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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap VIII


Cat2007

15.09.16

Teresa teve a certeza de que ela ia para casa de Madalena. Deixou-se ficar imóvel ali com a porta do prédio fechada nas suas costas a olhar. Como que à espera dela. Não era mais velha do que a sua própria filha. Teresa notou o cabelo que, preso na nuca, era perfeita e acetinadamente louro. Muito liso. Embora espesso. A figura era esguia e bem moldada. Quase tão alta como Clara, embora ligeiramente mais magra. Não muito ao perto, distinguiam-se particularmente os gestos. E Teresa viu que ela soltava graça e delicadeza em cada movimento. Entretanto, agora que já estavam ali mesmo a um metro, podia ver perfeitamente a cara dela. Notou então que, conferindo profundidade ao rosto anguloso e coberto de sardas, tinha desenhados uns incomuns olhos azuis quase turquesa, oblíquos como amêndoas. Por fim, quando estava já a virar-se para fora dela e deu um passo para sair dali, ela sorriu-lhe. E os gestos de Teresa paralisaram-se por efeito de tal sorriso. A expressão dela evoluíra subitamente em direção ao céu. A boca, de dimensões comuns, ficou enorme sobre os dentes brancos perfeitamente alinhados. Todas as sardas brilhavam em tom laranja. Os olhos iluminaram-se e mudaram de cor. Teresa nada fez. Não sorriu. Porque não pôde alcançar exatamente a primeira impressão que lhe causou a miúda. Porque ao espírito lhe sobrevieram coisas muito boas e outras muito más. E estas coisas conjugaram-se todas dentro de si de um modo desagradável e estranho. Depois Teresa conseguiu destruir a incómoda sensação e recompor a imagem dela, reduzindo a pessoa ao que via. Uma rapariga atraente. Saiu dali. Ela entrou no prédio.

Madalena: Joana, estou a trabalhar. Não era suposto estares aqui.

Joana: Se me tivesses atendido o telefone...

Madalena: Pois. Mas não pude. Esteve sempre desligado. Estou a fazer uma pesquisa. Não posso ser interrompida. De qualquer maneira, não tínhamos combinado nada para hoje.

Joana: Sim. Mas costumamos falar todas as manhãs. E hoje não falámos. Fiquei preocupada.

Madalena: Preocupada com o quê?

Joana: Pronto. Não foi bem preocupação. Tive saudades tuas. Além disso, é hábito almoçarmos juntas.

Madalena: Mas não pode ser. Não podes vir assim. Cada vez que interrompo o trabalho tenho que voltar atrás e reanalisar uma série de coisas.

Joana: Mas hoje não paras para almoçar?

Madalena: Já almocei. Hoje almocei mais cedo.

Joana: Podias ter ligado. Eu vinha mais cedo.

Madalena: Estavas nas aulas. E depois tenho mesmo que recomeçar o trabalho. Hoje não é um bom dia para nós. Já te disse.

Joana: Não sei porquê mas estás estranha hoje.

Madalena: Sim. Estou um bocado cansada e irritada por causa disso.

Joana: Quando vinha a entrar vi a mulher mais bonita que alguma vez vi na vida. Saiu daqui. Espero que não tenha sido cá de casa.

Riu-se.

Madalena: Joana, fala-me com franqueza. Isto diverte-te? Esta história comigo. O que anda uma miúda da tua idade a fazer comigo?

Joana: Eu estou apaixonada por ti. Divirto-me, como assim? Tu é que parece não queres nada comigo. Só estamos juntas há um mês e tu estás sempre cansada. As coisas já não são como no princípio.

Madalena: Joana, as coisas nem deviam ter começado. Sou tua professora.

Joana: Tu só me dás uma cadeira de opção uma vez por mês.

Madalena: Sou tua professora. Sou muito mais velha. Nada disto é ético nem decente. E...

Joana: Sempre esta conversa. Só não fizeste esta conversa na primeira semana. Nessa altura era tudo alucinante. Mas havia tempo para conversa. E não era nada deste tipo. Temos muitas coisas em comum. Coisas de que gostamos.

