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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XXI


Cat2007

20.09.16

Ouvia-se o silêncio através do som de um rádio ligado num sítio qualquer. Somos dois gritos calados. A música soltava-se nítida. Elas, porém, não ouviam. Estavam surdas de silêncios. As mentes perdiam-se de encontro ao objetivo traçado. Iam para casa. Para a cama. Fazer amor. You took a mistery and make me want it. A música que não se ouvia estava ali apenas para acompanhar os ritmos das emoções. As melodias vinham de qualquer lugar não definido. De uma emissora irreal. Por isso a estranha seleção musical.

Até as almas mais corajosas e aventureiras sentem pelo menos um respeito reverencial em relação ao desconhecido. Como se sairia do confronto com ele? Era nisto que Clara pensava. A verdade é que lhe doía a alma de uma forma física. Como se tivesse dores musculares. As violentas emoções que lhe vinham sendo impostas enfraqueceram-na. Via-se como uma criança desprotegida. Muito pequenina. Estava anormalmente fragilizada. Dependia enormemente de Joana. Tinha medo. Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão/ Dava prá ver o tempo ruir/ Cadê você? Que solidão /Esquecerá de mim e enfim/ De tudo o que há na terra não há nada em lugar nenhum/ Que vá crescer sem você chegar/ Longe de ti tudo parou/ Ninguém sabe o que eu sofri. A dor da separação ainda lhe tocava. A separação que imaginara num desejo forçado que não teve forças para realizar. Pertencia agora a Joana.  Joana não a via de fora para dentro mas ao contrário. Tinha mergulhado dentro dela, buscando-a nas profundezas do ser. Navegava no seu espírito para a ver melhor. No teu poema existe um verso em branco e sem medida/Um corpo que respira, um céu aberto/Janela debruçada para a vida/No teu poema existe a dor calada lá no fundo/O passo da coragem em casa escura/E aberta uma varanda para o mundo/Existe a noite, o riso e a voz refeita à luz do dia/A festa da Senhora da Agonia e o cansaço do corpo que adormece em cama fria/Existe um rio, a sina de quem nasce fraco ou forte/O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste/Que vence ou adormece antes da morte/No teu poema existe o grito e o eco da metralha/A dor que sei de cor mas não recito/E os sonhos inquietos de quem falha/Existe um rio, o canto em vozes juntas, vozes certas/Canção de uma só letra/E um só destino a embarcar no cais da nova nau das descobertas/No teu poema existe a esperança acesa atrás do muro/Existe tudo o mais que ainda me escapa/E um verso em branco à espera do futuro. Emergiu no fim da canção. Agora que tinha a sua imagem mais completa podia vê-la com toda a nitidez. Fixaram-se. O mesmo amor expelia pelos olhos energias convergentes. Era exatamente o mesmo amor. Clara deixou-se conduzir ao quarto e à cama. Foi a música que as levou. Aquela música que continuava a tocar dentro delas. As melodias que substituíam todas as palavras. Joana despiu-a, deixando-a completamente nua estendida sobre o edredão. Parecia-lhe que Clara acabava de morrer. Mais uma vez. Recuou então. Foi capaz de se afastar dela só para a ver. Clara deixou-se estar imóvel, fechando os olhos para não incomodar.

Joana estava de pé embriagada de espanto. Continuava vestida. Tudo em si parara. Tal como o mundo. You’re just too good to be true/Can’t take my eyes of you. Despiu-se. Manteve-se no entanto onde estava. De pé. Do mesmo modo. Clara abriu os olhos no momento em que virou a cabeça para ela. O sorriso foi-lhe transportado no movimento do olhar. Dos pés à cabeça de Joana. Viajara assim. You looked inside my fantasies and made each one como true/Something no one else had ever found a way to do. Estendeu-lhe a mão. Joana foi.

