CAFÉ EXPRESSO

Setembro 21 2016

Clara tinha que sair. Joana ia levá-la. Queria estar em casa antes de a mãe chegar. Tinha medo que ela adivinhasse. Entre as duas não havia segredos. E sobretudo não se diziam mentiras. No entanto, preparava-se para uma omissão. Gravíssima. Era preciso não a encontrar. Pior do que mentir era ser confrontada com a mentira. O telemóvel emitiu um sinal habitual. “Hoje não janto em casa”. Suspirou. Que coincidência feliz. A mãe muitas vezes não aparecia para jantar. Mas, naquele dia, acontecia, de facto, uma coincidência feliz. Acalmou. Já não tinha assim tanta pressa. Desceram à garagem. Saíram da garagem.

O regresso ao mundo ocorreu de forma semelhante a um parto. Eram como duas gémeas expelidas de um útero. Mal ouviam e custava-lhes falar. Um feixe de energia imanente transbordava para fora das fronteiras da pele, atuando como escudo protetor contra as influências do meio.

Rodavam devagar pelas ruas indistintas. Alheias a todas as externalidades supérfluas. Joana apenas se concentrava mal na estrada. Transportavam nas mãos, que se apertavam a espaços e fugazmente uma aguarela de cores felizes. As tintas, aplicadas com um certo sentido sobre os seus corpos, cobriam-nas da cabeça aos pés. E davam cores brilhantes e vivas aos olhos. Aos cabelos. E às peles. Eram dois fantásticos retratos vivos, cuja criação está apenas ao alcance de uma outra arte. De matriz eminentemente divina.

Aconteceu-lhes tocarem-se uma vez. A primeira. Com bocas magnetizadas. Aquela paixão foi inevitável talvez por isso. Pelo magnetismo. O que de resto sucedeu não foi igualmente ponderado. O que se passaria a partir daí era imprevisível.

Nunca ouviram. Nunca leram. Nunca tinham ouvido falar. De uma coisa assim. Como saber, então? Quem poderia imaginar que o sangue corre com mais força nas veias do que o mar revolto em noite de tempestade contra as rochas que sustentam os faróis? Quem saberia falar daquela solidão irresistível que as assaltava? Geralmente pensa-se que a solidão é só. Só para uma alma. Nunca para dois seres que se têm completamente. Porém, num certo tipo de sentimento, sucede que, em determinados momentos, o dois passa a um. E nasce um ser novo. Diferente de cada uma das unidades. Um ser só que, de seguida, volta a dois. E reaparece. E volta a dois. E reaparece. E volta… Quem saberia disto? Ambas compreendiam, em qualquer caso, que aquele sentimento dominava totalmente os atos e os factos subsequentes aos atos. Tomara vida própria, existindo para além da vontade delas.

Joana: até amanhã.

Clara: até amanhã.

Subiu. Não comeu nada. Nessa noite, pela primeira vez desde sempre, não vestiu o pijama.

publicado por Cat2007 às 21:46
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Setembro 21 2016

Madalena: Entra.

Teresa entrou. Deu dois passos. E estacou à frente dela. Fez menção de dizer qualquer coisa. Porém, Madalena puxou-a pela mão com calma.

Madalena: Vamos para dentro.

Para o quarto. Iam par o quarto. Teresa foi obediente.

Madalena: Despe-te.

Teresa principiou a tirar a roupa. Muito devagar e em silêncio. Havia uma luz fraca de tom alaranjado que incidia sobre a parede junto à cama. E que dava saliência às sombras, projetando-lhes os movimentos. Porque Já era noite. A cama estava aberta. Mas perfeita. Tudo tinha sido preparado. Madalena despia-se também. Em silêncio. Concentradas no que faziam, abstraiam-se uma da outra. No fim, olharam-se fixamente nos olhos alheadas da nudez que lhes envolvia os corpos. Estavam muito sérias. Depois movimentaram-se em direção à cama. Deitaram-se. O beijo foi demasiado longo. Por isso apaziguou a paixão. A saliva que se misturou atuou como uma droga potente. E as pernas ficaram dormentes. E as mãos afrouxaram pela falta de força nos braços. Ficaram lado a lado e pregaram os olhos no teto. Sem falar. Num movimento aguardado, deram as mãos.

Madalena: Estive o dia todo à tua espera. Só para ficar assim contigo.

Teresa: Hoje também quero assim.

Madalena: Sabia que vinhas.

Teresa: Claro que sabias. Tu sabes a forma perfeita de como eu te quero.

Madalena: Não. Por acaso isso não sei. Nem sei a forma perfeita de como eu te quero. Apenas conheço as fórmulas da nossa química atual. Por isso não temi que não aparecesses hoje.

Teresa: Também porque eu tenho vindo sempre.

Madalena: Sim. Tens vindo sempre. Por causa da química, como disse.

Teresa: E não temes? Eu temo.

Madalena: Não temas. Eu, atualmente, não posso ir a mais lado nenhum.

Teresa: E depois?

Madalena: Depois não sei.

Teresa: Mas eu creio que já sei.

Madalena: Não. Estás só confundida. A paixão faz isso.

Teresa: A paixão parece que é amor?

Madalena: Sim.

Teresa: Mas se eu nunca deixei de te amar.

Madalena: Isso não é possível. Porque eu deixei de te amar.

Teresa: Isso não é verdade. A verdade é que tens medo de mim. Não acreditas em mim.

Madalena: Não acredito, claro. Mas deixei de te amar.

Teresa: Porque perdeste a inocência. Eu não perdi a minha.

Madalena: Pois não. Os maiores tormentos foram os meus.

Teresa: Já sabemos isso. Não vamos descer outra vez do céu ao inferno. Hoje não.

Madalena: Não. Hoje não. Estive cansada até agora. Precisava de descansar em ti.

Teresa: O que te cansou?

Madalena: Tu sabes. Tudo. Tudo nos cansa. Tudo é mais difícil de fazer. Tudo o que não tenha a ver contigo. Sei que sentes o mesmo.

Teresa: Tu pareces saber tudo o que eu sinto e penso.

Madalena: É da experiência, querida.

Teresa: É da química.

Madalena: Quem disse isso fui eu.

Teresa: Eu aprendo depressa, querida.

Madalena: Ao contrário. Tu não aprendes de todo. Andas há vinte anos para aprender sobre ti própria, sobre quem és. E ainda não sabes de nada.

Teresa: Enganas-te. E tanto te enganas, que vou contar à Clara sobre nós.

Madalena ergueu-se.

Madalena: Lá vem o disparate.

Teresa: Pronto. Lá se estragou o momento.

Madalena: Pois claro. Tu és especialista em criar infernos. Para que vis dizer à miúda?

Teresa: Eu não posso continuar a mentir à minha filha. Tu podes não estar certa do que sentes. Eu sei o que quero. Quero-te.

Madalena: Queres viver comigo?

Teresa: Não. Isso ainda não sei se quero. Isso sei que tu não queres. Porque, afinal, não me amas. Agora, tenho a certeza de que isto não vai acabar tão cedo. E não posso continuar a mentir à minha filha. A nossa relação não é assim. Na nossa relação não há mentiras.

Madalena: Teresa, lembras-te que ela é amiga da Joana? A tua filha deve saber da minha estória com a Joana. A Clara deve saber perfeitamente quem eu sou. Como é que ela vai conceber que a sua própria mãe anda agora com a ex-namorada da amiga? Olha, Teresa, esquece essa ideia. Deixa a tua filha em paz. Anda, veste-te. Vamos jantar.

publicado por Cat2007 às 20:32
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