Madalena: Tens razão. Desculpa. Tu és linda e inteligente. Atrais-me muito. Mas é como te disse já. Não é para continuar. Não tem nada a ver contigo. Ou melhor, tem a ver com a tua idade. Como te disse logo, não posso agora envolver-me com ninguém. Se fosses mais velha, poderíamos viver isto. Fazer amor quando quiséssemos, e por aí. Mas tu és muito nova para estares agora metida numa relação cínica. Não quero que percas a inocência por minha causa.

Joana: Eu não sou nenhuma inocente. Não és aminha primeira mulher. Já me magoei antes.

Madalena: Não é isso. Vês como és inocente? Tu não sabes o preço de viver uma relação sem compromisso. Aliás, começas a saber. Estás aqui agora porque eu não te atendi o telefone. Porque não me passou pela cabeça ver-te hoje. Numa relação assim dá-se pouco ao outro. Não te sentes rejeitada? Sentes, claro. E isso é péssimo. Eu não sou o tipo de mulher que se alimenta dessas coisas. Fazes-me muito bem ao ego. E isso é que é péssimo entendes? Contigo projeto-me na minha própria juventude.

Joana: Mas tu és tão jovem e tão bonita.

Madalena: Não sou tão jovem. Pareço bem. Mas durante mais quanto tempo? Como toda a gente, assusta-me um bocadinho a idade. Contigo posso viver na ilusão de que a velhice ainda vem muito longe. Que tenho vinte anos como tu. Mas a verdade é que tenho quarenta.

Joana: Mas não sentes nada por mim? É que se vais dizer isso, eu digo-te já que não acredito.

Madalena: Sinto, claro que sinto. Uma atração enorme por essa beleza e por essa juventude, como estou a tentar explicar-te. Fazer amor contigo é uma aventura. Uma novidade. No entanto, não posso. É como se te estivesse a usar.

Joana: Mas tu não me fazes mal. Não me fazes sofrer. Aliás, sinto-me sempre bastante feliz quando estou contigo. Tu não me usas, Madalena.

Madalena: Isso tem prazo. Uma pessoa quer mais duma relação. Não te vai chegar esta vida de vires aqui ter comigo para nos metermos na cama. E claro que te uso. Estava a tentar explicar-te isso. Mas tu não entendes.

Joana. Por hoje já me chegava fazer amor contigo.

Sorriu.

Madalena: Não posso, Joana. Hoje não. Hoje tenho muito trabalho. Já te disse. Lá estás tu. Parece que isto te diverte. Andares metida com uma mulher com idade para ser tua mãe.

Joana: Não penses nisso. Não procuro em ti uma mãezinha. Aconteceu. As minhas namoradas costumam ser da minha idade. Nunca tive fascínio por mulheres mais velhas. Acontece que gosto de ti. Muito.

Madalena: Eu também. Gosto muito de ti. E é por isso que...

Joana aproximou-se mais dela. Madalena ficou parada.

Joana: Não quero ouvir mais nada hoje.

Joana pousou sobre o braço de Madalena, apertando-o com firmeza. E cegou na escuridão dos olhos dela. As bocas molhadas misturaram-se e prenderam-se quando elas pressentiram que iam começar a voar. Colaram-se os corpos por força do impulso irresistível que as levantava no ar. Perderam-se das mãos trémulas que divagavam. Entraram no quarto sem luz. Madalena encostou-a à parede pela zona do ventre. Despiram-se com pressa. Madalena entrou dentro dela como se quisesse passar por ali toda inteira. As pernas de Joana fechavam-se em volta da sua mão. Madalena empurrava-se para dentro. E ouvia-lhe os murmúrios da voz dorida e plangente envolta em suspiros estendidos. Joana indicou a cama e caiu nua sobre o colchão firme. Madalena pressionou-a pelas costas e voltou a entrar. E a sair. Uma e outra e mais outra vez. Joana quebrou o corpo no prazer arrancado por aqueles atos ferinos. Rodou então para Madalena. Por baixo dela. Agarrou-a pelos ombros com os longos dedos de aço. Mordeu-a na boca desfeita. Madalena sangrou hemorragicamente. Puxou Joana a si pela nuca e espalhou-lhe o sangue pelo pescoço. Pelos seios. Joana respirava por entre os cabelos de Madalena. Ocorreu-lhe a violenta saudade do sabor dela. Foi lá. Com fome e sedenta. Comeu e bebeu pelo tempo do desejo particularizado. No fim, respirou profundamente e fechou os olhos que ardiam. Madalena pousou-lhe as mãos na cabeça. Olhou-lhe os cabelos espalhados sobre as virilhas. Molhados nas pontas. Ficou parada algum tempo. Assim a olhar. Num enlevo extático.

