uma obra espantosa. E acima de tudo,uma dádiva para todos nós.

 

Mas Pessoa é só um exemplo. E nem todos podem ter o mesmo génio, evidentemente. Porém, se o mundo e a vida fossem perfeitos, os preguiçosos não existiriam, os atuais movimentados dar-nos-iam coisas com mais substância humana e com certeza seriamos todos muito mais felizes.

 

 

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