Tudo acontecia com a solenidade das grandes ocasiões. Dos eventos importantes. Olharam-se com a seriedade de quem preside a um ritual. Apenas as pontas dos dedos atuavam sobre a pele. Durante algum tempo foi assim. Talvez durante muito tempo. O sangue a ferver pulsava nas bocas, porém. Por isso o beijo interminável colou os corpos nus que se confundiram. E a música aproximou-se devagar. Au première temp de la valse toute seul te sorrit déja/ Une valse à trois temps. Une valse à quatre temps. Subia de tom. Une valse à vingt temps/Une valse à cent temps. Explodia. Une valse à mil temps/Une passion de vingt ans parsque tu as vingt ans et j’ai vingt ans. A paixão afrouxou um pouco para deixar respirar o amor através das bocas que buscavam ar uma na outra. If i coulda make a wish i think i’d pass/can’t think of anything I need/No cigarrettes, no sleep, no light, no sound/Nothing to eat/No books to read/Making love with you left me peaceful, warm and tight/What else could I ask there’s nothing to be desired/Sometimes all I need is the air that i breath and to love you. O que se tornava difícil de suportar era aquela alternância de emoções que mudava todos os ritmos intempestivamente, confundindo tudo. Sem possibilidade de contrariar nada, elas abandonavam-se. Deixavam os corpos vibrar de acordo com os sons. Entregavam as almas indefesas aos caprichos da música. Joana queria-lhe o corpo. Incendiava-a com o hálito. Molhava-a com saliva, acalmando-lhe a pele. Entrou pela virgindade dela e furou. Clara sentiu a devida dor. Depois Joana foi beber o sangue com devoção. Passou-lhe os dedos pela boca, pintando-lhe a boca de vermelho. Tu vieste em flor/Eu te desfolhei/Tu te deste em amor.

Joana: És minha?

Clara: Toda.

Joana: És boa.

Clara: Tu é que és.

Nenhuma delas sentia obscenidade no que acontecia. Nem uma ponta de vergonha.

Clara: Vem por favor. Faz tudo outra vez.

O mundo tinha o tamanho daquelas quatro paredes. Era essa a dimensão do universo. Aquele pequeno quarto. Os únicos seres viventes eram elas de modo que podiam dizer e fazer tudo o que queriam. Sem limites. Experimentaram.

Joana: Tens que pedir.

Clara: A sério?

Joana: Sim.

Clara falou-lhe muito baixinho.

Clara: Fode-me e chupa-me outra vez.

Joana: Tu não tens vergonha.

Clara: Tenho um bocadinho.

Joana rolou para cima do corpo dela mais uma vez. Clara fechou os olhos. Devora me outra vez, vem devora me outra vez. Por fim o prazer do amor recuperou completamente a vitalidade de Clara.

Clara: Agora vais ficar ai bem quietinha.

A bela amazona sentia-se novamente plena de vigor. Cheia do seu espírito guerreiro. Preparava-se para subir para a montada. Desejava cavalgar velozmente a sua égua. Queria-a sem freios. Deu-lhe de esporas. Ela empinou. Clara sentiu uma vertigem. Fê-la desenfrear numa correria. Sentiu-a a querer afrouxar. Não lho permitiu. Feriu-a nos flancos. A égua relinchava de dor. E sangrava. O animal acabou por disparar descontrolado como Clara desejava. Manteve-se habilmente na sela até a égua estacar completamente extenuada. Desmontou. Passou-lhe a mão pelo corpo derretido em líquidos de várias qualidades. Lambeu-lhe as zonas doridas. Engoliu-lhe as lágrimas uma por uma. O sal fez-lhe sede. Foi beber à fonte de água corrente. Ao lugar que no momento era o centro do seu universo. O seu mundo provisório. Joana enfiou os dedos nos cabelos dela e respirou fundo. Nobody does it better/Nobody does it half as good as you/Babe your the best. No fim Clara regressou à boca dela e sussurrou-lhe sobre os lábios.

Clara: Querida. Querida.

Joana: Diz, querida.

Clara: É só para te chamar querida.

Joana: Minha querida.

Pararam pelo tempo do leve cansaço. Voltaram depois no gesto amplo com que Clara alterou o cenário e deu novas falas ao texto. Parecia muito séria.

Clara: Tu tiraste-me a virgindade.

Joana apenas a olhou ardentemente. Não sabia falar. Clara pegou na mão dela e exibiu-lhe os dedos com réstias de sangue mesmo em frente ao azul dos seus olhos. Joana tocou-lhe o canto da boca com eles e declarou com solenidade:

Joana: Eu sou tua.

Clara: Sim.

Pararam. Joana franziu ligeiramente a testa.

Joana: Doeu, amor?

Clara: Nada. Não notei nada.

Joana: Parece que durantes estas horas passaram muitos anos.

Calaram-se. Os olhos de Clara seguiam figuras transparentes que lhe fugiam em direção ao céu. Joana tentou alcança-la.

Joana: Em que estás a pensar?

Clara: Estou a pensar que ainda não há muito tempo eu era uma pessoa diferente e a minha vida era outra.

Joana: Também eu era.

Suspirou, expirando algumas toxicidades.