Depois de Joana sair Madalena pôde finalmente assentar os pensamentos sobre Teresa. “A mulher mais bonita que Joana já vira”. Sorriu. “Também eu”. Teresa tinha razão num certo ponto. O tempo pode aniquilar a dor se os espíritos não se agoniam em vazios. Agora que a voltara a ver compreendia que era como ela dizia. Morta a dor, muitas coisas lhe sobrevivem. A dor que Teresa lhe causara há muito que não era dor. Era lembrança da dor. Só depois de revê-la é que pôde ver esta diferença. Estava assim para já e afinal grata a Teresa por ter voltado.

AZUL - Cap VII


Cat2007

15.09.16

Teresa: Vinte anos é muito tempo, Madalena. Muita coisa se resolve por si com o tempo. Foi o que realmente pensei quando finalmente ganhei coragem para vir.

Madalena: O que resolve a grande maioria dos problemas é a mobilidade dos nossos interesses. Quando a atenção e desejos se transferem de uns objetos para outros. O tempo ajuda ao distanciar-nos de umas coisas e a aproximar-nos de outras. Por princípio, os nossos desejos incidem mais sobre os objetos que se encontram dentro da nossa esfera de alcance afetivo. Ainda que apenas de uma maneira potencial e não alcançável. Não há dúvida que o distanciamento desvaloriza as coisas. Mesmo a dor. Sim. O tempo também altera a dor. Ou pode acabar com ela de vez. Mas existe aquela dor que não morre como decai o amor. Basta que o efeito do tempo confirme que se foi vítima inocente de uma agressão injusta e sem motivo atendível. São estes os casos que não conhecem o perdão. Não é possível perdoar algo que não se compreende. Ou melhor, não é possível perdoar algo inaceitável. E quem não pode perdoar não esquece. Assim, a dor apenas está como que sedada. E neste caso é apenas isto que o tempo é capaz de fazer à dor.

Teresa: Não, Madalena. Tu não falas de uma dor viva adormecida mas de rancor. O tempo faz-nos compreender a razão da dor e ajuda-nos a encontrar antídotos para acabar com ela. O pior é quando se coloca no lugar da dor sentimentos de outro género como o ressentimento. Há quem não aguente o vazio. A morte da dor dá temporariamente lugar ao vazio. Há quem não o suporte e o preencha com o ressentimento sem dar uma oportunidade à própria vida. Acredito que é o ressentimento que contraria o percurso natural que leva ao perdão. E, como dizes, quem não perdoa não esquece.

Madalena: Era o que me faltava. Ouvir-te falar da dor e em dar oportunidades à vida. Se eu não te conhecesse, se eu não soubesse... A propósito, a tua filha tem agora vinte anos, não é? Os mesmos que nós tínhamos. Tem namorado?

Teresa: Não sei para que estás a chamar a Clara para este assunto. Nem vejo o que tem ela a ver com as tuas lamentações. De qualquer modo, não vamos compará-la a nenhuma de nós. Sobretudo não vamos compará-la contigo. Espero que compreendas que tenho certas expetativas para a vida da minha filha.

Madalena: Não vamos compará-la comigo? Mas quem pensas tu afinal que és? O que te cega? Como é possível que não compreendas que as tuas atitudes, o que dizes é ofensivo. Tu não podes acreditar que chegas aqui a minha casa como quem saiu ontem. Não percebes que eu não te queria ver, não me lembrava de ti para te querer ver, Teresa? É até possível que não compreendas que fazes mal às pessoas. Talvez porque não te aches capaz disso ou não entendas a dor para além da que se assemelha à tua. Eventualmente, para ti, o mundo e os outros sejam da forma dos teus olhos.

Teresa: Pensei que o tempo te tivesse ajudado a ver as coisas com outro distanciamento. O que te fiz eu afinal?

Madalena estava sentada no sólido sofá sangue de boi. Levantou-se de um salto porque não suportou mais o contacto das almofadas de veludo contra o seu corpo. Quando falou, atirou as mãos na direção de Teresa.

