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CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

CAFÉ EXPRESSO

"A minha frase favorita é a minha quando me sai bem"

AZUL - Cap XXV


Cat2007

22.09.16

Naquele fim de tarde Teresa lia na sala. Clara, sentada ao seu lado, olhava ausente para a televisão onde não via as imagens do amor que ainda há pouco interrompera. Hoje tinha estado de novo com Joana durante a tarde.

Teresa: A joana?

Clara: Como?

Teresa: A Joana. Por onde anda a Joana? Tinhas-te afastado dela, se não me engano.

Clara: Não. Bem, sim.

Teresa: Sim ou não, Clara? Disseste-me que só a conhecias há um mês. Que tinham decidido deixar de fazer programas juntas porque ela tem uma vida diferente da tua no que respeita aos gostos e às amizades.

Clara: Sim, durante um dia ou dois não estivemos muito juntas. Mas agora já voltou tudo ao normal.

Teresa. Como assim, já voltou tudo ao normal e tão depressa? Agora já têm os mesmos gostos e as amizades dela já são as tuas? Nunca te vi com muitos amigos, Clara.

Clara: A mãe não baralhe as coisas. Ela tem outras amizades porque, como já lhe contei, ela é do Porto. Tem as amizades do Porto. E eu não tenho amizades nenhumas porque detesto gente à minha volta. A mãe conhece-me. A minha amiga é ela.

Teresa: A tua amiga é ela, como foram outras. Ainda no ano passado tinhas outra amiga favorita.

Em Clara instalara-se já o conflito. Entre a necessidade de mentir e a obrigatoriedade de dizer a verdade. “Nesta casa não se trancam as portas. Aqui, eu e a mãe vivemos rotinas conhecidas. Aqui não existem segredos. A mãe nunca me mentiu”.

Clara: Mas a Joana é diferente.

Teresa fechou o livro. E pôs-se de pé.

Teresa: Posso saber quais são os gostos dela?

Clara: Quais gostos?

Teresa: Os gostos diferentes. Tu é que disseste que ela tinha gostos diferentes dos teus, relembro.

Clara: Porque está a mãe a tentar baralhar-me?

Tentava ganhar tempo. O conflito agudizava-se.

Teresa: Fiz-te uma pergunta direta. Queres responder-me?

Clara: Não!

As lágrimas começaram correr-lhe sobre as faces.

Teresa: O que foi, filha? O que se passa?

Clara: Não se passa nada. A mãe está a fazer uma coisa que nunca me fez. Está a interrogar-me. Como se eu lhe andasse a esconder alguma coisa. Eu não estou a gostar da forma como a mãe me está a tratar. Não é justo.

Cedia à mentira. Fazia chantagem.

Teresa assustou-se. Que impressão lhe fazia o choro. O choro da filha. A filha não chorava. A menos que estivesse realmente a sofrer. Estava a fazer Clara sofrer. Porque naturalmente não estava no seu estado normal. Andava enlouquecida com Madalena. Ela é que andava a mentir à filha. Por momentos passou-lhe pela cabeça pedir-lhe desculpas e revelar que tinha ciúmes de Joana por causa de Madalena. Porque amava Madalena. Tudo aquilo, aquelas perguntas, tudo era por causa de Madalena. Clara sabia que Joana era lésbica. E que andara com a professora Madalena. O seu amor. Conhecia a filha. Sabia que ela não se deixaria levar. Joana não a levaria para a cama, se ela não quisesse. E Clara não queria. Porque não era homossexual. Era simples. Toda a educação que lhe deu contava muito. Não havia qualquer possibilidade de Clara ser homossexual. Por isso não era correto estar a interrogar a filha daquela maneira. Aproximou-se dela devagar. Sentou-se e tocou com os dedos nas fronteiras dos olhos dela.

Teresa: Desculpa filha. A sério. Desculpa. Não volta a acontecer.

Clara foi para o quarto vergada pelo peso da mentira e cheia de pena da mãe.

AZUL - Cap XXIV


Cat2007

22.09.16

Madalena voltara-lhe na forma de mulher crescida. Amavam-se sem reservas quase diariamente. No entanto, ela dizia repetidas vezes que não a amava. “Uma mulher adulta é isto. E isto é uma mulher cínica”. Na sua perspetiva, Madalena sabia demais sobre mulheres. Porque vivera relações que não devia ter vivido. “Será tudo culpa minha? Ela precisava mesmo ter passado pelo que passou? Tantas estórias de desencanto! “.

“Madalena”. Teresa não parava de pensar nela. Era uma mulher simples. Porque nela inexistiam truques. Nos seus traços não se viam picos sinuosos ou contrastes extraordinários. Mesmo nas cores foram aplicadas em tons suaves com discreto brilho. Teresa acordou de pensar nela pela necessidade de controlar as pernas e os braços e as palavras. Para não ir até ela. Ligou-lhe.

Teresa: Hoje não vou aí.

Madalena: Porquê?

Teresa: Porque tenho de estar com a minha filha. Ontem não a vi. Quando cheguei a casa, ela já estava fechada no quarto a dormir, suponho.

Madalena: Supões?

Teresa: Não. Acho que sim. Dada a hora. Mas não entrei no quarto para confirmar. Eu raramente lhe entro no quarto. E ela raramente vai ao meu. Embora nunca se tranquem as portas naquela casa.

Madalena: Sim eu sei. Naquela casa nunca se trancam as portas. E depois… Bem, deixemos isso.

Teresa: Sim deixemos isso, por favor.

Madalena: E manténs a tua ideia? Vais contar-lhe sobre nós?

Teresa: Vou. Mas não será hoje. Hoje só quero estar com ela.

Madalena: Como se nada se estivesse a passar e a vida fosse como antes.

Teresa: Talvez…

Madalena: Vou sentir a tua falta.

Teresa E eu a tua.

Madalena: Por acaso hoje parecia que adivinhava que não vinhas.

Teresa: É como eu te disse, tu sabes a forma perfeita de como eu te quero.

Madalena: Não. É como eu te disse. Apenas conheço as fórmulas da química.

Teresa: Não te armes em engraçada. Tu sabias que eu poderia querer estar com aa Clara por causa da minha decisão.

Madalena: Sabia porque era evidente. No entanto, é a decisão mais estúpida do mundo.

Teresa: Já me disseste.

Madalena: Está bem. Não insisto. Faz como quiseres. Tu fazes sempre como queres. Sempre foi assim. Comigo foi assim.

Teresa: Pois foi. E tu nunca o esquecerás. Por isso não confias em mim. Como se uma miúda transformada em mulher não pudesse ser já outra coisa.

Madalena: Até agora ainda não vi outra coisa.

Teresa: Porque ainda estás cega.

Madalena: Porque a minha vida ficou até hoje marcada por ti da forma que sabemos.

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