Clara: Sim.

Joana: E agora como vai ser?

Clara: Agora talvez eu precise de te amar todos os dias a todas as horas para poder continuar.

Joana: Continuar a respirar?

Clara: Sim.

AZUL - Cap XX


Cat2007

20.09.16

Teresa não acalmava. Tinha que saber o que se passava entre a filha e Joana. Foi para casa mais cedo para esperar por ela. Encontrou-a de pijama na sala a mudar os canais da televisão.

Teresa: Então filha, tiveste uma recaída?

Clara: Sim. Não me senti muito bem hoje de manhã.

Beijaram-se.

Teresa: Mas não estás quente.

Clara: Não. Já não estou. Foi de manhã. E a mãe porque está em casa tão cedo?

Teresa: Porque também não me senti muito bem. Comi qualquer coisa que me caiu mal.

Teresa pensou que aquilo era só o início de uma nova etapa. Começava a mentir à filha. Naquela casa não se trancavam as portas há muitos e muitos anos. Ali também não se mentia. As vidas corriam desassombradas. Desde que Clara nascera. Teresa escondeu o passado anterior a esse evento. E agora que o passado regressara tinha de o voltar a esconder, mentindo. Como uma vez mentiu à sua mãe.

Clara: Vai-se deitar um bocadinho?

Teresa: Não. Já me está a passar. Foi a Joana que te trouxe a casa hoje? Não acredito que vieste de metro doente.

Clara: Vim de metro, mãe.

Teresa insistiu.

Teresa: E porque não te trouxe a Joana?

Agora Clara ia começar a mentir. Mas não se incomodou. Não era como a mãe no que respeita às questões da verdade. Mentiras de circunstância não entravam no trato delas, ao contrário do que Teresa gostava de imaginar. Por isso disse:

Clara: A Joana tinha um compromisso.

Teresa: Tinha um compromisso? Mas que raio de amiga é essa?

Teresa pensou imediatamente que Joana talvez tivesse ido ver Madalena à hora de almoço, como era costume. Por isso se irritou ainda mais.

Clara: Uma amiga que eu só conheço há um mês. Não ia incomodá-la por causa de uma febre sem importância. Porque se irrita?

Teresa prosseguia a mentir. Agora Clara tinha apontado a Madalena sem querer.

Teresa: Por nada. Só me preocupa que tenhas boas amigas. Ela é uma boa amiga?

Clara: É como lhe digo mãe, só a conheço há um mês. Não houve tempo. Aliás, a partir de agora nem vamos fazer mais programas juntas. Ela tem uma vida diferente da minha. Gostos diferentes. Outras amizades.

Teresa compreendeu que Clara sabia que Joana era lésbica. Certamente sabia também de Madalena. Agarrou-se à ideia do afastamento delas com todas as forças.

Teresa: Bem, quando não existem muitas afinidades entre as pessoas, o melhor é fazer assim.

Clara nem por sombras achava que estava a mentir. Afinal Joana é que era lésbica. Ela não. E, de resto, não tinha nada que ir contar à mãe sobre a intimidade da vida dos outros. Aliás, a mãe nem gostava de saber da vida particular das pessoas.

No dia seguinte Joana esperou que Clara aparecesse no bar da faculdade. Clara não a evitou quando ela se aproximou.

Joana: Estás boa?

Clara: Estou bem. E tu? Senta-te.

Joana sentou-se. Depois dirigiu-se a ela com decisão.

Joana: Olha, eu bem não estou. Já sei que não tens nada para me dizer e que não sentes necessidade de me ouvir. Acontece que eu tenho que te falar sobre aquilo que aconteceu no cinema.

Clara: Já te disse que percebo perfeitamente o que aconteceu. É para esquecer.

Joana: Está bem. É para esquecer. De qualquer maneira eu não estou bem desde esse dia. Não és capaz de me deixar dizer duas coisas e esquecer depois?

Clara: Muito bem. Fala, então.

Joana não falou logo. Disfarçava as mãos, cruzando os braços sobre o peito. E nada dizia que cortasse aquele silêncio que principiava a ficar ensurdecedor. Clara adiantou-se.

Clara: Olha Joana, eu tenho que te dizer que pensei um bocado em ti.