Madalena: O que me fizeste?

Teresa: Eu apenas fiz uma escolha na minha vida. Estava no meu direito. Porque tenho de pedir perdão?

Madalena: És tão cruel que chegas a ser imbecil!

Respirou fundo. Virou-lhe as costas e afastou-se uns passos. Depois girou de volta ao sofá e sentou-se lentamente.

Madalena: Tu tens que me pedir perdão porque disseste e fizeste como se me amasses e me deixaste para ir casar com o Diogo. Porque eu te amava. E tu deixaste-me sem explicações ao fim de dois anos em que o melhor que a vida tinha para nos dar começava e acabava em nós. Pelo menos para mim era assim. Para ti creio que não.

Teresa: Para mim também era assim. Mas...

Madalena: Cala-te! Depois daquela tarde lá em tua casa não me falaste mais. Deixaste de me atender o telefone. E passaste a evitar-me. Como se andasses a fugir de mim. Aliás, começaste a fugir de mim. Desde aquele dia que trocaste apenas meia dúzia de palavras comigo na rua. E sempre para me afastar. Ao fim de seis meses apareceste aqui. Como hoje. E eu atendi-te. Claro. Vieste informar-me que estavas grávida dele. De quase seis meses. Pois eu não imaginava sequer que existia um homem nas tuas proximidades. Lembras-te como foi, Teresa? Eu não poderei esquecer. E não é só o ressentimento que não me deixa. É mesmo a dor extraordinária que tu me impuseste naquele dia. Não te passava pela cabeça abortar e ainda menos ter um filho sem pai para viver com uma mulher. Eram as coisas que me dizias.

Parou para respirar e continuou.

Madalena: Eu confiava em ti de um modo suicida. Acreditava que te conhecia tão bem como a mim mesma. E se eu não me conhecia nada bem. Aos vinte anos quem se conhece, com vinte anos o que se sabe? Enfim, não sabia realmente muito. Mas estava certa que podias confiar em mim cegamente. O pior é que achava que tu eras como eu. Ainda hoje, olhando para ti lá atrás, não compreendo como foste capaz de o fazer. Não compreendo aquela pessoa que tu eras.

Interrompeu-se. Pareceu-lhe que Teresa estava a ponderar ir-se embora. Levantara-se há poucos segundos e estava virada para a porta. Mas manteve-se apenas de pé. Adivinhava-se que afinal Teresa não conseguia dar um passo. Madalena levantou-se de novo.

Madalena: Tu vieste quase solene. Falaste em mudar de vida. Trataste-nos como uma brincadeira da pós adolescência. Disseste que era importante metermos juízo na cabeça. No princípio pensei que estavas a brincar. Fui tomada por um histerismo quieto e silencioso. Foi porque te vi a expressão um bocadinho dura demais. Como quem está a tentar representar. Lembro-me de me rir para ti. Mas afinal, não. Ou sim. Estavas a representar um papel. Mal. Mas era o que querias encarnar. Avançaste sobre mim como se comandasses um rolo compressor. Trataste-me tão mal, Teresa. A partir daquele dia, disseste, não nos veríamos mais. Ias casar o mais rápido possível. Explicaste como tudo se iria passar. E eu ouvi tudo. Depois saíste. Eu não disse quase nada. Só chorei. Mais nada.

Riu-se.

Madalena: Sabias que eu já estava doente? É verdade. Depois ainda fiquei pior. Emagreci demasiado. Não conseguia comer nada. Cai de cama. Não me conseguia mexer. Os médicos diagnosticaram-me depressão e deram-me uns remédios para isso. Não sei o que foi. Só que não conseguia imaginar-me a viver sem ti. Mas ao fim de algum tempo decidi parar de tomar comprimidos e começar a viver o melhor que pudesse. Muito mal. Tu não voltaste a aparecer. Nem para saber como eu estava. Apesar de tudo, achei na altura que devias imaginar que eu estava a morrer. Mas não. Nunca apareceste. Nunca imaginaste nada, portanto.

