Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

Azul - Cap XV


Cat2007

18.09.16

Ao fim de uma semana de aulas, Joana já era amiga de Clara. Foi na mesma altura em que começou a andar com Madalena. E contou-lhe tudo. Clara apenas se impressionara com a diferença de idades. Por isso aconselhava Joana, tentando evitar-lhe dores que se adivinhavam.

Joana estava agora muito triste por causa de Madalena. Ainda não contara nada a Clara. Lembrou-se dela e os seus pensamentos viraram-se para a mãe. Que afinal era lésbica. E foi para a cama com Madalena. Que coincidência absurda.

No dia em que Teresa apareceu à porta da faculdade, lembrou-se imediatamente dela. A mulher mais bonita que já vira. Por isso ficou tão embaraçada ao descobrir que era mãe de Clara. Na altura, não compreendeu porque foi ela tão anormalmente antipática. Só porque lhe tinha sorrido à saída do prédio de Madalena? Não. Claro que não. Já naquela altura Teresa sabia que ela era namorada de Madalena. E Teresa já tinha ido para a cama com Madalena. Além de tudo, devia estar apreensiva por causa de Clara. Clara não sabia de nada. Joana tinha a certeza.

Clara costumava falar da mãe. Ainda há poucos dias lhe dissera que Teresa “é uma mulher de convicções e que está absolutamente certa da virtude delas. Fia-se com firmeza no que é justo e naquilo que é correto, agindo sempre nessa conformidade. Por isso fascina. Ela diz que, se tem força, esta surge-lhe da sua razão moral”. Joana ficou também a saber que a mãe de Clara “respeita ao milímetro as regras da sua moral. Sempre”. Clara adiantou ainda que tal moral era interpretada de acordo com a sua extraordinária capacidade lógica e consistia na obstinação de agir, em todos os casos, de acordo com os mais elementares princípios universais do bem e da justiça. Joana pensava agora que Clara sabia muito pouco da mãe.  

Ontem, quando as viu perto um da outra, a sua impressão imediata foi que Clara era igual à mãe. Nos gestos. No modo e na forma de falar. E nas expressões faciais também. Foi, de resto, isto que a induziu a pensar na possível identidade de caráter. Tudo graças ao poder dos genes. Porém, viu logo em seguida que os rostos de cada uma não tinham muitos traços comuns. Apenas um ou outro. Afinal, nem a voz era verdadeiramente parecida. A de Clara não chegava a ser tão forte e rouca como a da mãe.

De facto, Teresa era mesmo bastante diferente da filha, refletiu Joana. Notara que toda a sua atitude se sustentava num porte natural e tranquilamente altivo. Tinha ainda a particularidade de olhar sempre em frente. Com uma espécie de firmeza não ostensiva pegava nas pessoas pelos olhos. Como lhe fizera. No entanto, estranhamente, parecia que não ia ao fundo. Joana arriscou pensar que ela não estava interessada em ver os segredos dos espíritos. Os caminhos que cada um traça na sua vida. E as suas razões. Talvez não visse necessidade nisso porque apostava em preservar cuidadosamente a sua esfera privada. Era por isso que não tinha vontade de se meter nas particularidades da vida dos outros. Nem interesse.  Era natural que considerasse mais relevantes os fios nítidos do pensamento. Talvez confiasse neles independentemente da sua natureza boa ou má porque Teresa deveria estar à vontade nestes domínios. Joana apostava que ela chamava as pessoas para esse campo, recusando-se a entrar noutros. Definitivamente não gostava dela.

Encontraram-se no dia seguinte de manhã nas aulas. No primeiro intervalo conversaram um bocadinho. Joana contou a Clara o que tinha sucedido com Madalena.

Joana: Fui lá a casa ao almoço.

Clara: Eu sabia que afinal sempre tinhas mais e melhor a fazer do que vir almoçar comigo e com a minha mãe. Mas tu não tinhas dito que não ias ter com ela porque tinhas que começar a afastar-te?

Joana: Disse, mas não resisti. Sinto uma atração terrível por ela. A questão é que ela me despachou.

Clara: Ela está sempre a despachar-te.

Joana: Não. Desta vez foi de vez. Ela foi para a cama com um amor antigo. Disse-me que era alguém da idade dela. Que sentia equilíbrio. Comigo era essencialmente uma afirmação de juventude. Quero dizer, eu alimentava-lhe o desejo de juventude. Também disse que eu sou bonita. E que isso ajudava. Mas que não me amava. Nem sequer estava apaixonada por mim.