O que disse, disse sem querer. Sem ver. Sem pensar. Não era o que queria mas o contrário. Tinha jogado as palavras. Apercebia-se agora de que o fizera com o ânimo de quem, a perder, atira de novo os dados numa mesa de casino. Sem querer pensar nas probabilidades. Levada apenas por uma emoção descontrolada. “O que faço agora?”. Restava-lhe apenas agarrar-se a uma esperança. “Pode ser que ela não queira. Ela não quer”. Cabia afinal a Joana decidir tudo. “Mas como?”. Não raciocinava corretamente. Não sabia. Só que a decisão não lhe cabia a si. Perdera o poder porque a tinha autorizado a falar. “Ela não quer”. Agarrava-se a isto. “Vem só pedir-me desculpa.”. Ou Joana podia dizer outra coisa qualquer. Talvez pudesse inventar uma palavra mágica que as libertasse daquilo. Logo que tal palavra fosse dita, acordariam momentos antes de tudo ter acontecido. Antes da sua mão ter apertado a dela. E tudo estaria resolvido. Lembrou-se com terror que os dados rolavam ainda. Haveriam de parar. Clara sujeitava-se à sorte. De Joana não querer ou dizer magia. Qualquer das possibilidades parecia boa. Joana podia parar os dados. Ela ou a sua magia inventada. Mas em todo o caso só ela podia. Clara sabia bem que havia ainda outra coisa que podia acontecer. Mas isso, bom isso era a resposta dos dados. E a que número de pintas cravadas no dado correspondia esta última possibilidade? Ao sete? Clara não podia responder. Sabia lá se era ao sete que a sorte da sua vida estava ligada? E se saísse sete? Que significado teria? Bom ou mau? Mau. Evidentemente. E o que era bom? E mau? Já não sabia. Por isso só Joana tinha o poder de parar os dados. Ou deixá-los rodar. Veio-lhe à ideia a lembrança de que no casino sete é bom. Ali era mau.

Joana: Sim?

Os “lindos olhos” de Joana abriram-se ansiosamente sobre o próprio rosto parado.

Joana: Eu senti saudades tuas. Fugiste…

Clara: Sim.

Clara não a olhava mas para os dados. Ainda não tinham parado de rodar.

Joana: Exato.

Clara: Desculpa.

Joana: Eu sei. Neste momento sei. Não peças desculpa.

Joana riu-se mas o seu corpo estava imóvel. Riu-se por razão nenhuma. Porque mais nada lhe ocorreu. Riu-se porque não sentia outro poder sobre os músculos.

Clara: Está bem. Não peço desculpa. Mas porque não o devo fazer?

Joana: Porque eu sei. Porque eu não te peço desculpa por não ter corrido atrás de ti.

Clara: E devias?

Joana: Ficar ali na rua a ver-te fugir tem o mesmo significado da tua fuga.

Clara: Tem? Como sabes?

Joana: Só sei que tem o mesmo significado e que são as mesmas razões.

Clara: Não podes saber. Como podes saber?

Joana: Eu sei mais de ti do que esperava.

Clara: E eu de ti?

Joana: Sem dúvida.

Clara: Sem dúvida.

Joana: Eu gosto muito de ti.

Clara: E eu gosto muito de ti. E tu como gostas de mim?

Joana: Como tu gostas de mim.

Clara esperou por alguma coisa em si. Os dados há muito que tinham parado. Não olhou. Sorriu nervosamente. Levantou-se e começou a andar em passos largos e rápidos. De cá para lá e de lá para cá. Sete? Saíra sete? E qual seria o seu significado? No casino costuma ser bom. Mas ali devia ser mau. Clara aproximou-se de Joana muito devagar. Primeiro Joana parou à espera. Quando se quis mexer já não podia. Ao ritmo de cada passo de Clara Joana paralisava por partes. Quando Clara chegou já não estava lá. Apenas o corpo que ficara parado e esquecido. Joana fechara os olhos e apagara ao espírito toda a luz e imagem. Deixou apenas o som. Clara rodou a cabeça para ver os dados. Sete? Sim. Saiu mesmo o sete. O que queria dizer? No casino costuma ser bom. Mas ali era mau. Este resultado desafiara a lei das probabilidades. Quando assim é no casino é bom. Mas na vida a não confirmação de tal lei significava quase sempre a verificação de qualquer coisa má. No caso delas em que uma impossibilidade fora transformada em algo alcançável pela mão, a vida de ambas foi pulverizada. Era mau. O corpo de Joana recebeu o de Clara já frio e imóvel. Clara pegou-lhe bem nas duas mãos e apertou-as no meio das suas. Fichas que acabara de ganhar ao jogo. Deslizou a sua pele sobre elas. A pele das suas próprias mãos geladas para, por um impulso imbecil as tentar aquecer. Às mãos de Joana.