Teresa: Enganas-te. Em quase tudo te enganas. Se na minha cabeça sobrou pouco espaço para o teu sofrimento foi porque a dor horrível que sentia tomou conta de mim inteira. A dor de te perder para sempre. Esta dor... Tu não sabes. Imaginas que fiz tudo com leveza. Mas eu simplesmente já não podia voltar atrás. Fui ultrapassada pelos acontecimentos.

Madalena: Ora, Teresa! Não te dava jeito nenhum voltar atrás. Tu engravidaste porque quiseste. Não houve acontecimentos que te passaram à frente. Aconteceu tudo como planeaste desde que conheceste o Diogo. Querias casar e ter um filho.

Teresa: E isso faz-te pensar que não sofri por nossa causa? Por causa do nosso amor que matei? E voltar atrás como? Eu fiquei grávida logo da primeira vez que fiz amor com ele. É certo que foi um desejo meu. Mas estava errada. Compreendi logo que estava errada. Mas e depois, o que fazer? Podia terminar tudo com ele e contar-te que tinha cometido um erro? Eu amava-te tanto Madalena. O meu amor era como o teu. Só não lhe dei o devido valor a tempo. E quando dei, já estava tudo estragado. Já tinha dormido com ele. Já estava grávida, entendes?

Madalena: Não deste o devido valor? Cometeste um erro? Não! Tu és uma heterossexualista e uma homofóbica. E se há um sentimento forte dentro de ti é esse. No fundo, tu sempre detestaste o amor que havia entre nós. Enfim, mas se tu podias casar dando o passo definitivo para fora da minha vida era porque realmente podias viver sem mim. Por isso, logo que pude, resolvi que haveria de conseguir sobreviver sem ti. Mal cheguei a Coimbra conheci uma miúda como eu. Mas saudável. E eu precisava tanto! Pela primeira vez na minha vida vi-me na circunstância de ter que usar alguém. Porque tu não me saias da cabeça. Durante anos da minha vida pensei em ti todos os dias, sonhei contigo todas as noites, chorei por tua causa constantemente. Eras como uma ferida em carne viva sempre a sangrar. Cheguei a rezar, a pedir a Deus para te queimar. Ela esteve comigo nesses momentos. Eu dizia-lhe que já não te amava. E era verdade. Mas o que lhe importava isso se eu era incapaz de a amar? Eu era uma espécie de deficiente emocional. Um dia foi-se. Alguns anos depois, chegou a fase em que eu já desejava honestamente entregar-me. E no entanto não era capaz. Não confiava em mim. Como foi possível enganar-me tanto contigo? Como podias ser a pessoa cruel e desprendida e sei lá o que mais de mau que tu és?

Teresa: Não é verdade, Madalena. Eu não sou isso. Tu não queres compreender.

Madalena: Eu devia ter compreendido que as mulheres eram a maldição da tua vida. Tudo por causa da tua mãe.

Teresa: Para que vem isso agora, Madalena? A minha mãe não tem nada a ver com a nossa estória. Não mistures as coisas, por favor.

Madalena: Escuta Teresa, na altura em que me contaste o que aconteceu depois de ela nos apanhar lá em casa eu não tinha estofo para te dizer nada. Mas hoje é diferente.

Teresa: Por favor, Madalena. Não fales na minha mãe. Deixa isso. É verdade que eu te amava. Mas também é verdade que fui para o teu amor contrariada. Como se me estivesse a trair. A dar um golpe nos meus princípios e propósitos para a vida. Tu és uma mulher. Na altura, uma menina como eu. Tinha de ser um sentimento de segunda qualidade. Eu olhava para o futuro e não via o futuro. A nossa felicidade era fácil. Demasiado fácil.

Madalena estava agora num profundo silêncio. O tempo passou. Aprendeu muitas coisas. Mas afinal ainda não tinha compreendido tudo o que era preciso. A verdade é. Independentemente do que nós desejemos que seja. A verdade é como é. E é muito difícil abarcá-la. Sobretudo se as coisas nos dizem respeito. Se os nossos, desejos, anseios, nervos, dores, frustrações, convicções, hábitos, preguiça e as nossas razões se intrometem.

Madalena: Era o que eu dizia. És uma homofóbica. Eras e és.