Clara: Mas isso não é novidade. O que é novo é o aparecimento dessa outra. Foi por causa da outra que ela te deixou. E ainda bem. Só faltava que ainda andasse com as duas ao mesmo tempo.

Joana: Ela disse-me que não andava com ela. E também que não sabia se a amava. É um caso mal resolvido, enfim.

Clara: E agora?

Joana: Agora estou triste e com a autoestima completamente em baixo.  E sobretudo tenho saudades do corpo dela. Da pele. Do cheiro.

Clara: Mas também tens dignidade. Por isso vais levantar a cabeça e seguir em frente. Eu estou aqui ao teu lado. E, pelo amor de Deus, isso durou um mês. Nem tu própria estavas verdadeiramente apaixonada por ela. Caso contrário, não te tinhas divertido tanto. Afinal ela estava sempre a rejeitar-te.

Joana: Sim. Mas eu pensei que era ela a fazer género. Porque me imaginava irresistível por ser jovem e bonita. E a verdade é que ela acabava sempre na cama comigo, como eu queria.

Clara: Pronto. Mas agora acabou-se o brinquedo. Trata de ter juízo. Já não há corpo, pele e cheiro. Agora vais ficar uns tempinhos de ressaca e depois tudo se vai normalizar.

Joana: Tens razão. Mas eu queria só mais um bocadinho.

Clara: Não querias nada. Além do mais ela é tua professora. Isso tinha que terminar o quanto antes. Já te tinha dito.

Joana: Pois tinhas. Mas isso também me atraia.

No fim das aulas almoçariam juntas, uma vez que era necessário preencher o vazio que Madalena deixara para aquela hora específica do dia.

Enquanto falaram de Madalena, Teresa esteve sempre na cabeça de Joana. Queria contar tudo a Clara. Sentia-se desonesta com ela. Mas obviamente não podia. No entanto, o pior, no que toca à sua capacidade para ser desonesta e egoísta, foi o jogo que se dispôs a jogar.

Joana: E como está a tua mãe?

Clara: Está ótima. Aliás, ela falou um bocado de ti ao almoço. Disse que eras giríssima, simpática e que parecias madura demais para a tua idade.

Joana: A sério?

Clara: A sério. Acho que ela, à sua maneira, simpatizou contigo.

Joana: À sua maneira? O que é isso?

Clara: A minha mãe não se dá com muita facilidade às pessoas.

Joana: Pois. Eu notei. Desculpa dizer-te mas ela pareceu-me bastante fria.

Clara: Não ligues. É o temperamento. Mas, já te disse, minha mãe é uma excelente pessoa.

Joana: Sim. Já sei. E também é uma espécie de escrava da verdade, não é?

Clara não notou o toque de ironia.

Clara: Sim. A verdade primeiro do que tudo.

Clara fez uma pausa. Ficou pensativa. Depois falou.

Clara: Sabes, eu acredito que tudo o que a minha mãe tem de extraordinário lhe sai pelos olhos. São uns maravilhosos olhos azuis, não achas?

Nesse instante passou-se qualquer coisa com Joana. O jogo terminou abruptamente porque Clara assim fez. Joana lembrou-se que também tinha olhos azuis. Ficou embaraçada. Não respondeu. Clara fizera aquela observação. Parecia que o azul a maravilhava. Não era dos seus olhos que falava. Mas parara um instante o seu olhar escuro sobre eles, cobrindo-os pelo tempo suficiente. Joana rogou-lhe mentalmente que continuasse a falar. Que saísse do assunto sobre o azul. Não obstante, num gesto voluntário de falta de solidariedade não consciente Clara continuou no mesmo tom.

Clara: É por isso que tentarei sempre alcançar aquele azul. Um dia talvez consiga. Se acontecer, será como que ficar com os olhos azuis da mãe para mim para sempre.

Joana: Não compreendo…

Clara: É evidente que isto é uma fantasia. Um sonho. Olha, talvez o único verdadeiro que alimento. Mas a verdade é que, sendo um sonho, é por definição irrealizável.

A confusão de Joana transparecia. Clara tentou esclarecê-la. Joana deixou de querer interrompê-la.

Clara: Para dizer a verdade, acho que não chegarei a ser como ela. Nem me parece que seja esse o meu desejo. Apenas quero aproximar-me o mais possível de certas qualidades que possui. Como o seu sentido de honestidade, de justiça e de coragem, quedando-me assim perto do sonho.

Joana respirou. Finalmente compreendera Clara. Ela só queria ser como a mãe, igualando-lhe aquilo que ela imaginava serem as suas melhores qualidades. Teve pena dela.

AZUL - Cap XIV


Cat2007

18.09.16

No fim dessa tarde Teresa ligou a Madalena.