Clara: Volta. Afinal eu quero.

Joana acordou também por vontade própria. Segurou-se às mãos dela.

Joana: Por favor, eu não quero estar aqui.

Clara: O quê?

Joana: Eu não penso em fugir. O que não quero é estar aqui no bar.

Clara: Eu penso. Como penso.

Joana: Tens razão. Eu penso em fugir.

Clara: De quê? Podes dizer-me de que fujo?

Joana: De alguém que acabou de nascer e tu não conheces.  Vamos para minha casa.

AZUL - Cap XIX


Cat2007

20.09.16

O carro da mãe parou à porta da faculdade. Depois de se despedir de Teresa, Clara ficou uns instantes imóvel em frente à grande entrada. A olhar. A sensação era de que o fazia pela primeira vez. Tal como as ruas da cidade por onde veio passando desde casa, as cores, as formas e a dimensão dos espaços estava definitivamente alterada. Embrenhou-se no edifício. A cabeça começou a pairar pelos longos corredores que vagarosamente percorria cá em baixo. O raciocínio separava-se de si e colava-se aos tetos altos e distantes. Foi às aulas. Viu-a muito depressa dentro da sala. Não queria vê-la. Tentou abrir voluntariosamente o espírito a tudo o que se dissesse por lá durante as próximas duas horas. Fingiu pois que nada lhe era mais importante do que as teorias ali evocadas. Como esperava, conseguiu apenas a sensação de alienação agoniativa de quem está demasiado cheio de todos os pensamentos. Os que lhe vêm automaticamente, o que se impõe e aqueles a que se obriga para fugir dos primeiros. Aguentou as duas horas e não aguentou mais. Não poderia estar na aula seguinte. Viu-a depressa mais uma vez. Joana. Afastou-se. Estava a fraquejar. Por isso ficou com medo. Outra vez se via a correr para longe dela e das pessoas. Os pensamentos que a acompanhavam gravitavam agora muito cá por baixo, circulares. Mesmo por cima da cabeça. Embora o teto estivesse como sempre muito lá no alto. Porém, eles, os seus pensamentos, só subiriam se fossem leves. E não eram. Procurou um lugar que lhe concedesse uma possibilidade credível de solidão. Parou à porta da casa de banho menos usada de todas. Entrou e dirigiu-se decidida às torneiras fechadas. Abriu dois jatos de água. Encharcou a cara. E o chão. Depois deixou-se ficar ali com os cabelos compridos molhados e a roupa. Estava só. Estava melhor. A angústia que lhe ressequia o peito abrandara pelo efeito da água fria. Tinha os olhos cerrados. O queixo levantado em direção ao teto. A cabeça descansada contra a parede fria onde igualmente repousavam os braços pesados. Clara ignorou a porta que se abriu. Manteve a postura. Por instantes, não se importaria com quem entrasse. Manteve os olhos fechados. Estranhou depois o silêncio. Ninguém dizia nada. Decidiu abrir os olhos. Manteve-os ainda no chão. Ajeitou o corpo e por fim lá levantou a cabeça. No fim do movimento sentiu-se trespassada. Como se uma lâmina muito fina e bem afiada lhe atravessasse o tronco pelo estômago. Assim estava paralisada. Apenas o sangue lhe saltava nas veias. Foram brevíssimos mas intensos estes momentos de rigidez. Impelida a encara-la pela raiva súbita. Abriu-lhe uma expressão feroz. Joana baixou de imediato a cabeça. Clara deixou-se iludir por este gesto de aparente fragilidade, sentindo-se ligeiramente reforçada. Mas Joana levantou rapidamente a cabeça e já não saiu com os olhos. Recuperara a posição e pendurava agora Clara no seu olhar. No momento azul-cinza. Clara baixou. Manteve apesar de tudo a posição da cabeça mas mudou a dos olhos. Passou a olhar de lado como um bicho receoso. Joana sorriu-lhe com candura.

Joana: Eu preciso de falar contigo.

Clara virou os olhos para ela. Achou que nunca lhe tinha ouvido assim a voz. Combinava tão perfeitamente com aquele sorriso.

Clara: Para quê?