Teresa: Tinha esperança que o tempo nos ajudasse. A mim e a ti. A ver. Pensei nisso antes de vir. Se o tempo sozinho pudesse ter resolvido tudo, não viria. Seria talvez melhor para nós. Mas não. O tempo não tem assim tanto poder. Por isso acabei por vir mais ou menos tranquila. Houve um dia, alguns bons anos depois de nos separarmos, em que me deixaste em paz. Convenci-me de que seria para sempre. Estavas fora. Não me cruzaria contigo por ai. Era como se, fora do meu contexto de vida, tu não pudesses existir. Esta foi uma boa fantasia. Ajudou-me a empurrar-te para a dimensão dos sonhos. Das coisas que não são reais aos olhos de mais ninguém. Que apenas vivem dentro das nossas cabeças e são por isso os nossos mais bem guardados segredos. Trata-se por definição do nosso mundo impartilhável. Ninguém sabe, pelo que não é possível obrigarem-nos a falar dele e das coisas que por lá vivem. A certa altura, nem nós próprios. Se existe alguma coisa genuinamente pessoal, própria, está nesse mundo. E tu estiveste lá todos estes anos. Mas bastou que voltasses. Saltaste cá para fora e ficaste tão grande. Ocupaste-me toda.

Madalena: Não te via há tanto tempo. Estás uma mulher.

Teresa: Temos quarenta anos.

Madalena: Confesso que já não te esperava. Queres almoçar?

No início do almoço dispensaram a conversa de todos os compromissos. Havia uma certa necessidade de descansar. E fizeram-no pelo tempo que lhes permitiu as ânsias dos espíritos outrora massacrados. Depois, Teresa sucumbiu à necessidade e disse:

Teresa: Sempre te amei. Nunca amei mais ninguém. Ainda te amo. Por isso estou aqui para ser perdoada. É fundamental. Se tu quiseres. Não tenho esperanças de nada porque não há nada que eu queira de ti para além disso. A minha vida é diferente da tua.

Madalena: Tu não me amas. Estás só parada no tempo. Não sei se te perdoo. Para isso era necessário não só compreender-te como aceitar-te. E eu não te aceito. Porque tu não te aceitas. És uma hipócrita, sabes? Para mim era melhor perdoar, de facto. Seria a única forma de deixar de estar ligada a ti. O que me liga é a dor e não o ressentimento, como tu muito bem disseste.

Teresa: Não sou hipócrita, Madalena. Gosto de homens. Mais do que de mulheres. Os homens são criaturas simples. Eventualmente porque a sua intuição não anda por cantos profundos, obscuros, desnecessários. Acredito que o imaginário masculino está mais nitidamente delimitado do que o das mulheres. Por isso raramente entram em campos de dúvida, de incerteza, em matérias que têm a ver com as emoções. É muito mais fácil compreender o que quer um homem.

Madalena: Que ridículo. A orientação afetiva não tem nada a ver com essas coisas. Os homens são diferentes das mulheres, claro. Há quem goste de homens. Há quem goste de mulheres. Tu, quer queiras ou não, és lésbica, abordas os homens com a tranquilidade de quem nada deseja. Eles não têm o poder de te envolver ou comprometer decisivamente. Sendo assim, é mais fácil para ti ver o bom e o mau da pessoa. Ver a própria descomplexidade do ser que tens na frente. Quem te dera gostar de homens. Mas não gostas. Assim, gostas mais de homens do que de mulheres. Lamento, Teresa mas a culpa não é das mulheres, nem dos homens. Nem tua. Aliás, porque há-de haver culpa?

Teresa: Sim. Tens razão. Desculpa. Realmente o teu discurso não está cheio de coisas novas para eu aprender. Os meus últimos vinte anos foram meus. Eu sei melhor do que ninguém. Porque vivi isso. A desorientação afetiva. Talvez o nosso amor quando aconteceu tivesse bastado para eu saber desde logo tudo isso. E bastou. No entanto, a Clara... Por ela acreditei que não era possível emendar a mão.

Madalena: Pois. É aquela coisa de que por um filho todos os sacrifícios se justificam e são poucos. Essa ideia, não é?

Teresa: É. Não compreendes, certo? É porque não sabes o que é.

Madalena: Não sei, Teresa. Realmente não sei.

Teresa: Tenho de me ir embora.

Madalena: E voltas? Voltas. Quase de certeza que sim.

Teresa: Volto.

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