Teresa: Posso passar ai hoje à noite?

Madalena: Podes. Convido-te para jantar.

Teresa: Obrigada. Preciso de falar contigo sobre um assunto importante.

Madalena: Queres adiantar alguma coisa?

Teresa: Não.

Madalena: Está bem. Até logo.

Pelo tempo que passou até à hora de jantar Teresa não conseguiu concentrar-se em nada. Clara gostava dos seus olhos azuis. Desde sempre. Não era isso que a incomodava mas o que a filha queria dizer com a referência aos olhos de Joana. Disse que eram parecidos com os seus. Quase iguais. O que se passava entre elas? A que propósito Clara era amiga de Joana. E Madalena saberia?

Madalena: Entra.

Teresa: Estou uma pilha.

Madalena: O que se passa?

Teresa: Afinal quem é essa miúda, a Joana?

Madalena: Como assim?

Teresa: Vá lá!

Madalena: É a miúda que tu viste entrar no prédio no outro dia. Já te falei dela.

Teresa: Ela anda com a minha filha.

Madalena: Anda com a tua filha?

Teresa: Sim. Sei lá. São amigas. Colegas de turma, acho eu.

Madalena: Tens ai alguma fotografia da tua filha? Mostra.

Teresa mostrou.

Madalena: É bonita. Mas não. Não conheço.

Teresa: Como não conheces? Elas são da mesma turma. Tenho a certeza. Ora, tu és professora da tal Joana.

Madalena: Sim. Mas só lhe dou uma cadeira de opção. De resto, já nem ando com ela. Esteva cá hoje. Veio almoçar comigo. Expliquei-lhe pela milésima vez que não estou disponível. Disse-lhe que fui para a cama contigo. E que não queria ir mais para a cama com ela. Em resumo foi isto.

Teresa: Foi por minha causa?

Madalena: A nossa estória é complicada. Nada tem a ver com ela. Disse-lhe de ti porque isso me ajudou a soltar-me dela. Mas já estava decidida a acabar. Mesmo antes de tu me apareceres aqui. A miúda ficou um bocadinho em baixo. Mas não creio que estivesse apaixonada por mim. Apaixonada a sério, entendes? Tinha uma atração física e um encantamento por eu ser mais velha, professora dela, essas baboseiras. Claro que a rejeição lhe vai fazer mal. Mas a quem não faz? De qualquer modo, ela tem uma cabeça muito saudável. Por isso vai ultrapassar a tristeza rapidamente. Aliás, a nossa estória não teve história. Durou para aí um mês.

Teresa: Muito bem. Mas para o que importa é que essa miúda é lésbica. E agora anda de um lado para o outro com a minha filha.

Madalena: E achas que se pega?

Teresa: Madalena, por favor, esforça-te para não me irritares. E se ela se atira à Clara?

Madalena: talvez ela se atire à Clara ou talvez não. Sabes que as lésbicas também têm amigas. Além do mais, a Joana está triste por minha causa. Não creio que se vá atirar a ninguém para já. Acresce que é uma miúda bem formada. Não estou a vê-la a criar um esquema para seduzir uma heterossexual inexperiente. A tua filha é uma inexperiente, não é? É tua filha.

Teresa: Nem nunca lhe conheci um namorado. As estórias dela nem chegavam a começar. Ela contava-me. Dizia que as coisas perdiam o encanto. O que ela gostava era de estudar e de fazer desporto. Depois dizia que me tinha a mim e que o primeiro amor não podia ser uma coisa banal. Por isso não teve sexo até hoje.

Madalena: Logo vi. Fizeste um ser à imagem daquilo que pensaste que a tua mãe queria que tu fosses.

Teresa: A minha mãe amou-me como eu de facto era. Mas só percebi isso tarde demais. Mas deixando a minha mãe de parte, o que me interessa agora é proteger a minha filha. Ela não passa de uma ingénua. E com a falta de experiência que tem, até se pode deixar encantar.

Madalena: Já te disse que a Joana jamais se aproveitaria de uma situação dessas. Mas imaginemos que acontecia alguma coisa, qual seria o problema?

Teresa: Qual seria o problema? Eu não criei a minha filha para isso. Passei vinte anos da minha vida a esforçar-me para ser um exemplo para ela. Por ela não voltei atrás… por ela… Ora bolas! O que se passou entre nós é gravíssimo.

Madalena riu-se.

Madalena: Entre ti e mim, é gravíssimo? Explica lá isso melhor.