Joana: É que…

Joana calou-se, deixando cair entre elas um silêncio mais pesado do que as poucas palavras o tinham sido até então. Clara pensava que a sua decisão de escolher o vazio nada tinha a ver com os desejos de Joana. Muito provavelmente estava ali para pedir desculpa. E, talvez, falar-lhe de Madalena. Mas isso não importava, Clara escolhera entre a impossibilidade de gostar uma mulher e o vazio que significava viver sem esse afeto. De qualquer das maneiras, Joana não a queria, pelo que verdadeiramente também não existia uma escolha. Clara apaixonara-se por Joana logo no início. Mas apenas teve consciência do facto no cinema. Ali em frente a ela começava a sentir pena de si própria. Joana aparentava estar sóbria. Clara sentiu-se humilhada.

Clara: Olha, menina, eu tenho que ir andando.

Queria sair dali imediatamente e deu um passo em frente, aproveitando a força da sua declaração. Mas Joana movimentou-se em direção à porta e não se desviou. Ficaram próximas. “Tocar-lhe, não”, pensou Clara. Ficou pois parada no gesto que tinha começado. E as palavras que proferira foram sós, desaparecendo de seguida. Apenas as palavras sem os passos. Ela de facto não fora. Ficara para ali abatida.

Joana: Temos mesmo que falar.

Clara: Joana, por favor. Eu sei o que tu vens dizer. Não te preocupes. O que se passou no cinema não foi nada de importante. Desculpa ter desaparecido daquela maneira. Somos amigas e nem poderíamos ser outra coisa. Tu não queres e eu também não. Claro que fiquei um bocado confusa. E é mesmo por causa disso que devemos dar um tempo. A nossa amizade, os termos em que ela corria, foram alterados.

Clara falava com um ar cansado.

Joana: Queres deixar de falar comigo?

Clara: Não. Quero deixar de fazer programas contigo por uns tempos. Quero que deixemos de andar tão juntas como andávamos. Vamos ser simplesmente colegas de turma até isto se desvanecer.

Joana olhou-a tristemente.

Joana: Já devia estar à espera disto.

Clara: Não podemos continuar como se nada se tivesse passado.

Joana: Pois não. Tens razão.

Desviou-se da porta. Clara mexeu-se devagar até passar por ela. Uma vez lá fora apressou-se a sair dali.

Joana ficou encostada à porta a vê-la ir.

AZUL - Cap XVIII


Cat2007

20.09.16

Na manhã seguinte Clara acordou mais cedo do que o costume. Um pouco antes do sol. A febre desaparecera completamente. Mas não a angustia. Mal os olhos se abriram, a mente soltara-se de imediato. Agora andava enredada em determinados pensamentos. Para lhes acompanhar o ritmo, Clara foi impelida a vaguear pelo quarto. A certa altura, doeram-lhe as pernas e a cabeça. Sentou-se na cama, encostou as costas à cabeceira e estendeu os membros. Deixou-se estar uns minutos quieta nesta posição. Porém, tudo dentro de si continuava a mexer demasiado. Cruzou os braços sobre o peito e esqueceu-se deles ali. No momento em que voltou a dar conta deles já lhe pesavam demasiado sobre a respiração. Decidiu aguentar. Ter que se concentrar na falta de ar era um alívio. “Joana”. Sim era melhor aguentar o mais possível a falta de ar. Porém, um certo estado de confusão mental tomou conta da situação. Tudo se agravou ainda mais pelo débito de oxigénio. Ficou a um pequeno passo de entrar em pânico novamente. Desta vez não o permitiria. Deu um salto da cama e pôs-se de pé. Iniciou um movimento circular pelo quarto. Tinha de baixar os níveis de ansiedade. Mas não estava a conseguir. O quarto parecia-lhe francamente mais pequeno. Não sabia por onde andar. O sangue sentia-se dormente no meio dos músculos. A cabeça vazia de tudo só tinha um pensamento parado que a fazia sentir precisamente o que sentia. Acabou por explodir em incontáveis tremores. Olhou em prece as mãos que se desfaziam. Engoliu o coração que lhe batia já na boca. Por fim, num assomo de fé e de força, dobrou-se sobre os joelhos e apertou o corpo todo nas pernas, tombando a cabeça para a frente. Apertou muito, muito até que foi possível fazer transbordar as lágrimas. E a partir daqui os caminhos interiores abriram-se generosamente para deixar correr livre aquele imenso rio de dor molhada para a luz. Clara chorou muito de si para si com solidariedade pessoal e profunda compreensão. E tudo passou, por fim. Os elementos secaram com e como os olhos. A leveza trouxe-lhe finalmente a paz.

Por estar em paz e reconciliada consigo própria levantou-se e caminhou até ao espelho. Olhou para a imagem refletida. Tinha finalmente coragem para tomar consciência de si. Despiu o pijama. Viu-se nua em frente ao espelho. Sentiu a pele envolver-se numa película invisível que a protegia na nudez, deixando-a aconchegada e tranquila. Olhou muito bem. “Eu sou uma mulher”. Era o que imediatamente via. O sexo. Os seios. O cabelo comprido. “Uma mulher”. Passou à análise mais pormenorizada. A imagem que lhe aparecia pela frente era nova em cada passo. Estava a ver-se pela primeira vez. Com os olhos percorria como quem acentua a longa linha desenhada sobre a pele. Aquela que se consubstancia na fronteira com as outras materialidades. Que isola um corpo dos demais. Porque molda e delimita a matéria, dando-lhe a forma. A única linha que não se dilui na sombra do corpo. A da sua própria silhueta na forma exata do próprio corpo. Reconheceu-a desenhada perfeitamente. E observou também as outras mais pequenas. Uma por uma. Em pormenor. Coexistiam numa relação de harmoniosa dependência entre si e em estreita submissão face à linha maior. Era toda muito bonita. Esta descoberta deixou-a tomada por uma energia de cor amarela que como um raio de sol que se infiltrou no interior da sua alma que lhe pareceu azul como o céu. “A minha alma é azul”. Abriu os lábios descobrindo os dentes grandes. Fechou os lábios, escondendo os dentes grandes. “Azul”. Retrocedeu face ao espelho até à cama. Deixou-se cair como se fosse empurrada. “A Joana é uma mulher. Eu sou uma mulher. A Joana gosta de mulheres”. Agora questionava-se sobre a razão pela qual sempre desejara atingir aquele especial tom de azul dos olhos da mãe. “A Joana também o tem”. Com raiva repeliu o desejo. Aquele azul era uma cor cuja luz devia ser exclusivamente feminina. Um amor impossível para si, então. “Qual amor? Eu não gosto de mulheres. Eu não gosto da Joana”. Chorou mais uma vez. Fácil e corridamente. Chorou por tudo o que não queria saber e que infelizmente acabara de descobrir. Chorou pelo que agora já podia ver e não queria. Compreendeu que não voltaria a ter febre. O seu próprio espírito obrigara-a a mergulhar em dor numa verdade demasiado dura. Mas pensou, por outro lado, que a verdade agora era sua. E isso dava-lhe poder de escolha. No caso, talvez a escolha entre a impossibilidade e o vazio. Escolheu sem delongas. Como se tudo estivesse já planeado. Conformar-se-ia com o vazio. Optava por viver o vazio ou, o que é o mesmo, não viver. Embora se maravilhasse com os olhos de Joana devia rejeitar-lhes a luz. Joana não era um sonho feito para lhe orientar o espírito como a mãe. Joana não personificava o sonho de perseguir um extraordinário tom de azul. Joana era a impossibilidade. Clara desejava tal impossibilidade e por isso decidiu liminarmente rejeitá-la. Era uma provação que se impunha. Desejar uma impossibilidade, que o era, ao invés de ser um sonho. Ser como a mãe era o seu único sonho. Possuir Joana era a grande impossibilidade da sua vida. Escolheu pois conscientemente o vazio, sabendo que não deixaria de desejar a impossibilidade. Mas não iria atrás dela porque a rejeitava com fervor. Sentia-se capaz disso. De viver o vazio. Nesta decisão gozou a sensação de se imaginar muito alta. Enorme. Muito maior do que era. Uma mulher crescida cheia de força e coragem. Levantou-se para se gozar e sorriu-se orgulhosamente. Quando a mãe foi ao quarto estava a postos.

Teresa: Então, não percebo. Estavas péssima ontem.

Clara: Passou, mãe.

AZUL - Cap XVII


Cat2007

20.09.16

Joana: Queres ir ao cinema hoje à noite?

Clara: Ver o quê?

Joana: Não sei. O que nos apetecer.

Clara: Pode ser uma coisa para rir? Adoro comédias.

Joana: Pode ser. Eu também gosto de comédias.

Foram mas não tiveram oportunidade de rir. Não que o filme fosse uma comédia detestável. Podia muito bem ter sido uma deliciosa comédia. Sucede que Clara, por alguma razão que a própria não descortinou, pousou a mão sobre a de Joana. Sequencialmente Joana apertou a mão de Clara. E paralisaram ambas a partir deste gesto. O filme passou no ecrã branco. Mas Clara só viu branco. E não conseguiu ver a cara dela. Apenas se mantiveram de mãos apertadas. Saíram do cinema no fim do filme. Largaram as mãos com pressa. Antes que a luz acendesse. Joana achou que devia dizer qualquer coisa.