Teresa: É o que te disse. A minha vida não podia ser diferente por causa dela. E…

Madalena: A tua vida não podia ser diferente por causa de ti. Já te disse. O horror que tens à tua homossexualidade é que te impediu de viver. Por outro lado, agora temes que a tua filha possa ter a mesma orientação que tu. Seria uma grande ironia. É que, caso tenha, tu não a vais deixar viver igualmente. A homofobia torna-te burra.

Teresa: Mas tu não entendes… Eu só quero que a minha filha seja feliz.

Madalena: Claro. Anda, o jantar já está pronto. 

Teresa: Essa Joana nunca te falou na Clara?

Madalena: As aulas só começaram há um mês. Falar não falou. Mencionou que tinha conhecido uma rapariga da idade dela mais ao menos ao mesmo tempo que me conheceu. E que achava que aquilo era capaz de vir a dar numa boa amizade. Não me lembro que tenha feito mais algum comentário.

Teresa: Com certeza. Andava doida contigo. Mas agora está livre…

Madalena: Não me obrigues a repetir-me. Não acredito que a Joana esteja disponível. E também não a estou a imaginar a meter-se com uma amiga. Isso é ridículo. Bebe vinho.

Teresa: Não, obrigada. Hoje é só água. Quero estar em casa sóbria. Talvez converse um bocadinho com a Clara sobre a Joana. Depende da disposição com que ela chegar a casa.

Madalena: Muito bem. Por acaso pensei que ias ficar comigo até tarde.

Teresa: Por acaso eu não estava a pensar nisso hoje. Foi um dia mau.

AZUL - Cap XIII


Cat2007

18.09.16

Naquele dia Teresa decidiu ir buscar a filha à faculdade. Viu-a ao longe ao lado de uma colega. Saiam juntas. Num gesto automático, endireitou-se no banco do carro. Vislumbrou imediatamente um cabelo loiro apanhado. Ao longe distinguiam-se perfeitamente os gestos. O coração de Teresa acelerou. Agora que já estavam ali mesmo a um metro podia ver a cara dela. Os olhos azuis. As sardas cor de laranja. A rapariga sorriu-lhe timidamente. E baixou imediatamente a cabeça. O coração de Teresa batia perto da boca. Emudeceu quando tentou dizer alguma coisa. Sentiu uma vontade enorme de meter a filha dentro do carro e fugir dali com ela. A verdade é que também estava paralisada. Joana continuava a olhar para o chão. Clara sorria abertamente feliz.

Clara: Olá mãe. Esta é a minha amiga Joana. Somos da mesma turma.

Teresa estava gelada. Mostrou um sorriso pela metade. E olhou-a bem dentro dos olhos.

Teresa: Como vai, Joana?

Joana: Como está?

Teresa mantinha-se ao volante do carro sem fazer menção de sair. Por isso nem um beijo ou mesmo um aperto de mão. Joana vacilou com os olhos. Mas depois enfrentou. Teresa pensou em Clara. No que ela poderia estar já a pensar. Mas concluiu que os poucos segundos calados de observação recíproca com Joana não foram incomodativos para a filha, que nem sequer deu conta deles. Com efeito, Clara estava do lado de lá daquela ténue fronteira de energia que se instalara. Daí o convite sossegado:

Clara: Olha, a mãe vem buscar-me para almoçar. Se nos quisesses acompanhar…

Joana respondeu de forma rápida e convincente.

Joana: Obrigada, Clara. Mas fica para outra ocasião. Tenho um compromisso precisamente para o almoço.

Clara conhecia perfeitamente os compromissos de Joana naquele dia. Que, para o almoço, não existiam. Por esta razão, uma certa espécie de angústia tocou-lhe o peito. Depois esqueceu-se dela. Da angústia.

Teresa: É pena. Mas teremos certamente outras ocasiões para conversar.

Joana: Com certeza.

Já a sós com a filha, Teresa testou.

Teresa: Quem é esta tua amiga? É giríssima. Que idade tem?

Clara: A mesma que eu. Vinte. Acho que é mais velha uns meses.

Teresa: Parece ter mais. Que postura admiravelmente madura.

Clara: Talvez tenha lido livros a mais.

Teresa: Leu livros a mais? Que sabes tu da vida da pequena, Clara?

Clara: Sei que é muito simpática e que se farta de ler.

Teresa ia descomprimindo.

Teresa: Não te sintas afetada. Tu também lês muitos livros.

Clara: Não tantos como ela. Eu leio os livros que preciso e os que me interessam.

Teresa: Nem tudo se aprende nos livros. Tu sabes.

Clara: Mas talvez se entendam algumas coisas que de outra forma não podíamos saber.