Joana: Gostaste?

Não tinha outras palavras.

Clara: Não!

Joana: Porquê?

Clara afastou-se dela rapidamente. Seguiu pela rua húmida em passadas largas. Ouviu a voz de Joana chamar. Vinha de longe. Joana ficara para trás. Por inépcia ou por vontade. Clara não sabia. Na sua cabeça começaram a rolar extraordinárias associações de pensamentos. “Joana. Cara, voz e nome de santa”. Andou mais depressa. Correu. Como que para fugir. No entanto, conforme avançava, via-se prestes a progredir dentro de um inferno imenso. Fugiu dali com o pensamento. Vagueou. Perdeu-se de novo. Agora no meio de luzes e explosões coloridas. Tentou voltar a um pensamento sóbrio e claro. Mas não foi capaz. Desencontrou-se de si novamente. Precipitou-se numa queda. Caiu. Ao fim de alguns momentos de imobilidade interiormente rodopiante, acabou por poder respirar fundo. Abriu os olhos e olhou atordoada à sua volta. Respirava fundo e olhava em redor. O ataque de pânico tinha passado. Deu assim conta de que havia muitas pessoas na rua. Ainda assim, via-as como sombras negras no meio de pequenas luzes encandeantes. Mas subitamente um milhão de pessoas estava ali a emitir sons complicativos. Agora via-lhes as caras de uma forma incompreensivelmente nítida. Começou a tentar encaixar em si os sorrisos gravados nos rostos. Imensos sorrisos. Num instante eram risos abertos. Todos começaram a rir à sua volta. Riam-se dela. Fechou os olhos e curvou-se para a frente, protegendo instintivamente o ventre. Aos poucos recuperou de novo a respiração. O ataque de pânico, o segundo, estava a passar também. “Joana”. Joana Abrira-lhe a portas de um inferno nunca imaginado. Os seus pensamentos fugiram-lhe de novo. E formaram-se de cor de laranja e negro. Tinha subitamente muito calor. Voltou forçada à brancura fresca das vestes da santa. Que simplesmente não ardiam naquela fogueira descomunal. Mas que a si consumiam com avidez. Então porque é que não morria? Aquelas chamas deviam transformá-la em cinzas. Se assim acontecesse, o vento havia de fazê-la voar e desparecer. Os cabelos de Joana não ardiam igualmente. Mas que vento? Naquela noite de angústia não soprava uma brisa. Finalmente o organismo de Clara ordenou-lhe que não continuasse.

Clara acordou com febre já dentro de casa. Ardia.

Clara: Mãe.

Teresa estava na sala a ler. Em frente dela os olhos de Clara brilhavam nitidamente pesados, congestionados e tristes.

Teresa: O que é que se passa, Clara?

Clara: Não me sinto bem, mãe.

Teresa foi até junto da filha. Mexia-se com vagar e firmeza. Tocou-lhe na testa.

Teresa: Mas tu estás a arder em febre. Vou levar-te imediatamente para a cama. Não percebo. Estavas ótima hoje de manhã. O que aconteceu? E a Joana? Aconteceu alguma coisa com a Joana?

Nesse momento Clara já não compreendia uma palavra do que a mãe dizia. Não lhe respondeu.

Não passou pela cabeça de Teresa chamar um médico. Acreditava que, tal como os bombeiros, os médicos apenas deviam ser solicitados em casos de verdadeira emergência. De resto, nunca havia tempo para esperar por eles. Ao contrário dos bombeiros. Na verdade, não valia a pena perder tempo com médicos se existia uma possibilidade de os dispensar. Chegavam sempre atrasados. O tempo de qualidade de vida que iriam resgatar não valia as horas de existência que roubavam indecentemente às pessoas. Teresa acreditava que se devia fazer tudo para evitar cair na condição de doente. Para não perder horas de vida numa sala de espera. Neste sítio nem com a cabeça se vive. Até os pensamentos cheiram a éter. Um doente é um proscrito que depois mandam regressar. A cama e o sono sempre tinham sido o seu segredo contra as doenças e principalmente contra os médicos. Deixou Clara já estendida dentro da cama e saiu do quarto. Reapareceu pouco depois com uma bebida quente e duas aspirinas na mão.

Teresa: Em princípio não é nada. Agora tomas isto e dormes. Amanhã veremos como te sentes.  

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