Teresa percebeu uma amargura fina na voz da filha.

Teresa: Eu sei. Sempre me esforcei. Esforcei-me muito. Tu sabes.

Clara: Sei, mãe. Não se preocupe. E por favor pare de dizer “tu sabes”.

Teresa riu-se. Depois ficou séria.

Teresa: Eu cometi erros.

Insistia. Nunca ficava inteiramente descansada quando tinha de falar sobre o assunto. A ideia da culpa de ter estado muitas vezes ausente enquanto a filha crescia intranquilizava-a. Gostaria de ter feito melhor.

Clara: Talvez. Embora eu não tenha visto nenhum muito grave.

Ficaram caladas por um instante. Depois Clara retomou.

Clara: De qualquer modo, eu também amadureci um bocado sem si. A mãe sabe.

Riu-se porque disse “a mãe sabe”.

Clara: Na sua forçada ausência aprendi a resolver muitos problemas da minha vida de criança, e depois de adolescente, sozinha.

Teresa: Eu sei. Mas não achas que tive mérito quando fui capaz de te fazer compreender desde muito cedo porque não podia estar mais tempo contigo?

Clara: Como eu tive mérito em perceber, apesar de ser tão pequenina.

Teresa: Os louros são todos teus, então?

Clara: Nem pense. Hoje vejo como foi importante perceber na altura porque não estava comigo. Foi por isso que não tive medo. Nunca me senti abandonada por si.

Teresa relaxou os músculos e sorriu com benevolência.

Clara: Mas hoje em dia a mãe podia fazer melhor.

Teresa: Clara, tu já és uma mulher.

Clara: Talvez mas continuo a precisar de si. De outra forma, é claro. Mas continuo a precisar da sua companhia. E a mãe está sempre metida naquele ninho.

Teresa riu-se.

Teresa: Que ninho, o escritório?

Clara: Não estou a brincar, mãe. Mas deixe lá isso. O que importa é que podíamos ser as melhores amigas.

Teresa: Ai sim? Pois deixa-me lembrar que as mães e as filhas não devem ser as melhores amigas. Deve existir amizade mas ser mãe é ser mãe, ser filha é ser filha e ser amiga é ser amiga. O estado simples de amigo implica aceitar a contingência. A possibilidade do fim. Ser mãe implica uma relação para o resto da vida com o seu filho. Mesmo nos casos extremos em que existem rompimentos. Tu não deves desejar ser a minha melhor amiga. Eu tenho um papel. Uma função fundamental. Não se podem misturar as coisas.

Clara: E por isso a mãe tem de estar num patamar superior a mim.

Teresa: Pois. Que remédio.

Clara: E quem toma conta de si, mãe?

Clara tinha noção da falta de inocência da sua observação.

Teresa: Ora, menina. Eu sou uma mulher feita. Já não preciso que tomem conta de mim.

Como a filha previra, Teresa ficou realmente incomodada.

Clara: É o trabalhinho, mãe. Não pense que me ilude.

Na verdade, era só aqui que Clara queria chegar. Por isso não adiantou mais nada. Sorriu à mãe com ternura. Teresa suspirou devagar. No entanto, a angústia do encontro com Joana não desparecera. Lembrava também Madalena. E o que acontecera. O que é que Clara estava a fazer com a namorada de Madalena?

Teresa: Bom, mas então, voltando à tua amiga Joana, penso que não foste justa com ela. Parece madura mas não será porque lê livros a mais.

Clara foi seca.

Clara: Talvez não.

Teresa: Porque te pões assim, filha? Tenho a certeza que gostas dela.

Clara: Gosto, mãe. Mas porque insiste tanto em falar da Joana?

Teresa: Clara, eu “não insisto tanto”.

Clara: Ela tem os olhos da mãe.

Teresa viu que foi um impulso. Uma tirada inconsciente sem objetivo muito bem definido. No entanto, perturbou-se.

Teresa: Da mãe… Que mãe?

Clara: Os seus olhos, mãe. Os seus. Ela tem uns olhos que lembram os seus. Reparou que é praticamente o mesmo azul?

Teresa assustou-se. Não compreendia o que a filha sentia para estar a dizer aquelas coisas.

Teresa: Ora, Clara. Deixa-te de disparates. O que queres dizer? Olhos azuis são olhos azuis. Mudam sempre de cor conforme a luz. Nem sempre estão azuis. E raramente são iguais.

Clara: Mãe eu estou de acordo consigo. A Joana não é uma pessoa vulgar.

Teresa: Enfim, uma menina simpática. Queres mais alguma coisa? Posso pedir a conta?

stats

What I Am

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.